A importância da História Oral como fonte identitária de um povo



Antônio Roberto Xavier1

RESUMO: Neste artigo, num primeiro momento, discuto a importância da história oral como fonte subsidiária e complementar para a pesquisa histórica. Esse tipo de fonte é abordado na perspectiva da historiografia tradicional e confrontado com o ponto de vista da Nova História. Num segundo momento, abordo a questão da pesquisa histórica como um persistente e incansável trabalho de consulta e exploração das mais diversificadas fontes com o objetivo de alcançar a realidade pretendida. Por último, analiso a memória como uma das mais importantes fontes que proporciona vez e voz àqueles que, ao longo do tempo, foram oprimidos, esquecidos, menosprezados ou ofuscados pelo poder da classe dominante que sempre tentou impor suas diretrizes alienáveis.

Palavras chaves: História, história oral, fonte, memória.

ABSTRACT: In this article, first of all, explain the importance of the oral history as subsidiary source and complementary for the historical research. This kind of source is explained in a perspective of traditional historiography and comparing the point of view of the new history. In a second moment, explain the issue of historical research as a persistent and tireless work of consultation and exploration of the most varied source with the goal to reach the intended reality. Finally, in analyze the memory as one of the most important source that provides opportunities and voice those that, have been oppressed forgotten justified by the power of dominant group of society that always tried to force its alienable directresses.

Key words: History, oral history, source, memory

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[1]Licenciado pleno em História pela UECE, Especialista em História e Sociologia pela URCA, Mestre em Planejamento e Políticas Públicas pela UECE, Mestre em Políticas Públicas e Sociedade pela UECE e Professor dos Cursos de Licenciatura Específica em História e Pedagogia da UVA e dos Cursos de Especialização de História Geral e de Metodologia do Ensino Superior das Faculdades INTA.


1. Introdução

Este artigo aborda a questão da História Oral como possível fonte histórica, merecedora de credibilidade insuspeita nem de maior e nem de menor valor histórico do que as fontes escritas. Discute-se a construção da história a partir de documentação escrita e oralidade mnemônica, ressaltando-se o sujeito histórico a partir da memória como forma metodológica viável e confiável. O ponto de partida fundamenta-se no advento do movimento dos annales (1929-1969), que rompe com a historiografia tradicional e lança elasticidade para abordagem de diferentes objetos na pesquisa histórica, sob múltiplos aspectos e variadas circunstâncias.

A História Oral é considerada como fonte identitária de um povo, capaz de retratar as realidades, as vivências e os modos de vida de uma comunidade em cada tempo e nas suas mais variadas sociabilidades. Esse tipo de fonte não só permite a inserção do indivíduo, mas o resgata como sujeito no processo histórico produtor de histórias e feitos de seu tempo.

O problema da verdade histórica é abordado a partir da Memória Coletiva como fonte alternativa de reconstrução do passado, proporcionando, no presente, vez e voz aos discriminados, oprimidos, menosprezados e ofuscados pelo discurso do poder. Com efeito, esse tipo de discurso fora utilizado durante muito tempo pela historiografia tradicional, que priorizava a História Oficial ou vista de cima, com base em documentos escritos de cunho político governamental selecionados tendenciosamente como única fonte credora de confiabilidade.

A questão da hierarquização das fontes históricas é analisada dentro de uma abordagem dialética, onde se alerta para o risco que os historiadores tendem a correr. Neste sentido, é necessário dispensar atenção para não se cometer o equívoco, antes praticado pela historiografia tradicional. É preciso precaução para não se priorizar somente as fontes orais, mas procurar redimensioná-las com fontes escritas, visando uma investigação cada vez mais aprofundada, a fim de se chegar a realidade ou as realidades pretendidas ao final do processo investigativo.

