Formação Continuada: Direito, Dever, Responsabilidade. Mas de Quem?



FORMAÇÃO CONTINUADA: direito, dever, responsabilidade.

Mas de quem?

Renata de Souza[1]

RESUMO: O presente artigo trata da temática da Formação Continuada e de sua importância para a melhoria da qualidade no processo de ensino e aprendizagem. Aponta

a necessidade de se repensar o momento atual na Educação Brasileira, ressaltando sua importância para as transformações culturais, sociais e tecnológicas que acontecem na contemporaneidade. Tem como principal objetivo que os temas aqui relembrados possam servir para a discussão e reflexão sobre sua relevância e implementação nas escolas.

PALAVRAS-CHAVE: Formação Continuada, transformação, educação, gestão, reflexão.

O texto a seguir apresenta reflexões feitas a partir de um estudo sobre Formação Continuada[2] e o papel dos gestores neste contexto. Os desafios enfrentados pela gestão escolar, em face das novas demandas que a escola enfrenta no contexto de uma sociedade que se democratiza e se transforma.

Farei primeiramente uma reflexão sobre o que é Formação Continuada. Dentro deste tema, abordo e analiso a visão tanto dos professores, quanto dos gestores escolares e os meios que eles utilizam para se beneficiar da Formação Continuada. Começo por entender o real significado da expressão Formação Continuada e qual a sua importância na vida do profissional da educação. Descrevo, brevemente, a historicidade dos fatos.

Entendo por Formação Continuada um processo permanente de busca por qualificação. Pelos profissionais da educação, segundo Eliane Bruno (2000) ela é vista como uma oportunidade de atualização pedagógicaque acontece através de cursos, palestras, seminários, encontros, reuniões pedagógicas, etc. O termo atualização pedagógica, aponta para uma concepção que tem como referência o contato com "novos" conhecimentos. Essa formação não deve abranger apenas o professor, mas também outros profissionais da educação, como os diretores, orientadores educacionais, supervisores pedagógicos e os administradores escolares. Enfim, todos os sujeitos envolvidos com as questões educativas da escola.

Há algumas décadas, acreditava-se que, ao terminar a graduação o profissional estava apto para atuar na sua área o resto de sua vida. Hoje a realidade é bem diferente, principalmente para o profissional docente. Este deve estar consciente de que sua formação é permanente e integrada ao seu dia-a-dia na escola. Há uma necessidade imposta pelas mudanças e pelo avanço tecnológico, nas novas descobertas científicas e na evolução dos meios de comunicação. Não faz mais sentido o profissional pensar que, ao terminar sua formação escolar, estará acabado e pronto para atuar na sua profissão.

Segundo Tardif (2005):

Os saberes profissionais são temporais [...], pois são utilizados e se desenvolvem no âmbito de uma carreira, isto é, de um processo de vida profissional de longa duração do qual fazem parte dimensões identitárias e dimensões de socialização profissional, bem como fases e mudanças. (p. 262).

Pensando nesse sentido, entendo que a Formação Continuada seria considerada fator principal, como evidencia Perrenoud (2000), pois "nenhuma competência permanece adquirida por simples inércia. Deve-se, no mínimo, ser conservada por seu exercício regular" (p. 155). Para isso, é fundamental que se tenha em mente que a Formação Continuada é um exercício constante e nunca ininterrupto.

O importante aqui é trazer a Formação Continuada não somente como um espaço de atualização, mas sim como explicitam alguns autores, como um espaço de reflexão mútua, onde o docente irá refletir sobre supostas dificuldades que esteja enfrentando em sala de aula. Segundo Nóvoa (2002), "a Formação Continuada dos professores precisa acontecer no eixo investigação/reflexão". Por isso, a Formação Continuada não deve ser entendida como um simples processo de acumulação de cursos,palestras, seminários, etc., de conhecimentos ou técnicas, mas sim como um trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas de (re) construção permanente de uma identidade pessoal e profissional, em interação mútua. Nóvoa (2002) diz que:

O aprender contínuo é essencial e se concentra em dois pilares: a própria pessoa, como agente, e a escola, como lugar de crescimento profissional permanente. Para esse estudioso português, a formação continuada se dá de maneira coletiva e depende da experiência e da reflexão como instrumentos contínuos de análise. (p. 23).

