AS NOVAS TECNOLOGIAS E A CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS EM SALA DE AULA.



Muito se discute em nossa sociedade quanto ao avanço da tecnologia. Afinal, o que falta ser inventado? Hoje, pensar em avanço tecnológico, logo vem à mente a relação do homem X computador. Essa evolução, apesar de nos últimos anos ter sido mais voraz, faz parte da vida humana desde seus primórdios.

Como poderíamos imaginar, a princípio, o desenvolvimento das primeiras civilizações, a transmissão do conhecimento, a sobrevivência da espécie, os registros para as gerações futuras, a comunicação em geral? Gritos e gestos, pinturas e gravuras nas paredes, a criação dos primeiros códigos lingüísticos, a escrita, a imprensa, são exemplos de avanços na comunicação humana que envolvem claramente a elaboração de tecnologias para esse fim.

Hoje, com o advento do computador e a quantidade de informações que se tem acesso através da internet, outros espaços de construção do conhecimento surgem e envolvem o desenvolvimento de homens e mulheres e sua relação com as novas tecnologias.

Durante muito tempo, a ligação de conceitos e regras sociais às histórias fantásticas serviam como uma rede de informações que garantiam o repasse do conhecimento entre as gerações. Assim, até hoje temos histórias que são contadas há séculos e que desembarcaram em nossas terras na bagagem dos colonizadores. Mesmo não havendo histórias com aquele padrão do dominador europeu, nossa comunidade indígena possuía suas lendas que eram utilizadas como ferramenta de ensino.

Como fica então essa relação Contação de História X Novas Tecnologias? No momento em que a humanidade se percebe na construção de tecnologias cada vez mais avançadas, pensar formas de como atrelar a utilização dos aparatos tecnológicos a atividades já inseridas no contexto escolar, como, por exemplo, a Contação de Histórias, é cada vez mais necessário. O momento do "anúncio" de uma história provoca uma expectativa de mistério e sedução e nesse momento se concretiza toda a felicidade da criança.

O texto oral não dá tudo pronto para o ouvinte (ou leitor) pelo menos um bom texto. Por isso o ouvinte adquire uma função ativa na narração: ele tem que ir preenchendo os vazios que a narração vai deixando. (SISTO, 2001, p. 125)

O aluno-ouvinte é quem preenche estas lacunas por intermédio da imaginação. O mesmo se encanta a ponto de esquecer-se temporariamente de tudo e adentra a fantasia que por hora o convida. Assim, a nossa temática está inserida em toda essa expectativa, "As novas tecnologias e a contação de histórias em sala de aula".

Durante muito tempo, os contos de fadas jazeram esquecidos, desprezados e banidos sob a alegação de irreais e selvagens, considerando suas tramas, geralmente muito dramáticas. Depois que a psicanálise desmistificou a "inocência" e a "simplicidade" do mundo da criança, os contos de fadas voltaram a ser lido (e discutidos), justamente por descreverem um mundo pleno de experiência, de amor, mais também de destruição, de selvageria e de ambivalências.

Há registro na história de que "Cinderela" já era contada na China durante o século IX d.C. e, assim como tantas outras, têm se perpetuado há milênios, atravessando todas as geografias, mostrando toda a força e perenidade do folclore dos povos. (SISTO, 2001 p. 26)

Platão na Grécia antiga, já se referia à importância de contar contos, primeiro os contos depois a ginástica, para a educação ética das crianças gregas, sem, contudo negar–lhes a função de entretenimento que esses mesmos contos podiam proporcionar isso nos reporta ainda a Aristóteles; ouvir uma boa história é também experimentar o efeito catártico. Faz-se imprescindível ainda, pensar nos aedos, bardos, rapsodos, jograis, trovadores, saltimbancos, menestréis, que de diversas formas contavam histórias e difundiam obras. (Idem, 31-32)

O que dizer então de um dos livros mais antigos? A Bíblia. Que fala também através de histórias, e como esquecer os contadores de histórias das sociedades tribais, primitivas, em seus papeis de transmissores da história e do conhecimento acumulado por gerações em crenças, mitos, costumes e valores preservados pela comunidade?

