A Didática como Estratégia de Inclusão no Trabalho Docente com Surdos



Na antiguidade os surdos eram encarados como seres incompetentes. Segundo Aristóteles os que nasciam surdos, não tinham linguagem, portanto seriam incapazes de raciocinar. Esse pensamento faziam com que os surdos não tivessem direito a um ensino secular, sendo totalmente marginalizados, excluídos da sociedade. Os Romanos,influenciados pelos Gregos, os viam como seres imperfeitos.

Em 637 d.C. , o bispo John of Bervely ensina um surdo a falar de forma clara, e o acontecimento é considerado um milagre. No entanto, assim como a autoria de muitas metodologias e técnicas ficaram perdidas no tempo, esta também perde-se, e a igreja toma para si a autoria do feito. No século XVIII, surgem os primeiros educadores de surdos: o alemão Samuel Heinick(1729-1970), o abade francês Charles Michel de L`Epée (1712-1789) e o inglês Thomas Braidwood(1715-1806). Esses autores desenvolveram diferentes metodologias para a educação da pessoa surda. Em 1755, em Paris, L´ Epée funda a primeira escola pública para o ensino da pessoa surda.

No Brasil, a educação dos surdos teve início durante o segundo império, com a chegada do educador francês Ernest Huet, em 1855, foi fundado o Instituto Nacional de Surdos-Mudos, atual Instituto Nacional de Educação dos Surdos (INES), queinicialmente utilizava a língua dos sinais, mas que em 1911 passou a adotar o oralismo puro. Na década de 70, com a visita de Ivete Vasconcelos, educadora de surdos da Universidade Gallaudet, chegou ao Brasil a filosofia da Comunicação Total, e na década seguinte, a partir das pesquisas da Professora Lingüista Lucinda Ferreira Brito sobre a Língua Brasileira de Sinais e da Professora Eulalia Fernandes, sobre a educação dos surdos, o Bilingüismo passou a ser difundido. Atualmente, estas três filosofias educacionais ainda persistem paralelamente no Brasil. Segundo Skliar(1997 p.109), existiram dois grandes períodos na história da educação dos surdos: um período prévio, que vai desde meados do século XVIII até a primeira metade do século XIX, quando eram comuns as experiências educativas por intermédio da língua de sinais, e outro posterior, que vai de 1880, até nossos dias, de predomínio absoluto de uma única equação segundo a qual a educação dos surdos se reduz a língua oral.

O século XXI está apenas começando, mas por enquanto ele ainda tem a mesma cara do século passado. No curto prazo, as orientações que desejamos para a formação não diferem radicalmente daquelas que foram proposta há cinco anos (PERRENOUD, 2002).

E as escolas voltadas para alunos surdos têm enfrentado grandes dificuldades em se organizarem como espaços, primordialmente, de ensino e aprendizagem. Essa dificuldade é produto de uma visão clinico - reabilitadora, em que os surdos, considerados portadores de uma patologia, deveriam aprender a expressar-se oralmente, se quisessem vislumbrar alguma participação na sociedade ,(DOZIART, 2007).

Nesse sentido, focalizar o olhar sobre a prática educacional que envolve os sujeitos surdos pode revelar-se muito interessante, já que abre uma perspectiva de discussão perante certas peculiaridades do funcionamento dos sujeitos e de dinâmicas em sala de aula que podem trazer contribuições importantes para a reflexão dos múltiplos papéis da instituição escolar, (MOURA, 1993), sendo assim o professor/interprete necessita investir na sua formação continuada, (RINALDI, 1997). Na busca de uma didática que facilite a inclusão do aluno surdo no ensino de ciências, para isto se faz necessário que a LDB/96 e as DCN/2001 norteia a ação docente no sentido de respeitar as diversidades e especificidades do publico alvo desta pesquisa.

As propostas educacionais desenvolvidas ao longo do último século não se mostraram eficientes e encontra-se um número de sujeitos surdos que após anos de escolarização apresentam uma série de limitações, não sendo capazes de compreender a ciência de maneira satisfatória, não tendo um domínio adequado dos conteúdos acadêmicos.Diante da necessidade de maiores reflexões sobre as formas mais apropriadas de viabilizar um ensino de qualidade para as pessoas surdas, é importante trazer para discussão uma visão mais crítica sobre as principais correntes metodológicas utilizadas em sala de aula, que enfoque não apenas os procedimentos adotados, mas, que realize uma análise sobre as vantagens e desvantagens existentes em cada uma, tendo em vista as particularidades inerentes à surdez.

 

 

Material e métodos

A metodologia adotada neste estudo baseou-se na pesquisa qualitativa e se utilizou da técnica de observação e entrevista semi-estruturada do participante que ocorreu em dois momentos no sentido de analisar se houve avanço do aluno no desenvolvimento com relação ao ensino de ciências. Optou-se por uma amostra aleatória, intencionalmente selecionada de acordo com os interesses e conveniência da pesquisa.

Para procedimento da coleta das informações, forão realizados entrevistas semi-estruturadas, baseadas num roteiro previamente elaborado. Segundo Triviños (1944), esta técnica é aquela que parte de certos questionamentos básicos, apoiados em pressupostos que interessam à pesquisa, e que, em seguida, oferece amplo campo de interrogativas, fruto de novos questionamentos que vão surgindo, à medida que recebem as respostas do informante.