Se uma pessoa faz um curso com a visão de simples acumulação, perde a oportunidade de refletir sobre as questões abordadas e poder incorporá-las na solução de possíveis "dificuldades" que venham surgir em sua vida profissional. No entanto quando o professor percebe a Formação Continuada como um processo permanente de aprendizagem e, como meio eficaz para melhoria de seu trabalho docente, pode investir na prática cotidiana e colher bons resultados.

Estar em formação implica um investimento pessoal, um trabalho livre e criativo sobre os percursos e projetos próprios, com vista à construção de uma identidade, que é também uma identidade profissional. (NÓVOA, 2002, p. 38 e 39).

Para Eliane Bruno (2000), um projeto de Formação Continuada, fora ou dentro da escola, só será bem sucedido se houver um cuidado por parte da gestão escolar para que os professores sejam valorizados, respeitados e ouvidos e para que esses cursos não sejam vistos como "receitas de trabalho". Para a autora, entender a Formação Continuada como uma modalidade centrada na escola e nos professores implica também considerar quais são as necessidades dos professores. Analisar as necessidades formativas dos professores significa conhecer seus interesses, as suas expectativas e também os seus problemas. Acredito que para despertar o interesse do professor, assim como é feito com os alunos, devemos partir de assuntos do seu interesse, para despertar a vontade de aprender, considerando seus saberes, suas dúvidas e angústias.

A escola como cenário da formação continuada

No início deste artigo abordei algumas questões pertinentes à Formação Continuada. agora, quero fazer um convite ao leitor para que reflita sobre a escola como um espaço de Formação Continuada. Quero aqui levar os educadores a pensar, e também acreditar na escola como um espaço adequado para isso. "A mudança dos professores faz-se, inevitavelmente, no quadro de instituições que, também elas, têm de acolher processos novos" (Nóvoa, 2002, p. 39).

Segundo Eliane Bruno (2003):

Dado o exagero de a formação continua, durante anos ter centrado suas atividades na retirada dos educando de seu local de trabalho, principalmente da escola – fato amplamente criticado em todas as avaliações realizadas -, há atualmente uma forte tendência emvalorizar a escola como o locus da formação contínua. (p. 17).

Recentemente, junto com outras colegas pedagogas em formação, realizamos uma pesquisa com alguns professores atuantes na rede de ensino, tanto pública como privada para utilização em uma formação de professores[3]. Dentre as perguntas feitas nessas entrevistas, uma delas era sobre o "melhor" local (dentro ou fora da escola) para a realização da Formação Continuada. O que pudemos perceber através das respostas é que, a maioria dos professores acreditam que a formação se deva fazer fora da escola. Penso que, possivelmente grande parte das escolas não está se adequando aos novos tempos que exigem uma formação qualificada em todos os setores da sociedade contemporânea. Parece que continuam usando as reuniões pedagógicas, quando elas acontecem, como meio de transmitir recados de cunho administrativos, impedindo momentos de reflexão sobre a educação. Porque a gestão escolar continua fechando os olhos para as mudanças, usando das mais variadas desculpas para justificar a ausência das formações com todos os educadores?

Como já citei anteriormente em um outro artigo sobre o tema da supervisão escolar[4], reafirmo que:

A grande maioria dos supervisores ainda encontram resistência por parte dos professores e direção, para que este novo perfil de trabalho seja implementado nas escolas. Conforme já citado anteriormente, isso decorre da reprodução cultural que ainda permeia os espaços educativos. Outros já estão acostumados a trabalhar de tal forma e não se vêem encorajados para tal mudança, fato este que também preocupa quem investiga os processos educacionais. (RENATA, 2008, P. 4 e 5).

Corroborando com que tenho estudado, essa resistência não é só por parte da gestão. os professores também estão "acostumados" com os velhos sistemas, talvez por achar que essa mudança só ira lhe acarretar mais trabalho. É preciso que os professores e os gestores comecem a pensar sobre o seu real papel nas escolas. Acredito que grande parte dos professores ainda não se percebe como parte fundamental da escola e no processo de ensino e aprendizagem. Resistem a mudança o que dificulta o engajamento nas Formações Continuadas.