A prática de contar história se desenvolveu bastante no fim do século passado até os nossos dias. Talvez seja porque os contos de fadas estejam envolvidos no mundo maravilhoso, um universo que detona a fantasia, partindo sempre de uma situação real, concreta ou não, lidando com emoções que qualquer criança já viveu; Ou como bem explica Aguiar (apud Bettelheim, 2000 p. 92),

Os contos de fadas mantêm uma estrutura fixa. Parte de um problema vinculado a realidade ou não; (como estado de penúria, carência afetiva, conflito entre mãe e filho), que desequilibra a tranqüilidade inicial. O desenvolvimento é uma busca de soluções, no plano da fantasia, com a introdução de elementos mágicos (fadas, bruxas, anões, duendes etc.).

Outrossim, Bettelheim (2000, p. 62) afirma que,

a maior contribuição dos contos de fadas é em termos emocionais, propondo-se, e realizando concretamente quatro tarefas: fantasia, escape, recuperação e consolo, desenvolvendo a capacidade de fantasia infantil; fornece fugas necessárias falando aos medos internos da criança, às suas ansiedades e ódios, seja como vencer a rejeição (como em "João e Maria"), ou os conflitos edípicos com a mãe (como em "Branca de Neve"), ou a rivalidade com os irmãos (como em "Cinderela").

(...)

Os contos aliviam as pressões exercidas por esses problemas, favorecem a recuperação incutindo coragem, ânimo a criança, encorajando-a na luta por valores amadurecidos e a uma crença positiva na vida. Auxiliar uma criança a crescer, jamais quis dizer preservá-la de qualquer choque, nem pô-la ao abrigo de tal forma do real, mesmo que o real seja elaborado pelo espírito humano. Bettelheim sugere ainda que os contos auxiliam a criança crescer significando, ao contrário, dosar a abordagem de certas realidades, de certos problemas, tentar torná-la progressiva, proporcional às forças, a resistência da própria criança.

Ao ler uma história a criança desenvolve todo um potencial crítico. A partir daí ela pode pensar, duvidar, se perguntar, questionar... Pode se sentir inquietada, "cutucada" querendo saber mais e melhor ou percebendo que se pode mudar de opinião. Isso não deve ser feito somente uma vez ao ano, mais deve fazer parte da rotina escolar, sendo sistematizado, sempre presente – o que não significa trabalhar em cima de um esquema rígido e apenas repetitivo.

Abramovich (2004, p. 18) sugere que,

é preciso saber se gostou ou não do que foi contado, se houve concordância ou não com o que foi contado... É perceber se ficou envolvido, querendo ler de novo mil vezes (apenas algumas partes, um capítulo especial, o livro todinho, é formar opinião própria, é ir formulando os próprios critérios, é começar a apreciar, a amar um autor, um gênero, uma idéia etc.).

A escola precisa se apropriar das histórias infantis com o intuito de levar a criança a resolver seus próprios conflitos, importantes para elas, mesmo quando para a escola esses problemas lhes parecerem fúteis. Levando–se em conta a importância, ao menos quantitativa, que a escola tem na vida infantil. Há que se transportar para a escola também o objeto mágico para conformá-la aos desejos da criança e torná-la mais humana. Somente a partir dessa humanização da própria escola, é que a aprendizagem se tornará prazerosa e consequentemente significativa.

