A RELAÇÃO SOCIEDADE X TEMPO X TRABALHO



Todos vós, que amais o trabalho desenfreado (...), o vosso labor é maldição e desejo de esquecerdes quem sois. (Nietzsche, 2007) RESUMO A presente dissertação visa apresentar elementos que contribuam para a discussão sobre a relação existente entre Sociedade X Tempo X Trabalho. Para isso, primeiramente são apresentados conceitos, dados de pesquisas e opiniões de alguns autores sobre cada um dos elementos dessa relação. As músicas também são utilizadas como auxiliadora para entender o olhar da coletividade sobre o tema proposto. Depois de expostas as considerações de cada um desses elementos, a relação em si começa a ser analisada: Como a sociedade contemporânea e seus participantes se relacionam com o tempo e o trabalho? O tempo destinado ao trabalho é muito ou é pouco? Como o uso do tempo e a dedicação ao trabalho podem influenciar a vida pessoal e social do homem contemporâneo? Há limites? Palavras-chaves: Sociedade Contemporânea; Homem Contemporâneo; Tempo; Trabalho; Relações Sociais.

INTRODUÇÃO

A sociedade contemporânea é marcada pela correria do dia-a-dia e pela constante mudança de cenários. Essas mudanças ocorrem em ritmo acelerado e é preciso estar para a adaptar-se a todo o momento, como um verdadeiro camaleão. Diariamente, o homem enfrenta novos desafios e estabelece novas prioridades. Contudo, as constantes conturbações impedem o alcance das metas estabelecidas, nem todas as atividades determinadas como prioritárias para aquele dia são cumpridas e é gerada uma sensação de que se possui pouco tempo para fazer tudo que necessário e desejado.

O homem se encontra cada vez mais pressionado pelo relógio. Os prazos são muito curtos e o número atividades crescentes. O ritmo social e o fluxo informacional são muito intensos, havendo um excesso de informação a circular pelo mundo, acessível a todos pelo advento da internet. Cria-se, contanto, uma nova necessidade: a de se estar ciente de tudo o que está acontecendo a todo o momento.

A internet "ampliou" o tempo, tornando o mundo mais dinâmico, acelerando processos que antes eram considerados lentos e flexibilizando o trabalho. No entanto gerou, conseqüentemente, uma nova angustia na sociedade contemporânea, pois se de um lado o trabalho se flexibilizou por outro a internet e todas as novas tecnologias prolongaram o ambiente de trabalho para as esferas pessoais e íntimas do homem.

Durante séculos o homem desenvolveu pesquisas mecânicas e tecnológicas no intuito de dinamizar a produção embasada pelo sonho da máquina produzindo e liberando o tempo para a atividade intelectual e para o lazer. No entanto, o aumento da automação, em muitos casos, dispensou a mão de obra humana e a criação de tecnologias subordinou ainda mais o indivíduo ao seu trabalho.

Atualmente, o trabalho está tão arraigado à sociedade que passou a ser considerado parte vital do ser, como se dele dependesse a dignidade e a estima do mesmo. Quanto maior é a valorização do trabalho maior é o tempo dedicado a ele e mais importante é a relação Sociedade X Tempo X Trabalho.

Desta forma, pergunta-se: como a sociedade contemporânea e seus participantes se relacionam com o tempo e o trabalho? O tempo destinado ao trabalho é pouco ou é muito? Como o uso do tempo e a dedicação ao trabalho podem influenciar e afetar a vida pessoal e social do homem contemporâneo? Há limites para a dedicação ao trabalho?

Esta dissertação surge com a finalidade de tentar responder essas perguntas, ou pelo menos auxiliar, apresentando elementos que contribuam para esta querela. Para isso além de pesquisas bibliográficas, que focaram nos conceitos e nas intersecções relevantes entre a sociedade, o trabalho e o tempo, e pesquisa de dados, buscando um maior número de informações que ajudassem a elucidar o tema proposto, foi preciso utilizar a metodologia de observação do cotidiano.

A observação do cotidiano, como o próprio nome já diz, consiste em analisar imagens, conversas e diversas características sociais cotidianas e utilizá-las como fonte de informação. Para isso é necessário se introduzir no grupo a ser estudado, que no caso desta monografia é a sociedade contemporânea como um todo. Sendo assim, toda e qualquer observação da atividade cotidiana pode ser analisada e tratada como fonte de informações essenciais para o tema deste trabalho.

Dentro desta observação do cotidiano podemos considerar as músicas como importantes peças para a construção de um pensamento social. As músicas são divulgadoras e insufladoras de sentimentos coletivos. Muitas vezes, elas refletem o que a sociedade pensa sobre um determinado assunto. Desta forma, o uso de trechos de músicas se torna um grande aliado para o debate e compreensão das questões abordadas neste trabalho.

De uma maneira geral o presente estudo visa analisar cada elemento da relação Sociedade X Tempo X Trabalho e expor como todos esses conceitos se comportam na contemporaneidade. Para isso cada capítulo aborda um destes componentes e o último capítulo fala da relação em si.

