A fenomenologia, como a mais aguçada busca do entender o mundo. Comentários à PROLEGÓMENOS A UMA LÓGICA PURA de Edmundo Husserl.



Comentários à PROLEGÓMENOS A UMA LÓGICA PURA de Edmundo Husserl.

*O autor: Gilberto Moreira Machado, Advogado, atualmente esta cursando o Mestrado em Filosofia junto ao Instituto Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, fez MBA em Direito da Economia e da Empresa junto a Fundação Getúlio Vargas / RJ; Pós-graduado pela Universidade Gama Filho em Direito Civil e Processo Civil. Graduado em Direito pela UFRJ.

1. INTRODUÇÃO.

Este trabalho que nasce da intenção de ser uma exposição sintética da primeira parte intitulada Prolegómenos a uma lógica pura, da consagrada obra de Edmundo Russerl – Investigações Lógicas- que foi um marco na aceitação da fenomenologia como mais um campo da Filosofia, impôs dificuldades. Especialmente porque muitos e muitos estudiosos filósofos produziram sobre esta obra encarniçadas críticas e, também, gloriosos elogios. Pelo sim ou, pelo não, o fato que resta inabalável é o reconhecimento de Edmundo Russserl como o Pai da Fenomenologia.

A fenomenologia, hoje, é entendida como a parte da filosofia que trata de descrever, compreender e interpretar os fenômenos que se apresentam à percepção, como eles se dão à nossa consciência. No início do secúlo XIX, onde as ciências matemáticas, físicas, astronomia, etc, traziam ao mundo o entendimento de inúmeros fenômenos naturais, especificamente, entendimento de suas manifestações e leis probalísticas que sustentam os ditos conhecimentos. Neste cenário, Russerl conclama que é preciso voltar às coisas mesmas, para chegarmos às essências, ao conteúdo intelegível e ideal dos fenômenos, que se dão de forma imediata à nossa consciência. Foi o início de uma longa jornada.

Russerl, matemático no início de suas atividades, direciona-se à filosofia em 1900, provocando o pensamento da época ao entregar ao mundo sua obra Investigações Lógicas e, ao longo dos anos que se seguiram produziu uma extensa e significativa obra, restando ainda hoje trabalhos inéditos, que após sua morte em 26 de abril de 1938, aos 89 anos, continuam a impressionar os estudiosos.

Nesta obra Husserl pretende delimitar o campo da lógica, separando-o de outras ciências (como a psicologia). Evitando a confusão de campos, a mescla de heteregêneos em uma pretensa unidade, que segundo ele poderiam ter os efeitos mais nocivos: fixação de objetivos falsos; emprego de métodos radicalmente erróneos, confusão de aparência lógica, de tal sorte que as proposiçoes e as teorias verdadeiramente fundamentais, com frequencia ocultas nos disfarces mais singulares, vão se perder entre serie de ideias complentamente estranhas, como fatores de parecer secundário ou consequencias incidentais, etc... Husserl mostra que a logica é uma disciplina teorética, independente da psicologia, que constitui o fundamento mais importante de toda arte do conhencimento científico e possui o carater de uma ciência a priori e puramente demonstrativa.

2. A TEMÁTICA

O conhecimento, como se dá para o homem sempre foi um objetivo perseguido pelos pensadores (filósofos ou não) e, especialmente pelo naturalismo , psicologismo e historicismo, a que Russerl vai refutar em sua obra.

Desde Aristóteles até o final da idade média, o caminho para o conhecimento foi o da análise dialética, ou seja, o raciocínio por dedução lógica a partir de certos conceitos básicos sobre Deus e o universo. O método aristotélico, dominou o ensino e o estudo da natureza a partir de conceitos teológicos sobre Deus e o universo. Por exemplo: se Deus existe, Ele é um ser perfeito e se é um ser perfeito, sua criação das coisas refletirá a sua perfeição; consequentemente, a órbita dos planetas não pode ser qualquer uma mas deve ser a mais perfeita possível, que é a forma circular, e não a elíptica, porque esta última contem desigualdades. Logo, as estrelas e os planetas situavam-se em esferas perfeitas. Porém Galileu, com sua luneta, descobre que o dogma das esferas celestes é pura fantasia. Ele utilizou o método científico, que buscava o conhecimento através da observação e da experimentação.

