FATORES QUE INTERFEREM NO DESEMPENHO ESCOLAR: UM ESTUDO A PARTIR DO PROVA BRASIL 2007.



Alcione Almeida Lauriano1

Gisela Roseane Holanda da Silva2

Geraldo Barroso Filho3

Resumo

Este artigo expõe o resultado de uma investigação sobre o cotidiano escolar de duas escolas públicas municipais da cidade do Recife, escolhidas em função dos desempenhos distintos que apresentaram no Prova Brasil 2007. A metodologia fundamentou-se numa análise interpretativa, colocando as pesquisadoras numa relação íntima com o objeto da investigação. Como instrumentos de coleta de dados foram feitas observações em sala de aula e entrevistas com as professoras e diretores. Os resultados apontaram que as duas escolas, situadas em bairros da periferia da cidade do Recife, apesar de abrigar alunos com o mesmo nível sócio-econômico e as professoras possuírem escolaridade de nível superior, os diferentes resultados obtidos na Prova Brasil permitem afirmar que a prática docente foi fator relevante no rendimento escolar e que a gestão participativa foi um suporte decisivo para o sucesso de professores e alunos.

Palavras-chave: rendimento escolar, cotidiano escolar, fracasso escolar.

Introdução

A escola pública é a instituição social historicamente encarregada de promover o desenvolvimento das crianças quanto à aquisição de conhecimentos específicos. Esses conhecimentos, acumulados ao longo da história da humanidade, se constituem em instrumento indispensável para a vida numa sociedade letrada. Apesar disso, na atualidade, a escola pública tem investido menos nessa missão essencial - a transmissão desses conhecimentos – e mais em assistência de caráter material aos alunos (como alimentação, guarida, e apoio financeiro às famílias).

1 Concluinte do Curso de Pedagogia da UFPE. alcioneal@hotmail.com

2 Concluinte do Curso de Pedagogia da UFPE. giselaholanda@hotmail.com

3 Professor Doutor do Centro de Educação da UFPE. gebafi@bol.com.br

Embora muitas lutas tenham sido estabelecidas em prol da universalização de uma escola pública e gratuita, a educação escolar ficou durante muito tempo relegada a terceiro plano, sempre oscilando de acordo com as políticas públicas (SACRISTÁN, 2001).

A problemática do fracasso do ensino público no Brasil pode ser visualizada a partir dos dados do Prova Brasil 2007. São dados que revelam que o rendimento escolar dos alunos das escolas brasileiras está abaixo do desejado para um país que se pretende desenvolvido. Segundo a Lei nº 9394 de 1996 (Lei de Diretrizes e Bases) um dos objetivos do Ensino Fundamental é propiciar às crianças ``o desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo´´;no entanto, não é esse aspecto revelado pelos índices da Prova Brasil; pelo baixo rendimento dos alunos fica evidente que este objetivo não está sendo alcançado.

Além dos baixos índices do Prova Brasil, os números da evasão e da reprovação na escola pública são acentuados (PATTO, 1996). Estes fatores despertaram o nosso interesse em conhecer com mais profundidade esta realidade escolar. Ao final do curso de Pedagogia vislumbra-se uma escola que fomente o conhecimento e vise à igualdade social, no entanto, o fracasso escolar é assustador e requer uma análise mais detalhada no locus da escola.

Devido aos números crescentes da população que passou a ter acesso à escola começou a incomodar a questão do fracasso escolar. Diante disso e na tentativa de suprir essa carência, surgiram os programas de educação compensatória. Esses programas têm como objetivo oferecer às crianças das classes sociais marginalizadas condições para que elas recuperarem o atraso, diminuindo assim o seu estado de carência. Nesse processo a escola pública universal que deveria ser uma instituição que levaria igualitariamente a cultura escolar para todas as crianças, acaba criando estratégias paliativas para conformar o povo. É dessa maneira que a escola tem se mantido até os dias atuais, oferecendo uma assistência educativa precária e prevalecendo o papel assistencialista.

Nossa pesquisa buscou a realidade escolar de duas escolas públicas na cidade do Recife a partir dos dados do Prova Brasil. Esperando colocar em discussão o papel da escola dentro de uma sociedade marcada por profundas desigualdades sociais, desvelando algumas relações entre os índices do Prova Brasil e a realidade do cotidiano escolar na consecução dos seus objetivos educacionais.

Entende-se que os dados do Prova Brasil são, apenas, indicadores quantitativos que por si só não explicam nada, fazendo-se necessário, portanto, uma análise específica das unidades escolares para dar um significado a esses indicadores. Nesta pesquisa, essa busca foi realizada em duas escolas do município do Recife, onde as duas apresentaram resultados bem distintos, provocando em nos o interesse de saber o porquê considerando a homogeneidade da rede escolar e do perfil sócio-econômico dos alunos, tendo por objetivo investigar o seu cotidiano escolar.

Para tanto delimitamos como objetivos, fomos impulsionadas pelo desejo de investigar, no seu cotidiano, como essas escolas vinham promovendo o desenvolvimento das crianças quanto à aquisição de conhecimentos específicos em língua portuguesa e matemática, analisando nos dados do Prova Brasil, o desempenho dos alunos da 4ª série, II ano do II ciclo do Ensino Fundamental dessas escolas.

Marco teórico

ESCOLA: NASCIMENTO, CONSTITUIÇÃO, MISSÃO

A escola embora pareça que sempre existiu, tal como a conhecemos hoje, ela foi se constituindo ao mesmo tempo em que surgia um novo modelo econômico e social, o capitalismo. Ela nasceu de uma necessidade de habilitar a burguesia no domínio de conhecimentos científicos necessários para controlar o processo produtivo e assegurar prestígio social e político.