No capítulo um, a sociedade contemporânea é analisada e em sua grande maioria elucidada de acordo com o olhar Foucaultiano. É apresentada, assim, a passagem das sociedades pré-modernas à modernidade, a evolução das redes de força e poder, a sociedade disciplinar, o biopoder e a biopolítica dominantes.

O capítulo dois aborda a questão do tempo e, ao invés de se basear em apenas um autor, é feito um apanhado geral de vários autores que já discutiram o conceito de tempo. É chamada a atenção para as mais diversas especulações existentes: se o tempo é cíclico, linear, sentido humano ou criação da sociedade. As considerações sobre o tempo na contemporaneidade também estão incluídas neste capitulo, como: a correria do dia-a-dia, a angustiante impressão de "falta de tempo", o advento da internet como "alargadora do tempo".

No capítulo três são feitas exposições sobre o conceito e a história do trabalho e como este se comporta na atualidade. Utilizando diversos autores, é exposto um amplo olhar sobre como o trabalho chegou ao presente grau de valorização e quais são as conseqüências para a sociedade contemporânea. Neste capítulo também são apresentadas importantes reflexões sobre o fantasma da inutilidade que assombra principalmente os desempregados e os aposentados.

O capítulo quatro entra na relação Sociedade X Tempo X Trabalho, aborda conceitos contemporâneos, baseados principalmente em referências do autor Richard Sennet, tal como o conceito de flextempo, e exemplifica como o uso do tempo voltado exclusivamente para o trabalho pode influenciar a vida do ser humano contemporâneo.

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CAPÍTULO 1 : A SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

Tentar definir a sociedade contemporânea é uma ilusão. Não há como descrever minimamente a quantidade de fenômenos e acontecimentos do nosso tempo. O que se pode tentar fazer é apontar alguns traços, identificar linhas de força, pontos de convergência, sempre de um ponto de vista particular, que muitas vezes é impreciso e limitado. Não é preciso aprofundar-se muito para compreender que a interpretação lançada embute uma pré-compreensão do intérprete, alinhado que está a um ou outro sentido político, cultural, social e psicológico. Assim, para fins deste capítulo, que se propõe a estudar a sociedade contemporânea, seus mecanismos de controle e as condições de liberdade, vale à pena destacar elementos que servem à nossa interpretação e pesquisa.

Em seus trabalhos sobre o poder Foucault (2004 e 2007) estuda a passagem das sociedades pré-modernas à modernidade. Para o pensador francês, a modernidade não se caracteriza por um domínio da razão sobre pensamento dogmático e religioso. Toda a narrativa dos iluministas, que se colocavam como o princípio da Idade da Razão, é reduzida por Foucault como um pensamento meramente idealista e abstrato, distante dos mecanismos que constituíram a modernidade. O método genealógico de Foucault implica analisar as relações de força, isto é, não só quem está dominando e quem é dominado, mas como se está dominando, como o poder se exerce. Para ele, o que interessa é entender o como do poder. A genealogia vai analisar, portanto, os dispositivos de exercício do poder na sua materialidade e não na sua mera titularidade. O Estado deixa de ser a figura central das relações de força da sociedade moderna. Ao invés do estado, com suas instituições, suas leis, seus modelos sociais; trata-se de entender como as relações de poder se formam e circulam por assim dizer microscopicamente, numa espécie de "micro-física do poder".

A passagem para a modernidade, segundo Foucault, dá-se quando os mecanismos de poder tornam-se mais eficazes, eficientes e minuciosos, o que coincide com a mudança européia das monarquias absolutas para os estados modernos – repúblicas ou monarquias constitucionais. O autor expõe diversos mecanismos que vão se desenvolvendo nos séculos XVII e XVIII que confluem para a formação de novas disciplinas. São exemplos: a vigilância e controle, o exame, a docilização dos corpos, a medicina social. Tais tecnologias do poder, como ele as chama, aplicam-se nas escolas, no exército, nas fábricas, nos hospitais, nas prisões. Ele dá como exemplo do que quer dizer, uma de suas aulas no Colégio da França. Nela, ele apresenta um regulamento do final do século XVIII e pede para os alunos lhe responderem de qual instituição pertenceria. São muitas as respostas, pois o regulamento poderia aplicar-se sem solução de continuidade numa escola militar, num hospício ou numa cadeia pública.

Na modernidade, as tecnologias tornam-se mais refinadas. Anteriormente, as punições eram aplicadas do modo mais visível possível. O rei fazia questão de ser visto, de ostentar o seu poder, como forma de garantir a própria soberania. Na passagem para a sociedade disciplinar, a punição é escondida, é realizada em recintos afastados do olhar público. Ao invés das forcas em praça pública, punições discretas dentro das prisões ou mesmo nos subterrâneos. Ao mesmo tempo, os criminosos já não são mais humilhados, porém guardados e escondidos. Tudo isso não ocorreu por causa de um tratamento mais humano ou racional, mas sim, explica-nos Foucault, porque é uma estratégia para que o poder se exerça melhor. Pois quando era exercido em público, como vingança do soberano, por vezes ocorriam revoltas, rebeliões e mesmo ataques ao carrasco, principalmente quando a multidão identificava-se com os punidos. O caso é que o sistema punitivo, nas suas três faces – policial, judicial/penal e penitenciária – sempre esteve atrelado ao controle social e como tal possui sentido político. Vigiar e punir, sem ser visto, é talvez o trecho mais literal da reflexão foucaultiana sobre a transição moderna, o que acabou consagrado na expressão "panoptismo". O Panóptico é um desenho de poder aplicado a múltiplas esferas, e não somente à prisão, como muitos pensam. Neste sistema os dominantes vigiam os dominados, no qual muitas vezes os dominados consideram-se permanentemente vigiados, internalizando o sistema de controle.

