Língua Inglesa: Origem E Formação



(RESENHA TEMÁTICA)

Eliomar Rodrigues-Rocha

A língua só existe a título de sistema de construção para enunciados possíveis; mas por outro lado, ela só existe a título de descrição obtida a partir de um conjunto de enunciados reais.
Michel Foucault – A arqueologia do saber

1. Introdução

Neste trabalho abordarei dois aspectos relevantes na História da Língua Inglesa: a origem dos primeiros povos na região conhecida hoje como Inglaterra e a influência que sofreram na formação da língua falada naquele país. Consciente dessa necessidade busco, então, uma maior clareza para tais indagações. Para tanto, alinhavarei alguns pontos entre os vários povos que circularam na região da atual Inglaterra nas épocas de invasões: que língua, dialeto ou expressão usavam? O que predominou após sua circulação para outras regiões? Que convenções lingüísticas foram feitas pelos nativos nos aspectos fonológicos, sintáticos ou semânticos? Que relevância social, religiosa, econômica e política tinha determinado uso lingüístico?

De acordo com Crane, Yeager e Whitmam, na obra An Introduction to Linguistics, a história da Inglaterra se inicia com os celtas que se originaram, presumivelmente, de populações que já habitavam a Europa na Idade do Bronze (700 a.C) e as regiões hoje conhecidas como Espanha, França, Alemanha e Inglaterra. O idioma celta chegou a ser o principal grupo de línguas na Europa e espalhou-se em direção ao norte e sul, prova disso são os nomes de algumas tribos celtas que sobrevivem em Belgi – Belgium, Gaul – Gallic, Welsh – Wales etc..

Diferentes grupos celtas invadiram e colonizaram a Irlanda e a Bretanha durante um longo período surgindo, assim, o celta falado na Irlanda e Espanha, porém com a invasão romana em 55 e 54 a.C. novas mudanças acontecem na língua, pois após três séculos e meio de presença romana na região não é estranho que ocorra uma profunda influência nas estruturas econômica, política e social das tribos celtas que habitavam a Grã-Bretanha. Nesse contexto, algumas palavras e expressões passaram a ser usadas para muitos dos novos conceitos, como diz Baugh, “where the Romans lived and ruled there Romans ways were found"1 (1981, p. 45). Por volta de 410 a.C. as legiões romanas abandonam a região e os habitantes celtas ficam a mercê de inimigos. Necessitando de proteção, os celtas recorrem às tribos germânicas (Jutes, Saxons e Frisians), mas estas se aproveitam da oportunidade e se estabelecem nas áreas mais férteis do sudeste da Grã-Bretanha, destruindo vilas e massacrando a população local. Modificando, também, hábitos, costumes e tradições, refletindo seu domínio, principalmente no aspecto lingüístico, haja vista que quando comunidades diferentes se misturam durante um longo espaço de tempo a tendência é se estabelecer o que os sociolingüísticos denominam de conflito lingüísticos.  Nesse circular, o dominador impõe suas regras, seus valores, porque, de acordo com Michel Foucault (1999), toda classe que aspira à dominação deve conquistar primeiro o poder político, para depois apresentar seu interesse como interesse geral. E, sabemos que isso é somente possível através da língua.

Dessa maneira, os diversos dialetos germânicos falados pelos Anglo-Saxões é que vão dar origem ao Inglês. Podemos, a partir desse evento, dividir a História da Língua Inglesa em três grandes períodos: Old English, Middle e Modern English. Vale ressaltar que essa divisão está, convencionalmente, ligada aos aspectos históricos lingüísticos e não a marcos históricos, denominados documentos/monumentos por Foucault (2002).

2. Old English

Por volta do século V em diante, as terras da Inglaterra foram invadidas por tribos germânicas – Anglo-Saxões e Jutes. O dialeto anglo-saxão incorpora-se aos demais em uma espécie de domínio e o vocabulário inglês vai sendo grandemente influenciado ao longo do tempo. Com a introdução do cristianismo ocorreu a primeira onda de palavras do latim e do grego para a língua inglesa. Mais tarde fora influenciada pelos invasores escandinavos que falavam o Old Norse, que, provavelmente, assemelhava-se ao dialeto falado pelos povos anglo-saxões. Vários desenvolvimentos internos dentro do Old English reduziram o papel de inflexões por algum tempo e o contato com o Old Norse acelerou esse processo, especialmente nos dialetos falados no norte daquela região. O período Old English terminou com a invasão dos Normandos, quando a língua foi influenciada por um número maior de falantes que usavam o Norman dialect. Essa conquista foi de tamanha relevância, pois novas palavras incorporaram-se à língua falada pelas pessoas comuns, isto é, por servos e escravos. Mais tarde, muitos dos novos termos passaram a ser usados na corte e no militarismo adquirindo, portanto, um elevado status social.

