Deus e a ciência: entre a razão cartesiana e o coração de Pascal



Este trabalho aborda em linhas gerais a crítica de Pascal ao procedimento metafísico, manifesto no pensamento de Descartes, em cujo método se julga alcançar a prova da existência de Deus, único modo de garantir a existência do sujeito cognoscente e a objetividade dos dados dos sentidos e do próprio mundo. O racionalismo cartesiano, que inaugura a filosofia moderna, confere à razão um poder absoluto, desde que orientada pela clareza das determinações do método. A total confiança na razão é o que para Pascal violenta o domínio da fé. Trata-se de uma discussão que dará muitos frutos na filosofia posterior. Nas restrições de Pascal à razão, pode-se ver mais ou menos delineadas as mais severas críticas que a razão fará a si mesma. Pascal reivindica para a teologia os objetos que, no século seguinte, Kant manterá nos limites da simples razão como razão prática, ou seja, no domínio da ética e, portanto, destituindo também essa faculdade de qualquer capacidade de conhecimento do absoluto.

Para Descartes, filosofia e ciência são inseparáveis. A tradição com que se depara, no entanto, não lhe pareceu dotar de fundamentos firmes o saber que lhe legava. Para ele era necessário encontrar novos princípios que rompessem com a tradição aristotélica e medieval e permitissem erigir o conhecimento racional da totalidade do real, pelo menos em suas linhas essenciais:

"Assim, toda a filosofia é como uma árvore, da qual as raízes são a metafísica, o tronco é a física e os ramos que surgem desse tronco são todas as outras ciências (...) a mais elevada e perfeita é a moral (...) é o último grau da sabedoria. Ora, como não é das raízes nem do tronco das árvores que colhemos os frutos, mas somente das extremidades dos seus ramos, a principal utilidade da filosofia depende daquelas suas partes que só aprendemos por último"[1]

Era preciso ir aos fundamentos. E para isso é que Descartes desenvolve o famoso método que visa fornecer regras simples que tornem impossível tomar o falso pelo verdadeiro e, aperfeiçoando a ciência, levem ao conhecimento de tudo o que se possa conhecer. A unidade das ciências remete à unidade da razão e esta à unidade do método. A razão, "a coisa mais bem distribuída do mundo", é a faculdade de bem julgar, que permite distinguir o verdadeiro do falso, é o bom senso naturalmente igual em todos os homens.

O princípio fundamental e normativo do método é a evidência. Descartes a encontra na intuição intelectual, na clareza da idéia presente na consciência e que reflete a "luz da razão" sem qualquer mediação. Essa evidência é alcançada via análise, à qual se segue a síntese como reconstrução da totalidade das partes envolvidas, agora de maneira transparente, de modo a corresponder à realidade efetiva. Essa decomposição inspirada no procedimento da geometria deve ser aplicada aos problemas de qualquer natureza, para que se proceda corretamente e se evite equívocos.

Nas Meditações Metafísicas Descartes aplica as regras do método ao saber tradicional em busca de uma verdade clara e distinta a partir da qual se possa reconstruir o edifício do saber iluminado pela razão. Nesse percurso, exerce um ceticismo racionalmente estabelecido segundo o método. A suspensão d juízo começa naquele que parece ser o nível mais imediato do saber, o conhecimento sensível, e adentra naqueles que se experimenta pelo uso exclusivo do intelecto, a matemática e as idéias. A força corrosiva da dúvida metódica vai demolindo em série as certezas tradicionais. Dentro do rigor que sugere, Descartes constrói os argumentos do Deus Enganador e do Gênio Maligno como a maior objeção cética possível às verdades conhecidas. Dos dados dos sentidos às grandezas matemáticas nada resiste ao recurso da dúvida, a não ser a constatação firme do cogito:

"Mas há algum, não sei qual, enganador mui poderoso e mui ardiloso que emprega toda a sua indústria em enganar-me sempre. Não há pois, dúvida alguma de que sou, se ele me engana; e por mais que ele me engane, não poderá jamais fazer com que eu nada seja, enquanto eu pensar ser alguma coisa (...) cumpre enfim concluir e ter por constante que esta proposição, eu sou, eu existo, é necessariamente verdadeira todas as vezes que a enuncio ou que a concebo em meu espírito"[2].