Por último, ressalta-se a importância da memória, em tempos de globalização e da crescente demanda do mercado econômica que insiste transformar o mundo em uma aldeia global. Este fato tem como conseqüência o processo de aculturação, no qual se verifica a perda da soberania dos Estados Nacionais atingindo, intensamente, a identificação e os costumes próprios de um povo. É no afã deste processo de mundialização da "sociedade global" (termo de Otávio Ianni), que se prima pela memória como busca de reconhecimento e identificação própria e cultural de uma nação legitimamente soberana. No caso específico do Brasil, a valorização da memória como fonte é de suma importância, pois as características da sociedade brasileira foram sempre pautadas por um autoritarismo profundo e dicotômico, dividindo sempre o povo brasileiro em rico e miserável, letrado e analfabeto, latifundiário e escravo, mandante e mandado. Por conta dessa inegável realidade, a história brasileira, muitas vezes, contou a história vista de cima, oficializada, valorizando grandes feitos praticados pelos heróis nacionais reconhecidos pela classe dominante.

2. História escrita e História oral

Na obra História oral: possibilidades e procedimentos, de Sônia Maria de Freitas, publicada pela USP em 2002, é detectado, num primeiro momento, um paradigma sobre a questão da credibilidade do testemunho oral na perspectiva da tradição historiográfica do século XIX, com a mudança de abordagem proporcionada com o lançamento da revista dos Annales, em 1929, por Marc Bloch e Lucien Febvre.

Na vertente da historiografia do século XIX, representada, sobretudo, por Fustel de Coulanges, na obra La Monarchie Franque, de l888, o depoimento oral ou transcrito não merecia credibilidade. Portanto, somente deveria ser utilizado como último recurso e com extrema cautela. Segundo Freitas (op. cit.), a tradição historiográfica, considerava que esses documentos representavam fontes "subjetivas, falíveis e eram comprometidas pelas notícias tendenciosas, mentiras e calúnias" (p. 13-14).

Essas assertivas, acima citadas, estavam profundamente influenciadas pela corrente positivista, reinante na época, sobretudo na Escola francesa e serviam, de certa forma, como escudo protetor para cada vez mais legitimar e propagar, como tendência geral (ocidental), a história oficial (dos grandes vultos e heróis) daquele contexto.

Com o advento do movimento dos Annales (1929 – 1969), o debate para a abordagem histórica rompe com essa visão e procura redimensionar a abordagem histórica, centrada nos seguintes focos:

1) História – problema, ou seja, substituir a tradicional narrativa de acontecimentos.

2) História de todas as atividades humanas e não apenas da história política (ampliação e elasticidade do objeto investigado).

3) Abordagem histórica de forma inter e transdisciplinarizada com as outras ciências.

4) Abordagem histórica do cotidiano voltada para o sócio-cultural.

5) Abordagem histórica inter-relacional com o econômico e o demográfico de forma universal, nacional, regional e local, levando em conta os atores sociais.

6) Abordagem histórica a partir de novas fontes, como: tradição oral, escrita, vestígios antropológicos, arqueológicos, etc.

Enfim, após o movimento dos Analles (mais tarde chamado de 'Nova História') a abordagem histórica passa a redimensionar: conceitos, novos objetos, novos problemas e novos métodos. A partir desse movimento, a pesquisa histórica ganha uma ampla abrangência exigindo, por sua vez, pesquisas mais densas e investigações mais amplas e aprofundadas abarcando um universo maior dos diversos tipos de fontes.

Com relação aos depoimentos orais, os historiadores tradicionais alegam que esse tipo de fonte deve ser considerado subjetivo por se nutrirem da memória individual que, segundo eles, às vezes, pode ser falível e fantasiosa. Freitas (op. cit.) rebate argumentando que em História Oral o entrevistado deve ser considerado, ele próprio, um agente histórico e sua visão acerca de sua própria experiência e dos acontecimentos sociais, dos quais participou, necessitam ser resgatados. Com relação à subjetividade, ela está presente em todas as fontes históricas, sejam: orais, escritas ou visuais. O que é relevante em História Oral é "saber por que o entrevistado foi seletivo ou omisso, pois, esta seletividade também tem o seu significado". Ademais, "a noção de que o documento escrito possui um valor hierárquico superior a outros tipos de fontes, vem sendo sistematicamente contestada, em um século marcado por um avanço sem precedentes nas tecnologias de comunicação" (p. 29).

Induvidosamente, considerar a História Oral como fonte de menor valor ou questionar sua validade parece não ser coerente com o ofício do historiador. Neste sentido, avaliando a dimensão projetada pela História Oral e sua fidedignidade Thompson (1992) assegura que: "se as fontes orais podem de fato transmitir informações 'fidedignas', tratá-las simplesmente como um documento a mais é ignorar o valor extraordinário que possuem como testemunho subjetivo, falado" (p. 29).