O que faz a história estimulante é o que proporciona a criança coragem para que ela enfrente suas dificuldades pessoais. As interpretações adultas por mais corretas que sejam, acabam impedindo a possibilidade ou a oportunidade que a criança teria por si só de enfrentar com êxito uma situação difícil e real para ela. Alguns teóricos repudiam os contos de fadas "adocicados", "pasteurizados" por Walt Disney (Sisto, 2001), que retirando-lhes os conflitos essenciais, tirou também todo o significado e revelação, perdendo então a dimensão simbólica. Uma história é feita, na cabeça do ouvinte, pela construção de expectativas, frustrações, reconhecimento e identidades. Para SISTO (2001, p. 14) "Uma história estimulante pode apresentar toda sorte de construção. O que se oculta e vai se revelando aos poucos é próprio do jogo, também da linguagem". Igualmente, a utilização de recursos áudio-visuais para a realização de uma releitura dos contos tradicionais não pode ter como ambição a substituição do ritual da contação. A questão não está em substituir a relação contador x espectador por exibições de TV, mas sim, numa reflexão que permeie o enriquecimento das atividades em sala de aula, por exemplo, focada na construção de novos saberes, de novas vivências.

Fenômenos como a "tecnofobia" (recusa de qualquer tecnologia de natureza elétrica e eletrônica) e "mal-estar docente" (confusão frente ao variado conjunto de tecnologias atualmente disponíveis) são freqüentes no mundo da educação escolarizada, mostrando sérias lacunas na formação recebida pelos professores, principalmente os do ensino fundamental e médio. (SILVA, 2003, p.15 et ali)

É importante que se pense a tecnologia como uma nova visão de mundo e que possibilita a construção "on-line" de experiências. Não é apenas contar histórias com outra ferramenta, é preciso resignificar:

Quando a câmera de filmar foi inventada no início do século, a primeira coisa que as pessoas fizeram com ela foi a mesma coisa que a gente faz com qualquer novo instrumento tecnológico: tentar fazer aquilo que se fazia antes, e tentar fezê-lo melhor. Assim, puseram a câmera de filmar em frente a um palco e representaram uma peça teatral. (...) Fazer cinema é muito mais do que colocar uma câmera defronte a um palco e passar uma peça de teatro. (...) o cinema é cultura nova e diferente. Ele (o cinema) possui a sua própria linguagem e suas metáforas. (SILVA, 2003, p.19 e 20)

Assim, percebe-se a responsabilidade na interação das novas tecnologias com a contação de histórias no ambiente escolar. Mesmo porque, "o prazer de ser transportado de forma benevolente e cuidadosa, ao universo das palavras que possuem corpo, das histórias que se tornam tangíveis, daquilo que nos humaniza" (SISTO, 2001, p. 32).

Contar uma história não é atividade simples. É indispensável que haja um feed back entre contador e ouvinte. Pensando nisso, a utilização de diversos recursos para a contação de histórias (principalmente tecnológicos) deve preceder o conhecimento do aparato tecnológico a ser utilizado. O ouvinte, enquanto aguarda, vai tecendo sua teia de possibilidades: eu já conheço essa história! Será que vou gostar do final? Bem que o final poderia ser diferente! etc, e é nesse momento que, "colocam-se em ação diferentes operações encadeadas e em crescente complexidade" (Camargos, apud Jolibert, 1994).

A partir daí, as atividades propostas poderiam desafiar o aluno a raciocinar usando o que ele já sabe e ao mesmo tempo exigindo um nível de abstração maior. Nessa situação os aparatos tecnológicos como vídeo, TV e computador, podem desempenhar papel de motivação, demonstração, instrumento para diferenciação progressiva e reconciliação integrativa e instrumento de apoio a exposição do professor.

O que é a Contação de Histórias

Desde o final do século XVIII o conto popular tem merecido atenção dos que se dispõe a investigar as manifestações folclóricas, espontâneas do povo sem nenhuma intervenção erudita. As histórias dos contos quase que na sua totalidade realizam em histórias distintas, ações idênticas, provavelmente os contos deveriam servir a formação das sociedades de onde emergiam. O russo Wladimir Propp (apud MARIA 2004), constatou em seus estudos que os personagens dos contos, variam em idade, sexo e características gerais, mas que mesmo em histórias distintas suas ações são parecidas.