Outra característica das sociedades disciplinares é o controle mais preciso do tempo e do espaço. Os saberes ligados a essas relações de força buscam a todo o momento delinear a ocupação do espaço e a organização do tempo. Nas escolas, trata-se de compartimentalizar os períodos de tempo e atrelá-los a espaços adequados, sob o princípio do máximo controle. Nas fábricas, as técnicas de controle dos corpos, mediante a organização do tempo e espaço voltam-se à segregação do homem dentro de seu próprio ambiente de trabalho. Ele se torna alienado, principalmente em relação ao Fordismo de linha de montagem, em atividades cada vez mais específicas e segmentadas, impedindo a reunião e associação operárias em grupos maiores.

Estabelecida a sociedade disciplinar, Foucault (2008) passa a analisar a formação da sociedade moderna, a partir do século XIX e detém-se justamente em como a sociedade disciplinar caminhou para o que ele batiza de sociedade biopolítica. Um novo esquema de forças e uma nova rede de relações de poder nascem de dentro da sociedade disciplinar, é o que ele chama de biopoder. Na sociedade disciplinar, criam-se mecanismos de controle voltados à formação de corpos dóceis e produtivos, inseridos em instituições completamente regulamentadas, com espaços e tempos segmentados e organizados segundo uma disciplina rigorosa. Estes elementos tinham a sua razão de ser dentro do primeiro capitalismo industrial, momento inicial em que eram suficientes para controlar os sujeitos sociais.

No entanto, a maior produção de alimentos, a medicina, a aplicação de técnicas de urbanismo e sanitarismo, tudo isso permitiu que no século XIX se multiplicassem as cidades. Grandes aglomerados populacionais se formaram ao redor dos pólos industriais e de consumo. Em meados do século XIX, o capitalismo industrial entra numa fase de alta produtividade e gera monstruosas cidades. Novos problemas nascem, principalmente problemas políticos e de saúde pública. A aproximação de grandes grupos de trabalhadores, simultaneamente a condições precárias de trabalho, experimenta o fortalecimento de sindicatos, centrais e também partidos. A partir daí que os mecanismos de poder sofrem uma nova metamorfose. De fato, na micro-física do poder de Foucault, são as próprias relações de poder, voltadas à máxima eficiência e controle, que se reorganizam ao redor de novas realidades sociais.

A biopolítica é, portanto, o conjunto de mecanismos e dispositivos voltados ao controle das populações tomadas no seu aspecto totalizante, enquanto massas. Surge aí toda uma ciência humana que vai preocupar-se com o controle das populações. De um lado, novos métodos estatísticos e demográficos procuram descriminar nos menores detalhes o comportamento das cidades e nações como um todo. De outro, uma nova medicina social, ligada às epidemias, ao cuidado com grupos inteiros, à preocupação com o crescimento, a nutrição, o bem-estar coletivo.. As políticas públicas estabelecem uma polícia que não mais se preocupa somente com crimes, mas também com condições sanitárias, gerência de crises epidêmicas, alimentação, infância, velhice etc. Tudo está orientado de modo a maximizar a energia da vida, a governar a própria vida dos homens, enquanto viventes. Daí biopolítica: governo da vida, o poder exercido exatamente sobre o lado biológico e coletivo do ser humano.

A sociedade do biopoder não nega a sociedade disciplinar, mas a aprofunda e sofistica. O ser humano não é mais tratado somente como corpo, como indivíduo a controlar-se o espaço e o tempo individuais. O ser humano é tomado na sua feição de massa, de coletividade sem uma forma especifica, e portanto a controlar-se difusamente, inserido no corpo social, enquanto população. Os novos saberes caminham lado a lado com essa realidade política. Tais considerações refletem-se também em novas formas de vigilância e punição. Antes, puniam-se somente àqueles que atentavam à ordem constituída do soberano, ou então àqueles crimes de indivíduo contra indivíduo. Agora, surgirá uma ampla gama de crimes e infrações. Consequentemente passam a ser policiados os comportamentos supostamente nocivos à sanidade da população como um todo e aí se inserem novas preocupações policiais, políticas e, também, contra males considerados sociais, como a masturbação, a esquizofrenia, a depressão, o homossexualismo – e toda uma série de "neuroses" estudadas na psicologia.