Todavia, o pesquisador não poderá, por outro lado, se valer somente das fontes orais e, às cegas, classificá-las como prioritárias e inverter a situação com relação à hierarquização dessas fontes, fazendo o que antes era feito pelos historiadores tradicionais com as fontes escritas. É preciso tomar algumas cautelas e perceber certos limites no uso dessas fontes.

A história oral estourou nos meios acadêmicos na década de 1970 como um novo fenômeno metodológico e político. Com uma certa freqüência, se ouviu informações de como a história oral seria uma contra-história – não um elemento ou instrumento que poderia tornar possível uma contra-história, mas o próprio objeto pronto. Hoje em dia somos todos um pouco menos ingênuos, me parece, e reconhecemos que a história oral está longe de ser uma história espontânea, não é a experiência vivida em estudo puro, e que os relatos produzidos pela história oral devem estar sujeitos ao mesmo trabalho crítico de outras fontes que os historiadores costumem consultar (HALL, 1991: 157).

O comentário supracitado vem, em boa hora, alertar para que não se trilhe pela supervalorização metodológica das fontes orais, assim como também não se deve fazer com outros tipos de fontes. O interessante ao trabalho do historiador é perceber onde são cabíveis os diversos recursos ou fontes na sua investigação -pesquisa. A maleabilidade na utilização das fontes e os diversos tipos procedimentais, ao explorá-las, proporcionarão um trabalho científico de maior conjectura e de fundamentação teórico-metodológica mais sustentável.

A utilização da História Oral como fonte de pesquisa, no complemento, justificação e como recurso alternativo não só enriquece o trabalho de pesquisa, como também valoriza os 'atores sociais' como indivíduos sujeitos-agentes de sua própria história. É no foco desta discussão que se pode fazer uma análise, a partir de um marco com o qual o trabalho do historiador objetiva revelar sua abordagem tomando por base as seguintes indagações: Qual História?Qual Fonte?Qual Verdade? É Na busca incessante de responder a essas indagações que o Historiador, no desenrolar de sua pesquisa, estará constantemente organizando e (re)organizando seu trabalho de investigador, dentro de um movimento dialético e constante com as diversas fontes a serem estudadas minuciosamente.

Parte-se do pressuposto de que o maniqueísmo cientificista, adotado, sobretudo, pelos cientistas sociais no Brasil, tem contribuído extremamente para que se veja somente no documente escrito, a condição sine qua non para uma pesquisa ser considerada como científica. É pelo rompimento desse maniqueísmo que a 'Nova História' reconhece a necessidade de reavaliação dos critérios empregados na análise epistemológica das fontes históricas. Nessa perspectiva, a 'Nova História', propõe que a abordagem histórica não pode ser centrada do ponto de vista cerrado e voltado apenas para as chamadas fontes 'oficiais', consideradas fidedignas, tornando, assim, uma história unilateral e de visão micro.

Seguindo a tendência da 'Nova História', a história precisa ser abordada a partir das várias fontes possíveis e sob múltiplas vertentes, como: a história das mentalidades, dos vencidos ou esquecidos, do cotidiano, das experiências individuais, enfim, de todos os ângulos possíveis e plausíveis, pois, somente assim, rompe-se com a linha dogmática e elitista, defendida pela tradicional historiografia. É por uma história de visão pluralista, baseada no campo multifacetado de fontes, que o historiador deve pautar seu trabalho. Para isso, conforme Le Goff (1993), urge a necessidade de se romper com a História do poder monárquico ou do poder burguês, que durante muito tempo primou escrever "os papéis representados pelas elites do poder, da fortuna ou da cultura como sendo os únicos que contavam" (p. 261).

É no leque de abordagens de novos objetos, novos problemas e novos procedimentos metodológicos que a história passa a necessitar de fontes escritas, orais e visuais, para penetrar na essência da verdade dos fatos. Nesta direção, o historiador-investigador analisa, compara e avalia fonte com fonte ao seu alcance. É um trabalho de grande fôlego e exige retoques sucessivos. Pode-se dizer que na busca da realidade, o historiador utiliza, num movimento constante e profundo, as fontes, procurando lapidar seu objeto investigado, transpondo barreiras da realidade aparente, a fim de se alcançar a essência do real (Gadamer, 1998).