Essa escola, nascida para a formação da classe dominante, passará em determinado momento histórico, a ser reivindicada pela classe trabalhadora. Com isso a burguesia, necessitando de mão de obra qualificada para o trabalho, habilitou a escola para essa função. Nasce a escola pública para atender a dois objetivos: criar esperanças de igualdade social ofertando educação aos proletários e preparar para o exercício de um trabalho qualificado socialmente. Ela nasceu como obra de uma classe ascendente, que dela fez uso para se fortificar, e acabou se tornando em uma instituição de grande prestigio, como uma esperança de ascensão social para todos.

No contexto do século XX, onde cada vez mais o mundo torna-se globalizado, a escola foi se constituindo como a instituição responsável por preparar os indivíduos para a sua inserção no mundo do trabalho, além de ser um espaço socializador (SANTOS e PAULINO, 2006, p. 38). O Brasil a legislação educacional estabelece que a escola tem por princípio e fim preparar os educandos para o seu pleno desenvolvimento no exercício da cidadania e qualificação para o trabalho.

Contudo, os resultados da Prova Brasil mostram que a escola pública e gratuita precisa ser discutida, criticada, para avaliar quais os benefícios sociais que a mesma traz, para toda a população e não apenas para uma pequena parcela da sociedade.

O COTIDIANO NO CONTEXTO ESCOLAR

No decorrer dos últimos anos a escola vem se constituindo como uma importante integrante do contexto social. Assim, aquilo que ocorre no interior das escolas, a prática pedagógica não pode ser entendida de forma isolada da sociedade. Como demonstra Penin (1995, p. 12-13):

Apenas há algumas décadas o estudo da instituição escolar adquiriu características novas, pelo o trabalho de estudiosos da educação que vêm se esforçando para realizar a difícil tarefa de articular teorias educacionais numa perspectiva histórica, tomando como foco a escola no seu dia-a-dia e buscando entender como se determinam reciprocidade os processos internos, burocráticos ou não, com os processos sociais mais amplos que estão ocorrendo num determinado período e conjuntura.

A escola em seu dia-a-dia é um universo bastante diversificado, onde, há uma finalidade aparentemente conhecida, formando grupos relativamente homogêneos com indivíduos diferentes, onde estes desempenham atividades variadas, com significados, que para uma parcela desses indivíduos é inadequado e não constitui desafio, nem provoca aprendizagem (PERRENOUD, 2001, p. 26).

Então esse cotidiano escolar, para ser dinâmico e reflexivo deverá desenvolver um trabalho que contribua para o desenvolvimento de uma prática pedagógica que possibilite a formação de um(a) cidadã(o) com instrumentos para compreender e cooperar na transformação social. Diante disso, as escolas devem organizar os seus espaços e disponibilizar recursos visando facilitar o trabalho do professor. Essa preocupação é necessária para quem quer garantir um ensino que seja significativo para o aluno. Então, há uma busca pelo um caminho não fragmentado do cotidiano, para que se possa desenvolver o dinamismo próprio da vida escolar, fazendo com o que parece insignificante se torna tão importante quanto o institucionalizado, porque é produção de sujeitos. "Ou seja, as criações devem vir à vida cotidiana para verificar e confirmar a validade da criação" (PENIN, 1995, p. 17).

Nesse sentido é importante destacar a relação dinâmica realizada pelos sujeitos no processo educativo. Então, a organização do dia-a-dia da escola tem uma grande importância para a construção do conhecimento, bem como o espaço, a organização dos materiais, a organização do tempo, a relação professor-aluno, a comunicação entre a família e a escola, a metodologia de ensino, a gestão, esses são algumas dimensões que constitui o cotidiano escolar.Isso significa que o nível cotidiano não é o campo fechado, mas liga-se a outros níveis da realidade, assim como a globalidade (PENIN,1995, p. 16).

Diante disso, essa autora afirma que a escola tem o objetivo de transmitir o saber cultural organizado, mas que o aluno só atingirá tal saber se for considerado o saber popular que já possui, o saber que faz parte do universo desse aluno e dos seus pais.

Em meados do século XIX a escola era uma instituição aberta para a classe favorecida, a vista que podia pagar para freqüentá-la. Apesar de quase toda a população ser analfabeta, isso não parecia ser um problema para a classe dominante já que a mesma sempre desfrutou de seus privilégios.No decorrer do século XX as escolas para pobre se legitimaram, na perspectiva de uma educação voltada quase sempre para disciplinar e preparar as massas para o trabalho. Ou seja, uma educação que contribuísse para manter a ordem social sem questioná-la. Sacristán (2001) critica o que deveria ser uma educação esclarecedora e construtora de uma ordem racional, criadora de uma ordem na conduta individual e no comportamento social, mas que se transformou em uma forma de ordem disciplinadora e de submissão do sujeito.

Mas mesmo a escola surgindo por alguns interesses da elite, ela se transformou numa das maiores realidades sociais da vida do individuo (SACRISTÁN, 2001, p. 11). Tornou-se como o ar, cuja importância e presença só nos damos conta quando ele nos falta para respirar.