Ao abordar os mecanismos de controle e vigilância, FOUCAULT (2008) fala dos cuidados de si na modernidade, a preocupação do eu torna-se central nas sociedades contemporâneas. Trata-se da construção cada vez mais complexo de uma estética da existência, ligada à acentuação da individualidade. É a problemática que se traduz em que quanto mais o indivíduo busca centrar-se em si mesmo para diferenciar-se, mais ele se aproxima de estereótipos e tipos sociais fabricados. Quando Foucault refere-se à internalidades e externalidades, ele não trabalha a questão do sujeito e do objeto, como se houvesse um "dentro" e um "fora" do sujeito. O corpo social é assim atravessado por uma produção do sujeito que se dá tanto no consumo de itens que lhe conferem identidade, quanto pelo cultivo de hábitos associados a este ou aquele tipo social. A formação da individualidade aparentemente ocorre pela livre escolha, mas na verdade não há escolha, senão a adoção das maciças ofertas impostas pelo poder. A livre escolha no consumo é a ilusão que o próprio sistema do sujeito produz para se esconder das resistências, já que, como se viu, não é interessante ao poder mostrar-se. A economia do poder é sempre mais eficaz quando se exerce silenciosamente, conferindo ao sujeito a crença de que é autoprodutor de seu destino, quando na verdade está inscrito numa ordem que não possui qualquer ingerência. Daí que as resistências, nessa sociedade altamente controlada, tornam-se cada vez mais problemáticas; visto que a própria reação por vezes enreda-se naquilo contra o que reage. Tome-se como exemplo a contracultura, o punk, ou mesmo o ícone da revolução dos anos 60; se naqueles tempos tiveram um importante papel por subverter mecanismos de controle e sujeição, restaram recodificados e assimilados pelo que combatiam e, atualmente, o movimento já não se encontra mais aí.

DELEUZE (2002) também trabalhou às teses de Foucault. Para ele, o final do século XX, com o desenvolvimento do capitalismo pós-industrial, inseriu um novo elemento nesse desenho já complexo das sociedades de biopoder. O que ele chama de "sociedade de controle" tem por principal figura a empresa. A concentração de todas as estéticas e éticas na vida na empresa torna-se o último passo no desenvolvimento do controle social na sociedade contemporânea. Pois, cada vez mais, o tempo é investido de forma modular. As empresas contemporâneas tornam-se organizadoras do tempo. A própria formação da identidade do funcionário deve obedecer as imposições daquela empresa: como ele se veste, se expressa, se comporta, a sua imagem – mesmo fora do tempo propriamente de trabalho. Do mesmo modo, a empresa aprofunda o seu controle próprio sobre a vida pessoal, familiar, educacional. Os processos seletivos querem um relatório completo, de toda a vida, as preferências, até íntimas, exames rigorosos de saúde, o passado biográfico analisado e criticado, de cada pretendente. A vigilância é multiplicada, de uns por outros, os próprios examinadores são examinados. Quanto mais alto se instala o funcionário na pirâmide de cargos, maior o controle e, por paradoxal que seja, mais instável e estressante a sua posição. O mundo globalizado das grandes empresas é o último diagrama de poder, associando em si mesmo as disciplinas, as formas de biopoder e o cuidado de si, colocando as tecnologias de poder a serviço de um capitalismo pós-industrial marcado pelo desemprego estrutural e a hiperqualificação dos profissionais – fenômeno já consumado nos países desenvolvidos e que se manifesta crescentemente nos países em desenvolvimento.

CAPÍTULO 2 - TEMPO

O conceito de tempo é abordado por diversos filósofos e inúmeras são as especulações acerca de sua definição: cíclico, linear, sentido humano, criação da sociedade... Um breve resumo desta discussão histórica revela que:

Para as civilizações gregas e Maias da América Central, o tempo era cíclico. Assim sendo, a história acabaria se repetindo depois de determinado período. Segundo a CEPA (Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada),

esta idéia apareceu naturalmente em função dos inúmeros fenômenos periódicos na Natureza: as marés, as estações sazonais, os dias sucedendo as noites, e assim por diante. Esses fatos conhecidos desde as civilizações mais antigas, sendo evidentes fenômenos cíclicos, levaram as civilizações primitivas, bem como os pensadores da Antigüidade a imaginarem que o tempo também seria circular, ou seja, a Natureza evoluiria de forma a se repetir. (CEPA, s/d)

A idéia de um tempo linear surgiu com os hebreus e foi incorporada pelo cristianismo, que, através da catequese, difundiu-a pelo mundo. Na linearidade, cada acontecimento é único e, de acordo com o físico austríaco Ludwig Boltzmann (apud DAHMEN, 2007), irreversíveis no tempo.

Aprofundando a discussão, é levantada a questão: afinal, o que é o tempo? Há séculos essa pergunta cinge o pensamento de intelectuais, contudo o conceito de tempo permanece fluído e indefinido.

O filósofoJ. M. E. Mctaggart defende a tese da irrealidade do tempo, afirmando que o tempo é uma ilusão que só existe na consciência humana. Seguindo a mesma linha de pensamento, o matemático Kurt Gödel (apud DAHMEN, 2007), acredita que "o tempo não tem um sentido objetivo, ou seja, é aquilo que os filósofos chamam de ideal: trata-se simplesmente de uma ilusão de nossas mentes e não corresponde a uma realidade externa". Para o filósofo Leibniz, o tempo também é subjetivo, constituindo uma sucessão de eventos conectados por uma cadeia de causalidade (causa que gera um efeito), percebido apenas no deparo com um conjunto de relações temporais entre acontecimentos.

