A MORTE SOB A ÓTICA DA ENFERMAGEM



Esse artigo analisa a morte no cotidiano da enfermagem. A morte não é um tema muito trabalhado na vida acadêmica, implicando assim no despreparo dos profissionais ao vivenciá-la. São preparados apenas para a vida, a manutenção da mesma a qualquer custo. Discute também pesquisas encontradas em publicações sobre a morte e a enfermagem, enfocando principalmente no profissional enfermeiro, identificando os sentimentos envolvidos em situações de óbitos hospitalares.

INTRODUÇÃO

Os profissionais da área da saúde são freqüentemente expostos a situações de enfrentamento da morte de pessoas sob seus cuidados, sobretudo aqueles que atuam em serviços hospitalares.

Apesar desse confronto com a morte no seu cotidiano de trabalho, esses profissionais encontram dificuldade em encará-la como parte integrante da vida, considerando-a, com freqüência, como resultado do fracasso terapêutico e do esforço pela cura.

Estudar as concepções culturais do processo saúde-doença-morte nas diferentes sociedades pode possibilitar aos profissionais de enfermagem compreenderem seus próprios valores e crenças diante do processo de morrer e da morte bem como suas atitudes e ações relacionadas com as questões do cotidiano que influenciam na sua vida pessoal e profissional.

O sofrimento das pessoas que compõe a equipe de enfermagem parece ser mascarado pelo cumprimento das rotinas. Este sofrimento decorrente do envolvimento emocional da equipe são fatos vivenciados na unidade hospitalar e estão diretamente ligados aos valores pessoais, à história de vida e à patologia que acomete o paciente.

1- CONCEITUANDO A MORTE

Não podemos falar da morte sem antes tentar conceituá-la. Para Vieira (2006, p.21) "a pergunta 'o que é morte' tem múltiplas respostas e nenhuma delas conclusiva, pois a questão transcende os aspectos naturais ou materialistas e, até biologicamente, é difícil uma resposta unânime".

Segundo MOREIRA (2006), morrer, cientificamente, é deixar de existir; quando o corpo acometido por uma patologia ou acidente qualquer tem a falência de seus órgãos vitais, tendo uma parada progressiva de toda atividade do organismo, podendo ser de uma forma súbita (doenças agudas, acidentes) ou lenta (doenças crônico-degenerativas), seguida de uma degeneração dos tecidos.

"A situação de óbito hospitalar, ocorrência na qual se dá a materialização do processo de morrer e da morte, é, certamente, uma experiência impregnada de significações cientificas, mas também de significações sociais, culturais e principalmente subjetivas." (DOMINGUES DO NASCIMENTO, 2006)

BRETAS (2006) reforça ainda que a morte não é somente um fato biológico, mas um processo construído socialmente, que não se distingue das outras dimensões do universo das relações sociais. Assim, a morte está presente em nosso cotidiano e, independente de suas causas ou formas, seu grande palco continua sendo os hospitais e instituições de saúde.

2- FASES DA MORTE

Para melhor entendimento dos vários fatores que interferem no enfrentamento da morte/morrer, tanto pelos profissionais quanto pacientes e familiares, é preciso que antes saibamos um pouco mais sobre as fases da morte e suas possíveis reações causadas pelo impacto da notícia.

Kübler-Ross (1994), em seu livro Sobre a Morte e o Morrer, realizou um trabalho com pacientes terminais onde analisou os sentimentos do paciente e da família no processo e morrer. Ele esclarece que passamos por vários estágios quando nos deparamos com a morte, sendo que a negação é o primeiro estágio.

A negação – é caracterizada como defesa temporária, onde a maioria das vezes o discurso pronunciado é "isso não está acontecendo comigo" ou "não pode ser verdade". Outro comportamento comum nessa fase é o agir como se nada estivesse acontecendo.

"Evidentemente, se negamos a morte, se nos recusarmos a entrar em contato com nossos sentimentos, o luto será mal elaborado e teremos uma chance maior de adoecermos e cairmos em melancolia ou em outros processos substitutivos." CASSORLA (1991, p.21)

Outros mecanismos de defesa que utilizamos inconscientemente ainda citando Kübler-Ross (1994), são:

A ira – nesta fase prevalece a revolta, o ressentimento, e o doente passa a atacar a equipe de saúde e as pessoas mais próximas a ele. Questionam procedimentos e tratamentos e a pergunta mais comum é "porque eu?". Podem ainda nesta fase, surgir períodos de total descrença.

A barganha – o doente faz acordos em troca de mais um tempo de vida. Nessa fase são comuns as promessas, Deus se torna presente em sua vida, faz promessas de mudança se for curado.

A depressão – após a fase da barganha, o doente percebe sua doença como incurável e ciente da impossibilidade ou dificuldade de cura, deprime-se, sente-se vazio e deixa de intervir no tratamento, relaciona-se pouco com outras pessoas.

A aceitação – o paciente entende e aceita sua situação e tenta dar um sentido para sua vida.

Segundo Bosco (2008), esses são estágios que sucedem, porém podem não aparecer necessariamente nessa ordem ou alguns indivíduos não passam por todos eles. Podem inclusive voltar a qualquer fase mais de uma vez. É um processo particular, onde muitos sentimentos estão envolvidos e que dependem de vários fatores, como religiosidade, estrutura familiar, cultura, por exemplo.

3- O PROFISSIONAL E A MORTE

O cuidar está inserido desde o nascer até o morrer, sendo que esta ação implica aliviar, ajudar, pois a cura não é o fim, devendo estar presente até mesmo no processo de morrer.