No movimento de análise das fontes orais é que o historiador percebe as construções e desconstruções de seu objeto pesquisado. É com esse movimento analítico que o historiador procura novos rumos e enfoques com registros múltiplos da memória, os quais, lhe servirão de comprovação das fontes escritas pelas fontes orais e vice-versa, visando a veracidade das informações, conforme aponta THOMPSON (1992):

A história oral pode certamente ser um meio de transformar tanto conteúdo, como finalidade da história. Pode ser utilizada para alterar o enfoque da própria história e revelar novos campos de investigação; (...) pode devolver às pessoas que fizeram e vivenciaram a história um lugar fundamental, mediante suas próprias palavras (p. 25).

Desta forma, o preconceito da historiografia tradicional é refutado, pois, considera as fontes orais como documentos apenas subsidiários e possuidores de baixo valor histórico. Entretanto, apesar da indiscutível contribuição do movimento do annales na tentativa de desmistificação das fontes erigida pela tradição historiográfica, ainda perduram preconceitos acerca da história oral como fonte segura na busca da verdade hisdtórica. Segundo BURKE (1992), isso acontece devido a seguinte problemática:

Paul Thompson sugeriu que os velhos professores não gostam de aprender novos truques e resistem ao que percebem ser uma erosão da posição especial do método rankeano. Isso pode ser verdade, mas eu suspeito de que há razões mais profundas, e mesmo estridentes. Os historiadores vivem em sociedades alfabetizadas e, como muitos dos habitantes de tais sociedades, inconscientemente tendem a desprezar a palavra falada. Ela é o corolário de nosso orgulho em escrever e de nosso respeito pela palavra escrita (p. 166).

Na obra de FREITAS (op. cit.), alguns enfoques incisivos são apresentados com respeito à verdade histórica. No bojo do texto em debate, percebe-se que o processo do conhecimento, para se chegar à verdade, é algo inacabado e infinito. Na proporção que aperfeiçoamos o saber sobre diversos aspectos da realidade, analisada sob diferentes prismas e "acumulando verdades parciais não produz uma suma de conhecimentos, nem modificações puramente quantitativas do saber, mas transformações qualitativas da nossa visão da história" (p. 17).

3. Verdade histórica e Memória

Na busca da realidade ou verdade histórica existe um trabalho de investigação profunda, incansável e interminável do pesquisador. Este trabalho tem por meta extrair do objeto pesquisado a sua essência. Dentro da concepção marxiana isso só seria possível através de um método objetivo que depende, a priori, da concepção do sujeito abordante. De acordo com essa corrente de pensamento, os seres que enxergamos são apenas aparências da realidade. Com efeito, a essência dos seres paira no conceito do sujeito. As aparências trazem a essência, porém, para se chegar à essência do objeto, é preciso uma lapidação profunda desse objeto através de um trabalho constante de pesquisa. É necessário se perceber a exterioridade que encobre a realidade que está fora do ser, pois, todo ser está envolto de mediações. Desta forma, necessário se faz - na busca da realidade almejada - partir do abstrato para o concreto, do simples para o complexo, do imediato para o mediato. Em outras palavras, vale dizer que a verdade histórica é construída a partir de várias verdades parciais e relativas. Neste sentido Schaff apud FREITAS (op. cit.), destaca:

... a verdade histórica se constrói cada vez mais complexa, cada vez mais precisa, a partir de verdades parciais e, neste sentido, relativas. (...) o fato da diversidade, da variabilidade, até mesmo da incompatibilidade dos pontos de vista dos historiadores que, potencialmente, dispõem das mesmas fontes e, subjetivamente, aspiram à verdade, e só a verdade, crendo mesmo tê-la realmente descoberto (p. 17).

Por último, apresenta-se no texto em discussão a questão da memória na história oral. Ao longo do tempo, a memória foi abordada de diferentes formas. Na antiguidade, a memória era comparada a uma deusa, 'Mnemósine'. A finalidade desta deusa era lembrar aos homens os heróis e os seus feitos vantajosos, além de presidir a poesia lírica. A memória era tratada como algo divino e foi responsável pela elaboração de uma vasta mitologia da reminiscência na Grécia antiga.