Segundo o filósofo Immanuel Kant o tempo é essencial e tudo está marcado por ele. Para Kant,

o tempo é uma das formas da nossa "intuição". Ou seja, o tempo não é uma característica dos objetos externos, e sim da mente subjetiva que deles tem consciência. Kant acreditava que a idéia do tempo linear científico era uma conseqüência automática do fato de sermos criaturas racionais. (WHITROW, 2005)

Ao contrário dos pensadores acima, que acreditavam que o tempo era intrínseco ao homem, o físico Newton defendia a idéia de que o tempo existia independentemente da consciência humana: era uma grandeza imutável e absoluta.

Muitos estudiosos acreditam que o senso de tempo está intimamente ligado com a memória. É a memória que nos faz guardar os acontecimentos e nos dá a informação da ordem cronológica em que ocorreram os fatos. Sem a memória, não saberíamos distinguir o ontem do hoje, uma vez que o ontem já não seria lembrado no hoje.

Há quem acredite que existe um sentido humano para a percepção de fluxo do tempo, tal como tato, olfato, paladar. Contudo, a grande maioria dos pensadores rejeita essa hipótese, apesar de reconhecerem o fato de existir no homem uma vaga sensação de passagem de tempo, muitas vezes criada pela cognição e pelo condicionamento de códigos sociais.

Cabe ressaltar que as lembranças e as sensações de temporalidade podem ser pouco confiáveis.

Um "sentido do tempo" envolve alguma sensação ou consciência de duração, mas isso depende de nossos interesses e do modo como focalizamos nossa atenção. Se o que estamos fazendo nos interessa, o tempo parece curto, e, quanto mais atenção dedicamos ao próprio tempo, isto é, à sua duração, mais longo ele parece. Nunca um minuto parece tão longo como quando olhamos o movimento do ponteiro dos segundos no mostrador de um relógio. (WHITROW, 1993)

Não existem provas de que nascemos com uma consciência temporal, todavia com o passar dos anos o homem adquiriu uma crescente noção de tempo e, é exatamente essa noção que o distingue dos animais e, o uso que dela se faz, que o difere de seus antepassados.

Para compreender e mensurar melhor o tempo, o homem criou uma convenção, embasado no tempo aproximado que a Terra leva para concluir o movimento de rotação: 24 horas ou 1440 minutos ou 86400 segundos. Conforma-se, assim, um dia do ano, traduzido pelo relógio.

O aperfeiçoamento dos relógios teve grande influência no cotidiano. Atualmente, o mundo é regido por horários e a exatidão das horas e minutos assumiu o controle da rotina: hora para o trabalho, hora para o almoço, hora para dormir... Não raramente, a vontade de realização ou não de determinada atividade é suprimida pela necessidade de controle do cronograma diário.

A música abaixo elucida esse ritmo metódico imposto pelo uso do relógio:

"Todo dia ela faz
Tudo sempre igual
Me sacode
Às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca
De hortelã...

Todo dia ela diz
Que é pr'eu me cuidar
E essas coisas que diz
Toda mulher
Diz que está me esperando
Pr'o jantar
E me beija com a boca
De café...

Todo dia eu só penso
Em poder parar
Meio-dia eu só penso
Em dizer não
Depois penso na vida
Prá levar
E me calo com a boca
De feijão...

Seis da tarde
Como era de se esperar
Ela pega
E me espera no portão
Diz que está muito louca
Prá beijar
E me beija com a boca
De paixão..."

(HOLANDA, *Cotidiano*)

Assim como na música os horários fazem parte de uma rotina quase indestrutível. Dentro desse "cotidiano" em que tudo tem seu horário pré-determinado, para que esse cronograma seja cumprido, a correria do dia a dia se tornou tão grande que não é incomum escutar que 24 horas é pouco tempo para tantas tarefas.

A relação de tempo na sociedade contemporânea é um verdadeiro caos. O tempo coletivo foi suprimido pelos afazeres e horários individuais. Os ritmos social e informacional são muito intensos e as queixas de que "não se tem tempo para nada", "não existe mais tempo livre", uma constante.

Uma enquete realizada, em agosto de 2008, pelo site Administradores.com.br, revela que: de um total de 2.004 opinantes, 45% disseram saber administrar seu dia de forma ineficaz e gostariam de ter mais tempo para a realização todas as tarefas; 36% declararam ter sempre a impressão de que lhes falta tempo e, apenas 20% afirmam conseguir organizar bem o seu tempo.

Sem tempo para se dedicar a tudo, acabam-se elegendo algumas prioridades para o dia. Contudo, não raramente, nem mesmo esse planejamento é possível de ser respeitado. Em uma pesquisa feita pela empresa Tríade do Tempo: de 5 mil mulheres entrevistadas constatou-se que as mulheres com atividade profissional, na faixa etária de 35 anos, dedicam a maior parte do seu tempo, cerca de 48%, às urgências; (atividades que chegam em cima da hora, que não podem ser previstas, mas que geralmente causam estresse).

Com o ritmo acelerado da rotina, não há tempo disponível no dito "horário comercial". Percebendo isso, as empresas começaram a ampliar seu tempo de funcionamento, através da internet, para evitar a queda de consumo.