A escolarização obrigatória se consagrou e se tornou cotidiana e presente no dia-a-dia das pessoas. Porém isso não se deu de forma igual, e o que foi percebido no sistema escolar que está ai, até hoje, é uma escola hierarquizada. Ainda hoje, apesar de a escolarização ser apreciada geralmente como o progresso, parece ser contraditório: alguns a vêem como imposição disciplinadora; outros apreciam, fundamentalmente, como "capital humano" necessário para a produtividade econômica; outros a valorizam como a fonte do saber redentor da ignorância a da irracionalidade (SACRISTÁN, 2001, p. 19).

A iniciativa de uma universalização descontextualizada resultou numa escola que evidencia o valor das competências da minoria rica e legitima o fracasso da maior parte da população. E o que deveria combater a desigualdade social torna-se a causa de uma maior desigualdade, pois no momento que a escola abre as portas a uma população já bastante humilhada, sem oferecer uma verdadeira mudança para sua condição desumana e submissa, legitima a sua condição inferior.

ASSISTENCIA SOCIAL COMO SERVIÇO DO ESTADO E OUTRAS MISSÕES

Historicamente no Brasil o atendimento à criança é concebido com vista a assistência médico-pedagógica para o desenvolvimento do país, que segundo Kramer (1995), analisando o período do descobrimento até 1930 o atendimento tem a tônica médico-sanitário, já o período de 1930 à 1980 tem o cunho assistencialista. E, até os dias de hoje, ainda temos a educação brasileira, em particular a infantil, sendo oferecida de forma compensatória, no sentido das famílias receberem ajuda financeira, seja do Governo ou de instituições beneficentes, para que mandem as criança à escola. Tem-se a Educação como mercadoria, como privilégio, que quando oferecida às classes pobres é tida como ``favor´´, não se reconhecendo que a Educação é um direito de todos.

Dessa forma mesmo sem ter a obrigação estatal original de prestar serviço de assistência social, a estrutura da escola em si mesma já presta tal papel quando abriga as crianças que poderiam estar nas ruas, ou sozinhas em casa; oferece comida em horários regulares (já que muitas famílias não poderiam arcar com tais despesas); o fardamento e o material escolar, que hoje é doado por algumas prefeituras.

Esse caráter assistencial garante o prestígio cada vez maior da escola na sociedade. Com isso as pessoas começam a cobrar mais responsabilidades da escola, tais como: redução de problemas no trânsito; assistência a adolescentes grávidas, ou adolescentes com AIDS (educação sexual); melhoria do meio ambiente; educação de cidadania; etc. Assim, aos poucos a escola vai ampliando o âmbito de tarefas e perdendo seu foco. A própria mídia contribui em muito para tal visão, quando repete que: ``o problema do Brasil é a falta de escola´´, como se a escola fosse resolver todos os problemas do país.

Com o aprofundamento das contradições sociais, a população aumentando desordenadamente, surge a preocupação em fornecer suplemento alimentar e implementar políticas sociais. É nesse contexto que são implementadas as políticas públicas na saúde, saneamento básico, transporte coletivo, etc.; mesmo que sejam medidas paliativas, compensatórias, elas diminuem as tensões sociais. Na educação não foi diferente. Inicialmente para que as mães pudessem deixar seus filhos sobre os cuidados da instituição não tendo a preocupação em trabalhar pedagogicamente e sim de cuidar da higienização e outros cuidados, ou seja, uma educação completamente assistencialista, que até hoje ainda perpetua, apesar dos grandes avanços.

Metodologia

Na pesquisa optamos por uma abordagem predominantemente qualitativa, porque segundo Antonio Chizzotti (1995, p. 79) ela inicia-se fundamentada numa relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, numa ligação intima entre o sujeito e o objeto. O conhecimento nessa perspectiva não se limita a dados isolados, desconectados, mas a fatos que emergem de uma realidade escolar concreta.

A pesquisa investigou o fenômeno do fracasso escolar nas escolas selecionadas no seu cotidiano através de estudo de caso. Não se pode conhecer a escola apenas por uma dimensão instrucional, é preciso se incorporar à mesma, entrar na sua dinâmica, vivenciando a realidade da escola e analisando as suas outras dimensões. Assim, o conhecimento novo surgiu usando de três fontes de dados: o bibliográfico e os dados gerados a partir das observações e das entrevistas.

A pesquisa documental sobre o Prova Brasil foi realizada no site do Ministério da Educação1. Para o estudo de campo selecionamos duas escolas públicas da Cidade do Recife, na 4ª série, II ano do II ciclo do Ensino Fundamental, tendo por sujeitos da pesquisa os seus professores, alunos e diretores. Entre as duas escolas escolhidas uma, foi a que teve pior desempenho no Prova Brasil 2007, situada no bairro de Mangabeira, e a outra a que teve melhor desempenho entre as escolas do município de Recife, situada no bairro de Três Carneiros. Nestas se analisou os resultados no ensino de língua portuguesa e matemática na quarta série, de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais quais habilidades que os alunos deveriam estar aptos.

Nas escolas realizamos observações, tanto dentro da sala de aula quanto fora, onde não participamos das atividades escolares, apenas nos detínhamos em conhecer o cotidiano escolar evitando interferir em sua dinâmica. Nós pesquisadoras fizemos as observações individualmente e em dupla, colhendo dados e confrontando as informações prestadas nas entrevistas.

Nas observações analisamos as atividades desenvolvidas pelas professoras; quais os instrumentos didáticos utilizados em sala de aula e como foram utilizados; como se davam as relações aluno-professor, professor-aluno e aluno-aluno; e como os alunos demonstravam entendimento nasaulas

1Disponível em: http://provabrasil.inep.gov.brem 04/04/2008.

através dos diálogos. Para o registro das observações fizemos relatórios, procurando captar o universo escolar.