O Old English não era uma língua uniforme, pois era preservada por inscrições runics nas traduções bíblicas complexas e fragmentos diversos. Em geral, a diferença entre o Old e o Modern English está na forma escrita, na pronúncia, no vocabulário e na gramática. De acordo com Baugh (1981), qualquer pessoa que não tenha uma especialização voltada ao Old English é incapaz de compreender qualquer texto da época. Por exemplo, a palavra stãn corresponde a stone no inglês atual. No entanto, a maior diferença entre esses dois períodos está na gramática, especificamente, no campo sintático e no campo analítico. Esse período  finda com a batalha de Hastings, em 1066, onde o rei William – o conquistador – derrotou o exército dos anglos – saxões e impôs suas leis seu sistema de governo e sua língua – a francesa. A partir desse evento se estabelece o segundo o período – o Middle English.

3. Middle English

Quando pensamos no Middle English nos vêm à mente imagens de castelos com altas torres, rodeadas por uma grande muralha, isso porque os castelos são características do sistema social normando conhecido como feudalismo. Entretanto, o elemento mais importante desse período foi, sem dúvida, a presença e influência da língua francesa no inglês. Essa verdadeira transfusão de cultura franco-normanda na nação anglo-saxônica, que durou três séculos, resultou principalmente, num aporte considerável de vocabulário – nada mais. Isso demonstra que, por mais forte que possa ser a influência de uma língua sobre outra, essa influência, normalmente, não vai além de um enriquecimento de vocabulário, dificilmente afetando a pronúncia ou estrutura gramatical.

O passar dos séculos e as disputas que acabaram ocorrendo entre os normandos das ilhas britânicas e os habitantes do continente, provocam o surgimento de um sentimento nacionalista e, pelo final do século XV, o inglês já havia prevalecido. Até mesmo como linguagem escrita, o inglês já havia substituído o francês e o latim como língua oficial para documentos. Muito vocabulário novo foi incorporado com a introdução de novos conceitos administrativos, políticos e sociais, para os quais não havia equivalentes em inglês. Em alguns casos, entretanto, já existiam palavras de origem germânica, as quais, ou acabaram desaparecendo, ou passaram a coexistir com as equivalentes de origem francesa, em principio como sinônimos, mas com o tempo adquirindo conotações diferentes. Podemos demonstrar tal asserção, com palavras como: answer – respond, shut – close, kingly – royal, help – aid, folk – people, look – search etc… Além da influência do francês sobre seu vocabulário, o Middle English se caracterizou, também, pela gradual perda de declinações, pela neutralização e perda de vogais atônicas em final de palavra e pelo início da Great Vowel Shift, que se caracteriza pela acentuada mudança na pronúncia das vogais do inglês, inclusive os ditongos sofreram alterações e certas consoantes deixaram de ser pronunciadas. Esse período traz uma onda de inovações no inglês, que foi denominada Modern English.

4. Modern English

O Modern English se estende do século XVI à atualidade. Na primeira parte desse período aconteceu uma revolução complexa da fonologia do inglês. Enquanto o Middle English se caracterizou por uma acentuada diversidade de dialetos, o Modern English representa um período de padronização e unificação da língua, porém sem uma pronúncia única ou uniforme, pois os sons variam de lugar para lugar e de grupo social para grupo social. Essas mudanças continuaram durante o período representado numa típica fonologia do inglês moderno. Mas, se as mudanças ocorridas na pronúncia não foram acompanhadas de reformas ortográficas, isso revela-se em um caráter conservador da cultura inglesa.