Lembrando as velhas histórias ouvidas em minha infância ou que tive oportunidade de ler, encontro nas luzes da memória argumento comprobatório. Quantas não foram as histórias em que havia a presença de um herói e uma interdição, uma proibição, uma certa lei que ele não poderia infringir? (Idem, p. 15)

Um conto tende a surgir de alguma faísca de realidade, embora, ele não tenha compromisso com o real. Ele nasce de um episódio qualquer, de um dado importante, impressionante, a partir de um fato qualquer ou de nenhum, por tudo isso ele acaba sendo tão sedutor, fantasioso, emocionante; foi assim no passado remoto é assim hoje e sempre será. A escola tem se limitado a apenas ler os contos de forma corrida e em sala de aula, sem preparação, sem planejamento, o que acaba comprometendo a essência da atividade, que poderia ser a magia, a imaginação.

Os contos de fadas, deveriam ser contados em vez de lidos. Se é lido, deve ser lido com envolvimento emocional na história e na criança, com empatia pelo que a história pode significar para ela. ... A narrativa da história para uma criança, para ser mais eficaz, tem que ser um evento interpessoal, moldado pelos que participam dela. (BETTELHEIM, 2000, p.17)

Talvez, seja essa possível interação na contação de história que solicita envolvimento de quem ouve, e no envolvimento a criança (ouvinte) aprende, desvenda inconscientemente seus mistérios, dificuldades e dores que possam existir. Contar um conto com a finalidade específica que não seja a de enriquecer a experiência da criança, transforma-se apenas em uma leitura enfadonha sem fim específico.

É impossível precisar a quantas funções deveriam servir os contos, entretanto, não podemos negar-lhes o apelo religioso, presente em quase todos. Os mesmos também eram utilizados como respostas as necessidades humanas, sem esquecer a fantasia. Não podemos falar de contação de historias, sem falar do ato de ler, pois, é certamente do fascínio de contar e ouvir histórias, que nasce o fascínio de ler. (SISTO, 2001 p.47)

Contar histórias hoje significa salvar o mundo imaginário (SISTO, 2001). O estilo de vida, reprodutor e sem individualidades, bombardeado por múltiplas invenções, acaba até anulando o ato de pensar, impedindo o livre exercício da imaginação. A escola precisa perseguir uma vida cooperativa em que são administrados o tempo, o espaço, as regras de vida, as atividades e os projetos nos quais são inscritas "naturalmente" situações de leitura (de fato). Segundo JOLIBERT (1994, p.14), É lendo que nos tornamos leitor e não aprendendo primeiro para poder ler depois: não é legítimo instaurar uma defasagem, nem no tempo, nem na natureza da atividade, entre "aprender a ler e ler". Ler é entender o significado das coisas, por isso entender o outro. Quem lê se transforma através do sentido que as palavras produzem.

O Professor e a Contação de História.

A maioria dos professores que trabalham com contação de história defende a idéia de que tal momento proporciona interação entre eles (alunos) a sala de aula e o professor, e que, além do mais, desperta o interesse e o prazer pela leitura, instigando assim a formação de bons leitores, que seria o que lê e compreende. O profissional da educação, quando passa a contador de história, faz do exercício de contar a sua maneira de falar, deixa de ser pessoa simplesmente e adentra em um mundo que só a criança compreende. A rotina de sala de aula, enfadonha, se transforma na subjetividade do prazer, vai além da sua essência, seu objetivo e finalmente o seu por que.

Contar história e dialogar em várias direções: na arte, na do outro, na nossa! Os objetivos podem mudar – é recrear, é informar, é transformar, é curar, é apaziguar, é integrar – podem se alternar, mas nunca acaba com o prazer de escutar! De participar! De criar junto!... (SISTO, 2001, p. 95).