Quanto às entrevistas com as professoras foram semi-estruturadas e aplicadas a cada professora individualmente depois, procuramos investigar como as professoras organizavam a rotina em sala de aula; os procedimentos metodológicos adotados pelas professoras em sala de aula; como foi a disciplina; como as professoras avaliavam os alunos; como a assistência financeira ajudava no rendimento escolar; como foi a relação professor x alunos, etc. As entrevistas com a direção das escolas foram abertas e somente foi possível com uma das escolas, onde procuramos colher dados de como era a sua gestão.

Nossa pesquisa lidou com três tipos de dados: aqueles que foram extraídos da Prova Brasil 2007; os que foram produzidos por nossas observações; e os dados das entrevistas.

Descrição dos dados

A Prova Brasil – Avaliação do Rendimento Escolar é uma avaliação de larga escala constituída pelo Ministério da Educação, e elaborada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – INEP. A Prova Brasil avalia todos os estudantes da rede pública urbana de ensino, de 4ª e 8ª séries do Ensino Fundamental. A primeira edição foi em 2005 e em 2007 houve nova aplicação. A Prova Brasil avalia as habilidades dos alunos em Língua Portuguesa (foco em leitura), com uma escala que vai de 0 a 8, e Matemática (foco na resolução de problemas), com uma escala que vai de 0 a 9, onde cada número na escala indica um nível de conhecimento, quais as habilidades que os alunos desenvolveram e quais ainda precisam desenvolver.

A avaliação do Prova Brasil é quase universal porque é feita com todos os estudantes da 4ª e 8ª séries, de todas as escolas públicas urbanas do Brasil que contem com mais de 20 alunos em cada série. Porém, a adesão da escola à prova é facultativa, mas é necessária a adesão da escola para que o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – IDEB da escola seja calculado.

O IDEB foi criado em 2007 para oferecer um índice que medisse a qualidade da educação brasileira, sendo estabelecido uma escala que vai de zero a dez. A partir deste instrumento, o Ministério da Educação traçou metas de desempenho bianuais para cada escola e cada rede até 2022. O IDEB é um indicador objetivo para a verificação do cumprimento das metas fixadas no ``Compromisso Todos pela Educação´´, eixo do PDE (Plano de Desenvolvimento da Educação) onde trata da Educação Básica. Registre-se que o sistema educacional brasileiro como um todo apresenta um IDEB de 3,8 para a primeira fase do ensino fundamental.

O Plano de Desenvolvimento da Educação do Brasil propõe metas para a educação que até 2021 alcançar o índice do IDEB de 6,0 que é a referencia dos países desenvolvidos. Em 2007 o índice chegou à uma média de 4,00. Na escola que obteve pior resultado, seu IDEB foi 2,7 e a melhor 5,1.

No Recife, onde nossa pesquisa foi realizada, os resultados do Prova Brasil 2007 demonstraram que a maioria das escolas na cidade do Recife tiveram uma melhora significativa em relação à Prova Brasil 2005. Em 2007 a escola que obteve pior resultado foram 48 alunos participantes, em português não ultrapassou da escala 0, com o nível 123,84, em matemática chegou a escala 1, com nível 145,69. Na escola que obteve melhor resultado, foram 31 alunos participantes. Em língua portuguesa sua escala foi 4, com nível 189,13; em matemática a escala foi 5, com nível 218,69.

A escola que obteve melhor desempenho será chamada de escola A e a escola que obteve pior desempenho chamaremos de escola B. Na escola B foram duas salas de aula observadas, e foram entrevistadas suas respectivas professoras. Não foi possível entrevistar a diretora porque ela se disse muito ocupada e não se mostrou disponível.

Na escola A não houve observação em sala de aula porque segundo o diretor da escola, eles estavam com problemas na 4ª série e nós não íamos encontrar o mesmo ambiente dos anos anteriores porque a professora que tinha acompanhado os alunos desde a alfabetização não estava mais lecionando, então a 4ª série deste ano já tinha passado por quatro professoras e nenhuma tinha conseguido bons resultados. Então ficamos na escola A apenas com as entrevistas com o diretor e com a professora da 4ª série de 2007, que agora era vice-coordenadora da mesma escola.

A escola A estava funcionando em dois prédios improvisados, porque a sede estava com rachaduras que poderiam ceder, e fica numa encosta no Alto do Ibura. Assim, uma parte da escola ficava no porão de uma igreja e a outra parte dentro de outra escola municipal do mesmo bairro, porém num espaço maior. A parte que fica na igreja é bem limpa, iluminada, as salas são pequenas e bem divididas e a outra parte são duas salas de aula pequenas, iluminadas, e ventiladas. Nas duas partes consta de guardas na entrada que ao chegar pedem identificação.

Na escola B o espaço é bem amplo, as salas de aula são iluminadas e com ventilação, porém não tem portas nas salas de aula e todo o barulho dos corredores e pátio é ouvido dentro da sala. Na secretaria, trabalham a diretora, a supervisora e uma secretária, a sala é pequena e quando entramos ficou bastante apertada. Tem uma biblioteca muito pequena, a sala de informática com 3 computadores funcionando, para toda escola, um refeitório, as bancas na maioria das salas são velhas. A escola consta também com um guarda na entrada, que não pediu identificação para a nossa entrada.

