O ideário de educação na concepção de Demerval Saviani



RESUMO: Este artigo tem por objetivo apresentar a teoria de um autor consagrado no Brasil. A partir de suas ideias a educação brasileira passou a ser analisada de dois modos: antes e depois de Demerval Saviani. Tendo em vista a sua maior obra, a Pedagogia Histórico-Crítica (PHC), considerada um marco na história da educação brasileira. Saviani vivenciou profundas mudanças na sociedade, principalmente pelo golpe militar em 1964. O que repercutiu numa série de insatisfação e descontentamento por parte dos profissionais de educação, que lutavam por bons salários, pela regulamentação na carreira do magistério e por condições mais dignas de exercer a profissão, bem como pela recuperação da escola pública que se encontrava empobrecida em decorrência de todos os anos de ditadura. Surge então a proposta de Saviani, que representou uma provável solução a todos os problemas enfrentados pela educação e por toda a sociedade brasileira. Torna-se então inaceitável que após décadas ainda encontremos educadores que utilizam métodos arcaicos para ensinar ou disciplinar alunos, sem qualquer compromisso com tendências ou teorias de autores que comprovem existir uma educação de fato benéfica e eficaz. Palavras-chave: Demerval Saviani. Educação. Pedagogia Histórico-crítica.

O presente artigo foi elaborado na perspectiva de servir como levantamento de hipóteses e reflexões acerca da educação brasileira. Desse modo minha intenção e dar conta de um ciclo de reflexões que tem início no entendimento e conceito de educação na concepção de Demerval Saviani, passando pela história da educação no Brasil.

 Assim, o entendimento e o ideário que atravessam este texto buscam possibilitar uma compreensão e um desdobramento para a ação cometida no cenário educativo, que se traduz numa preocupação elevada do contexto cultural do educando. Sabendo que a apropriação da cultura elaborada pela humanidade é necessária a cada ser humano, além de ser direito de todos, ainda que tão pouco cumprida. Sabemos que a educação é uma prática humana, deste modo determinado por uma concepção teórica e pedagógica.

Neste sentido, a humanidade construiu ao longo do tempo, pesquisadores; pensadores; teóricos, portanto teorias, que deram definições e conceitos a educação, e a escola. Tomo como base para essa pesquisa textos bibliográficos que contribuíram de forma real (nada ilusório) para fomentar minha linha de pesquisa, que se estende por diversos âmbitos da educação, portanto da sociedade.

Como esta sendo concebida a educação no Brasil

A educação sofreu várias modificações ao longo de sua trajetória, sabendo que por muito tempo foi concebida como arma para obter a hegemonia do país, acarretando num ensino totalmente desvinculado do real objetivo da escola, portanto da educação.

O período em questão foi na década de 1960, quando o Brasil foi surpreendido pelo golpe militar no ano de 1964, sob o comando dos militares que comandaram a mão de ferro o Brasil. Tal golpe perdurou, por 21 anos, onde a lei era que todos os cidadãos fossem submissos a todo o momento. A escola, não fugiu de tais regras, pois seu papel consistia na preparação moral, e cívica dos alunos, desconsiderando a realidade e o próprio desenvolvimento crítico e intelectual para assumir a posição de servir a nação brasileira, sempre com respeito e dedicação a pátria.

Como demonstra um trecho da obra de Vasconcelos (2005 p.21):

 “O aluno recebe tudo pronto, não problematiza, não é solicitado a fazer relação com aquilo que já conhece ou a questionar a lógica interna do que esta recebendo e acaba se acomodando. A prática tradicional é caracterizada pelo ensino do blá-blá-blante, salivante, sem sentida para o educando, meramente transmissora, passiva, a - crítica, desvinculada da realidade, desconectada”.

O que Vasconcelos (2005) relata e o retrato fiel da escola tradicional, onde os conhecimentos e valores sociais eram repassados ao aluno como verdade absoluta e inquestionável, com matérias que visavam preparar o aluno para a vida. Não distante disso, os métodos baseavam-se na exposição verbal da matéria, sendo feitas pelo professor, dando ênfase nos exercícios, na repetição de conceitos ou fórmulas de memorização, disciplinando a mente a formar hábitos. O que predominava era a autoridade do professor, não havendo qualquer tipo de aproximação entre o mesmo e aluno no decorrer das aulas. Sendo este o transmissor dos conteúdos na forma de verdade absoluta.

“Quanto à relação entre professor e aluno, a educação tradicional é magistrocênica, isto é, centrada no professor e na transmissão dos conhecimentos. O mestre detém o saber e a autoridade dirige o processo de aprendizagem e se apresenta, ainda, como modelo a ser seguido”. (Aranha, 2006, p.224)

Deste modo à aprendizagem, foi concebida de forma mecânica, ou seja, um ensino garantido pela repetição de exercícios sistemáticos e recapitulação da matéria.

No final da década de 70, vários estudiosos passam a rever a educação no Brasil, iniciando um processo ainda em formação, após várias tentativas de implantação devido à necessidade de articular teoria e prática, Saviani baseando-se no materialismo histórico de Marx, na concepção histórico-cultural de Vygotsky, e na concepção histórico-dialética de Gramisc, surgindo assim a Pedagogia Histórico-crítica, considerada um marco na história da educação brasileira. Com o objetivo de trabalhar o conhecimento sistematizado pelo aluno a partir de sua realidade, propondo uma interação entre conteúdo e realidade concreta, visando à transformação da sociedade, através da ação-compreensão-acão do educando, o tornou, um dos mais consagrado e admirado especialista na educação brasileira. Uma vez que a pedagogia histórico-crítica surgiu como resposta à necessidade amplamente sentida entre estudiosos e educadores brasileiros de superação dos limites tanto das teorias não-criticas, representadas pela concepção tradicional, escolanovista e tecnicista, como das visões critico-reprodutivistas, expressas na teoria da escola como aparelho ideológico do Estado, na teoria de produção e na teoria da escola dualista.