Os contos fomentam a possibilidade de vida cooperativa, interativa e até fraterna; mas o que importa na verdade é esse clima favorável à aprendizagem, que a maioria das escolas acaba por ignorar. Contudo, a escola não é a única responsável pela negação do valor dos contos. Há um histórico de desvalorização dos mesmos, desde o seio familiar já que não se incentiva o ato de ler; não se conta mais casos nas rodas de fogueiras, ou nas soleiras das portas; são as culturas, e brincadeiras de infância, que "já não importam mais".

"É importante ressaltar o quanto pode ser significativo que os pais leiam histórias para seus filhos, ou folheiem algumas literatura infantil, levando-os a dizerem o que imaginam o que irá acontecer na página seguinte." (JOLIBERT, 1994, p. 129).

Enfim, existe algo mais simples, menos pesado do que compartilhar, interagir com seus filhos os diversos encontros com o escrito, com a história oral, que marcam naturalmente a vida familiar diária? E, consequentemente, segundo, BETTELHEIM (2000, p. 25) ajuda a formar, a desenvolver a personalidade. Nem todos os pais participam da mesma maneira da escola e do sucesso escolar de seus filhos. Dessa forma, é importante que o profissional da educação procure caminhos múltiplos, que permitam que cada aluno encontre o seu lugar. A família e a escola necessitam entender que enquanto o conto o diverte também esclarece sobre si mesma, dando muitos significados a sua existência.

São ímpares, não como forma de literatura, mas como obra de arte integralmente compreensível para a criança, como nenhuma outra forma de arte o é, o significado do conto é diferente para cada pessoa, e diferente para a mesma pessoa em vários momentos de sua vida. (Bettelheim, 2000 p. 20).

Se a leitura é, sobretudo, a compreensão dos outros, a contação de histórias possibilita, sobretudo, a compreensão do próprio sujeito. Os professores pontuam duas coisas importantes, a primeira é que sempre é tempo, ainda, de procurar reatar os laços com os momentos de contação de história na própria escola, e desfazer as barreiras criadas em torno dos contos de fadas. E a segunda, é que não podemos nos agarrar a nossas dificuldades, travando assim o crescimento dos alunos. A nossa responsabilidade maior é descortinar para eles mundos novos, cujo caminho pode ser o da fantasia que nasce da contação de histórias.

Novas Tecnologias

É possível que seu navegador não suporte a exibição desta imagem.Falar em tecnologia ou no uso das tecnologias hoje, nos parece um assunto bastante comum. Entretanto, encontramo-nos sempre com uma definição que nos limita aos recursos tecnológicos como computadores, vídeos etc. A história da Tecnologia é tão antiga que se confunde com a história da humanidade. Na sociedade moderna é comum o pensamento de que a criação de um determinado recurso tecnológico será imprescindível para a solução das mazelas que atingem os indivíduos. Por outro lado, é importante salientar que a questão não está na tecnologia em si, mas sim, na sua utilização, uma vez que ela é:

a capacidade de perceber, compreender, criar, adaptar, organizar e produzir insumos, produtos e serviços. Em outros termos, a tecnologia transcende a dimensão puramente técnica, ao desenvolvimento experimental ou à pesquisa em laboratório; ela envolve dimensões de engenharia de produção, qualidade, gerência, marketing, assistência técnica, vendas, dentre outras, que a tornam um vetor fundamental de expressão da cultura das sociedades (CARVALHO et ali, 2007)."

A evolução tecnológica acaba passando para o "objeto" a responsabilidade da interpretação ou da caracterização de toda a simbologia e a significação que a história nos permite ter. Por outro lado, esquece-se de que a informação só tem valor como combustível para a reflexão se fizer parte integrante da construção do indivíduo. Na escola, por exemplo, o simples fato de se passar um filme ou ensinar os alunos a navegar na internet, consiste numa mera aula expositiva que supõem apenas a interpretação de um questionário entregue pelo professor. Os recursos como computadores, DVD's etc, podem ajudar na melhoria da educação, por outro lado, o não conhecimento à cerca desses equipamentos por parte dos professores, pode provocar o efeito contrário. A questão não é apenas saber manusear os equipamentos, mas sim, utilizá-los para a construção de novos conhecimentos.