As duas salas de aula observadas da escola B são espaçosas, mas bastante desorganizadas e sujas, as paredes são riscadas e com alguns trabalhos de alunos já envelhecidos colados nas paredes, todo o barulho da escola é ouvido dentro das salas de aula. A maioria dos alunos usa fardas, e freqüenta as aulas uma média de 20 a 25 alunos.

As aulas em Língua Portuguesa na escola B, nas duas salas de aula foram bastante monótonas, os textos eram lidos apenas por alguns alunos, as professoras não faziam perguntas que levassem os alunos à inferirem sobre os textos, havia alunos que ainda não sabiam ler e para eles as professoras passava exercícios de cobrir palavras simples e copiar o nome ou dava papel em branco para desenharem.

Na escola B os alunos eram comunicativos, conversavam entre si, mas uma das professoras sempre mandavam eles calarem a boca e ameaçavam dizendo que ia mandar para casa e eles iam ficar sem o `Bolsa Família´ e ainda iam apanhar dos pais. Já a outra professora se relacionava bem com os alunos e eles até traziam de casa poesias para ela lê.

Numa das salas de aula da escola B na aula de matemática os alunos tinham a tabuada copiada no caderno, e os exercícios eram para serem feitos olhando a tabuada, a professora reclamava o tempo todo com os alunos, e eles ficavam o maior tempo calados, a professora não levantava para dar explicações sobre as tarefas, apenas copiava do livro e sentava e esperava eles responderem. Quando perguntada se eles não tinham livros didáticos a professora respondeu sim, mas que os livros eram muito avançados para eles. Na outra sala a professora colocava apenas um exercício no quadro e aguardava eles fazerem, sem dar explicações. As duas professoras da escola B não utilizavam os livros didáticos porque diziam que os alunos não eram capazes de utilizá-los.

A direção da escola B não demonstrou acompanhar o desempenho das professoras, nem quais conteúdos estão aplicando em sala de aula, permanece o tempo todo na secretaria resolvendo assuntos burocráticos. Já o diretor da escola A disse acompanhar o desempenho das professoras, tanto que fez um pequeno relato de quais conteúdos e como é a metodologia das professoras em sala de aula. Conhece pessoalmente os alunos, sabe os nomes deles e onde moram, disse que se precisássemos de mais informações e pretendêssemos entrevistar os alunos que fizeram a Prova Brasil de 2007, ele os chamaria porque mantém contanto com os mesmos, tanto que nas nossas visitas presenciamos os ex-alunos freqüentando a escola para conversar com o diretor sobre problemas deles com a nova escola. O diretor despacha os serviços burocráticos da escola depois vai caminhar na escola observando as salas de aula.

Nas entrevistas com as professoras da escola B elas disseram não fazer plano de aula para as aulas de Língua Portuguesa e Matemática, e que as aulas eram planejadas, mas constatamos com as observações que não há continuidade, e planejamento, deixando muito ao improviso. Disseram que a avaliação dos alunos era diária, porém quando perguntamos como elas acompanhavam o rendimentos dos alunos não souberam responder, e quanto a auto avaliação demonstraram que não se avaliavam.

Na pergunta sobre o rendimento dos alunos as professoras disseram que ficavam muito abaixo do que elas desejavam e quando perguntamos o que faziam para recuperar os alunos que não estavam rendendo não foram claras nas respostas, apenas afirmavam que os pais dos alunos não ajudavam, e que a maioria dos alunos eram preguiçosos e indisciplinados, mas nas observações não identificamos o fato, muito pelo contrário os alunos ficavam o tempo todo calados, sentados, esperando a professora dizer algo.

Quanto a pergunta sobre o peso da assistência social às professoras da escola B no rendimento dos alunos, uma disse que eles só faltavam receber roupas intimas porque tinham de tudo e não ajudava a render mais, e só iam as aulas por conta do `Bolsa escola´, já a outra professora disse que ajudava porque os alunos tinham material para estudar.

Já a entrevista com a coordenadora da escola A, que foi a professora da 4ª série de 2007, quando perguntamos como ela elaborava seu plano de aula, ela disse que era uma professora à moda antiga, passava os fins de semana planejando e na semana dedicava cada dia a uma matéria, e disse que às vezes aconteciam imprevistos, mas sempre buscava seguir o roteiro pré-estabelecido, como também antecipava os alunos quais atividades e assuntos iria dar na aula.

Quanto à avaliação dos alunos ela disse que dava nota 7, mas alguns ela dava 10, que avaliava diariamente, e tinha o diário dos alunos, e a avaliação que fazia de si mesma, disse que era muito exigente, tradicional e perfeccionista. Quando perguntamos o que fazia para recuperar os alunos que demonstravam não estar rendendo, ela disse que conversava com eles, colocava os alunos que não estavam rendendo junto com os que rendiam mais e pedia para eles ensinarem aos que ainda não aprenderam, que sozinha não tinha condições de dar conta.

Na relação aluno-aluno a professora da escola A disse que eles brigavam, conversavam, eram amigos, às vezes nem tão amigos, ``coisas do ser humano´´ e quanto ao relacionamento com ela, disse que tinha de tudo: amor, carinho, briga, como qualquer relação. Quanto à assistência social no rendimento dos alunos ela disse que contribuía muito, os alunos ficavam felizes com livros novos, cadernos, fardas, que por ela os livros tinham que serem novos todo ano, porque feliz o aluno rende mais, e quanto a assistência social em dinheiro ela disse que não fazia diferença porque somente quatro alunos receberam `Bolsa Escola´, num total de 31 alunos, aonde a maioria demonstra bom rendimento.