A Enfermagem é uma profissão que trabalha com o ser humano, interage com ele tanto em sua natureza física, como também social e psicológica. Desta forma, o cuidar pode ser caracterizado pela atenção, zelo e preocupação com o outro.

"Os enfermeiros, profissionais cuja presença se faz de maneira ainda mais constante no cuidado junto a pessoas que vivenciam a sua finitude, experimentam de maneira potencializada esses sentimentos conflitantes, sendo este um tema recorrente de estudo". (BELLATO, 2007)

Segundo AGUIAR (2006), a formação acadêmica, no entanto, pode deixar algumas lacunas fazendo com que o profissional acredite que somente a cura e o restabelecimento são características de um bom cuidado. As rotinas hospitalares não permitem nem abrem espaço para questionamentos que levem a pensar e compreender melhor a morte.

"Tem-se a considerar a sobrecarga do enfermeiro em relação ao seu trabalho, o que impede a visão de que este cuidar com respeito, perpassa o sentido da audição, no que tange ser capaz de ouvir, de prestar atenção às pessoas, de perceber o que pensam ou sentem". (NUNES FERNANDES, 2006)

Partindo deste principio, AGUIAR, (2006) em seu trabalho, ressalta a necessidade que os profissionais têm então, de quebrarem o silêncio e ousarem falar de suas dores, medos, do luto que deve ser elaborado, a fim de que suas demandas sejam atendidas e o melhor cuidado seja oferecido. É importante que eles se permitam entristecer e não se sintam culpados.

Segundo NUNES FERNANDES (2006), quando paramos para pensar sobre o que se é permitido sentir o profissional enfermeiro a cerca da morte, vem o questionamento quanto ao comportamento que deve ser assumido frente ao paciente que morre e a família, pondo dúvidas em torno do cuidar com respeito.

De acordo com SUSAKI (2006), os profissionais de saúde acabam criando mecanismos de defesa que os auxiliam no enfrentamento da morte e do processo de morrer. Por serem preparados para manutenção da vida, a morte e o morrer em seu cotidiano, suscitam sentimentos de frustração, tristeza, perda, impotência, estresse e culpa. Em geral, o despreparo leva o profissional a afastar-se da situação.

Em MOREIRA, (2006) como um mecanismo de defesa e proteção contra o sofrimento, o processo de morrer e morte passa a ser visto como banal, sendo o distanciamento e endurecimento das relações frente à morte e ao paciente terminal algo tornado natural e considerado comum e rotineiro.

CONCLUSÃO

Os profissionais de saúde sentem-se responsáveis pela manutenção da vida de seus pacientes, e acabam por encarar a morte como resultado acidental diante do objetivo da profissão, sendo esta considerada como insucesso de tratamentos, fracasso da equipe, causando angústia àqueles que a presenciam.

A sensação de fracasso diante da morte não é atribuída apenas ao insucesso dos cuidados empreendidos, mas a uma derrota diante da morte e da missão implícita das profissões de saúde: salvar o individuo, diminuir sua dor e sofrimento, manter-lhe a vida.

Os artigos estudados tratam ainda que o despreparo acadêmico, a dificuldade de discutir sobre o assunto e a não aceitação da morte como parte da vida, são fatores que contribuem para tal dificuldade. A falta de preparo e a falta de diálogo sobre a morte deixam os profissionais perplexos e distantes dos pacientes em iminência de morrer, dificultando as tomadas de decisão e abordagem.

REFERÊNCIAS

·AGUIAR, Isabella Rocha et al. O envolvimento do enfermeiro no processo de morrer de bebês internados em Unidade Neonatal. Acta Paul. Enferm. São Paulo, v.19, n2, 2006.

·BELLATO, Roseney et al. A abordagem do processo do morrer e da morte feita por docentes em um curso de graduação em enfermagem.Acta Paul .enferm. São Paulo,  v. 20,  n. 3, 2007.

·BOSCO, Adriana Gonçalves. Perda e luto na equipe de Enfermagem do Centro Cirúrgico de Urgência e Emergência. Dissertação de Mestrado apresentada à Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto/USP. Ribeirão Preto, 2008.

·BRETAS, José Roberto da Silva; OLIVEIRA, José Rodrigo de; YAMAGUTI, Lie. Reflexões de estudantes de enfermagem sobre morte e o morrer.Rev. esc. enferm. USP ,  São Paulo,  v. 40,  n. 4, 2006.

·CASSORLA, R. M. S. Da Morte: Estudos Brasileiros. Campinas: Papirus, 1991, 241p.

·DOMINGUES DO NASCIMENTO, Carlos Alberto et al. A significação do óbito hospitalar para enfermeiros e médicos. Rev. Rene, abr. 2006, vol.7, no.1, p.52-60.

·-KÜBLER-ROSS, E. Sobre a Morte e o Morrer. 6 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1994. 291p.

·MOREIRA, Almir da Costa; LISBOA, Marcia Tereza Luz. A Morte - Entre o Público e o Privado: reflexões para a prática profissional de enfermagem. Rev. enferm. UERJ. set. 2006, vol.14, no.3, p.447-454.

·NUNES FERNANDES, Maria Edilene; et al. A morte em Unidade de Terapia Intensiva: percepções do enfermeiro. Rev. Rene. abr. 2006, vol.7, no.1. p.43-51. 2008.

·SUSAKI, Tatiana Thaller; SILVA, Maria Júlia Paes da; POSSARI, João Francisco. Identificação das fases do processo de morrer pelos profissionais de Enfermagem.Acta paul.enferm.,  São Paulo, v.19, n.2, jun. 2006.


Autor: Juliana Cândido