Agências bancárias, supermercados, livrarias, lojas de eletrodomésticos... são inúmeros os serviços oferecidos 24 horas pela internet. Hoje, pode-se agendar um pagamento ou até mesmo comprar uma geladeira em qualquer horário da madrugada, no conforto de casa. A quantidade de venda pela internet (e-commerce) é tão grande que algumas dessas marcas nem possuem loja física, e as que possuem muitas vezes vendem mais pela internet do que no próprio estabelecimento comercial.

Segundo pesquisa divulgada pela E-commerce.org, o Brasil é o sexto país com o maior número de usuários de internet: aproximadamente 50 milhões de pessoas. Dentre esses usuários, cerca de 13,2 milhões são consumidores de produtos vendidos na internet (e-consumidores), sendo que 81% desses consumidores encontram-se na faixa da população considerada economicamente ativa - justamente a parcela da população que possui mais tarefas cotidianas. No ano de 2008, o faturamento das vendas por internet foi superior a 8 bilhões de reais.

O uso das novas tecnologias favoreceu também os desempenhos de produção e gerenciamento das corporações. CASTELLS (1999) explica que "o próprio capitalismo passa por um processo de profunda reestruturação caracterizado por maior flexibilidade de gerenciamento; descentralização das empresas e sua organização em redes tanto internamente quanto em suas relações com outras empresas".

Contudo, não foram apenas as empresas que se beneficiaram com aumento do tempo viabilizado pelo advento da internet. As pessoas conseguiram estabelecer relações sociais através computador. O tempo que despenderia uma conversa no telefone ou o ir ao encontro do interlocutor é teoricamente melhor aproveitado pela internet "multiuso": em que se escuta música, faz-se um trabalho ou uma pesquisa, lê-se uma notícia e ainda conversa-se com inúmeras pessoas diferentes, ao mesmo tempo. Para CASTELLS (1999) "as redes interativas de computadores estão crescendo exponencialmente, criando novas formas e canais de comunicação, moldando a vida e, ao mesmo tempo, sendo moldadas por ela".

CAPÍTULO 3 – TRABALHO

Conceitualmente podemos destacar duas importantes citações sobre trabalho:

Giddens (1997) define o trabalho "como a realização de tarefas que envolvem o dispêndio de esforço mental e físico, com o objetivo de produzir bens e serviços para satisfazer necessidades humanas".

Já para o Papa JOÃO PAULO II (s/d),

o trabalho é uma das características que distinguem o homem do resto das criaturas, cuja actividade, relacionada com a manutenção da própria vida, não se pode chamar trabalho; somente o homem tem capacidade para o trabalho e somente o homem o realiza preenchendo ao mesmo tempo com ele a sua existência sobre a terra. Assim, o trabalho comporta em si uma marca particular do homem e da humanidade, a marca de uma pessoa que opera numa comunidade de pessoas; e uma tal marca determina a qualificação interior do mesmo trabalho e, em certo sentido, constitui a sua própria.

Analisando a evolução do trabalho como fonte de renda, percebe-se que atualmente este passou a ser mais que um meio de que o homem obtém subsídios para sua sobrevivência. Ele se tornou a própria sobrevivência. Não se sabe mais se "trabalhamos para viver" ou se "vivemos para trabalhar".

O estudo da história da relação existente entre a humanidade e o trabalho revela que houve uma supervalorização da profissão: anteriormente o trabalho desclassificava o homem, sendo delegado a escravos e a servos. O surgimento da burguesia e a consolidação do capitalismo fizeram com que a prática do trabalho fosse amplamente adotada e a desocupação criticada.

Com o passar do tempo o trabalho entrou em um crescente processo de valorização e, hoje, é o que define o caráter e a importância do ser humano na sociedade. Atualmente, ano ato da apresentação já não basta a informação do nome, é preciso dizer também os títulos e os ofícios. A importância do que é exposto não é analisada apenas pelo conteúdo do pensamento, mas também pela importância do cargo que o sujeito ocupa. O discurso de um diretor terá maior relevância que o de um empregado com nível hierárquico mais baixo, segundo o conceito da "legitimidade da fala" (Foucault, 2005).

Muita dessa valorização se deve também a atual escassez de emprego no mercado. As altas taxas de desemprego e subemprego fazem com que quem tenha um bom trabalho seja mais valorizado. O desemprego também é decisivo para o que Sonia Laranjeira (s/d) chama de "síndrome dos sobreviventes": com o eterno medo de perder seus empregos, os trabalhadores que não foram demitidos ficam angustiados e submetem-se às exigências do capitalismo.

SENNETT (2008) chama esse processo de redução de trabalhadores empregados de "reengenharia". Para ele, "a redução tem tido uma relação direta com a crescente desigualdade, uma vez que só uma minoria dos trabalhadores espremidos para fora encontrou outro trabalho com os mesmos salários ou maiores".

Alcione Araujo (SADER et al., 2000) afirma que "todo o atual sistema econômico transpira insegurança. Ainda mais ao amoldar as instituições a um modelo de reengenharia no qual as pessoas são tratadas como descartáveis. Instala-se um mundo de incerteza, desproteção e medo".