Na entrevista com o diretor da escola A quando perguntamos a que se deve o bom resultado da Prova Brasil ele deu todo credito à professora, que ela era muito competente, que os alunos gostavam muito dela, que ela nunca gritava com eles, sempre no mesmo tom de voz, mas era muito respeitada e os pais dos alunos a respeitavam muito tanto que diziam que ela podia fazer o que quisesse com eles que tinha toda a aprovação das famílias, demonstrando confiança dos pais com a professora.

Quando perguntamos se ele geria a escola por uma gestão democrática ele disse que democracia era uma coisa que as pessoas ainda não entendiam bem, que não dava certo, que era preciso a hierarquia, senão virava bagunça, mas procurava sempre se reunir com os professores, não dava para fazer uma reunião coletiva, mas fracionava as reuniões para ficar a par dos procedimentos dos professores e ajudá-los no que fosse possível.

Análise dos resultados

Embora se saiba que no universo escolar a colaboração dos pais contribui muito para o bom rendimento escolar dos alunos esta variável não foi pesquisada e nem foi avaliada em nossa pesquisa, nos detivemos apenas no desempenho dos professores e diretores. Porque em nossas observações e entrevistas constatamos que a postura, a metodologia, a relação professor-aluno despontou como fator relevante para os alunos no seu desempenho quando do resultado do Prova Brasil aliados a uma gestão participativa.

Para que as escolas promovam o desenvolvimento dos alunos quando à aquisição de conhecimentos específicos é necessário que as aulas sejam planejadas, que as professoras saibam em que estágio de conhecimentos os alunos estão, antecipem os alunos das etapas que vão vivenciar, determinem tempo para as tarefas, dialoguem com os alunos, vivenciando experiências reais e que os alunos sejam avaliados processualmente.

E o que foi constatado nas observações foi que na escola B as aulas foram improvisadas, as professoras não investigaram quais os conhecimentos os alunos já possuíam, e nem os antecipavam das ações futuras. O cotidiano escolar foi marcado por aulas monótonas, descontextualizadas, improvisadas. Já na escola A a professora em sua entrevista, nos informou que cada dia da semana era dedicado a uma matéria, avisa aos alunos quais atividades iriam fazer, investigava os conhecimentos que os alunos possuíam para dar prosseguimento às aulas.

Portanto, o planejamento é fundamental para a prática profissional, porque ele nasce dos objetivos que o educador quer atingir, demandando reavaliação constante e sólido trabalho. O objetivo maior do planejamento é desenvolver estratégias que guiarão o professor a organização para alcançar melhor desempenho, trazendo melhor resultado. E o planejamento se baseia na definição de rotinas na sala de aula que se não forem registradas podem não funcionar. Além do mais, estabelecer rotinas dá mais segurança aos alunos, ajudando-os a controlar a ansiedade.

Os procedimentos na escola deverão seguir uma rotina de horário, desde que haja um planejamento, ou seja, aproveitar o seu espaço tempo.Segundo Veiga-Neto (2001, p. 16):

No âmbito escolar e microscópio, isso é feito de uma maneira muito eficiente pelos horários os quais, além da repartição, ainda possibilitam tanto o controle minucioso e sem desperdício sobre as ações quanto a repetição cíclica dessas ações.

Mas o que foi observado na escola B é que apenas o horário do lanche é que é definido, nas aulas as professoras não determinavam tempo para os alunos fazerem as tarefas. Na escola A a professora nos informou que é rigorosa quanto a horário, determinava tempo para cada atividade.

Para as aulas em Língua Portuguesa segundo Marchuschi (1986) as crianças precisam de textos variados para que habilite-se à eles e enriqueçam o vocabulário, mas o que foi observado na escola B eram aulas em que se usava apenas um tipo de texto, e este não era discutido, e nem feito perguntas que fizessem os alunos inferir sobre o texto. Já na escola A quando perguntamos a professora sobre as aulas de português ela disse que usava textos variados, e até textos que o diretor da escola trazia ela levava para sala de aula para trabalhar com os alunos.

É importante o aluno compreender e dominar o funcionamento do sistema alfabético para poder usar em situações do convívio social, através da comunicação, podendo reconhecer as diversas modalidades da língua oral e escrita. Quanto a leitura Marcuschi (1986) afirma que é um ato de interação comunicativa que se desenvolve entre o leitor e o autor, e propõe a leitura como processo inferencial. Ele toma a inferência como uma operação cognitiva que permite ao leitor construir novas proposições a partir de outras já dadas (MARCUSCHI, 1986).

Portanto é muito proveitoso que o professor em sala de aula exercite com os alunos com textos variados, desenvolvendo exercícios que permita uma compreensão do texto do que está implícito e nas intenções subjacentes. Colaborando para que o aluno se desenvolva numa perspectiva critica, com capacidade de raciocínio para além da contextualização cognitiva estrita. Fazendo-o processar textos em qualquer situação (MARCUSCHI, 1986).

Quanto ao ensino da Matemática se faz importante porque segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais ela facilita aos alunos resolverem problemas da vida cotidiana, tendo muita utilização no mundo do trabalho, além de instrumento indispensável na construção do conhecimento em outras áreas curriculares. E interfere fortemente na formação das capacidades intelectuais, na estruturação do pensamento e na agilização do raciocínio dedutivo dos alunos.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais indicam que é muito proveitoso antes de iniciar a aula o professor investigar em que nível de aprendizagem cada aluno se encontra através da conversação, perguntando aos alunos, fazendo suposições, e então ajuda-los a ampliar seus conhecimentos, favorecendo aos alunos estabelecer vínculos entre o que conhecem e o que vem a conhecer, possibilitando uma aprendizagem significativa.