É comum o pensamento da substituição quando se fala em tecnologia. Para Levy (1999, p. 211),

(...) é um erro pensar que o virtual substitui o real, ou que as telecomunicações e a telepresença vão pura e simplesmente substituir os deslocamentos físicos e os contatos diretos. A perspectiva da substituição negligencia a análise das práticas sociais efetivas e parece cega à abertura de novos planos de existência, que são acrescentados aos dispositivos anteriores ou os complexificam em vez de substituí-los.

Pensar em Novas Tecnologias é a creditar na capacidade que o ser humano de desenvolver ferramentas e repensar conceitos e atitudes. Tudo que é novo, na verdade, pressupõe o aperfeiçoamento de descobertas feitas anteriormente e que nos dias de hoje, de forma dinâmica, aspiram resolver questões que se modificam dia-a-dia.

A busca por soluções mágicas e a tentativa de homogeneizar a escola, faz do uso tecnológico uma ferramenta para distração dos alunos, uma vez que é uma novidade. Além disso, o fato de não dispor dos novos recursos geralmente é utilizado como argumento para a não realização de um bom trabalho em sala de aula. Essa perspectiva exige uma reflexão sobre o papel da escola, a importância e a necessidade da utilização de recursos tecnológicos no contexto escolar.

O Professor e a Tecnologia

Em geral, espera-se que a tecnologia facilite a superação da maioria dos problemas sociais. Entretanto, a perspectiva de que a mesma será a solução dos problemas educacionais parece ser um sonho na vida dos profissionais da educação. Quem pensar que os diversos problemas enfrentados pela sociedade como, por exemplo, a violência, será solucionada por meio de intervenções, pensando que a extraordinária capacidade da tecnologia moderna conduzirá a uma solução apropriada, naufragará em um mar de indefinições.

Observando o pensamento de Paul Virilio, em entrevista ao site Notre Site Français, do portal estadao.com.br, percebemos as diversas visões que se deve ter em relação à tecnologia.

Falando de seu livro, A bomba informática, Virilio diz, por exemplo, que a Internet é, ao mesmo tempo, a melhor e a pior coisa do mundo. Ela (internet) é comunicação e essa é inevitavelmente a pior e a melhor das coisas, pois ela é o veículo da língua e da informação, portanto é o pior e o melhor. E como a Internet é um aparelho de comunicação global, que visa ser global, a ameaça dessa rede é comparável à ameaça de uma comunicação inter-linguística. (CORREA, 2007).

Para ilustrar esse processo de evolução tecnológica e a procura da facilidade das coisas, Virilio diz que "O Homem sempre seguiu a lei do menor esforço" (idem), sendo nítida esta tese de acordo com a evolução dos tempos, tal como facilitação da vida humana através da adaptação dos meios comunicativos. Mesmo com o pensamento global focado no avanço tecnológico. Afirma ainda que

Não há globalização sem virtualização. O teatro e a dança têm necessidade de apresentar o corpo. Então são as artes do corpo por excelência. É preciso preservá-las, se as deixarmos desaparecer na virtualização, se não preservarmos os corpos de atores e dançarinos, provaremos que as novas tecnologias são exterminadoras dos corpos não apenas através do desemprego, da miséria, mas também da referência à corporalidade, isto é, à própria teatralidade. (PAUL, 2007)

Comparando a visão de Virilio com a de Levy, por exemplo, percebemos certo pessimismo em relação ao avanço tecnológico, principalmente quando direcionado ao desenvolvimento da comunicação, já que Levy vê a internet como algo universal e não totalitário, pois não impõe aos usuários o que acessar. Apesar de democratizar o acesso às informações de uma maneira mais abrangente, podemos identificar a segregação dos excluídos dos novos recursos tecnológicos e dos analfabetos tecnológicos.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, p. 135, 2007) definem tecnologia como estudo das técnicas, isto é, da maneira correta de executar qualquer tarefa. A história da tecnologia se mostra nos esforços milenares do homem para dominar, em seu proveito, o ambiente material. Recursos tecnológicos são os produtos da tecnologia, qualquer objeto criado para facilitar o trabalho humano. Portanto, o machado, utensílios domésticos, televisão, telefone, trator, relógio, são recursos tecnológicos, assim como motores, engrenagens, turbinas, cabos e satélites.