 

Dos atributos da alma é o pensamento o que se mostra inalienável pelo método: "Eu sou, eu existo; mas por quanto tempo? A saber, por todo o tempo em que eu penso (...) Nada sou, pois, senão uma coisa que pensa, isto é, um espírito, um entendimento, uma razão"[3]. Descartes define o pensamento como sendo "tudo aquilo que está de tal modo em nós que somos imediatamente seus conhecedores"[4]. Não apenas o entender, mas o sentir, o querer, o imaginar, tudo isso é pensamento. Às formas de cada um dos pensamentos Descartes chama idéias. A idéia é que expressa o caráter fundamental do pensamento graças ao qual ele é, sem mediação alguma, sabedor de si mesmo: "E assim, não dou o nome de idéia às simples imagens que são pintadas na fantasia, (...) mas somente na medida em que enformam o próprio espírito"[5].O eu de Descartes revela-se o lugar das idéias. Estas não são meras essências ou arquétipos, mas são presenças reais na consciência.

As idéias podem ser inatas, nascidas junto com a própria consciência; podem ser adventícias, vindas de fora e remetentes a coisas diversas ao eu; e podem ser factícias, construídas pelo próprio eu. A realidade subjetiva dos três tipos de idéias é inegável. Porém, quanto à realidade objetiva, nem todas são legítimas. As idéias factícias, por serem construídas pela própria consciência, são quiméricas, ilusórias e, portanto, descartadas. As idéias adventícias só podem ser consideradas objetivas com a condição de que o mundo externo, assim como as faculdades sensíveis que possibilitam a sua percepção e a própria memória que permita conservá-la no eu, sejam inegavelmente objetivos. O caráter objetivo das faculdades e do mundo externo vai depender então do terceiro tipo de idéias, as idéias inatas, ou, de uma idéia adventícia que tenha como origem algo distinto dos dados dos sentidos.

Rejeitando os juízos do senso comum sobre a objetividade das idéias na conformidade com o mundo e vice-versa, Descartes opta pelas idéias mesmas. Se o juízo do senso comum arvora-se a apontar a origem das idéias no mundo externo, mesmo que seja essa a origem, ele não garante a correspondência ou a semelhança da idéia com o objeto, uma vez que podemos ser enganados a todo instante por um Gênio Maligno. Assim, tomadas as idéias como formas do pensar, todas parecem provir do próprio ser que pensa. Mas tomadas como imagens é fácil concluir que elas diferem entre si. Aquelas que representam substâncias contém mais realidade objetiva, ou possui graus maiores de ser ou de perfeição do que as idéias que representam modos ou acidentes. Seu exemplo:

"Aquela pela qual eu concebo um Deus soberano, eterno, infinito, imutável, onisciente, onipotente e criador universal de todas as coisas que estão fora dele, aquela, digo, tem certamente mais realidade objetiva do que aquelas pelas quais as substâncias finitas me são representadas"[6].

A luz natural, ou, a evidência das idéias claras e distintas que o cogito revelou, ensina que deve haver tanta realidade na causa quanto em seu efeito, pois o efeito só pode tirar sua realidade da causa. E a causa só pode comunicar tal realidade ao efeito contendo-a em simesma. É com o princípio de causalidade que Descartes chega à prova da existência de Deus pelo efeito:

"Pelo nome de Deus entendo uma substância infinita, eterna, imutável, independente, onisciente, onipotente e pela qual eu próprio e todas as coisas que são (se é verdade que há coisas que existem) foram criadas e produzidas. Ora essas vantagens são tão grandes e tão eminentes que, quanto mais as considero, menos me persuado de que essa idéia possa tirar sua origem de mim tão somente. E, por conseguinte, é preciso necessariamente concluir, de tudo o que foi dito antes, que Deus existe"[7].

A idéia de uma substância infinita não poderia se encontrar no ser pensante, uma substância finita, se não fosse ali colocada por uma substância verdadeiramente infinita. A diversidade da idéia de Deus em relação às coisas externas só pode vir ao pensamento graças à causa mesma dessa diversidade, ou seja, graças a Deus. Se assim não fosse, toda a perfeição da idéia de Deus teria que estar em nós mesmos, o que faria de nós deuses, e que a realidade desmente.

Também nas Meditações, Descartes formula ainda uma prova ontológica de Deus. Segundo ele, uma vez que a existência é parte integrante da essência, não é possível ter a idéia de Deus, sua essência, sem admitir também a sua existência. Se não se pode conceber um Deus sem existência, resulta que a existência é inseparável dele e, portanto, Deus verdadeiramente existe.

