Etnocentrismo: Um desafio para o professor



Etnocentrismo: um desafio para o professor.

Brena Camila Lobato Pontes ¹

Caroline Rosa Mesquita ²

RESUMO– O artigo trata do etnocentrismo, seus conceitos e todas as conseqüências sociais que causa, e de que maneira essa realidade social é encontrada dentro do ambiente escolar e na própria sala de aula. E como o professor age ao se deparar com essa realidade.

Palavras Chave: Etnocentrismo, educação, ensino, professor.

Qual a melhor maneira de ensinar? Segundo Hirst, muitos dos atuais métodos educacionais estão construídos com base num conceito de ensino que está longe de ser claro. Os métodos propostos são de alguma maneira confusos, e de difícil aplicabilidade longe da realidade no cotidiano escolar. Se for verdade que as nossas atividades dependem do modo como às vemos, das nossas crenças à cerca delas, então, se tivermos idéias estranhas e esquisitas sobre o que é ensinar, será provável que, sob esse nome, façamos coisas estranhas e esquisitas. É muito difícil passarmos o conhecimento nos despindo de nossas crenças e valores, de maneira neutra; se certos conceitos estão incutidos em nós. Para o professor fica um peso muito grande, pois na escola temos alunos das mais diferentes origens, e cada grupo se acha melhor ao outro, único; e a verdade trazida por si é absoluta. Como discutir isso em sala sem gerar conflitos entre os grupos? Não existe uma categoria antropológica que caracterize melhor a relação dentro da escola do que o etnocentrismo.

¹Aluna graduanda no curso de Licenciatura Plena em Geografia no IFPA.

² Aluna graduanda no curso de Licenciatura Plena em Geografia no IFPA

Etnocentrismo é uma atitude onde visão ou avaliação de um grupo social é feita a partir dos valores do seu grupo gerando uma conclusão preconceituosa, pois um grupo étnico sempre se considera superior ao outro. E para cada um, uma ideologia contrária a sua é considerada uma espécie de afronta, falsidade, ameaça.

Segundo Carvalho etnocentrismo origina e tem origem na "heterofobia" (o Outro - em suas diversas formas: primitivo, selvagem, louco, imaturo, homossexual, "homens de cor", crianças problemáticas, fascistas, baderneiros, "hippies", "mulheres de vida fácil", hereges etc... - constitui "perigo" que deve ser exterminado). O etnocentrismo gera grandes problemas por todo o mundo, como grande conflitos religiosos, preconceito racial. Na sociedade há uma segregação entre grupos, pois o grupo do "eu" se acha superior ao do "outro" e simplesmente o exclui. Tudo isso que se observa nas relações sociais ocorre no universo escolar. E também na sala de aula, pois também nesse espaço ocorrem relações conflitivas e se manifestam divergências entre os grupos diferentes. Se conversarmos com um professor veremos como os alunos são etnocêntricos e que manifestam isso frequentemente nos mais diversos momentos da escola. A exemplo, um aluno novato na sala, ele primeiramente é conhecido só como "novato", é muito difícil para ele se entrosar com grupos pré-estabelecidos e muitas vezes se relaciona com outros novatos, caso isso não ocorra a formação de grupos de trabalho e a execução alguma atividade escolar cotidiana é inviável. A manifestação das diferenças, no ambiente escolar, deveria ser vista como elemento educativo, mas tornasse um elemento provocador de maior divisão, pois, a partir da postura etnocêntrica, o diferente não é visto como alguém que possa acrescentar valores, informações, mas é visto como alguém que deve ser evitado. Assim sendo, o "eu" relaciona-se com seus iguais negando os diferentes e as diferenças. A tendência é nos aproximarmos dos nossos iguais ou dos conhecidos afastando-nos dos diferentes ou estranhos. Essa situação pode ser comprovada, em sala de aula, na medida em que os professores propõem trabalhos em grupo, alterando as relações e grupos em "panelinhas" já formadas: ocorre uma forte resistência, por parte dos estudantes.

