Henry Giroux: Uma interpretação humanizada da práxis pedagógica freiriana



Giroux, estudioso das idéias emancipadoras de Paulo Freire vem apresentar a teoria crítica educacional como instrumento de renovação pedagógica bem como instrumento de uma revolução educacional necessária no mundo pós-moderno.

Henry Giroux, professor nos Estados Unidos da América, um dos maiores representantes da teoria crítica educacional na atualidade, enquanto educador aborda questões de importância teórica, política e pedagógica refletindo o papel da educação escolar. Ele questiona o funcionamento das escolas em questão da ordem social democrática e igualitária defendida pelos países ocidentais.

As obras de Giroux oferecem aos educadores uma linguagem crítica para ajudá-los a compreender o ensino como uma forma de política cultural. A pedagogia de Paulo Freire e o pensamento de Gramsci já haviam alertado Giroux para as várias maneiras nas quais a ideologia é estabelecida e legitimada por meio das mediações e determinações multidirecionais de cultura, classe, etnia, poder e gênero[1]. Conseqüentemente Giroux considera que os professores precisam descobrir em seus estudantes como o significado é ativamente construído através de múltiplas formações da experiência vivida que dá as suas vidas um sentido de esperança e possibilidade. "Os estudantes deveriam aprender a compreender as possibilidades transformadoras da experiência". (GIROUX:1981).

Os escritos de Giroux continuam a ter a marca de seus compromissos e preocupações mais profundas. A pedagogia não se refere apenas às práticas de ensino, mas também envolve um reconhecimento da política cultural que tais práticas sustentam.

"Paulo Freire construiu uma teoria de educação que considera seriamente o relacionamento entre a teoria crítica e os imperativos do comprometimento e luta radical". (GIROUX: 1997, p. 145).

Considera Freire um "intelectual transformador".

Ao encarar os professores como intelectuais, podemos elucidar a importante idéia de que toda atividade humana envolve alguma forma de pensamento. Nenhuma atividade, independentemente de quão rotinizada possa se formar pode ser abstraída do funcionamento da mente em algum nível. Esse ponto é crucial, uma vez que, ao argumentar que o uso da mente é uma parte geral de toda atividade do homem, nós dignificamos a capacidade humana de integrar o pensamento e a prática e, assim, destacamos a essência do que significa encarar os professores como profissionais reflexivos. Encarar os professores como intelectuais também possibilita vigorosa crítica teórica das ideologias tecnocráticas e instrumentais subjacentes à teoria educacional que separa a contextualização, planejamento e organização curricular dos processos de implementação e execução. É importante enfatizar que os professores devem assumir a responsabilidade ativa pelo levantamento das questões sérias acerca do que ensinam, como devem ensinar e por que metas amplas lutar.

"En efecto, Freire es un intelectual fronterizo que no há jurado fidelidad a ninguna cultura ni clase específica, como en la noción de Antonio Gramsci del intelectual orgánico; en vez de eso, los escritos de Freire encarnan un modo de oposición y lucha discursiva que, no sólo desafía la maquinaria opresora del Estado, sino que también está bien dispuesto hacia la formación de nuevos movimentos u sujetos culturales dedicados a la lucha centrada en los valores modernistas de liberdad, igualdad y justicia". (GIROUX: Placeres Inquietantes – Aprendiendo la Cultura Popular, Barcelona, Paidós, 1996, p. 225)

Isso significa que os educadores devem assumir um papel responsável na formação dos propósitos e condições de escolarização. Tal tarefa é impossível com uma divisão de trabalho na qual os professores têm pouca influência sobre as condições ideológicas e econômicas de seu trabalho. Esse ponto tem uma dimensão normativa e política que parece especialmente relevante para os educadores. Se acreditarmos que o papel do ensino não pode ser reduzido ao simples treinamento de habilidades práticas, mas que, em vez disso, envolve a educação de uma classe de intelectuais vital para o desenvolvimento de uma sociedade livre, então a categoria de intelectual torna-se uma maneira de unir a finalidade da educação de professores, escolarização pública e treinamento profissional aos próprios princípios necessários para o desenvolvimento de uma ordem e sociedade democráticas.