 A proposta pedagógica de Saviani conseguiu razoável difusão, tendo sido implantada, e até mesmo, a sua adoção em currículos oficiais de ensino como foi o caso, dos estados do Paraná e de Santa Catarina. Para Saviani, uma teoria é crítica se admite que a educação é determinada pela sociedade. Uma teoria pedagógica é histórica se admite que a educação também interfira na sociedade podendo até contribuir para sua transformação. Segundo o autor as demais teorias consideram a educação sobre a sociedade, cabendo a escola reproduzir a sociedade em que ela se insere.

Na busca constante por melhorias na educação, Saviani compreende o ser humano como produtor, uma vez que necessita produzir para sua própria existência, essa produção se dá através do trabalho, sendo essa a principal diferença entre o homem e os outros animais. Ora, o homem por ser um ser racional utiliza-se desse saber para conquistar o lugar de destaque entre os demais. Na sua concepção o compreende também por práxis e cultural, já que possui habilidades capazes de intervir na transformação, portanto no desequilíbrio da natureza. [...] “O trabalho educativo é o ato de produzir, direta e intencionalmente, em cada individuo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens. Assim, o objetivo da educação diz respeito, de um lado, a identificação dos elementos culturais que precisam ser assimilados pelos indivíduos da espécie humana para que eles se tornem humanos e, de outro lado concomitantemente, à descoberta das formas mais adequadas para atingir esses objetivos”. (Saviani, 2007, p.17) Segundo o autor, a educação é concebida como “produção do saber”, pois o homem é capaz de elaborar ideias, possíveis atitudes e uma diversidade de conceitos.

O ensino como parte da ação educativa é vista como processo, no qual o professor é o “produtor” do saber e o aluno “consumidor” do saber. A aula seria produzida pelo professor e consumida pelo aluno. O professor por possuir competência técnica é o responsável pela transmissão e socialização do saber escolar, cabendo ao aluno aprender os conteúdos para ultrapassar o saber espontâneo, dito popular. Ele deixa clara a função direta do professor, na medida em que possui o saber teórico, sendo o responsável pela transmissão e socialização desse saber. Cabe ao educando aprender os conteúdos para ultrapassar o saber espontâneo ou popular e adquirir o conhecimento sistematizado.

Há, portanto, em Saviani, um projeto político-pedagógico de compromisso de mudança social, objetivando uma sociedade igualitária, em que as classes menos favorecidas sejam contempladas, de forma benéfica e eficaz.

Segundo Luckesi (1994), “O senso comum nasce exatamente desse processo de “acostumar-se” a uma explicação ou compreensão da realidade, sem que ela seja questionada”. Desse modo é preciso ter cuidado ao criticar o senso comum, no que se refere ao saber prévio do educando, sendo dever da escola promover a sistematização do saber por meio do conhecimento produzido coletivamente com o decorrer do tempo.

Neste contexto o principal papel da escola é mediar o conhecimento entre o aluno e a realidade, se preocupando com a formação de habilidades e convicções, tornando os alunos críticos e portadores de opinião, ou seja, os pontos de partida e chegada apontam sempre à mesma direção e o processo educativo é sempre a prática social.

Ao fazermos um retrocesso nas tendências pedagógicas, veremos que as teorias não-críticas nasceram num mundo de certa forma estável, fazendo com que a educação seguisse modelos ideais e imutáveis. Deste modo voltado sempre ao passado, tendo em vista a valorização da maior quantidade possível de conhecimentos acumulados, o que tornava o professor transmissor e o aluno receptor desse conhecimento adquirido. Portanto conhecendo os teóricos que fundamentam a proposta de Saviani, é possível afirmar que ele visa propor aos educadores e educando uma nova perspectiva de educação, e de escola. Segundo Saviani (2000) “uma educação deve ser realizada em liberdade para a liberdade”, sendo este o maior propósito de uma educação de fato democrática característica fundamental em qualquer teoria crítica da educação. Muitos outros pontos a cerca da educação na concepção de Saviani poderiam ser levantadas.

Que este texto sirva de amostragem para que o profissional de educação do século XXI se transforme no idealizador das propostas ditas por Saviani. Uma vez que todos dizem que desejam educando ativos, criativos, autônomos e capazes de tomar decisões, mesmo que suas ações educativas mostrem o contrário, pois devemos superar rapidamente o autoritarismo e o empirismo da escola tradicional, fato pertinente na maioria das escolas públicas do Brasil, ponto esse defendido por Saviani em mais uma de suas autorias, porém, deixemos para um próximo encontro, quando tal acontecer, que você professor tenha repensado suas práticas, e não esteja mais alienado a teorias arcaicas e sem bons resultados, ao contrário que suas dúvidas possam estar sendo questionadas e esclarecidas, para que sigamos de fato o modelo democrático defendido por Demerval Saviani.



REFERÊNCIAS

 ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofia da educação. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2006.

LUCKESI, Cipriano Carlos. Filosofia da educação. São Paulo: Cortez, 1994.

SAVIANI, Demerval. Pedagogia histórico-crítica: Primeiras aproximações polêmicas do nosso tempo. 7. ed. São Paulo. Autores associados, 2000.

VASCONCELOS, C.S.: Construção do conhecimento em sala de aula. São Paulo: Libertad, 1995.
Autor: Adriana dos Santos