Para Sennett (2008), "O que é singular na incerteza de hoje é que ela existe sem qualquer desastre histórico iminente; ao contrário, está entremeada nas práticas cotidianas de um vigoroso capitalismo. A instabilidade pretende ser normal."

As principais exigências do novo capitalismo, muitas vezes nomeado de "capitalismo flexível" ou "capitalismo em rede" ou "capitalismo conexionista", são flexibilidade e conexão. Segundo Alcione Araujo (SADER et al., 2000), no novo capitalismo:

Pede-se aos trabalhadores agilidade, abertura a mudanças de curto prazo, disposição para assumir riscos constantes, informalidade em relação a conquistas trabalhistas e independência em relação a morosidade das leis. Promoções e demissões passam a se basear em regas nítidas e fixas, e tarefas do trabalho não são claramente definidas; a rede incumbe-se de definir, redefinir, compor e decompor permanentemente sua estrutura.

SENNETT (2006) explica que o capitalismo flexível tenta colocar, de forma cada vez mais rápida, produtos mais variados no mercado. A inovação passa a ser muito importante em resposta à demanda do mercado e as tarefas que os operários têm de cumprir mudam semanalmente, ou até diariamente. Para o autor, é raro "as organizações flexíveis estabelecerem metas de fácil cumprimento; em geral as unidades são pressionadas a produzir ou ganhar muito mais do que está em suas capacidades imediatas".

De acordo com PELBART (2003), o capitalismo em rede "enaltece conexões, a movência, a fluidez, produz novas formas de exploração e de exclusão, novas elites e novas misérias e, sobretudo, uma nova angústia – a do desligamento". E continua dizendo: "O mundo conexionista é inteiramente rizomático, não finalista, não identitário, favorece os hibridismos, a migração, as múltiplas interfaces, metamorfoses, etc." O objetivo do capitalismo continua o mesmo: o lucro.

A sociedade em rede enaltece as conexões: a todo o momento o indivíduo deve pertencer a algum grupo e busca ser aceito pela sociedade. Isso se dá de forma imperativa: ou ele faz tudo para se ligar à coletividade ou será excluído por ela. E é exatamente esse discurso que o capitalismo conexionista usa para movimentar as redes de consumo. Nesse universo do consumo, tudo funciona como desculpa para a formação de um ciclo vicioso: o homem trabalha para ter dinheiro; ao ter dinheiro, ele compra mais e, ao comprar mais, ele precisa trabalhar mais para pagar seus gastos. Portanto, a cada momento, consume-se mais e mais, não somente bens e produtos, imagens e informações, mas formas de vida, "toneladas de subjetividade" (PELBART, 2003), alimentando, assim, a loucura diária de trabalho imposta pelo capitalismo.

As grandes potências industriais e financeiras produzem, desse modo, não apenas mercadorias, mas também subjetividades. Produzem necessidades, ralações sociais, corpos e mentes – ou seja, produzem produtores. Na esfera biopolítica, a vida é levada a trabalhar para a produção e a produção é levada a trabalhar para a vida. É uma grande colméia na qual a abelha rainha supervisiona continuamente produção e reprodução. Quanto mais profunda a análise, mais ela descobre, em níveis crescentes de intensidade, a construção interligada de relações interativas. (HARDT e NEGRI, 2006)

Outra importante característica dessa nova roupagem do capitalismo é que não há longo prazo. Tudo é momentâneo e passível de mudanças imediatas. Inevitavelmente o homem leva isso para a sua vida pessoal, tudo passa a atender um curto prazo, até mesmo seus laços afetivos. O único comprometimento que os trabalhadores conseguem ter é com os seus empregos, com as organizações para qual eles trabalham. Na maioria das vezes o comprometimento com a empresa é tanto que o empregado passa a ter um certo tipo de devoção pela instituição, internalizando até mesmo os valores e objetivos da empresa. Ao se envolver mais com o trabalho o homem passou a levá-lo para a sua vida pessoal – a todo o momento se pensa em trabalho, as questões do trabalho o acompanham em todos os lugares, e até em uma conversa informal entre amigos é possível se fechar um negócio. Não há mais um limite de oito horas diárias reservadas ao trabalho e este ocupa até mesmo os momentos de descanso. Essa realidade criou dois personagens bastante comuns na sociedade contemporânea: os workaholics e os worklovers.

Os termos oriundos da língua inglesa são traduzidos como: profissionais viciados em trabalho e profissionais apaixonados pelo trabalho, respectivamente. No primeiro caso, os trabalhadores viciados são capazes de permanecer uma quantidade de horas fora do normal no trabalho, ter o seu emprego como principal objetivo de vida, e não raramente tornar-se uma pessoa de difícil convívio, por ter sua profissão como único e incessante assunto. Já os worklovers sentem prazer em trabalhar, não tem problemas em fazer horas extras, mas sabem diferenciar a vida profissional da pessoal. Em ambos os casos, contudo, a dedicação ao trabalho supera a do trabalhador comum, que cumpre apenas o horário pré-estabelecido. É exatamente esse tipo de profissional que o novo capitalismo procura: profissionais que estejam à disposição da empresa. Segundo Antonio Negri (apud PELBART 2003), agora é a alma do trabalhador que é posta a trabalhar, não mais o corpo, que apenas lhe serve de suporte. Por isso, quando trabalhamos, a alma se cansa como um corpo.