Na escola B as aulas de matemática as professoras colocavam apenas um tipo de exercício no quadro, sentavam e aguardavam os alunos fazerem, as tarefas eram copiadas do livro didático, e quando perguntamos por que os alunos não usavam os livros as professoras responderam que os livros eram muito avançados para eles, então elas escolhiam um exercício `fácil´, colocava no quadro e aguardava eles fazerem. Demonstrando assim que as professoras não investigaram em que nível os alunos estavam, apenas deduziam que não sabiam fazer, porque não perguntavam nada aos alunos para saber que eles não sabiam, escolhiam exercícios que não levam os alunos à resolverem problemas mais complexos para o nível da 4ª série.

Na sala de aula a professora 3 até copiou a tabuada e dizia para os alunos fazerem a tarefa consultando a tabuada, provando que os alunos não aprendiam nem mesmo a arma uma conta de divisão simples, e depois de algum tempo elas mesmas iam ao quadro responder a questão porque a maioria não conseguia. Na escola A a professora nos informou que na aula de matemática os alunos eram antecipados das atividades, o material didático era variado para trabalhar em sala de aula, ela disse que exercitava muitas atividades de resolução de problema.

Para o ensino da matemática no Ensino Fundamental um dos campos conceituais são as estruturas aditivas, sendo indicado que, nas resoluções de problemas aditivos que envolvem as operações de adição e subtração, devam ser trabalhados durante todo o período, porque envolvem a compreensão de vários e diferentes conceitos: de medidas; de adição; de subtração; de transformação de tempo; de comparação; e de composição (MAGINA, CAMPOS, NUNES e GITIRANA, 2001). E muito importante é o professor ficar alerta para não habituar os alunos a fazerem problemas que requeira dos alunos apenas um único raciocínio, como foi na escola B.

E quanto ao relacionamento professor-aluno não pareceu satisfatório na escola B, logo que se tratava de uma relação de submissão dos alunos, aonde os mesmos não questionavam, e quando conversavam entre si as professoras os mandavam ficarem calados. Já na escola A a professora disse que a relação com ela e entre eles era como qualquer relação humana, mas eles conversavam muito, e testemunhamos ex-alunos freqüentando ainda a escola e tratando a professora com muito carinho e respeito e ela com eles.

A relação professor aluno apresenta dois aspectos: um os cognoscitivos da interação, ``processo ou movimento que transcorre no ato de ensinar e no ato de aprender, tendo em vista a transmissão e assimilação de conhecimento´´(LIBÂNEO, 1994, p.250). Desse modo as professoras da escola B não demonstrou atingir satisfatoriamente uma boa interação no aspecto cognoscitivo, porque não tinha manejo dos recursos da linguagem, elas quase não se comunicava verbalmente com os alunos, e também não conhecia bem o nível de conhecimento dos alunos, porque tinha alguns que ainda estavam na fase pré-silábica, e mesmo assim ela passava os mesmos exercícios, não ia junto ao aluno para saber de suas dificuldades, não construía estratégias para os mesmos superarem essa fase. Os objetivos não eram esclarecidos, explicando aos alunos o que eles deveriam aprender.

O outro aspectos é o sócio-emocionais, ``se referem aos vínculos afetivos entre o professor e alunos, como também as normas e exigências objetivas que regem a conduta dos alunos na aula´´ (LIBANEO, 1994, p.251). A afetividade, na relação professor-aluno não é no sentido de tratá-los como sobrinhos ou filhos, mas, a de exercer a autoridade, produzindo uma relação educativa e não cerceá-la. Logo as professoras da escola B foram autoritárias se mostrando superior.

A prática docente exige antes do tudo a ética, o compromisso com o ser humano, vislumbrar com as possibilidades criadas do ato de ensinar e aprender. A Educação não podendo ser depreciada, considerando o aluno um depósito vazio que o professor vai preenchendo com os conteúdos. Concordamos com Paulo Freire (1996, p.32), no que ele diz:

Não é possível pensar os seres humanos longe, sequer, da ética, quanto mais fora dela. Estar longe, ou pior, fora da ética, entre nós, mulheres e homens, é uma transgressão. É por isso que transformar a experiência educativa em puro treinamento técnico é amesquinhar o que há de fundamentalmente no exercício educativo: o seu caráter formador.

Sendo as condições de trabalho da prática docente não favoráveis para o exercício da profissão, parece necessário refletir sobre a sua ocupação se seria melhor procurar outra profissão, porque não se pode deixar os alunos à mercê do verdadeiro sentido da escola, que é educar. Segundo Paulo Freire (1996, p.67):

Um dos piores males que o poder público vem fazendo a nós, no Brasil historicamente, desde que a sociedade brasileira foi criada, é o fazer de muitos de nós correr o risco de, a custo de tanto descaso pela educação pública, existencialmente cansados, cair no indiferentismo fatalistamente cínico que leva ao cruzamento de braços.

Outro dilema no campo educacional remete a avaliação no cotidiano das escolas, que na maioria das vezes serve apenas para classificar os alunos de "bons" ou deixa-los a margem. Sendo excluídos pelo próprio processo educacional, consequentemente, por ter sido negado o conhecimento a todos. Sendo assim contribuindo para o fracasso escolar. Foi o que aconteceu nas aulas na escola B, não foi oferecido aos alunos conhecimento, já na escola A a professora deixou em sua fala a impressão de que fazia questão que os alunos aprendessem.