Outro ponto significativo é o uso da acentuação com o advento da imprensa com influência direta do Latim e Grego. Mais tarde, em contato com outras culturas e dialetos, a língua inglesa se desenvolve em muitas áreas onde os ingleses haviam colonizado, fazendo, assim, pequenas mas interessantes contribuições para o vocabulário do inglês, como por exemplo, os nomes dos dias da semana no inglês moderno que vieram dos nomes dos principais deuses anglo-saxões: Thursday (dia de Thor – o deus do trovão), Friday (dia de Frey – deusa da fertilidade). Esse nome vem da palavra escandinava Frigedaeg, conforme a revista Aquarius, 1995; e Sunday (o dia do deus sol) e assim sucessivamente. Como registra a História, os caldeus e os egípcios, muitos séculos antes de Cristo, já dividiam a semana em sete dias. Os antigos romanos, no tempo do imperador Augusto (63 a. C. – d.C. 14), usavam o termo “settimana” para designar a semana com sete dias. 

É significativo observar que o Modern English se inicia com a Renascença, período de reformas, descobertas, exploração etc. Nesse período, os pensadores e artistas, voltaram aos Clássicos e com eles muitas palavras latinas e gregas foram adotadas e muitos desses termos “inkhorn” sobrevivem ainda nos dias atuais.

5. Conclusão

Após uma imersão nos três períodos da história cultural da Língua Inglesa e analisando os aspectos, fonológico, sintático e semântico, bem como suas relevâncias no campo social, cultural, político e econômico, concluímos que a língua é o instrumento através do qual o indivíduo alcança o seu objetivo maior: a dominação seja ela através da sedução, intimidação ou imposição. Esse último, logicamente, predominando sobre os outros dois, uma vez que o colonizador, diante de um grupo que almeja colonizar, impõe bruscamente sua linguagem e sua cultura, como aconteceu no Brasil na época da colonização. Aos nativos não fora dada a chance do diálogo, antes, houve a usurpação e força opressora sobre todos. É importante que percebamos a necessidade do conhecimento lingüístico para que ocorra a colonização, pois, de acordo com Bakhtin (1997, p. 67), “somente através da experiência vivida é que se adquire a competência para determinados usos da língua”, isto é, no fazer do dia-a-dia é que nos construímos e somos construídos. Nas palavras de Foucault (2002, p. 96), “a língua só existe a título de sistema de construção para enunciados possíveis; mas por outro lado, ela só existe a título de descrição obtida a partir de um conjunto de enunciados reais”. Assim, podemos compreender que um enunciado pode ser feito de signos e, ainda, esses signos regem o enunciado, como diz Foucault, “os signos que constituem seus elementos são formas que se impõem e que os regem do interior” (2002, p. 96).

Com Foucault (1969, p. 22), concebemos o discurso como uma dispersão, isto é, como sendo formado por elementos que não estão ligados por nenhum princípio de unidade. Isso foi clarificado no trabalho ora elaborado. Podemos visualizar, de forma clara, que as palavras utilizadas pelos falantes, sejam da língua inglesa ou não, têm um ponto em comum: o objeto, o signo lingüístico, que existe, coexiste e se transforma num espaço comum discursivo. Ora servindo ao falante ora assujeitando-o, como nos ensina Roland Barthes em Aula: “os signos só existem na medida em que são reconhecidos. O signo é um seguidor gregário; em cada signo dorme esse monstro: o estereótipo” (p. 15). O convite está feito, trapaceemos com os signos, porque somente assim poderemos nos libertar dessa trama. Será isso possível? É preciso, como ensinou Foucault, que a soberania do significante seja suspensa.

6. Referências Bibliográficas

BARTHES, Roland. Aula. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Cultrix, 1988.

Baugh, Albert. A History of the English Language, Oxford: \University Press, 1997  

Bakthin, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem, Hucitec, São Paulo, 1997.

Claire, Kramsh. Language and Culture, Oxford Univ. Press, 4 edição, 2003  

Crane, L. Ben, Edward Yeager and Randal L. Whitman. An Introduction to Linguistics Boston: Litlle, Brown & Co, 1981.

Crystal, David. The Cambridge Encyclopedic of the English Language. Cambridge University Press, 2 edição, 2003.

Foucault, Michel. Arqueologia do Saber. Pontes, 2 edição, São Paulo, 2002.

____________. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1999.

AMOS, Eduardo. & PRESCHER, Elisabeth. Brasil and other stories. São Paulo: Moderna, 1995 [Aquarius – Level 1].


Autor: Eliomar Rocha