Nessa perspectiva, a inserção de recursos tecnológicos tende a provocar dois sentimentos imediatos entre os educadores: aceitação e rejeição. A proposta de equipação das unidades escolares como forma de melhorar a qualidade da educação, principalmente nas escolas públicas, já é rotina.

Para Valle,

educar com tecnologia não é uma tarefa fácil. A cultura escolar é excessivamente baseada no texto impresso e na cultura oral, de modo que a incorporação de novas linguagens (plásticas, musicais, gestuais ou tecnológicas) torna-se um desafio. Por outro lado, o ato de inserir a tecnologia na escola, por si só não garante uma melhor qualidade na educação ofertada, uma vez que práticas tradicionais podem ser reproduzidas com o uso dos recursos tecnológicos. (p.7, 2002)

Com referência a MORAN, a autora ainda cita que "as tecnologias de comunicação não mudam necessariamente a relação pedagógica. As tecnologias tanto servem para reforçar uma visão conservadora, individualista, como uma visão progressista" (idem). Mattos (apud Valle, 2002, p. 11) destaca que o conceito de Tecnologia Educacional relaciona-se com a inovação no processo educacional, através da viabilização de novas teorias, conceitos, idéias e técnicas.

Nessa perspectiva, a inserção das novas tecnologias no contexto escolar se torna mais importante na construção de novos conhecimentos do que simplesmente a utilização desses apenas como uma modernização do velho quadro negro e do giz. O fato de se ter acesso às diversas ferramentas, não qualifica as construções de novos conhecimentos, pois,

(...) Não se trata da incorporação pura e simples das tecnologias em sala de aula, nem somente da atuação dos professores. Trata-se de promover aprendizado aliando todos estes vetores. (Valle, 2002 p. 11)

Para Sancho (apud Valle, 2002 p. 11)

a própria escola é uma tecnologia, uma solução à necessidade de proporcionar educação a todos." (...) com a escolaridade maciça, as salas de aula são invenções tecnológicas criadas com a finalidade de realizarem a tarefa educacional.

A relação de equipamentos que a escola possui reflete o processo de "equipação" das unidades escolares. Entendamos como equipação a entrega de equipamentos nas escolas sem a devida preparação dos profissionais. Ter vários recursos tecnológicos não corresponde à qualidade de utilização. A interação da criança com o seu meio proporciona os recursos para a evolução do pensamento, sendo assim, se a tecnologia está inserida no contexto de vida das crianças, por exemplo, podemos afirmar que ela poderá auxiliar nesse desenvolvimento. Mesmo porque, pela primeira vez, são as crianças as que melhor dominam um novo aparato tecnológico e estão à ponta do processo transformador que atinge, cada vez mais, áreas da vida cotidiana (AMARAL, 2003 p.45).

O que se percebe, na verdade, é que a falta de formação específica para aplicação das diversas ferramentas tecnológicas em sala de aula, ou mesmo no dia-a-dia dos profissionais da educação, acaba por gerar um pré-conceito em relação às novas tecnologias. Tanto é, que podemos perceber na atividade de contação de histórias a imaginação de seres e locais fantásticos. Se pensarmos assim, e afirmarmos que cada ser cria à partir de suas experiências e (re) elabora seus princípios de vida e flui esteticamente no meio, podemos colocar a tecnologia como uma ferramenta de estímulo à produções que estão além de nossa materialização mental.