Segundo Esteban (1999), ``o processo de avaliação do resultado escolar dos alunos e alunas está profundamente marcado pela necessidade de criação de uma nova cultura sobre avaliação, que ultrapasse os limites da técnica incorpore em sua dinâmica a dimensão ética.´´O tema avaliação torna-se mais problemático e contraditório quando professores segundo Hoffman (2004), ``ainda relacionam estreitamente a ação avaliativa a uma prática de provas finais e atribuição de graus classificatórios, criticam eles mesmos o significado dessa prática em torno do assunto´´.

A avaliação escolar que as professoras fazem dos seus alunos, na escola B uma das professoras disse que avaliava diariamente, mas não identificamos como, disse fazer prova, mas o que valia mais era a participação em sala de aula, muito embora não observamos os alunos participarem das aulas, a outra professora disse também que a avaliação era diária, e quando perguntada como acompanhava os alunos, disse ter um diário dos alunos, mas não vimos esse diário nas observações e nem ela fazendo anotações, apenas colocava os exercícios no quadro e aguardava eles fazerem.

Na escola A a professora quando perguntada sobre a avaliação dos alunos ela disse que avalia na leitura, nos exercícios, diariamente, e disse possuir um diário de cada aluno, e confirmamos com o diretor: ``É assim, avalio na leitura, exercícios, diariamente, na produção de textos na sala, para verificar se estão atingindo as competências, chamadas ao quadro´´ Em sua entrevista disse que sempre quer o melhor dos alunos, que não chegou a 100% de rendimento, mas fez tudo que podia para eles chegarem a 100%.

Descobrimos na nossa pesquisa, embora não tenha sido o foco, que a participação do diretor contribuiu muito para o rendimento escolar, um diretor próximo dos professores e alunos, estabelecendo uma relação de cooperação foi de muita valia no rendimento dos alunos da escola B, onde demonstra um diretor presente, sabe quais os procedimentos dos professores em sala de aula, e disse em sua entrevista que não se pode deixar ao acaso, cada professor fazendo o que quer, que existe a hierarquia.

Observamos que os alunos o procuram para fazer consulta, que ele conhece os alunos, ajudando os professores, e os professores se sentem aparados. Já na escola B a diretora não tem contato com os alunos, as professoras disserem que não tem apoio, e observamos que a diretora cuidava apenas dos assuntos burocráticos. Quando pedimos autorização para observar as aulas a diretora disse que era só pedir as professoras, na escola A não foi assim, o diretor queria saber quais eram os motivos, conversou conosco, antes de entrevistar a professora, ele explicou como eram as suas aulas, como eram os alunos, comportamento, disciplina, demonstrando muito contato com o cotidiano escolar em sala de aula. E disse sentir muito não continuar acompanhando os alunos, porque foram para outra escola que ele não considera de bom nível.

Conclusões

A escola é uma instituição criada pelos homens e como tal está ainda em pleno processo de desenvolvimento, e o professor em nossa pesquisa surgiu como peça importante dessa engrenagem, dependendo muito de sua atuação em sala de aula para que os alunos venham a se desenvolver. Não descartando as outras variáveis nesse universo complexo que é o mundo escolar, o professor é elemento que pode contribuir decisivamente para a perpetuação de uma escola tradicional, ou elemento de transformação da sociedade, colaborando para a humanização do homem.

Ao enfocarmos a instituição escolar, precisamos não esquecer que ela é parte da sociedade em que vivemos, na qual ocorrem transformações permeadas por crises econômicas, sociais e políticas, pela intensificação das desigualdades sociais, pela existência de programas sociais marcados por um forte assistencialismo. Nesse plano, dificilmente a instituição escolar consegue se organizar no sentido de promover uma atualização e adequação do seu ensino às necessidades de seus educandos.

E descobrimos em nossa pesquisa que mesmo a escola pública e gratuita tenha investido menos em rendimento escolar e mais em assistencial econômica e social, a escola A demonstrou que investiu no rendimento escolar de seus alunos, ficando inclusive com o IDEB maior que a média nacional. Em nossa pesquisa o papel do professor na sala de aula ao mesmo tempo atrelada a uma gestão participativa, foi fundamental para um bom rendimento escolar dos alunos.

Esse resultado revela que, mesmo com a situação desgastante em que a classe docente se encontra, especialmente no caso dos professores da rede pública, isso não impede que a elaboração de alternativas para a prática docente seja efetivada, com vistas a uma educação emancipadora.

Então, é imprescindível a compreensão do educador sobre os fatores que interferem na aprendizagem do aluno, refletindo constantemente as questões internas (cognitiva e afetiva) e externas (escola, família) que atingem o processo de construção do conhecimento.

Daí existe tomada de consciência na prática docente, que possibilitam a construção de um processo crítico do conhecimento da realidade, de modo que os educadores direcionem o olhar sobre o sujeito da aprendizagem, concebendo os educandos como sujeitos ativos nas relações sociais. Não queremos com isso super valorizar o papel do professor, pois ficou evidente também a importância de uma gestão participativa no processo educativo. Apenas, trata-se de instigar algumas ações e posicionamentos para a realização de uma prática pedagógica que ultrapasse a visão determinista do educador para com o aluno, compreendida a partir de um posicionamento ético-político.

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Autor: GISELA ROSEANE