Argumentamos que, encarando os professores como intelectuais, podemos começar a repensar e reformar as tradições e condições que têm impedido que os professores assumam todo o seu potencial como estudiosos e profissionais ativos e reflexivos. Acreditamos que é importante não apenas encarar os professores como intelectuais, mas também contextualizar em termos políticos e normativos as funções sociais concretas desempenhadas por eles. Desse modo podemos ser mais específicos acerca das diferentes relações que os educadores têm tanto com seu trabalho como com a sociedade dominante.

Um ponto de partida para interrogar a função social dos professores enquanto intelectuais é ver as escolas como locais econômicos, culturais e sociais delimitados às questões de poder e controle.

Dessa forma, podemos dizer que as escolas fazem mais do que repassar de maneira objetiva um conjunto comum de valores e conhecimentos. Pelo contrário, as escolas são lugares que representam formas de conhecimento, práticas de linguagem, relações e valores sociais que são seleções e exclusões particulares da cultura mais ampla. Como tal, as escolas servem para introduzir e legitimar formas particulares da vida social. Mais do que instituições objetivas, separadas da dinâmica da política e poder, as escolas são, de fato, esferas controversas que incorporam e expressam uma disputa acerca de formas de autoridade, tipos de conhecimento, formas de regulação moral e versões do passado e futuro dever a ser legitimados e transmitidos aos estudantes.

Essencial para a categoria de intelectual transformador é a necessidade de tornar o pedagógico mais político e o político mais pedagógico. Tornar o pedagógico mais político significa inserir a escolarização diretamente na esfera política, argumentando que as escolas representam tanto um esforço para definir o significado quanto uma luta em torno das relações de poder. Sendo assim, a reflexão e a ação críticas tornam-se parte do projeto social fundamental de ajudar os estudantes a desenvolver uma fé profunda e duradoura na luta de superar injustiças econômicas, políticas e sociais e humanizar-se ainda mais como parte dessa luta. O conhecimento, nesse sentido, e o poder estão intrinsecamente ligados à pressuposição de que optar pela vida, reconhecer a necessidade de aperfeiçoar seu caráter democrático e qualitativo para todas as pessoas significa compreender as precondições necessárias para lutar por ela.

Tornar o político mais pedagógico significa utilizar formas de Pedagogia que incorporem interesses políticos que tenham a sensibilidade de tratar os estudantes como agentes críticos; que tenham natureza emancipadora (tornar o conhecimento um instrumento problematizador); utilizar o diálogo crítico e afirmativo e argumentar em prol de um mundo qualitativamente melhor para todas as pessoas. Também significa desenvolver uma linguagem crítica atenta aos problemas experimentados em nível da experiência cotidiana, particularmente enquanto relacionados com as experiências pedagógicas ligadas à prática de sala de aula.

Os intelectuais transformadores precisam desenvolver um discurso que una a linguagem da crítica e a linguagem da possibilidade, de forma que os educadores sociais reconheçam que podem promover mudanças. Dessa maneira, devem manifestar-se contra as injustiças econômicas, políticas e sociais dentro e fora das escolas. Devem trabalhar para criar condições que permitam aos estudantes tornarem-se cidadãos munidos de conhecimento e coragem para lutar a fim de que o desespero não seja convincente e a esperança seja viável.

Paulo Freire combina o que Giroux chama de linguagem da crítica com a linguagem da possibilidade.

Utilizando a linguagem da crítica, Freire construiu uma teoria de educação que considera seriamente o relacionamento entre a teoria crítica radical e os imperativos do comprometimento e luta radical. Fazendo uso de suas experiências na América Latina, África e América do Norte, ele produziu um discurso que aprofunda nossa compreensão da dinâmica e complexidade da dominação. Alega que a sociedade contém uma multiplicidade de relações sociais contraditórias, em torno das quais os grupos sociais podem lutar e se organizar. Isso é manifesto naquelas relações sociais em que as condições materiais de discriminação de gênero, raça e idade estão em funcionamento.