Basta o exemplo acima para ilustrar a diferença entre chegar o homem ao que existe pela via aristotélica dos conceitos e do pensamento dialético, e chegar ao que existe a partir de si mesmo, pondo-se diante da realidade, diante do universo, para observar e extrair da natureza as evidências que puder colher com o uso da razão. Essa nova atitude naturalista de dúvida, observação, experimentação e estabelecimento de leis, proposta por Francis Bacon[1], levou rapidamente o homem a sucessivas descobertas na astronomia, na química e na física, e ao aperfeiçoamento sempre crescente da mecânica; e haveria de afetar, também, a filosofia, através do pensamento de filósofos como Locke e Hume, da corrente empirista inglesa. John Locke (1632-1704) combateu o pensamento de Descartes de que existem algumas idéias que são inatas, o homem as tem no espírito ao nascer, como, por exemplo, a idéia de perfeição. Locke demonstra que todas as idéias são registros de impressões sensíveis, ou são derivadas de combinações entre essas idéias de origem sensível. Portanto, alguma coisa é enviada pelos objetos e é captada por nossos sentidos na formação das idéias. Porém o que é isto que nos envia os sinais? Essa coisa que nos envia sinais, terá ela a forma dos objetos tal qual sentimos pelo tato, pela vista, ou qualquer outro de nossos sentidos? As idéias de Locke abriram caminho para o positivismo, ou seja, o tratamento científico de todos os fenômenos.

David Hume agravou o impasse denunciando que a relação de causa e efeito é também algo desconhecido, pois nada encontramos entre causa e efeito senão que a causa é um acidente, e o efeito é um outro acidente que costumeiramente se segue ao primeiro. Estamos habituados a chamar o primeiro acidente de causa apenas porque ele sempre acontece antes do segundo que chamamos de efeito. Portanto, as leis da ciência são, em princípio, questionáveis. Não podem valer como verdade, embora sejam úteis enquanto trazem resultados práticos e conduzem a descobertas de novas relações seqüenciais entre os fatos da observação.

A esta influência da psicologia associativa dos empiristas ingleses (notadamente Locke) sobre a filosofia se chamou Psicologismo. A filosofia ficou fora de moda, "reduzida" a uma psicologia científica vinculada ao positivismo. Os psicologistas entendiam a lógica (domínio da filosofia) positivamente, como ciência, como uma disciplina definidora dos modos associativos do pensamento. Os conteúdos da Lógica seriam as regras para pensar bem.

O filósofo Edmund Husserl enfrenta o Psicologismo e busca restaurar a filosofia e a "lógica pura". Por exemplo, o principio da contradição. Segundo os psicologistas, o princípio de contradição seria a impossibilidade do sistema associativo estar a associar e desassociar ao mesmo tempo. Significaria que o homem não pode pensar que A é "A" e ao mesmo tempo pensar que A é "não A". Husserl opõe-se a isto e diz que o sentido do principio de contradição é que, se A é "A", não pode ser "não A". O princípio da contradição não se refere à possibilidade do pensar, mas à verdade daquilo que é pensado. O principio da contradição, e assim os demais princípios lógicos, têm validez objetiva, isto é, referem-se a alguma coisa como verdadeira ou não, independentemente de como a mente pensa ou o pensamento funciona. O pensamento de Husserl parte da necessidade de constituir um saber absolutamente rigoroso, que sirva de modelo e fundamento a todo e qualquer conhecimento. Mesmo a matemática e a física, ciências consideradas rigorosas, uma vez que possuem princípios necessários e fundamentados, não são, contudo, capazes de apreender seu próprio fundamento.