Uma postura do professor que deveria ser banida é a de fazer o juízo de valor de certo grupo de alunos, quando, por exemplo, durante a aula as conversas paralelas atrapalham a sala, o grupo dos "aplicados" o professor toma partido do grupo dos bons alunos, briga com os "alunos problema" aumentando a "rivalidade" existente entre eles gerando conflitos, o certo seria a observação da situação, e fazer o que a perspectiva antropológica propõe que é a relativização, a contraposição do etnocentrismo, pois quando compreendemos o "outro" nos seus próprios valores e não nos nossos: estamos relativizando. Enfim, relativizar é ver as coisas do mundo como uma relação capaz de ter tido um nascimento, capaz de ter um fim ou uma transformação. Ver as coisas do mundo como a relação entre elas. Ver que a verdade está mais no olhar que naquilo que é olhado. Relativizar é não transformar a diferença em hierarquia, em superiores e inferiores ou em bem e mal, mas vê-la na sua dimensão de riqueza por ser diferença. (ROCHA, 1999). O desafio maior para o docente é promover interações dos grupos diferentes, perceber que pessoas diferentes, costumes diferentes possibilita novas coisas a se aprender. Esse tipo de postura da escola é muito difícil.

O Etnocentrismo não se encontra somente nas relações sociais entre alunos, mas também no próprio conteúdo programático, a estória ainda ensina que o "outro" e sua cultura, da qual falamos na nossa sociedade, são apenas uma representação, uma imagem distorcida que é manipulada como bem entendemos. Ao "outro" negamos aquele mínimo de autonomia necessária para falar de si mesmo (CARVALHO, 1999). Ainda vemos nos nossos livros didáticos discursos totalmente distorcidos, etnocêntricos, que não dão ao aluno a mínima autonomia de tirar suas próprias conclusões. Pois os textos estão viciados na opinião de quem o escreveu, quando nos deparamos num livro de Geografia ,por exemplo, com o Capitalismo, geralmente os textos didáticos o apontam como o grande "vilão", a causa de todas as mazelas sociais do mundo, o Capitalismo torna-se algo totalmente negativo, o aluno não consegue enxergar um outro lado, qualquer coisa positiva no Capitalismo, e cria uma aversão a esse sistema e a certos países, como os Estados Unidos. Gerando cada vez mais preconceitos.

Considerações finais

O etnocentrismo é um fenômeno que ocorre em todos os setores da sociedade, na escola não poderia ser diferente, pois se trata de um local onde há grupos das mais variadas procedências, com hábitos, costumes, e culturas diferentes. Isso gera conflitos entre grupos sociais diferentes, porém a escola é a instituição que as pessoas atribuem grande parte da sua formação, então não pode ser permitido atitudes de exclusão por parte dos alunos, e nem por próprios professores, cabe a esse vencer seus conceitos pessoais e orientar corretamente os alunos para isso. Buscando sempre melhor o convívio da comunidade escolar. Pois os docentes precisam estar cientes que a exclusão escolar é o início da exclusão social.

Referência Bibliográfica:

  • CARVALHO, José Carlos de Paula. Etnocentrismo: inconsciente, imaginário e preconceito no universo das organizações educativas. Interface - Comunicação, saúde e educação, vol.1. 1997.
  • HIRST, Paul H. "What is Teaching", Journal of Curriculum Studies, Vol. 3, Nº 1 (1971), pp. 5-18, reimpresso in R.S. Peters (edr.), The Philosophy of Education, London: Oxford University Press,1973, pp. 163-177 (N.T.).
  • ROCHA, Everardo P. Guimarães Rocha. O que é etnocentrismo. São Paulo: Brasiliense, 1999. Col. Primeiros Passos. Pp. 7-22.

Autor: Camila Lobato