Pensando na Identidade do Professor Contemporâneo



Portfólio Reflexivo

Autora: Margarida Maria Silveira
Curso de Docência do Ensino Superior – 2008/2009
Faculdades da Serra Gaúcha – Caxias do Sul/RS
Professora Clarice Scott

Pensando na Identidade do Professor Contemporâneo

Ao se propor a refletir, explorar este assunto, demanda em primeiramente voltar a definição da palavra identidade. Conforme o dicionário Michaelis (2006) identidade reuni o conjunto de caracteres próprios de uma pessoa, aquilo que é considerado exclusivo dela, como esta deve ser reconhecida.

Como deve, como precisa ser reconhecido. Observa-se a profundidade que encerra esta definição. Quantas idéias e possibilidades de análises podem deflagrar a partir disto. E direcionando para o professor poder-se-ia perguntar como deseja ser reconhecido? Como ocorre esta construção de identidade? Ele é o professor profissional? É outro profissional que também exerce a docência? Ou é o professor que exerce outra profissão? Que lugar este profissional ocupa na organização da sociedade?

Camargos Anastasiou & Pimenta (2005) afirmam que:

A profissão de professor, como as outras, emerge em dado contexto e momento histórico, como resposta a necessidades apresentadas pelas sociedades, adquirindo estatuto de legalidade. Assim, algumas profissões deixaram de existir e outras surgiram nos tempos atuais. Outras adquirem tal poder legal, que se cristalizam, a ponto de permanecer como práticas altamente formalizadas, com significado meramente burocrático. Outras não chegam a desaparecer, mas se transformam, adquirindo novas características para responderem a novas demandas da sociedade. (Camargos Anastasiou & Pimenta - 2005)

E o professor se enquadra neste contexto, nesta organização social, pois a educação ocorre na realidade a qual ele está inserido. Este profissional não irá inventar um espaço próprio para exercer a sua profissão à revelia. Ele está nesta dinâmica histórica e é nesta complexidade que a identidade do professor se constrói.

Os autores citados anteriormente ao se referirem à construção da identidade profissional revelam que esta se constrói com base na significação social da profissão e também na revisão das tradições. E que a identidade do profissional professor também se constrói pelo significado que este venha a dar enquanto ator e autor. Aquilo que confere a tua atividade docente, embasados em seus valores, como se situa no mundo, seus saberes, angústias, desejos, e o sentido que é ser professor em sua vida, isto junto de suas relações com outros professores e outras instituições.

Ser ator e autor da sua identidade parece expressar, ou melhor, carregar toda a abrangência que envolve o ser professor. Neste contexto dinâmico, acelerado que o mundo se apresenta, o professor tem um desafio gigante para construir e manter sua identidade.

Para Demo (2004), a profissão do professor será cada vez mais valorizada, em função da sociedade intensiva do conhecimento e também devido ao direito de aprender.

Uma afirmação animadora, importante para o profissional professor. Mas que profissional professor? Aquele que se identifica realmente como professor? Aquele que exerce outra profissão e também é professor ou vice-versa? Como poderá ser identificado este profissional?

Segundo Camargos Anastasiou & Pimenta (2008), o professor universitário que se identifica somente como professor, sem aliar-se a outra função, parece uma identidade menor, pois parece referir aos professores secundários e primários.

Percebe-se uma fantasia, ou talvez como os autores expressem, parece ser menos, não denotando talvez a idéia de ser uma identidade fundamentada, firme por não ter “outra” identidade.

Conforme Demo (2004), todas as profissões sofrem desgaste incontido, principalmente se inseridas na dinâmica disrupitiva do conhecimento. E o professor em especial é alvejado por este desgaste. Mas ao mesmo tempo é a profissão mais promissora, pois a demanda de aprendizagem irá aumentar, é uma necessidade da sociedade e assim o educador será peça essencial para o futuro da mesma.

Diante da reflexão explorada por Demo, pensa-se que o profissional, ao fazer sua escolha pela docência, terá de zelar pela sua identidade, construí-la continuamente dentro de uma proposta pessoal de professor que aprende que está em sintonia com o contexto o qual está inserido. Disposto a romper com a tradicional reprodução do conhecimento. E pensar em estratégias como educador desta sociedade futura.

Anastasiou & Alves (2004) explicam que o trabalho docente, não se restringe ao conteúdo, mas ocorre todo um processo envolvendo um conjunto de pessoas na construção de saberes, para que ocorra a apropriação em si do conhecimento. Processo esse que é norteado por estratégias do inicio ao final.

Ainda Anastasiou & Alves (2004) complementam:

Por meio das estratégias aplicam-se ou exploram-se meios, modos, jeitos e formas de evidenciar o pensamento, respeitando as condições favoráveis para executar ou fazer algo.

Esses meios ou formas comportam determinadas dinâmicas, devendo considerar o movimento, as forças e o organismo em atividade. Por isso, o conhecimento do aluno é essencial para a escolha da estratégia, com seu modo de ser, de agir, de estar, além de sua dinâmica pessoal.

E estes aspectos são desafios significativos ao docente universitário, uma vez que o mesmo é fruto da transmissão de conteúdos prontos, da reprodução de conhecimento. Os autores acima revelam que o docente encontrará dificuldades até de ordem pessoal em lidar com novas estratégias.

O professor terá que promover em si próprio uma ruptura de ordem pessoal, iniciando um processo de abertura para que possa desenvolver novas estratégias que fuja do hábito até então passado as gerações docentes. De modo a ser autor e ator de estratégias diferenciadas.