Segundo Husserl, somente a filosofia, compreendida enquanto ciência absolutamente rigorosa, pode fornecer a si mesma e às demais ciências uma possibilidade real de fundamentação. A filosofia, a fim de realizar tal tarefa, deve prescindir dos dados empíricos do conhecimento prático, encontrando acesso à evidência plena a partir de uma apreensão da idealidade transcendente. Surge, assim, o método fenomenológico, no intuito de fornecer um conhecimento que fundamente de modo essencial toda particularização da realidade.

Trata-se, em princípio, de escapar da dicotomia, operada pelas doutrinas psicologistas, entre sujeito e objeto. Para Husserl, a realidade se estrutura como fenômeno, a partir de uma dupla polaridade. Por um lado, a consciência deve ser pensada desde sua característica primeira, a intencionalidade; ao invés de existir como um ente determinado, a consciência é pura atividade. Esta, por sua vez, caracteriza-se como um “ir ao encontro”, de modo que não se pode falar de consciência sem especificar “de que” a consciência trata, sem especificar isto a que ela, constantemente, se remete. Simultaneamente, não se pode falar em objetos destituídos de qualquer apreensão ou relação a uma consciência.

Segundo Husserl, a causa do estado imperfeito de todas as ciências é que, desde as ciências particulares, o cientifico não pode dar conta satisfatória dos princípios sobre os quais repousa sua ciência. Assim, as ciências cresceram e não nos conduziram as verdades da natureza, não podem satisfazer-nos teoricamente.

3. A IMPORTÂNCIA DA OBRA

Naquele momento da história da humanidade, em que as ciências fisicas da natureza despontavam como caminho revelador de toda a verdade, onde o psicologismo experimental dedutivo chamava para o desvendar do mecanismo do conhecer, encantando a todos com a pujança da lógica e do experimentalismo, Russerl levanta-se a chamar a atenção que a relação da lógica e a psicologia que dominavam as explicações do fenômeno conhecimento naquele momento (1894/1900), não apresentavam argumentação convicente. Para ele toda a teoria que sustentava as ciências empíricas, não se prestavam a traduzir o fenômeno do conhecimento. Segundo ele o psicologismo e a lógica não se prestavam a reduzir (traduzir) o conteúdo dos pensamentos e, nem a intencionalidade do pensar.

Neste contexto surge a obra Investigações Lógicas, apresentando a fenomenologia como ciência de essências, de eidos, e não de fatos como na psicologia. O objetivo de Russerl é salvar a objetividade da lógica concebida como “Teoria das Ciências”, separando a lógica da psicologia – ciência experimental de fatos – abrindo campo para a fenomenologia.

A filosofia de Husserl influenciou marcadamente alguns dos maiores pensadores do século XX, como Max Scheler, Martin Heidegger (1889-1970), Ortega y Gasset (1883-1955), Jean-Paul Sartre (1905-1980), Merleau-Ponty (1908-1960). A radicalidade e complexidade de seu pensamento faz de Edmund Husserl um dos maiores nomes da filosofia de todos os tempos.

4. A OBRA

Russerl começa sua obra mostrando a fragilidade do conhecimento das ciências, onde a matemática se mostrava a mais integra das verdades. Porém, disse ele, a ciência somente em sua literatura apresenta consistência objetiva, ela só existe em forma de obras escritas, que se propagam e são acrescidas no transcorrer dos tempos. Em que pese à ciência pretender dominar o reino da verdade, o Autor entende que ela vive de resultados, de probabilidades que não são verdades, porque pertinentes a casos singulares. Tudo é presunção científica baseada na regularidade da forma de manifestação. Entendeu ele que as ciências são criações do espírito, que perseguem determinado fim, devendo ser julgadas em relação a este fim, assim também são as fundamentações e os métodos da ciência, destinados ao fim que perseguem.