Freire introduz uma nova dimensão da teoria e prática educacional radical. Quando Giroux refere-se à nova é porque ele liga o processo de luta às particularidades da vida das pessoas e, ao mesmo tempo, argumenta em prol de uma fé no poder dos oprimidos para lutar no interesse de sua própria libertação. Essa é uma noção, um discurso que cria um novo ponto de partida ao tentar fazer com que a esperança seja realizável.

"Los escritos de Freire son inseparables, tanto de su historia, como de su autor, pero tampoco se pueden reducir a la especificidad de unas intenciones o de una ubicación historica. Quizás el poder y el vigor de las obras de Freire de deban encontrar en la tensión, poesía y política que las convierten en un proyeto para cruzadores de fronteras, para aquellos que leen la historia como un modo de recuperar poder e identidad escribiendo de nuevo el lugar y la práctica de la resistencia cultural e política. La obra de Freire representa una zona textual fronteriza donde la poesía se desliza dentro de la política, y la solidaridad se convierte en un canto al presente, iniciado en el pasado y que espera ser oído en el futuro".(GIROUX: 1996, p. 236)

A educação, na visão de Freire, torna-se tanto ideal quanto referencial de mudança a serviço de uma nova espécie de sociedade. Enquanto ideal, a educação refere-se a uma forma de política cultural que transcende os limites teóricos de qualquer doutrina política específica, ao mesmo tempo em que interliga a teoria e a prática social aos aspectos mais profundos da emancipação. Conseqüentemente, como expressão de uma teoria social radical, a política cultural de Freire é mais ampla e mais fundamental do que qualquer discurso político específico, como, por exemplo, a teoria marxista clássica, ponto que muitas vezes confunde seus críticos. Na verdade, ela representa um discurso teórico cujos interesses subjacentes se formam em torno de uma luta contra todas as formas de dominação subjetiva e objetiva, assim como uma luta contra todas as formas de conhecimento, habilidade e relações sociais que promovam as condições para a emancipação social e, portanto, a auto-emancipação.

Para Freire, a educação representa tanto um local como um tipo particular de envolvimento com a sociedade dominante, podendo ser um referencial de mudança. A educação inclui e vai além da noção de escolarização. As escolas são apenas um local importante no qual ocorre a educação, no qual homens e mulheres tanto produzem, como são produtos de relações sociais e pedagógicos específicos. Na visão de Freire, a educação representa tanto uma luta por significado quanto uma luta em torno das relações de poder. Sua dinâmica nasce da relação dialética entre indivíduos e grupos que vivem suas vidas, por um lado, dentro de condições históricas e limitações estruturais específicas e, por outro, dentro de formas e ideologias culturais que dão origem às contradições e lutas que definem as realidades vivenciadas de várias sociedades. A educação é aquele terreno no qual o poder e a prática têm expressão fundamental, visto incluir e responder às crenças mais profundas acerca do significado do ser humano, sonhar e identificar, lutar por um futuro particular e forma de vida social.

A educação torna-se uma forma de ação que une a linguagem da crítica e a da possibilidade (processo dialético em Paulo Freire). Contudo, a educação representa a necessidade de um comprometimento por parte dos educadores em tornar o político mais pedagógico, o que significa tornar a ação crítica e a reflexão partes fundamentais de um projeto social que desenvolva uma fé profunda na luta para humanizar a própria vida.

Giroux, educador que acredita, defende e discursa sobre a concepção emancipatória da educação, centro da Pedagogia crítica, apresenta Paulo Freire como um pensador dialético que iluminou renomados pedagogos críticos no mundo. A fim de ser fiel ao espírito de crenças pedagógicas mais profundas de Freire, diz:

"Que nunca alegou que seu trabalho deveria ser adorado sem questionamento em qualquer lugar ou contexto pedagógico. Entendo, que o que Freire oferece é uma metalinguagem que gera uma série de categorias e práticas sociais. O trabalho de Freire não pretende oferecer receitas radicais para formas instantâneas de Pedagogia crítica. Ele consiste em uma série de indicadores teóricos que precisam ser decodificados e criticamente apropriados dentro dos contextos específicos nos quais possam ser úteis". (GIROUX: 1997, p. 151).

