A Estátua Viva



A Arnaldo Bloch

Severino fechou os olhos, levou as mãos à cabeça e, impactado com a tontura momentânea, assentou-se no cubo de madeira que imitava mármore de Carrara, que servia de suporte para a sua performance. Tudo girava ao seu redor. E os prédios, as pessoas e árvores que transitavam ao alcance de sua visão embaçada, mais pareciam fantasmas saídos de cenários de vilarejos mexicanos em filmes de Hollywood.

A visão estava turva. A mente confusa. O estômago vazio. Severino respirou fundo e o ar que lhe assaltou de imediato os pulmões, também irrigou o cérebro, propiciando um novo momento de lucidez. Lucidez angustiante para aquele fim de tarde de sexta-feira, de uma semana de poucos rendimentos nessa sua arte de imitar a vida, reproduzir a história, divertir crianças e adultos e reunir uns míseros trocados que lhe garantissem a sobrevivência. Ao menos por mais uma semana.

Naquele instante de angústia pensou:

- Se pelo menos caísse para cima, como o meu homônimo que saiu da presidência da Câmara Federal em Brasília para o anonimato lucrativo de suas falcatruas?

O Severino do B, o Severino pobre, o do Brasil que ainda não deu certo, mas que ainda sonha, insistia com as suas instalações medíocres de estátua grega e com as performances estudadas de jeitos e trejeitos que se esvaziam rapidamente. Ele precisava desesperadamente alegrar transeuntes e amealhar moedas. Fora isto que aprendera num curso gratuito na Escola Nacional do Circo e era isso que insistia em fazer enquanto não alcançava o famigerado emprego depois de tantos currículos espalhados.

Estava envolto nestes pensamentos quando achou ter visto mais dois personagens disputando com ele a cena. Ele era Heráclito, o grego, o sábio helênico corrompido pelo capitalismo selvagem da América. Ele não distribuía sua sabedoria, mas vendia seu corpo. Trocava suas performances por moedas salvadoras, que tilintando em sua caixinha de papelão poderiam garantir a refeição solitária do dia e também a reserva diária do ajuntamento necessário para as despesas mensais como o aluguel e o pagamento de carnês dos crediários feitos em lojas de roupa barata.

Sim, tinha visto sim. Eram dois. Um espadachim devidamente caracterizado com chapéu, máscara, capa preta e sabre de plástico dourado e um palhaço de circo com calças largas, camisa colorida de mangas compridas e punhos floridos a Luiz XV, bem como um nariz vermelho de plástico, espetado no meio da cara.

Heráclito, melhor dizendo Severino, riu com a visão que aquele momento de tormenta lhe estimulava. Pensou consigo mesmo: Não está na hora de parar com estes jogos performáticos? Voltar a ser eu mesmo e encarar qualquer coisa de comum no cotidiano da existência? Severino sofria de ser, sem sequer ter esbarrado em seu sonho! Pensava que estava tendo alucinações... Lembrava-se que perdera o conceito de pátria e de cidadania e que se tornara apenas um solitário andarilho de sonhos. Não podia ser um concidadão, pois lhe faltava a comunhão das lembranças e das esperanças.

O baque surdo da espada flamejante de encontro a sua ilharga direita e o grito do moleque "Acorda estátua!" - o fez perceber que tudo era real. Recobrou ânimo, empertigou-se sobre o pedestal de madeira e pôs-se em guarda para viver seu personagem e ganhar uns trocados. Mas as crianças se divertiam e riam e pulavam e promoviam uma algazarra estonteante na calçada do Seu Zé, de modo que Severino desceu do seu fracasso, recolheu os seus pertences, esvaziou as moedas na capa do mini Zorro brasileiro e retirou-se derrotado, macambúzio e sorumbático.

Às margens daquele acontecimento, uma ilustre testemunha ocular presenciava o jogo de poder que se travava entre os personagens. Arnaldo Bloch foi premiado com o entrevero que Eros e Tânatos travavam no instante mágico dos folguedos infantis. Para ele a estátua de carne e cal sucumbira à docilidade e graça de duas emergentes crianças.