Quanto à lógica, que normatiza através de critérios e procedimentos metódicos e forma o pensamento cientifico, Russerl rejeita as definições que via na lógica uma arte de julgar, de raciocinar, do conhecimento e de pensar, por vê-las equivocadas e estreitas. Para ele a definição de Schleiermacher[2] de que a lógica “é a arte do conhecimento científico” é que mais se aproxima da verdadeira função desta.

Ao abordar a concepção de uma ciência normativa, Russerl defende que toda a disciplina normativa e toda a disciplina prática fundam-se em uma ou várias disciplinas teóricas, enquanto que suas regras possuem um conteúdo teórico separado da idéia de normatização cujo o conteúdo compete às disciplinas teóricas. E esclarece a partir da concepção de ciência normativa em sua relação com a ciência teórica, onde as leis da primeira expressam o que deve ser, caso não possa ser, não será nas circunstancias dadas. As leis da segunda expressam unicamente o que é. O autor centra-se a partir daí a identificar o sentido do dever ser; desenvolvendo a investigação, Russerl traz à tona a questão da valoração (juízo de valor?) que para ser positiva deverá atender a uma proposição, um querer, uma exigência. O não cumprimento se reveste de um predicado negativo, sem, contudo se revestir em negação do positivo. Ao estabelecer a concepção de juízo normativo, ele estabelece que toda a proposição seja normativa com referência a uma valoração geral básica cujo conteúdo se revista de predicados de valor, determinados por esta própria valoração que expresse qualquer condição necessária ou suficiente ou, necessária e suficiente para um dos referidos predicados.

Na seqüência expõe questões sobre o ato de valorar, de classificar o que é bom e o que é mau como impulso ao juízo normativo. Expõe que estabelecer uma distinção entre o que é bom e o que é mau nos impõe uma averiguação das circunstâncias, das qualidades externas e internas que estabelecem o bem ou o mau; que características não devem faltar para qualificar um objeto de bom. Destaca neste estudo que nem todo o conhecimento é bom, podendo a partir da valoração ser visto como mau. Diz que valoramos mais as leis que as situações singulares e, o aprofundamento nas condições próximas e distantes, necessárias e suficientes para estabelecer os predicados relativos à determinação do que é melhor ou pior são as unidades de medida com que avaliamos os objetos da esfera correspondente.

A Lógica. Russerl não afasta a idéia de lógica como arte, porém, evidencia que ela não é essencial, já que o que fundamenta as ciências são as teorias-fundamentos teoréticos essenciais de uma ciência normativa. Onde ciência normativa é aquela que encerra um grupo de proposições teóricas que corporificam a disciplina normativa (matemática, geometria, astrologia, etc.)

Russerl, procurou nos fundamentos extra-psicológicos da matemática verdades, mas foi na lógica que algumas verdades não encontraram possibilidade de serem alcançadas pela redução psicológica. As verdades encerradas na lógica estão constituídas por leis rigorosas, naturais ou lógicas, cabendo a fenomenologia buscar através da intuição estas leis e verdades necessárias ou ideais. Segundo ele, o conhecimento adequado à verdades ideais é a intuição[3]. Outras leis corroboram para o conhecimento: as leis empíricas que expressam com acerto às experiências, em determinadas circunstancias; leis exatas da ciência que congregam autenticas leis, desde o ponto de vista epistemológico, sendo ficções idealizadoras fundadas na coisa, obtidas por indução e apresentando alto grau de probabilidade; leis lógicas puras, relativas aos fatos reais da vida psíquica, não tendo conteúdo existencial próprio das probabilidades e, nem se justificam na indução. Este tipo de lei é uma verdade única distinta, que se mantém em seu conteúdo e fundamento.