Assim, a partir da era digital, as tecnologias numéricas permitem que a criatividade do artista acione a linguagem simbólica de processos computacionais gerados a partir de cálculo numérico: o abstrato da matemática gera cenas. O processo ganha também a magia própria dos sistemas interativos para a aquisição e comunicação de sinais por interfaces que conectam informações do mundo exterior: ruídos, gestos, voz, calor, movimento, entre outros sinais, devolvendo-os em paradigmas computacionais que geram cenas em tempo real. Como uma arte basicamente comportamental. (DOMINGUES, 2007).

Com o uso da tecnologia, o professor poderá amplificar os estímulos em sala de aula, através de documentários, discussões sobre a criação de desenhos animados, filmes futuristas entre outras questões que irão provocar o aluno a criar, pois "os estímulos são o alimento da inteligência". (ANTUNES, 2001 p. 18)

Enfim, a contação de história pode ser usada como recurso de aproximação do aluno com a leitura, mas esse não pode e nem deve ser o único objetivo dessa tão rica e indispensável atividade, mesmo porque, não sendo dessa forma, limitaremos a contação de história a um mero recurso áudio-visual. Possuir recursos tecnológicos não garante sua utilização eficaz. Nas discussões percebemos que os recursos tecnológicos, principalmente os multimídia, em sua maioria, não foram criados para atender às demandas educacionais. Os computadores, por exemplo, surgiram para atender uma demanda comercial, ou mesmo bélica, e passou a ser utilizado, depois de popularizado, em outros espaços. Inclusive na escola. Não obstante, o trabalho do professor ainda não consegue unir desejo e ferramenta em sua práxis. O que temos, na verdade, são profissionais que "operam" máquinas e não "produzem" novos conhecimentos.

Atrela-se à tecnologia uma imagem de frieza, de exatidão e é criado um estereotipo já conhecido nas escolas, principalmente quando se pensa em matemática. Medo do que não se conhece, de quebrar o equipamento ou mesmo desconhecimento na sua utilização. O fato de a evolução tecnológica está tão próxima desses profissionais, não configura uma relação ainda palpável. A invasão desses novos "apetrechos" dentro da escola, no bairro, na casa dos alunos coloca em questão o significado da alfabetização digital. Dessa forma, muitos profissionais se vêem à mercê do modismo e não conseguem (ou não podem) ressignificar suas propostas, seus objetivos frente à tecnologia.

Não bastasse isso, percebe-se no senso comum o costume de que o novo anula o velho; que o digital não é aconchegante e que o professor será substituído pela máquina. O não conhecimento à cerca da utilização dos recursos tecnológicos limita as ações com tais recursos à aulas extras, geralmente "ministradas" por técnicos especializados ou por qualquer pessoa que saiba "manejar aquela coisa". Se pensarmos por este ângulo, podemos perceber que o tratamento dado à tecnologia em sala de aula se assemelha ao que é dado geralmente à arte: Apesar de se achar importante, quem tem que assumir são pessoas que "têm jeito pra coisa", que já façam isso no dia-a-dia (BITENCOURT, 2004). Partindo desse pressuposto, percebe-se que o professor não possui conhecimentos suficientes para utilizar os recursos tecnológicos de modo a surpreender seus alunos, uma vez que nem ele consegue ter essa reação. Já não bastasse essa carência de conhecimento por parte do professor, o que vemos é que esses recursos chegam até os alunos por outras rotas e para outros fins, principalmente diversão, o que torna o uso dessas ferramentas em sala de aula extremamente monótonas.

Por fim, acredita-se ser possível uma relação entre contação de histórias e novas tecnologias, desde que, respeite-se as particularidades de cada uma; planeje-se como os dois serão utilizados em sala de aula; compreenda-se que tanto contação de histórias quanto as novas tecnologias podem nos ajudar a construir conhecimentos e não apenas repeti-los ou exibi-los.

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Autor: Janete Batista Rocha | Ricardo Barbosa Bitencourt