Enquanto Severino representava a luta pela sobrevivência num corpo cansado onde habitava uma mente já contaminada com as emanações de fracasso da sociedade, as ingênuas crianças aludiam ao futuro e à energia que não se podia conter em mentes sonhadoras, povoadas de uma imaginação criativa que o ser humano nunca pode desprezar na sua busca de um lugar ao Sol. Na vida há os que se recolhem, saindo de cena pela porta dos fundos. São os fracassados, os tímidos, os despreparados, os rastejantes vermes de uma sociedade que aniquila os que não conseguem se impor pelas mais variegadas razões do existir. Mas há também aqueles que não se entregam, que vão a luta e que, se preciso for, até arrombam portões de ferro, para adentrar o palácio da sobrevivência. Nestes se enquadram os que têm espírito esportivo e sonhador como o daquelas crianças que nos devaneios lúdicos de suas brincadeiras exorcizavam, sem o saber, algum fantasma de tirano sanguinário que precisava ser vencido ou de um cruel opositor que lhes entravava o caminho do futuro.

Adolpho Bloch assistiu a tudo aquilo lá de cima e disse para o Arnaldo:

- Não chores! Você possui uma arma que poucos sabem manejar com destreza. Faça da sua indignação o seu sonho e da sua pena a reescrita da história do brasileiro sofredor! Mostre para o Brasil que a relação de poder em sua pátria precisa ser revista com o estilo literário de quem não vende a alma nem o corpo por um prato de lentilhas qualquer; seja ele dinheiro ou prazer seja status ou poder.

E então o Arnaldinho abriu novamente os olhos e decidiu-se por exercer todo o poder que tinha nas mãos. Não o poder do tirano, do déspota, do traidor da pátria, do embusteiro, do dinheiro podre auferido nas maracutaias das transações escusas ou nas negociatas vergonhosas da calada da noite ou do dia nos ministérios de Brasília, mas o poder grandiloqüente do amor! O amor puro e simples que ele trazia em seu coração e que sabia existir no coração de cada brasileiro.

Contra esse poder, Arnaldo bem sabia que não havia lei. A lei do amor é mais forte e sobre-eleva-se a qualquer outra que possa tentar obstruir o seu caminho. O amor é tesouro que se multiplica por divisão. É adereço que enfeita o mais bruto dos homens que assiste ao próprio corpo desgastar-se no labor de cada dia. O amor é a energia vital que insemina o homem de criatividade e realização. Do amor brotam as sementes dos poemas e das canções. Pelo amor fazem-se os acordos de trégua e de paz. Com base no amor, constroem-se prédios e vidas. O amor dá um basta na estagnação e coloca a vida de novo nos trilhos. No amor a esperança não fenece e a alegria nunca desaparece. O amor é o músculo da alma que alimenta os sonhos e enrijece o caráter.

Com o que escreveu no dia seguinte à sua observação arguta da realidade, Arnaldo Bloch fez Severino voltar para casa e dormir o sono reparador dos incansáveis e retornar no dia seguinte para o seu sonho. Lá estava ele, não mais na Delfim Moreira, fechada para lazer, mas no Jardim Botânico, na Tijuca, em Niterói, no Elevador Lacerda, no Anhangabaú, no Mercado Ver-o-peso, em Maceió, na velha São Luis, no Pantanal, na rampa do Planalto, em cada lugar onde houvesse um brasileiro varrendo o chão, limpando uma janela, empurrando um carrinho de mão ou simplesmente ajudando uma velhinha a atravessar a rua ou dando aquela mãozinha para o remediado que teve seu fuscão preto enguiçado em plena Avenida Paulista.

E já não era mais somente Heráclito, o grego, mas a ele ajuntou-se Aristóteles. Vi também Hesíodo e Orígenes. E foram também se achegando Amós e Isaías, os profetas. E quando percebi, o número dos presentes era sem conta, onde também estavam Mahatma Gandhi e Madre Teresa de Calcutá. Vi Martin Luther King e consegui enxergar Chico Mendes. Deparei-me com Noemi Campelo e Mirtes Mathias. Mas eram todos estátuas cobertas de pano revestido de cal ou tinta branca para compor o figurino. Eram, porém, estátuas vivas que espargiam sobre todos os transeuntes a única essência sem a qual não se constrói a existência: O amor! E todos os dias, os Severinos do Brasil, trabalhavam incansáveis na construção de uma pátria melhor; sabedores de que eram detentores de um poder incomensurável cujo preço não se podia aquilatar: O amor!
Autor: Josué Ebenézer de Sousa Soares