Do Terror de Isaac ao Abá de Jesus



Referência:

 

TORRES QUEIRUGA, Andrés. Do terror de Isaac ao Abbá de Jesus: por uma nova imagem de Deus. São Paulo: Paulus, 2001.

 

 

Queiruga procura, já na introdução desta obra, dar a tônica de sua reflexão a respeito da especulação acerca do Deus da Revelação desde os primórdios da experiência religiosa até a experiência libertadora de Jesus. Por isso, sua primeira preocupação se faz na própria explicação do título de sua obra. Assim, toda a metodologia utilizada por Queiruga se dá na reflexão teológica e no fundamento bíblico dos textos do Antigo Testamento e do Novo Testamento. Isso é de vital importância para todo o texto dos capítulos do livro, o que se justifica nos motivos de ordem teórico e objetivo que unem o que ele chama de razoes do coração em tal trabalho.

Dessa forma, queiruga faz a si mesmo – e aos leitores também – uma série de questionamentos, baseado, desde já, em fatos que a Bíblia narra no Antigo Testamento. Com isso, em seu primeiro capítulo, Queiruga aborda o conceito de Revelação e como este é entendido e professado pela Igreja, o que lhe dá um aspecto de preparação para os pressupostos do qual o autor se utilizará no restante de seu livro.

Dentre os pressupostos analisados, queiruga demonstra a conseqüência inevitável do fundamentalismo ou positivismo bíblico. Este aspecto se pauta na interpretação das palavras do livro sagrado como que um dito literal divino. Aqui abre-se um parêntese da análise de Queiruga feita não somente ao cristianismo, mas, também, às demais religiões do Livro (ou que tem por fundamentação um livro inspirado por Deus), como é o caso do Judaísmo e do Islamismo também.

O fundamentalismo (ou positivismo) bíblico consiste, como já sabemos, numa tomada ao pé da letra dos escritos inspirados por Deus. Não há uma preocupação hermenêutica a respeito dos porquês de se atribuir a Deus a peste, o assassinato ou a guerra, e tantas outras mazelas e benfazejas que acontecem cotidianamente na vida de um ser humano. E, como uma coisa puxa a outra, o fundamentalismo acaba atraindo o dogmatismo que prega as verdades do livro como verdadeiros dogmas, imutáveis e distantes da vida das pessoas e daqueles que já não tem mais acesso à linguagem e aos símbolos das gerações que já passaram. Desse modo a Bíblia torna-se algo estranho, enfadonho, contraditório, e o dogma se solidifica em conceitos arcaicos, ultrapassados, que já não conseguem mais se comunicar com a sociedade de hoje, o que dá asas a interpretações que não convencem a inteligência nem promovem a vida.

Há uma necessidade de se romper com o fixismo. Com isso, mostra-se que as coisas não são e nem podem ser refratárias, duras, enrijecidas. Tirar essa rigidez é trabalho para a teologia atual, conjugada com uma consciência crista que seja vivida na maturidade psicológica e cultural, o que se torna algo complicado e complexo. Esse trabalho é árduo, difícil e complexo pelo fato de exigir uma mobilidade geral, de todos os envolvidos nos recursos hermenêuticos realizados num campo de extrema profundidade e delicadeza, como o é o campo da fé. Isso, segundo Queiruga, dá à crítica a ela (à fé) um aspecto que muitos poderiam interpretar como que profanação, infidelidade ou abandono.

Toda as reflexões acríticas que o autor aborda no primeiro capitulo desembocam no segundo, no qual Queiruga toma uma reflexão sobre os estragos que a leitura acrítica da Bíblia pode causar na consciência religiosa. O sacrifício de Isaac abordado no primeiro capitulo tentava demonstrar a possibilidade de se eliminar o dano sem perder nada de seu autêntico significado. Contudo, esse significado precisa, também, ser reforçado. Dessa forma, o segundo capítulo do livro, que dá o nome a todo o conjunto da obra, busca algumas distinções fundamentais. Uma delas é a mediação feita entre o que os autores bíblicos pensavam no seu tempo e o que os de hoje, ao ler os autores passados, aprendem. Assim, a especulação do ontem deve ser feita com o pensar de hoje. Desse modo, a revelação é o caminho do qual a humanidade procura compreender, com o auxílio de Deus, sua presença e seu modo de agir na sua história.

O sacrifício de Isaac representa a aplicação direta dos princípios dados por uma hermenêutica suficiente para um tema bíblico clássico e que tem enorme força simbólica. Isso faz com que se assuma um caráter paradigmático para todos os demais capítulos. Daí uma análise um tanto mais filosófica, principalmente sob o crivo criticista kantiano no dizer da revolução do pensamento iluminista que pregava a saída do homem da ignorância e da infantilidade do pensamento preso, atrelado, mas que fosse de autonomia, capaz de sair da minoridade e da mediocridade e alçar vôos mais altos e mais produtivos.

A época da crítica, feita por Kant, que emancipa a razão filosófica da servidão à teologia é um desafio que já dá nuances do sentir de efeitos críticos sobre a própria Bíblia. Questiona-se, a partir de então, a leitura literal dos textos sagrados, permitindo um questionamento acerca do caráter real do fato e trazer novas bases para o significado. O sacrifício de Isaac, agora paradigma, conforme já dissertado, abre uma possibilidade de questionamento, uma saída para a leitura realista torna-se evidente. Assim, através da crítica de Kant, há uma possibilidade de observação do como a crítica costuma parecer um ataque frontal à fé, no início, mas que acaba sendo a única forma de preservá-la.