Para Russerl o erro fundamental do psicologismo foi em eliminar a diferença fundamental entre os dois tipos de leis – caracterizadas pela correspondência entre leis universais puras e as universais empíricas – e, na falsa interpretação de leis lógicas como leis empíricas da psicologia. Os diversos tipos de objeto, segue ele, correspondem por conseguinte, diversas leis e métodos de conhecimento: as leis empíricas utilizam a indução e a abstração, por outro lado, as leis e princípios lógicos fundam-se exclusivamente no intelecto. A concepção do ideal surge como determinação irredutível das leis lógicas.

Na matemática, segundo ele, encontramos a lógica, a intelecção e a objetividade em suas leis, destacando que não se estuda o ato de contar, mas apenas os fundamentos que estabelecem as essências ideais do gênero número. Nenhuma individualidade nestas leis podemos considerar real, posto estas leis nada enunciam sobre o mundo real, nem sobre o que se conta, nem sobre o ato de contar. Nos adverte Russerl, que o equívoco dos termos lógicos citados e, em geral todos termos que estão presentes no contexto da lógica pura, são equivocados, já que significam conceitos de classes de produtos psíquicos, como os pertencentes a psicologia, também conceitos gerais de individualidades ideais que pertencem a uma esfera de leis puras. Russerl nega o ideal como real, salvando contudo sua independência : o ser ideal é independente do que se pensa ou não no mundo intemporal das idéias. Para ele toda verdade é o que é independente de haver ou não capacidade nossa de entendê-las. Algumas idealidades podem ou não tornar-se verdade – realizar-se -, outras não encontram realidade que as justifiquem. Assim Russerl afasta a idealidade da realidade ressaltando que existem a possibilidades e impossibilidades em ambas, estabelecendo que a distinção não se limita ao ser real ou ideal, há a inteligibilidade ideal possível (o em si) e a inteligibilidade efetiva – possibilidade de ser apreendida pelo outro (interação/comunicação).

A intenção de Russerl nesta parte, de distinção entre o ideal e o real, busca por a parte – salvar – a objetividade das leis lógicas, no universo da evidência e da verdade. Onde a evidência pressupõe a existência e, o que não evidenciamos pressupõe a inexistência. A ciência apresenta leis de caráter puramente ideais, ajustando-se ao universo teorético objetivo de seu campo, fundadas em ações normativas destas idéias compostas por categorias lógicas, originando fundamentos de ordem legal ideal. Destacando que o que faz da ciência, ciência, não é nenhuma relação psicológica e, nem relação real geral a que se subordinam os atos de pensamento. O que temos são relações objetivas unitárias com validade ideal. Russerl destacou três classes de relações que podem ocorrer em todo conhecimento: a) a relação psicológica entre as vivências cognoscitivas nas quais se manifesta subjetivamente a ciência; b) a relação entre os objetos investigados pela ciência e os conhecidos teoréticamente; e c) a relação lógica que constitui a unidade de verdades de uma disciplina cientifica.

A fenomenologia, disse Russerl, concentram as fontes das quais nascem as concepções fundamentais e as leis ideais da lógica pura, essas investigações fundarão epistemologicamente e respectivamente a fenomenológica da lógica pura que abriga perguntas de grande dificuldade e incomparável importância. A relação entre o ideal e o real comportam difíceis problemas a solucionar. Três destes se destacam: primeiro, o tempo como critério de distinção entre o real e o ideal, onde os reais trazem em si a temporalidade, os psíquicos ou ideais não estão ligados à temporalidade; segundo, o estabelecimento dos objetos ideais como espécie, tese de extrema importância dentro da obra, onde todo objeto ideal corresponde a uma extensão de objeto real individual. O conhecimento dos objetos ideais está fundada na sua extensão material – objeto real, alcançados pela abstração eidetica[4]. As significações apresentam-se como espécies universais que no particular (individual) fundam-se no ato de significar, defende Russerl. Terceiro, a distinção entre leis empíricas e leis absolutamente necessárias ou ideais ligas à essência das coisas, onde as leis validas que regem o mundo real são as empíricas, fragilizando a importância das leis ideais.