Assim Descartes apresenta suas provas da existência de Deus obtidas pelo método racional. A razão se impõe como guia fundamental do homem na busca do conhecimento. O método, um verdadeiro sistema da razão, torna-a absoluta e permite alcançar a verdade de Deus na fundamentação lógica, como causa da idéia que habita sua consciência, e ontológica , na medida em que a definição de sua essência é garantia necessária da sua própria existência. O ser pensante, sua primeira certeza, só pode relacionar-se com um mundo externo na medida em que as idéias adventícias se mostram dignas de aprofundamento por parte do próprio método da razão. É graças à indiscutível objetividade da idéia de Deus e, portanto, da sua inegável existência, que este mundo se torna resistente à dúvida. O Deus Enganador e o Gênio Maligno são eliminados e o mundo se abre como objeto de conhecimento verdadeiro. Deus é, portanto, uma certeza da razão a partir da qual todas as outras se fundam. E não cabe ao homem, ser racional, duvidar de sua existência e de sua absoluta perfeição.

Essa concepção da razão e essa certeza quanto ao conhecimento da essência e da existência de Deus serão incondicionalmente reprovadas por Pascal. Para ele a alma humana não possui apenas a razão como faculdade superior : "Conhecemos a verdade não só pela razão, mas também pelo coração"[8]. Os princípios que a filosofia busca como arcabouço teórico fundamental das ciências, e em cuja empresa tanto se empenhou Descartes, não são objetos possíveis à razão, pois pertencem ao domínio do coração. À razão não cabe mais do que o conhecimento discursivo, demonstrativo, baseado em princípios que, naturalmente, fogem ao seu alcance. Trata-se de princípios indemonstráveis que naturalmente designam as coisas que eles significam. Como os metafísicos em geral, Descartes tenta definir o indefinível. Os princípios, que para a ciência nada mais são do que axiomas, são tomados como objeto de conhecimento filosófico. Nessa empreitada os filósofos batem-se uns contra os outros, cada um tentando provar um conhecimento daquilo cuja natureza não se pode conhecer com certeza:

"... quando tentam nos dizer o que é o tempo ("o tempo é o número do movimento segundo o anterior" ou "o tempo é o movimento de uma coisa criada"). Essas definições seriam completamente aceitáveis se seus autores se limitassem a nos dizer: cada vez que direi tempo, eis o que deveis compreender, como se a palavra fosse um som que ainda não tivesse sentido"[9]

 

Para Pascal, uma definição não deve ter por fim nada mais do que designar aquilo que nomeamos. Nesse sentido, a geometria supera completamente a filosofia. Seus axiomas são termos naturalmente entendidos. Essa admirável ciência, veículo das verdades eternas segundo Descartes, lida com coisas que ela na verdade não se preocupa nem um pouco em definir: espaço, tempo, movimento, número, por exemplo.

Da ilusão de conhecimento dos metafísicos é que se alimenta o ceticismo. A confiança exagerada que uns tentam depositar na razão acaba por finalmente motivar o seu total descrédito dentro da própria filosofia. Por outro lado, a compreensão imediata dos axiomas pela ciência, que ela assume e segue adiante, é marca da limitação da razão. A idéia de perfeição, que Descartes toma como prova da existência de Deus, é, na verdade, a prova do estado decaído do homem atual frente a sua primeira natureza. É a sua desproporção em relação a Deus que se revela. E o homem se vê exilado da companhia do Criador.

As provas dos filósofos não provam nada a respeito da natureza de Deus. Na medida em que somos finitos, só conhecemos a natureza do finito. A razão conclui pela existência do infinito, mas nunca a sua essência. O infinito também possui extensão, mas não possui nossos limites. Na tentativa de alcançar a Deus, a razão não faz mais do que ampliar ao máximo as idéias que possui. Perfeição, bondade, eternidade, são atribuídas a Deus como pretenso conhecimento d'Ele. Pela idéia de perfeição, Descartes procura vencer a desproporção entre Deus e o homem. Mas essa idéia apenas mostra a incapacidade humana de conhecê-lo. Essa desproporção, como se vê, não é conhecida de modo racional, pois a razão não detecta a sua própria insuficiência. Como não lida com os dados da fé, a razão não pode conceber a origem da idéia de perfeição nessa espécie de nostalgia ontológica, marca da grandeza do passado mais remoto do homem: "É o coração que sente Deus e não a razão. Eis o que é a fé. Deus sensível ao coração, não à razão"[10].

É o coração que sente a miséria humana, a sua desproporção em relação a Deus. Mas é essa desproporção que leva ao conhecimento da existência de Deus e lhe permite, pela fé, buscar a salvação. O esforço da razão, baseada na idéia de Deus, permitiria no máximo que o homem se dedicasse a amar uma simples idéia.