Mnemósine, revelando ao poeta os segredos do passado, o introduz nos mistérios do além. A memória aparece então como um dom para iniciados e a anamnesis, a reminiscência, como uma técnica ascética e mítica. Também a memória joga um papel de primeiro plano nas doutrinas órficas e pitagóricas. Ela é o antídoto do Esquecimento. No inferno órfico, o morto deve evitar a fonte do esquecimento, não deve beber no Letes, mas, pelo contrário, nutrir-se da fonte da Memória, que é uma fonte de imortalidade (LE GOFF, 1996: 438).

Na Idade Média a memória passou por intensas transformações, devido à difusão do cristianismo – religião da recordação – ideologia dominante na época. Nesse período ocorreu a chamada 'cristianização' da memória, dividida em coletiva e mnemotécnica. A primeira foi subdividida em litúrgica (girava em torno de si própria) e laica (restrita e de fraca penetração cronológica). Nessa época a memória apresentava expressão, sobretudo, na literatura medieval por meio das narrativas orais (contos populares e canções) e da escrita, ambas de cunho religioso, místico e transcendental. A prática do 'poeta-memoricista' (relembrando os bons tempos do passado) fazia parte do cotidiano cultural daquela época.

... a memória, onde cresce a história, que por sua vez alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro. Devemos trabalhar de forma que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens (LE GOFF, 1996, p. 24).

Mas, como sabemos que em todas as épocas e em todos os tempos não existem, no geral, apenas bons tempos, o homem da Idade Medieval parece estar bitolado ou condicionado a um esforço tremendo para um esquecimento, a fim de não relembrar qualquer sofrimento ou angústia. Esse esquecimento, no entanto, não era fortuito ou alienante, haja vista que a felicidade para existir necessita também desse recurso.

Fechar de quando em quando as portas e janelas da consciência, permanecer insensível às ruidosas lutas do mundo subterrâneo dos nossos órgãos; fazer silêncio e tábua rasa na nossa consciência, a fim de que aí haja lugar para pressentir (...): eis aqui, repito, o ofício desta faculdade ativa, desta vigilante guarda encarregada de manter a ordem psíquica, a tranqüilidade, a etiqueta (NIETZSCHE, 1991: 57).

Na Idade Moderna a memória ganha ímpeto com o desenvolvimento comercial e com o avanço das comunicações. Nessa época foi registrada uma maior difusão e intensificação da escrita, porém, a oralidade concomitantemente à escrita também é perpassada com amplitude, principalmente por camponeses e comunidades pobres, através de contos populares bastante utilizado na época.

Apesar das diversas transformações culturais ocorridas ao longo dos séculos, os narradores camponeses adaptavam o cenário de seus relatos ao seu próprio meio. Contudo, mantinham intactos os principais elementos, usando repetições, rimas e outros dispositivos mnemônicos. Destarte, a memória preservou a tradição historiográfica evitando, assim, deformações e distorções acerca da história dos vencidos ou esquecidos. Neste sentido é que história é sinônimo de memória numa relação de fusão entre ambas.

Na contemporaneidade, num primeiro momento, a memória mantém um processo de interdependência com a história. Com o passar do tempo, essa memória vai se ancorar na história. Por isso é que se diz que, no século XIX, há uma certa perda da memória. Isto se dá porque a história apropria-se da memória coletiva e a transcreve. Conforme o texto em discussão, da virada do século XIX para o XX, a memória emancipou-se da história e se tornou matéria da literatura, da filosofia, da psicologia e da sociologia. Desta forma, os historiadores apresentam um domínio limitado no campo da memória e têm realizado poucos trabalhos aprofundados em relação a essa temática. Há, sem dúvida, um déficit da história relativo a um estudo mais profundo da memória. Muito embora, segundo Freitas (op. cit.), se reconheça os trabalhos dos franceses Nora e Le Goff, relacionados com esse assunto.