Percebe-se que neste processo o professor se autodesenvolve, se permite novas aprendizagens, as quais vão dando novo formato, a um perfil mais atualizado nesta construção de sua identidade. E assim num trabalho de transição, o professor em seu meio de atuação, se constrói passo a passo . E aqui cabe as sábias e atuais palavras de Freire (1986): “Ninguém nasce educador ou é marcado para ser educador. A gente se faz educador, a gente se forma como educador permanentemente, na prática e na reflexão sobre a prática.”

E este processo não é a própria pedagogia relacional, ocorrendo simultaneamente entre docentes e educandos? Na qual os dois envolvidos são beneficiados, e, que não tem fim e nem começo absoluto?

Beker (1994) pontua que nesta relação professor e alunos avançam no tempo. Que o docente irá construir a cada dia, a sua docência, dinamizando o seu processo de aprender. Enquanto os alunos construirão, a cada dia, a própria “discência”, ensinando, aos colegas e professores, novas coisas, noções, objetos culturais.

Nesta fase do processo, ou seja, quando o novo já se torna possível, e se rompem os paradigmas tradicionais, se constrói conhecimento através de um “novo fazer”, pode-se verificar ações mais coletivas e contextuais. Há um salto das ações individualizadas para o “fazer” coletivo.

Anastasiou & Alves (2004) fundamentam de modo claro estes aspectos:

Para romper com as formas tradicionais memorizativas, estabelecidas ao longo da história, a saída tem sido a criação coletiva de momentos de experimentação, vivência e reflexão sistemática, com relatos de experiências socializados pelos colegas, em que dificuldades são objeto de estudo, visando à superação dos entraves. (Anastasiou & Alves......)

A identidade do docente já estará com nova “cara”, neste rompimento com os modelos tradicionais, neste fazer diferenciado, no qual o coletivo se faz presente. E a criação acontece.

Nesta linha de pensamento, Demo (2004) argumenta que criatividade previsível não é criativa. Que há necessidade de ir além da “gestão do conhecimento”. E complementa com a pontuação de Bova (1998), o qual diz que a sociedade é em si própria conservadora e aprecia os comportamentos regulares, rotineiro, mas ao mesmo tempo mora nela algo que não se controla que é a capacidade de conhecer, que é indomável.

E nessa sede de conhecer, que mora a possibilidade de mudanças, desse fazer diferenciado. De aflorar a criatividade e de desenvolver novas estratégias.

Ao se referir o coletivo, a criatividade, vale destacar as estratégias grupais, as quais são fundamentais para que se efetive a aprendizagem. Segundo Anastasiou & Alves, a aprendizagem é um ato social e necessita do outro (professor) para mediar e facilitar o processo.

Osório apud Anastasiou & Alves (2004), sustenta que, as habilidades de trabalhos em grupo, quando devidamente desenvolvidas, auxiliam no surgimento e desenvolvimento da inteligência relacional que abrange a inteligência intrapessoal e inteligência interpessoal. E se faz necessário auxiliar no desenvolvimento da inteligência relacional, a qual é conceituada como a capacidade das pessoas serem competentes na interação, na relação com outros seres humanos no contexto grupal em que atuam.

Demo (2004) diz: “o professor que não sabe aprender, não pode fazer o aluno aprender.” Que frase verdadeira! E não é nessa empreitada de se permitir aprender, do fazer diferente que o docente irá ter uma identidade com autonomia, mas verdadeira?

O mesmo autor postula que o que se faz hoje nas universidades, fica a desejar, do que se espera dos profissionais que egressa das mesmas. Um profissional que saiba pensar, com capacidade de inovação, de se renovar através de aprendizagem permanente e manejar seu conhecimento. Capazes de “inventar trabalho”.

E não estaria o professor também reinventando sua maneira de trabalhar? Através dessa aprendizagem permanente, construindo sua nova identidade? E assim atendendo a demanda do contexto atual?

Pode-se pensar que este processo de construção de identidade do professor universitário contemporâneo será permanente enquanto autodesenvolvimento, refletir que este é pessoa e nasceu deste mesmo meio, e terá que reconstruir sua própria aprendizagem, trabalhar suas dificuldades e potencialidades e conseqüentemente poderá colaborar através de sua ação profissional a desenvolver profissionais para o bem comum. Para a cidadania mundial!

O professor é a pessoa. [...] Urge por isso (re) encontrar espaços de interação entre as dimensões pessoais e profissionais, permitindo aos professores apropriarem-se de seu processo de formação e dar-lhes um sentido no quadro de sua história. (Nóvoa, 1995)

Lista de Referências:

Anastasiou,, L. G. C. & Alves, L. P. Processos de Ensinagem na Universidade. Santa Catarina: Univille. 2004


Cunha, M. I, O Professor Universitário na transição de Paradigmas. Araraquara/SP: Editora Junqueira & Marin. 2005. 2ª Edição.

DEMO, P. Universidade, Aprendizagem e Avaliação: horizontes reconstrutivos. Porto Alegre: Mediação, 2004. (cap. 2)

Garrido Pimenta, S. & Anastasiou,, L. G. C. Docência no Ensino Superior

São Paulo: Editora Cortês. 2002

Moderno dicionário da língua portuguesa Michaelis. São Paulo: Editora: Melhoramentos. 2006

Autor: Margarida Maria Silveira