PICHAÇÃO OU URBANIDADE, SILOGISMO OU MARGINALIDADE ?



Antônio Domingos Araújo Cunha


ABSTRACT

The aim of this research is to demonstrate the contemporary aspects of some resistance forms in the urban social context specially coming from segregate communities and the manifestations of speeches that normally compose these spaces, compromising the urban landscape, marking territories, demonstrating the fragility of the policies, and the government attitude toward this behavior that is considered illegal. Soon, the author is supported theoretically by national and international authorities in speech analysis, relating some very important aspects of the dynamic of the cities, and the problem “spraying”. The results of the research are also presented including victims of spraying and sprayers.

Keywords: spraying, urbanity, marginality, speech, territories, spaces, inequalities, differences.

RESUMO

O presente trabalho tem como objetivo, revelar o aspecto contemporâneo das formas de resistência social no contexto urbano, especialmente de comunidades segregadas e as manifestações discursivas que normalmente compõem estes espaços, comprometendo a paisagem urbana, demarcando territórios, demonstrando fragilidade do poder de polícia, e as medidas governamentais decorrentes no controle em autoridades nacionais e internacionais sobre a análise do discurso, relacionando alguns importantes aspectos da dinâmica das cidades e o problema da pichação; Os resultados da pesquisa são também apresentados incluindo vítimas de pichação e pichadores..

Palavras-chave: Pichação, urbanidade, marginalidade, discurso, territórios, espaço. Desigualdade. Diferença.

1. INTRODUÇÃO

Muitas são as formas de manifestação artística e cultural em sociedade, entre elas, o grafite. Mas, a pichação representa a resistência de grupos sociais, uns contra outros, em territórios onde exercem suas atitudes agressivas anti-sistêmicas e anti-sociais. Porém, dizer que se trata de uma atitude marginal, é empregar rigidez no julgamento de conduta indesejada, uma vez que incorpora valores culturais urbanos, embora indesejados.
Trata-se sim de uma forma de depreciar o patrimônio público e privado, equipamentos urbanos, inclusive os de transporte, desafiando o poder de polícia da sociedade e das comunidades, cujos autores são muitas vezes menores e desapegados de regras de conduta social, mas, também pessoas de classes diferenciadas. Portanto, não é privilégio de classes marginalizadas ou excluídas.
A dificuldade maior de conviver com estas manifestações discursivas, é que depreciam a qualidade da paisagem urbana, e revelam de alguma forma uma agressividade desarticulada de autoria para o grande público que a contempla, embora haja entre os autores certos signos que permitem que os grupos sejam reconhecidos entre eles. O município de Curitiba gasta anualmente R$ 600 mil para reparar pichações, vidros quebrados e danos causados por tentativas de arrombamento em escolas públicas. Além disso, mais R$ 105 mil são disponibilizados anualmente com gastos com reparos no sistema de iluminação pública .
Há nos últimos anos um esforço das autoridades em controlar estas manifestações reprimindo esta conduta, assim como o dever das vítimas em reparar seus muros sob pena de terem que pagar multas ao poder municipal . A pesquisa busca compreender a atividade comunicativa dando fundamento ao comportamento social e buscando informações junto aos adeptos e vítimas da mesma no sentido de posicionar o leitor sobre o tema.

2. METODOLOGIA
Define-se o aporte teórico em sentido amplo, pelas teorias do discurso e no alinhamento restrito, a manifestação discursiva “pichação”. Entrevistas com sujeitos significativos, autores destes discursos foram realizadas. Vale-se de estudo de caso bem como método explicativo e exploratório. Para Babbie (1999) há técnicas para se estudar o objeto da pesquisa, pela definição das unidades de análise. Neste caso, as impressões foram coletadas em vários pontos de Curitiba, especialmente no bairro do Cabral e centro. Observou-se igualmente o comportamento no centro de São Paulo, com documentação fotográfica. Foram distribuídos questionários para vítimas de pichação e pichadores na comunidade local (Curitiba), por um intermediário, visto que não se retratam. Os dados foram coletados, quantificados e analisados qualitativamente para apresentação dos resultados. As questões foram abertas e fechadas.

3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

O termo pichação é definido como um ato ou efeito, e também como dístico, em geral de caráter político, escrito em muro de via pública (FERREIRA, 1999, p. 1562).
Em sentido lato, o termo pode ser entendido como forma de propaganda política, enaltecendo candidatos e/ou partidos, ou como manifestação popular reversa aos mesmos. Trata-se de uma ação que utiliza letras ou símbolos para expressar mensagens de cunho político, enfrentamentos, protestos de grupos (gangs), ou um ato de puro vandalismo. A contemplação das mesmas ora leva ao entendimento comum, ora se apresentam como mensagens desconexas de sentido, algumas amorais e até agressivas, às vezes afetiva.
Vale lembrar que “... tudo que é dito, tudo que é expresso por um falante, por um enunciador, não pertence só a ele. Em todo discurso são percebidas vozes, às vezes infinitamente distantes, anônimas quase impessoais, quase imperceptíveis, assim como as vozes próximas que ecoam simultaneamente no momento da fala.
Tudo que um falante diz pertence a outros além dele, pois várias vozes ecoam no momento de dizer, permeando o enunciado dialeticamente em constante interação e tensão, impedindo uma conclusão do enunciado, mantendo-o constantemente aberto às novas interações e interpretações. Pela brecha da incompletude, transpira um processo dialético, uma forma de interação (BAKHTIN, apud. BRAIT, 1994).
A pichação é uma prática que interfere no espaço, muitas vezes desagradando os que são alvos de comentários, donos de paredes brancas, muros de estabelecimentos, degradando os espaços onde toma lugar. A pichação subverte valores, é espontânea, efêmera e gratuita. Mas uma pergunta que muitas pessoas se fazem é de onde teria vindo esta prática, ou quais teriam sido seus precursores. A linguagem atravessa o indivíduo num processo interativo em que se supõe um ou mais autores.

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Autor: ANTONIO DOMINGOS CUNHA