O verdadeiro Deus não é o mero geômetra universal de Descartes. É o Deus das escrituras, criador e salvador, que faz o homem sentir sua própria miséria, mero escravo das vaidades do mundo, solto no infinito que o conhecimento racional não pode abarcar. A ligação do homem com o absoluto se dá no coração. O conhecimento de Deus é dom de Deus. A intuição intelectual de Descartes não fundamenta o amor e, para Pascal, conhecimento e amor são inseparáveis. É a miséria humana que o coração sente e que Descartes e os  metafísicos, deístas  em geral, não conseguiram ver, iludidos com a suficiência que a razão lhes pareceu possuir. Mas o valor supremo da razão está justamente em reconhecer, ela própria, a sua estranheza em relação aos dados que só o coração pode lhe fornecer, isto é, aos princípios primeiros de qualquer ciência e a certeza de Deus.

Como os princípios fundamentais do saber são sentidos pelo coração, o conhecimento da razão é apenas mediato. Daí o absurdo da intuição intelectual. As verdades divinas não se deixam concluir pela simples lógica do homem. Somente a fé pode levá-lo a Deus. A verdade lógica que possa conter a chamada prova da existência de Deus é praticamente inútil, pois não leva à salvação do homem. Este, mesmo decaído, conserva em si, graças à ferida originária da queda, uma fenda para o transcendente. A miséria humana se disfarça no amor próprio, que transborda a sua dimensão original por causa do vazio provocado pela ausência do seu primeiro objeto de amor, Deus. Esse vazio só é preenchido pela graça divina que toca o homem e leva-o ao verdadeiro amor a Deus. O ponto fixo que liga o homem à infinitude divina se encontra em seu salvador  Por outro lado, o eu humano se percebe decaído a partir da dimensão divina humanizada em Cristo. Diferente do eu substancial cartesiano, que por uma exigência lógica do princípio de causalidade, encontra na idéia de Deus a causa suficiente do cogito e do mundo mecânico, como vimos, por meio de uma intuição intelectual.

Para Pascal, "a última tentativa da razão é reconhecer que há uma infinidade de coisas que a ultrapassam. Revelar-se-á fraca se não chegar a percebê-lo. Pois se as coisas naturais a ultrapassam, que dizer das sobrenaturais?"[11]. O esforço de Descartes resulta simplesmente absurdo: "Não posso perdoar Descartes; bem que queria ele, em toda a sua filosofia passar sem Deus, mas não pôde evitar de fazê-lo dar um piparote para pôr o mundo em movimento; depois do que, não precisa mais de Deus"[12]. E a segurança que Descartes julgou atingir a partir daí em relação à totalidade do conhecimento, mais parece obra de um romancista: "[Descartes – cumpre dizer, grosso modo: "Isso se faz por figura e movimento", porque isso é verdadeiro, mas dizer quais e montar a máquina é ridículo, pois é inútil e incerto, e penoso. E ainda que fosse verdadeiro, não acreditamos que toda a filosofia valha uma hora de trabalho.]"[13]. Daí que a verdadeira filosofia deva, por fim, zombar da filosofia.

Razão e fé. Nos estreitos domínios da primeira, a ciência empírica. No imensurável universo da segunda, o sobrenatural. No que diz respeito aos sentidos e ao raciocínio, só a razão pode conhecer. E onde dominar a experiência e a razão deve haver progresso. A expansão da inteligência pode ser contínua e infinita. A razão, como ponto móvel, transita livremente no infinito cujos princípios o coração e a fé lhe fornecem. Em relação ao método científico, Pascal estabelece um ideal  de saber científico, nunca plenamente alcançável, posto que significaria provar todas as proposições envolvidas no conhecimento das coisas. A dedução correta das conclusões pelas premissas anteriores pressuporia infinitamente outras premissas antecedentes, o que não é possível para a razão. Esse ideal postula o respeito incondicional ao mesmo método geométrico usado por Descartes na elaboração de seu pensamento. Mas mesmo esse método possui limites. O espírito geométrico não é suficiente para captar a riqueza e a profundidade das coisas. Os seus princípios, embora sólidos, não são definíveis.

Portanto, nos domínios da fé só a teologia pode se manifestar com certeza. E com a autoridade as escrituras em que estão contidas as verdades divinas e a fé revelada. Escrituras essas que são a prova do Cristo, que é a prova de Deus.

A razão é relevante para a fé. Mas a fé é dom de Deus. A primeira pode se desenvolver infinitamente a ponto de constatar a realidade miserável do homem. O que ela não pode é metafisicamente, e de modo arbitrário, estabelecer os seus princípios ou definir aquilo cuja essência não se pode jamais conhecer.




Autor: Roney Wagner Vieira