Esta relação entre o ideal e o real é focada então a partir das significações, idealidades lógicas que buscam traduzir as vivências fundadas no significado dos enunciados empíricos. Ocorre que um significado pode se referir a uma pluralidade de enunciados, para Russerl a identificação da significação com o ideal lógico só se realiza na vivência psíquica, algo único que se pluraliza para encontrar vários enunciados. Para ele podemos falar de objetos universais[5] e de seu ser, que é real ou não, porque o que fazemos são juízos válidos deles. Husserl coloca como ponto de partida da teoria dos juízos a análise do fenômeno da expressão. Considera que as proposições ou juízos são de caráter ideal e que o lugar fenomenológico do ser ideal é a vivencia de sua expressão significativa, posto que a vivência concreta e o objeto ideal formam uma unidade fenomenológica. Segundo ele, a idealidade de uma proposição apresenta quatro características: unidade, atemporal, universalidade e ser portador de uma verdade ou falsidade. Confirmada em uma proposição matemática como o teorema de Pitágoras: A soma do quadro dos catetos de um triângulo retângulo é igual ao quadrado da hipotenusa. Esta proposição não enuncia uma vivência psíquica, apenas algo que é sempre o mesmo independente de quem o diga ou da circunstância em que é dito. Esta proposição é atemporal, apresenta unidade, tem carater universal e, é portadora de uma “verdade”. Acrescenta que o ato de julgar e a proposição são entidades, que mesmo relacionadas são heterogêneas. O primeiro é concreto, realizado por uma pessoa num determinado tempo e, o segundo não tem nada de psicológico ou subjetivo, enuncia sempre o mesmo de natureza ideal. Assim, entende que a lógica como ciência sistemática das significações tem por objeto exatamente o estudo da essência e espécie destas unidades ideais, dos elementos que as constituem, das leis de construção de suas diferentes classes, bem como as diversas relações que podemos fazer de umas com as outras. A universalidade está no fato de que as proposições verdadeiras não são patrimônio de ninguém especificamente, como são os sentidos dados a elas por alguém. Afirma a possibilidade de distinguir as vivências de seus conteúdos ideais e as vivencias mesmas destes conteúdos. A proposições são as portadoras primárias da verdade ou da falsidade, quando um juízo em sentido próprio é formulado, a portadora de sua verdade não é o ato pessoal de julgar. Se os atos forem os portadores da verdade, então não poderemos falar de um juízo verdadeiro, de uma verdade, posto que a verdade se dissolveria numa multiplicidade de atos de julgar. Os juízos ou proposições constituem uma classe de significações de manifesta importância. Podemos fazer uma análise atendendendo a diferença ou relação existente entre a significação dos juízos e seus correlatos objetivos (estado de coisas). Um juízo é um ato especifico, através de uma proposição, onde nos referimos sempre a um determinado estado de coisas. Husserl conclui que as significações constituem uma classe de conceitos no sentido de objetos universais.

Para defender a legitimidade dos objetos específicos (ou ideais) junto aos individuais (ou reais) e, assentar o fundamento principal para a lógica pura e a teoria pura do conhecimento, Russerl investiga o problema da abstração. Defende que se as espécie não reais, nem tampouco nada no pensamento, então não são absolutamente nada. Como falar de algo sem que este seja ao menos um pensamento. O ser ideal é, portanto o que está na consciência. Já o ser real é justamente o que está fora da consciência, é o ser em si, transcendente. Para ele real é tanto o que está na consciência como o que está fora, real é o individuo em todas suas partes constituintes, é o aqui e agora. Caracterizada a realidade pela temporalidade, que é sua marca maior.

