A INDISCIPLINA NA ESCOLA



A questão da indisciplina no contexto escolar é um dos temas que movimenta gestores, professores, técnicos, pais e alunos de diferentes escolas brasileiras. Entretanto, apesar desta temática constituir-se objeto de inquietação, no meio educacional é, de um modogeral, superficialmente discutido. Além da falta de consenso e clareza a respeito da definição do termo indisciplina ou, até mesmo de disciplina, a maior parte da revisãobibliográfica e das análises sobre esse tema expressam sinais de um discursosaturado por preconceitos e costumes da sabedoria popular.

Estes aspectos se agravam seconsiderarmos que os trabalhos de investigação realizados ainda são relativamente insuficientes.

A vida em sociedade pressupõe a criação e o cumprimento de regras e preceitos capazes de nortear as relações, possibilitar o diálogo, a cooperação e a troca entre membros deste grupo social. A escola, por sua vez, também precisa de regras e normas orientadoras do seu funcionamento e da convivência entre os diferentes elementos que nela atuam. diferentes elementos que nela atuam. Nesse sentido, as normas deixam de assumir a característica de instrumentos de castração e, passam a ser compreendidas como condição necessária ao convívio social. Neste modelo, o disciplinador é aquele que educa, oferece parâmetros e estabelece limites (REGO, 1996).

Em consonância com este argumento, La Taille (1996, p.9) analisa que(...) crianças precisam sim aderir a regras e estas somente podem vir de seus educadores, pais ou professores. Os 'limites' implicados por estas regras não devem ser apenas interpretados no seu sentido negativo: o que não poderia ser feito ou ultrapassado. Devem também ser entendidos no seu sentido positivo: o limite situa, dá consciência de posição ocupada dentro de algum espaço social – a família, a escola, e a sociedade como um todo.

Dos fatores que são elencados (LA TAILLE, 1996; AQUINO, 1996; REGO,1996; ARAÚJO, 1996) como possíveis causadores de manifestações de indisciplina no contexto escolar estão: a perda de autoridade do professor, tanto no que se refere ao conhecimento, quanto à postura em sala de aula. Ao longo dos últimos anos, verificamos que muitos professores foram destituídos de seu lugar de "autoridades de saber". Estão desqualificados, desatualizados, desmotivados. Utilizam procedimentos metodológicos que pouco desafiam os alunos a pensar, a construir conhecimentos. Em conseqüência, aulas pouco atrativas, que não estimulam a participação dos alunos. Sabe-se que o processo do aprender demanda a colocação do aluno no papel de ativo, mesmo quando ouve, vê, dirige atenção a alguém que fala ou nas atividades que está fazendo. A prática pedagógica do professor deve promover desequilíbrios cognitivos no aluno, fazendo com que as iniciativas que são tomadas por este buscando a retomada do equilíbrio se revertam em estímulo para aprender, para participar do processo. Assim, temos um aluno que está envolvido nas atividades propostas e não se coloca fora delas, dando margem a manifestações de indisciplina.

Os fatores que foram citados, estão diretamente ligados ao contexto escolar, entretanto, sabemos que não estão somente nesta esfera os elementos que promovem a indisciplina. Há toda uma rede social que circunda a escola: a família, as relações com outros grupos sociais, o acesso a conteúdos, imagens, que são produzidos pelos meios de comunicação social, e que atuam diretamente na construção de modelos, de comportamentos a serem imitados, reproduzidos.

Além destes aspectos, é importante, novamente, enfatizar que o modo como interpretamos a indisciplina (ou a disciplina) acarreta uma série de implicações à prática pedagógica, pois interfere não somente nos tipos de interações estabelecidas com os alunos e na definição de critérios para avaliar seus desempenhos na escola, como também no estabelecimento dos objetivos que se quer alcançar.

Outro aspecto capaz de influenciar significativamente o processo educativo, desenvolvido na instituição escolar, diz respeito à visão dos diferentes elementos da comunidade escolar (professores, técnicos, gestores, pais e alunos) sobre as causas da indisciplina. Entendemos que é necessário identificar, principalmente, os pressupostos subjacentes às explicações geralmente manifestas pelos educadores, que acabam por revelar, ainda que de maneira implícita, determinadas visões sobre o processo de desenvolvimento e aprendizagem do indivíduo e, como decorrência, o papel desenvolvido pela escola (REGO, 1996).

Neste sentido, considerando que as questões relacionadas à indisciplina constituem foco de problema na realidade educacional regional, que possuímos uma carência desses dados, uma "leitura organizada" que permita apresentar esta rede de elementos que estão envolvidos nesse contexto, buscamos através desse artigo refletir sobre os sentidos atribuídos por alunos ao "fenômeno da indisciplina escolar". Partimos do pressuposto de que se desejamos intervir na realidade educacional devemos conhecer, de antemão, a forma como os sujeitos que estão envolvidos nessa realidade compreendem os dilemas que vivenciam e as alternativas de modificação dessa situação que seus discursos possibilitam.


Autor: Ana Lourdes Araújo de Souza