Não se pode negar que, ultimamente, vários estudos são direcionados para o estudo da memória. Já se disse que "um povo sem memória é um povo sem história". Entende-se por esta expressão que não há história sem memória. O discurso, hoje, sobre memória, enfoca que ela é o encontro do passado no presente e que significa a identidade cultural, a construção e a história de um povo. A memória representa a forma de organização de uma nação, sociedade, comunidade, cidade ou grupo social. É necessário ressaltar que a memória em debate é a memória coletiva, pois, os indivíduos, não podem ser analisados separadamente. Eles não vivem isoladamente e a memória, ao ser retratada, será sempre de um grupo ou classe social. Deste modo, entende-se que a memória individual é parte constitutiva e inseparável da memória coletiva. Ao se lembrar do passado, não se pode lembrar de um fato ou indivíduo isolado, pois, "... só temos a capacidade de nos lembrar quando nos colocamos no ponto de vista de um ou mais grupos e nos situar novamente em uma ou mais corrente do pensamento coletivo" (HALBWACHS, 1990: 36).

4. Considerações finais

Mais do que nunca é necessário realçar a importância da memória como resgate de identificação de um povo soberano. O processo hegemônico do binômio globalização/neoliberalismo e sua meta de transformar o mundo numa aldeia global, além de ter trazido consigo problemas globais sérios, impossíveis de resolução, como a cura da AIDS e da Violência Organizada, prima pela perda da identidade dos Estados Nacionais. O resgate oportuno de valores ético-morais, costumes e tradições próprias de uma nação, deve ser meta prioritária na atual sociedade de massa, ávida pelo consumismo, volátil e direcionada pela efemeridade (IANNI, 2002).

É neste contexto temporal - de tentativa de aculturação global - que elencamos a memória coletiva como forma de suspirar em defesa da identidade cultural da nação. É por meio dessa memória imortal, que se espera ouvir relutantemente a voz do esquecido, do 'vencido', do oprimido e de todos aqueles que ainda sonham com uma vida social com mais eqüidade rumo à felicidade. É imprescindível tomar consciência do papel que cada um pode e deve representar na sociedade brasileira, em busca de identidade própria. Aceitar as diferenças sem preconceitos e lutar pela coesão social de pensamento, objetivando a conquista do bem comum são outras providências. Mais do que nunca é necessário uma conscientização histórico-política revelada através da memória para que com as experiências do passado possamos aprender, no presente, para a busca de um futuro mais promissor. Esta é aconcepção e análise da memória, que se vislumbraa partir deste artigo. A meta é dar-lhe continuidade em outros debates futuros, conforme oportunidades surjam.

É através da experiência vivida no passado, dos erros e acertos, das ilusões e desilusões, das ideologias e utopias, dos sonhos e das realidades, das verdades e mentiras, das buscas e desistências, dos medos e das coragens, enfim, de tudo que se viveu, sentiu ou pensou, que se pode corrigir, no presente, para se melhorar no futuro. Tudo isso só é possível se o historiador lançar mãos dos diversos tipos de fontes, pois, nem tudo está escrito. Neste sentido é que a memória privilegia aqueles que não tiveram vez e nem voz por falta de oportunidade ou por ofuscamento das diretrizes dominantes. O estudo da memória é fundamental, principalmente numa sociedade intensamente autoritária, violenta e discriminadora, como a brasileira que foi produzida por um Estado assistencialista, que sempre negou os direitos essenciais para o exercício da cidadania ativa aos seus habitantes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMADO, Janaína e FERREIRA, Marieta de Morais (Orgs.). Usos e Abusos da História Oral. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1998.

BURKE, Peter (Org.). A escrita da história: novas perspectivas. Tradução Magda Lopes. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1992.

FREITAS, Sônia Maria de. História oral: possibilidades e procedimentos. São Paulo: USP, 2002.

FOUCAULT, Michel. Nietzsche, a genealogia e a história. In: Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1986.

HALBWACHS, Maurice. Memória Coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.

HALL, M. Michael. História oral: os Riscos da Inocência In: O Direito à Memória: Patrimônio Histórico e Cidadania. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura / Departamento do Patrimônio Histórico, 1991.

IANNI, Otávio. A sociedade global. 10. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

LE GOFF, Jaques. A história nova. Tradução Eduardo Brandão. 2. ed. São Paulo: Martins, 1993.

__ História e memória. Tradução Bernardo Leitão... (et. al.). 4. ed. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1996.

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NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da moral: uma polêmica. Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

THOMPSON, E. Paul. A voz do passado – História oral. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1992.


Autor: Antonio Roberto