5.CONCLUSÃO

A obra de Russerl, aqui focada em nosso trabalho, apresenta por parte de Russerl a defesa de uma lógica independente da psicologia e de toda ciência empírica, delimitando o campo da lógica e, repudiando as teses do psicologismo lógico como explicação ao fenômeno “conhecimento”. Estas teses afirmam que as leis lógicas eram, em ultima instância, leis do pensamento, entendendo o pensamento humano empírico, não havendo uma diferença essencial entre as concepções lógicas – idéia, juízo, razão, enferência, etc – e, as psicológicas que são paralelas e análogas. Não havendo no fundo uma distinção entre ciência empírica da consciência – a psicologia – e uma ciência ideal de certos conteúdos da consciência – a lógica. A tese mais importante e que vai servir de fundamento as demais do autor, afirma uma distinção radical entre os objetos lógicos e os psicológicos. Esta distinção implica a distinção das ciências em ciências de fatos ou empíricas e ciências ideais; em ciências a posteriori e ciências a priori; também a distinção em leis empíricas e leis ideais. Uma ciência ideal para Russerl é a Lógica Pura, cujo objeto de estudo não este ou aquele, mas todos em geral e, das significações em geral. Husserl lança mão da posição de Kant, especificamente no que diz respeito à lógica: “ não é engrandecer, mas sim desfigurar as ciências, o confundir seus limites”.

O autor busca demonstrar que a lógica é uma disciplina teorética, indenpendente da psicologia, constituído o fundamento mais importante de todo o esforço do conhecimento científico, possuindo o caráter de uma ciência puramente demonstrativa. E para confrontar o psicologismo na lógica, concebeu a fenomenologia como método de investigação filosófica. Defendeu a libertação da Filosofia em relação ao psicologismo, de modo que aquela não seja ciência do mundo físico mas, que utilize a observação e a sistematização no estudo de seus objetos ideais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

HUSSERL, Edmund.A Idéia da Fenomenologia.1 ed.Rio de Janeiro: edições 70.2000. HUSSERL, Edmund. Conferências de Paris. 1 ed. Rio de Janeiro:edições 70. 2000. HUSSERL, Edmund. Investigações Lógicas Sexta Investigação (Elementos de uma Elucidação Fenomenológica do conhecimento). 5 ed. São Paulo: Nova cultura.1992. .

DARTIGUES, A. O que É a Fenomenologia. Rio de Janeiro: Eldorado Tijuca, 1973.

ROSSI, Roberto. Introdução à Filosofia. São Paulo: Edições Loyola, 2004.

MORENTE, Manuel Garcia. Fundamentos de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1967.

___________________________________________________

[1] Francis Bacon (Londres, 22 de Janeiro de 1561 — Londres, 9 de abril de 1626): O pensamento filosófico de Bacon representa a tentativa de realizar aquilo que ele mesmo chamou de Instauratio magna (Grande restauração). A realização desse plano compreendia uma série de tratados que, partindo do estado em que se encontrava a ciência da época, acabaria por apresentar um novo método que deveria superar e substituir o de Aristóteles.

[2] Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher (Breslau, 21 de novembro de 1768 — Berlim, 12 de fevereiro de 1834) foi um teólogo, filósofo e pedagogo alemão. Foi corresponsável pela aparição da teologia liberal, negando a historicidade dos milagres e a autoridade literal das Escrituras.

[3] Os objetos da Fenomenologia são dados absolutos apreendidos em intuição pura, com o propósito de descobrir estruturas essenciais dos atos (noesis) e as entidades objetivas que correspondem a elas (noema).

[4] A abstração do corpo e a consideração da essência dos vividos, e não destes vividos como fatos individuais. A consciência fenomenológica – assegura Husserl – é atingida quando,analisando o eu empírico, nós “excluímos o corpo do eu, corpo que, como coisa física, aparece como qualquer outra, e consideramos o eu espiritual empiricamente ligado a ele, e que se manifesta como pertencente a ele.”

[5]- onde universal é, na realidade, um objeto de natureza muito peculiar, um conteúdo ideal universal, inteligível à todos
Autor: Gilberto Moreira Machado