Já foi dito que a letra (a lei) mata, o espírito vivifica. O sacrifício de Isaac representa uma demonstração grandiosa de tal pressuposto. O pensamento de que Deus viesse a dar uma ordem para o sacrifício de uma criança inocente é hediondo e monstruoso na religião cristã e na cultura ocidental influenciada pelo cristianismo. Entretanto, analisando-se o contexto histórico, depara-se com um mundo religioso e cultural do qual nasceu a narrativa e, assim, compreende-se que certas coisas eram radicalmente diferentes de como pensamos e julgamos hoje. Julgar o passado com categorias de hoje, é um erro comum. Neste caso em particular da história de Isaac, os sacrifícios humanos eram condições até naturais para os povos da época do Antigo Testamento, inclusive em Israel. Portanto, o texto, analisado hoje com as ferramentas hermenêuticas devidas, mostra que o texto do sacrifício de Isaac é como que uma crítica ao sacrifício humano, em especial ao sacrifício de crianças.

Isso nos abre margem para o que Queiruga trata no capítulo seguinte. No capítulo terceiro, cujo título é Deus e o amor: o amor-ágape, princípio do cristianismo, faz a ligação da interpretação à misericórdia divina. Mantém-se, ainda, sob aspecto fundamental com os anteriores, mas, agora, formando a base principal da qual se assentarão os capítulos precedentes.

“Deus é amor” é um valor ontológico e não simplesmente interpretativo. Nesse aspecto, não há possibilidade de este Deus aceitar o sacrifício humano. Analisa-se então o aspecto não de um Deus que muda ou que é conveniente com as situações, mas sim um ser que é por todos os tempos, mas a interpretação feita pelos homens através das experiências vividas.

Junto ao tema do amor vem a problemática do mal. Queiruga faz, no quarto capítulo, uma análise do mal e seus dependentes: o estilo e vivencia da relação do homem com Deus. O Deus Antimal, como cita o autor, é o núcleo de uma nova coerência. Desse tema vai-se ao do pecado original, na insistência que muitas teologias morais têm de enfatizar castigo e inferno para os que não seguem nos desígnios da bondade de Deus.

A revelação não é um dado a ser visto como vindo de um Deus mesquinho e vingativo, capas de manifestar-se paulatinamente e de forma seletiva, mas é algo que resulta do amor incansável a ser dado e demonstrado a todos os homens e mulheres. Com isso, procura-se superar pacientemente os limites da inteligência humana, da situação cultural de cada um e vencendo as resistências das próprias vontades ou das distorções de nossos egoísmos.

Ora, Deus-amor deve estar ligado a Deus-justiça. Enquanto justiça, o Deus Antimal de Queiruga não se desvia da abordagem ao problema da pobreza. Nos tempos atuais, ao falar de pobreza, exige-se certa lucidez do contexto ao qual ela (a pobreza) está configurada. A experiência bíblica é o lugar de origem da justiça divina. A problemática da justiça, abordada no capítulo quinto, se revela surpreendente por seu alcance e por seus conflitos, entusiasmos e rejeições, suscitados na Igreja e na sociedade. A tentativa de Queiruga nesse capítulo é a de esclarecer o verdadeiro sentido de “justiça” divina feita aos mais pobres precisamente porque ama e ama a todos, sem exceções.

Se Deus ama a todos, sem exceções, ama também os que professam um tipo de crença diferente. O sexto capítulo, desse modo, traz uma abordagem de Deus nas religiões. Não há uma hierarquia que garanta que uma determinada religião é a melhor, todas trazem seus germes de verdade. Por isso dois aspectos para se fugir, também, do fundamentalismo e do dogmatismo é a busca pelo diálogo ecumênico e pelo interreligioso. O que também implica o que o autor tratará no capitulo seguinte que é a problemática de Deus e a cultura, partindo do pressuposto de evangelizar deixando-se evangelizar. A teologia não pode ser fechada em si mesma. Tem que estar inserida na cultura, dialogando com ela e com as religiões presente nela. Há um cuidado enorme a se tomar para que o discurso de conversão não se torne algo proselitista nem fundamentalista. E a solução para que isso não aconteça é a abertura ao diálogo, à relação exterior, ao diferente.

A especulação de Queiruga é densa. Sua obra perpassa desde o Antigo Testamento ao Novo. Isso nos dá um panorama amplo da história da Salvação e, por conseguinte, da Revelação. Claro que um tema tão abrangente e tão rico deixaria a obra em certas limitações. Mas, para uma disciplina que pensa o dado da revelação, o tema de Queiruga é extremamente importante e pertinente. Ele, em momento algum, abandona a categoria histórica da revelação, o que encarna e torna bastante claro o tema.

A sensação que antigamente se tinha de que Deus vai mudando com o passar da história da Salvação vê-se notoriamente contrária com as teses do autor. Não é Deus quem vai mudando, mas a interpretação e os instrumentais hermenêuticos que os homens e mulheres vão empregando. Colocar instrumentais hermenêuticos fundamentalistas e dogmáticos na revelação é engessá-la, enrijecê-la. A proposta, portanto, do autor é, a exemplo da crítica kantiana, desprover-se dos pressupostos que nos amarram e nos colocam na minoridade da interpretação e ousar saber, ousar progredir, sem agredir, no entanto, a fé. É, para encerrar, o que muitos teólogos cristão já pensaram: unir fé e razão para enriquecer uma na outra, não as tornando inimigas, mas complementos uma da outra.

 

 


Autor: Anderson Rodrigo Oliveira