A organização das escolas parece desencorajar um conhecimento profissional partilhado dos professores, dificultando o investimento das experiências significativas nos percursos de formação e sua formulação teórica. [...] O trabalho centrado na pessoa do professor e na sua experiência é particularmente relevante nos períodos de crise e de mudança, pois é preciso um tempo para acomodar as inovações e as mudanças, para refazer as identidades. (NÓVOA, 2002, p. 39).

Compete à gestão escolar estabelecer o direcionamento e a mobilização necessária, isto é, um modo de ser e de fazer caracterizado por ações conjuntas, associadas e articuladas entre a gestão e os professores. A mudança de concepção de escola e implicações quanto à gestão, as limitações do modelo estático de escola e de sua direção; a descentralização, a democratização da gestão escolar são fatores fundamentais para a construção da autonomia da escola.

De fato, na medida em que a democratização do acesso aos saberes se torna uma questão de estado, na medida e que ela é conduzida ao mesmo tempo coletivamente, pela nação, e, individualmente, por todos para seus próprios filhos, a escola passa inevitavelmente às mãos de gestores. E os gestores governam como se pudessem decidir, com toda legitimidade, onde, quando, como e para quem advirá o acontecimento pedagógico. (MEIRIEU, 2006, p. 33).

Diante desse desafio, ouso convidar professores e professoras a "remexer suas idéias". Este artigo pretendeu mostrar a urgência e a relevância da Formação Continuada como possibilidade de qualificação para o ensino e formação como direito, dever e também como responsabilidades de todos.

Cada educador é responsável por seu processo de desenvolvimento pessoal e profissional; cabe a ele o direcionamento, o discernimento e a decisão de que caminhos percorrer. Não há políticas ou programas de Formação Contínua que consiga aperfeiçoar um professor que não queira crescer, que não perceba o valor do processo individual-coletivo de aperfeiçoamento pessoal-profissional. (BRUNO, 2003, p. 23) [...] Os responsáveis escolares que queiram encorajar os professores a tornarem-se profissionais reflexivos devem criar espaços de liberdade tranqüila onde a reflexão seja possível. (SHÖN, 1997, p.87).

Essa temática não termina por aqui. Pretende-se suscitar novas reflexões e convidar a todos que possam escrever a partir de suas próprias experiências e reflexões.

REFERÊNCIAS:

ALMEIDA, Laurinda. Ramalho de; PLACCO, Vera Maria Nigro de Souza. O coordenador pedagógico e o espaço da mudança. 2 ed. São Paulo: Loyola, 2002.

BRUNO, Eliane Bambini Gorgueira (org.); ALMEIDA, Laurinda Ramalho de (org.); CHRISTOV, Luiza Helena da Silva (org.). O coordenador pedagógico e a formação docente. 4. ed. São Paulo: Loyola, 2003.

ESTEVE, José M. O mal-estar docente: a sala de aula e asaúde dos professores. Bauru, SP: EDUSC, 1999.

FILIPOUSKI, Ana Mariza Ribeiro; MARCHI, Diana Maria; SCHÄFFER, Neiva Otero. Teorias e fazeres na escola em mudança. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 2005.

MEIRIEU, Philippe. Carta a um jovem professor. Porto Alegre: Artmed, 2006.

NÓVOA, Antonio (Coord.). Os Professores em Formação. 3. ed. Lisboa/Portugal: Pub. Dom Quixote, 1997.

__________. Formação de professores e trabalho pedagógico. Lisboa/Portugual: Educa, 2002.

PERRENOUD, Philippe. Dez novas competências para ensinar. Porto Alegre: Artes Medicas Sul, 2000.

SCHÖN, Donald. Os professores e sua formação. Lisboa, Portugal: Dom Quixote, 1997.

TARDIF, Maurice. Saberes Docentes e Formação Profissional. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2002.



[1] Acadêmica do 8º semestre do Curso de Pedagogia/UniRitter – 2008/1.

[2] Na acepção actual do termo, só se tem sentido falar de formação contínua de professores a partirdos anos 1960. (Nóvoa, 2002, p. 52).

[3] Trabalho resultante do 8ª semestre como requisito da graduação do curso de Pedagogia 2008/1 - Uniritter.

[4] Artigo resultante do estágio obrigatório do curso de supervisão escolar feito em janeiro de 2008/1 - Uniritter.


Autor: Renata de Souza