Desta maneira, o informante, seguindo espontaneamente a linha de seu pensamento e de suas experiências dentro do foco principal colocado pelo investigador, começa a participar na elaboração do conteúdo da pesquisa.

O estudo foi realizado na escola estadual Jerônimo Albuquerque em Rio Doce, que contém salas espaçosas e bem iluminadas, com quadro negro e giz, há sala de informática, biblioteca, brinquedoteca; Nesta instituição de ensino há 37 alunos, as faixas etárias desses alunos variam 7 a 51 anos, portadores de surdez profunda bilateral, não têm domínio do português falado e são usuários da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS). Após um calculo estatístico amostral, com margem de erro à 5%, chegamos a conclusão que realizar um estudo com apenas 20% do universo, é um número representativo quesatisfez os meus resultados da pesquisa .

Resultados

O censo escolar 2007 demonstram que na educação especial são 640.617 matriculados e destas 47% dos alunos estudam em escola comuns doensino regular. Das 165.937 escolas públicas de educação básica em 2007, 62.195 tinham matrícula de alunos da educação especial, dado que em 1998 apresentava matrículas concentradas em apenas 6.557 instituições de ensino.

O artigo 59no parágrafo 1° da LDB de n°9394/96 diz claramente que: os sistemas de ensino assegurarão aos educandos com necessidades especiais: currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicos, para atender suas necessidades. Baseado nessa lei foram formulados cinco pontosimportantes para a condução dessa pesquisa, tais como: didática, relacionamento professor-aluno, recursos, dificuldades dos alunos e formação.

Trabalhar a partir das concepções dos alunos, dialogar com eles, fazer com que eles sejam avaliados para aproximá-las dos conhecimentos científicos a serem ensinados,(PERRRENOUD,2002) . E observou-se que não há uma co-relação entre o conteúdo ministrado à realidade do aluno, onde o educando possa contextualizar os conteúdos até então abstrato para a sua realidade, apresentando num ciclo vicioso, repetitivo, desvinculado a realidade do aluno, prática alienada, ensinando com transmissão de informações e de conhecimentos, sem criar possibilidades para a sua produção e construção, não trabalhando de forma significativa. Isso reflete uma prática tradicional, mecanicista, sem significado para o aluno(LIBANEO, 2005).

É importante saber construir situações didáticas a partir do contexto(PERRENOUD, 2000). E há ausência do domínio didático especializado que favoreça a aprendizagem do aluno (Libras).

Há uma característica bem particular dos alunos surdos é o fato de falarem (tudo) o que pensam, sem a preocupação demasiada com determinadas regras sociais de comportamento e que regulam a convivência. A esse respeito, (BOTELHO, 1998) entende que o aprendizado de comportamentos discursivos depende [...] de experiências interativas e ocorre somente ao longo do tempo (p. 66). No caso dos surdos, a autora sustenta que eles possuem um modo de dizer sem mediação social, em demasia centrado no que o sujeito pensa e sente (p.66).

A dificuldade maior dos surdos está exatamente na aquisição de uma linguagem que subsidie seu desenvolvimento cognitivo, os estudos que envolvem a condição de pessoa surda são revestidos de fundamental importância e seriedade, visto que a surdez, analisada exclusivamente do ponto de vista do desenvolvimento físico, não é uma deficiência grave, mas a ausência da linguagem, além de criar dificuldades no relacionamento pessoal, acaba por impedir todo o desenvolvimento psicossocial do individuo,(SÁ, 1999).

Partimos então do pressuposto de que a falta de comunicação na vida de uma pessoa traz significado negativo, com conseqüências para a sua formação social e educacional. A falta de uma linguagem acarreta em especial na criança seu desenvolvimento cognitivo, de aprendizagem de interação. Esse negativismo se perpetua no meio social oralista, quando se diz que se há criança não aprende e não desenvolve a linguagem oral, há portanto dificuldade de ser integrada ao meio social.

Neste contexto social temos a importância que (VYGOTSKY, 1989) dá as trocas culturais, evidenciando então que a linguagem é um fator não apenas lingüístico mas também cultural, fica claro neste dizer: o sujeito social tem que estar interagindo, em primeiro plano lingüisticamente e em segundo culturalmente. Dessa forma temos umas séries de razões para defender a tese de que, o sujeito surdo, vive cercado de privações por falta exclusiva da troca de comunicação , causada por imposição ao ensino oralista ora por falta do domínio de uma linguagem gestual visual como a Libras, para o sujeito surdo, realize estes processos de trocas, lingüística e cultural.

Considerações finais

A escola se caracterizou pela quase ausência de apoio à prática do professor, como recursos didáticos adequados, materiais de consulta e, até mesmo, apoio pedagógico para a realização de um trabalho mais efetivo.

A professora enfatiza as dificuldades dos educandos em compreender e assimilar determinados conteúdos de ciências, por apresentar assuntos "abstratos" e a ausência de domínio da língua de sinais dificulta a interação.

Espera-se com esse trabalho, suscitar novas pesquisas, sobretudo no ensino de Ciências, e que a compreensão das diferenças e especificidades do ensino para portadores de necessidades especiais propiciem maior reflexão da prática em sala de aula, dos significados da educação inclusiva e de suas especificidades

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Autor: MARILIA GISELE