Freire criou uma teoria de poder e produção cultural que começa com a educação popular. Referimo-nos aqui à necessidade de trabalhar sobre as experiências que constituem a vida dos oprimidos, argumentando em prol de princípios pedagógicos que surgem a partir de práticas concretas – os espaços nos quais as pessoas vivenciam e reconstroem suas experiências cotidianas.

Freire: Intelectuais transformadores e a relação entre teoria e prática

Giroux ressalta que a importância entre teoria e prática, bem como a possibilidade de práticas emancipadoras foi muitas vezes negada e esquecida por intelectuais que afastaram das camadas populares a capacidade de definir por si mesmas os limites de seus objetivos e práticas. Ao assumir um monopólio de determinadas teorias, os intelectuais inconscientemente reproduziram a divisão do trabalho mental e manual que estava no centro da maior parte das formas de dominação. Em vez de desenvolver teorias da prática, enraizadas na experiência concreta de ouvir e aprender com os oprimidos, baseadas na necessidade de uma reflexão dialética sobre a dinâmica e os problemas cotidianos dentro do contexto da transformação social, alguns intelectuais marxistas ignoraram tal questão.

Freire, como o teórico social italiano Antonio Gramsci[2], redefine a categoria intelectual e argumenta que todos os homens e mulheres são intelectuais e, portanto, independentemente da posição social, podem desenvolver seus próprios intelectuais transformadores para aprender a construir um projeto social em prol das condições necessárias para um projeto com função essencialmente política e significativa de natureza pedagógica, popular e democrática.

Entretanto, a contribuição de Freire à natureza da teoria e prática e ao papel intelectual no processo de transformação social contém uma teoria que deve ser vista como a produção de formas específicas de discurso e atitudes que surgem de vários espaços sociais específicos.

"Tal discurso pode surgir nas universidades, nas comunidades, nos conselhos de trabalhadores, nas escolas públicas, ou dentro dos diversos movimentos sociais. A questão aqui é que os educadores críticos reconhecem que estes diferentes espaços dão origem a várias formas de produção e prática teóricas". (GIROUX: 1997, p. 155)

Por fim, Giroux, enquanto professor e intelectual que luta pela formação de novos intelectuais críticos e comprometidos, conclui que Freire oferece uma visão da Pedagogia e práxis em favor da vida, da emancipação do homem que vive em uma sociedade de diferenças sociais, acreditando que, através dos espaços escolares, com uma prática educativa comprometida, o educador se conscientize de que na construção de uma sociedade mais justa reside seu principal desafio.

Ampliar as discussões sobre a essência humanizadora da pedagogia freiriana será sempre um desafio, uma vez que tratamos de renomados educadores que, através da contribuição de Paulo Freire, tornaram-se educadores ainda mais progressistas e sensíveis à arte de educar. Talvez seja pela própria capacidade de aprender com Freire a construir a humildade em nossa práxis que sugerimos mais do que algumas centenas de linhas escritas e possivelmente decifradas. Entretanto, desejamos que as palavras transformem-se em ações que possam ser, de fato, as atitudes humanizadoras que Paulo Freire tanto desejou em nós, educadores.

Referências:

ALVES, Rubem Azevedo. Conversas com Quem Gosta de Ensinar. 4ª edição. São Paulo: Cortez, 1982.

FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler. 20ª edição. São Paulo: Cortez, 1987.

________. À Sombra desta Mangueira. 2ª edição. São Paulo: Olho D'Água, 1995.

________. Ação Cultural como Prática da Liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.

________. Conscientização – Teoria e Prática da Libertação: Uma Introdução ao Pensamento de Paulo Freire. 3ª edição. São Paulo: Moraes, 1980.

________. Educação como Prática da Liberdade. 3ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1971.

GIROUX, Henry. Os Professores como Intelectuais – Rumo a uma Pedagogia Crítica da Aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 1997.

________. Placeres Inquietantes – Aprendiendo la Cultura Popular. Barcelona, Paidós, 1996.

________. Paulo Freire e a Prática de Pós-Colonialismo. IN: MCLAREN, Peter; LEONARD, Peter; GADOTTI, Moacir (org.). Paulo Freire – Poder, Desejo e Memórias da Libertação. Porto Alegre: Artmed, 1998. p. 191-202.




Autor: Ana Oliveira