Norma e realidade acerca do ditongo e do hiato



"A Língua é nossa, mas essa língua é MINHA e por isso falo do meu jeito".

A gramática tradicional (GT) não explica os fenômenos lingüísticos, antes se encarrega de prescrever normas. Mas para estudar a língua é preciso encará-la como algo vivo, mutante e além de descrever os fenômenos que contribuem para as transformações, a reflexão deve ser fundamental. Diante dos vários exemplos de autoritarismo da GT é possível citar, dentro da fonologia, o tratamento dado aos ditongos e hiatos. Como afirmar com toda veemência que os encontros vocálicos se dividem em ditongo, tritongo e hiato, quando o único encontro verdadeiramente vocálico esteja exatamente no hiato, visto que nesse caso ocorre realmente o contato entre duas vogais no interior do vocábulo, mesmo que durante a divisão silábica sejam separadas; nos demais casos de "encontros vocálicos" o que acontece é o encontro de vogais e semivogais.

Diante do caráter ditador da GT é impossível ficar passivo frente a informações totalmente desvinculadas da realidade linguística, sem atentar para as variantes existentes na fala. Como negar, por exemplo, que o hiato da GT ru-im é transformado por grande parte dos falantes em um "escandaloso" ditongo ruim ou que di-a-bo vire um ditongo?

Na palavra saia acontece algo, no mínimo, curioso, enquanto a GT adota a classificação de ditongo sai-a o falante produz sa-ia ou ainda sai-ia devido ao prolongamento do i, mas se em saia ocorre um prolongamento de som, há casos em que a supressão faz desaparecer a possibilidade de ditongo ou hiato, ocorrendo assim a monotogação na fala como é possível perceber em palavras como: desleixado-deslexado, cadeira-cadera (...).

São vários os casos que podem levantar discussão, devido às indicações da norma padrão e as possibilidades oferecidas pelas variantes da fala. Observe:

GTPossibilidade

du-asduas

jói-ajo-ia

Su-é-ciaSue-cia

Além dos exemplos citados, chamo a atenção para a palavra piauiense que segundo a norma padrão deve ser dividida em pi-au-i-en-se embora o falante produza piau-i-en-se.

Diante de divergências como essas, a reflexão sobre a língua padrão da GT e as variantes lingüísticas possibilita uma visão mais clara e compartilhada sobre as transformações reais da nossa língua, que dotada de diferença é um exemplo do movimento intenso de uma língua em atividade.


Autor: gislene martins