Cabe ressaltar que atualmente há duas forças que movem esse trabalho: a força física e a força imaterial. A primeira é puramente braçal, típica do "capitalismo fordista" de linha de montagem. Já a segunda é o que alguns autores chamam de força de invenção: ela engloba todas as atividades mentais que produzem algo novo e é a principal fonte de valor do capitalismo conexionista. Segundo HARDT e NEGRI (2006) "o papel central previamente ocupado pela força de trabalho de operários de fábrica na produção de mais-valia está sendo hoje preenchido, cada vez mais, por força de trabalho intelectual, imaterial e comunicativa". PELBART 2003 explica que "a invenção não é prerrogativa dos grandes gênios, nem monopólio da indústria ou da ciência, ela é a potência do homem comum". Para o autor "É como se as máquinas, os meios de produção tivessem migrado para dentro da cabeça dos trabalhadores e virtualmente passassem a pertencer-lhes".

Todo esse envolvimento e essa linha tênue entre trabalho e vida pessoal fizeram com que o trabalho passe a ser a principal estima do homem. A vida inteira de uma pessoa passa a girar em função do trabalho. Atualmente quando uma criança nasce, ela já começa a ser preparada para o mercado de trabalho: mal aprendem o português e já estão fazendo cursos de línguas, computação e diversas atividades extracurriculares que a auxiliarão na busca de um futuro emprego. Assim como a linha de montagem de um produto, que começa como uma matéria bruta e vai se "lapidando" até chegar ao momento do consumo, que após o uso é descartado e substituído por um novo, a vida do homem contemporâneo começa com a sua formação para o mercado de trabalho (escola e faculdade), passa por momentos de testes (estágios) e, então, é absorvido pelo mercad, efetivando-se em um emprego. Quando chega ao fim da sua capacidade produtiva, o homem é descartado e substituído, ficando à margem do processo (aposentadoria). Formando praticamente o que DELEUZE e GUATTARI (1999) chamam, porém relacionado ao estado, de segmentarização linear, no qual cada segmento representa um episódio ou um processo cuja ruptura separa.

É possível ver parte dessa valorização do trabalho nas músicas "Um Homem Também Chora" e "Música de Trabalho" quando os autores falam:

"Um homem se humilha

Se castram seu sonho
Seu sonho é sua vida
E vida é trabalho...
E sem o seu trabalho
O homem não tem honra
E sem a sua honra
Se morre, se mata...
Não dá prá ser feliz
Não dá prá ser feliz..."

(GONZAGA JÚNIOR, "Um Homem Também Chora")


"Sem trabalho eu não sou nada
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade
Mas o que eu tenho
É só um emprego
E um salário miserável
Eu tenho o meu ofício
Que me cansa de verdade
Tem gente que não tem nada
E outros que tem mais do que precisam
Tem gente que não quer saber de trabalhar
Mas quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar"

(RUSSO, "Música de Trabalho")

Nestas duas músicas fica bem claro como o trabalho é uma parte imprescindível da vida o ser humano, chegando até mesmo a ser definido como sua vida, sua honra e sua dignidade. CASTELLS (1999) "o trabalho é, e será em um futuro previsível, o núcleo da vida das pessoas".

Essa exaltação ao trabalho faz com que o reconhecimento do homem esteja em seu emprego, e dentro desse processo o todo tipo ócio não criativo é reprimido. Sendo assim, quando se está desempregado é necessário não só lutar pela sobrevivência financeira, mas também encarar todo julgamento e preconceito de uma sociedade que colocou o trabalho como o maior valor da existência humana.

Em relação aos desempregados Alcione Araujo (SADER et al., 2000) explica que,

A esses seres humanos restam as perdas afetivas, o direito à miséria, a perda de um teto, a perda da respeitabilidade social e até mesmo a perda da auto-estima. A reprovação geral os espreita. São induzidos a se considerar incapazes, indignos e, sobretudo, responsáveis pela situação que, eles próprios, julgam degradante. (...) Não é, pois, o desemprego que é, em si, nefasto, mas toda a fieira de sofrimentos que ele causa - e não apenas ao desempregado, mas a toda a sua família. E o sistema previdenciário, em vez de apoiar, trata o dependente do Estado mais como um parasita social do que um desvalido.

É grande a quantidade de pessoas que tentam, mas fracassam na busca por um trabalho. Muitos são os motivos para esta escassez de emprego no mercado atual, entre eles: a oferta de mão de obra em larga escala (que também pode ser considerada conseqüência, pois com poucas vagas de emprego as ofertas de mão de obra livre também crescem) pelo mundo inteiro e a automação.

SENNETT (2006) afirma que "muitos dos que estão enfrentando o desemprego receberam uma educação e uma capacitação, mas o trabalho que buscam migrou para lugares do planeta em que a mão-de-obra especializada é mais barata". O autor explica que, nesta "economia das capacitações", o sistema educacional forma um grande número de jovens, porém o mercado tem dificuldade de absorvê-los.

Esta busca de mão-de-obra especializada e mais barata faz com que muitos trabalhadores saiam de sua região de origem em busca de um emprego. Os que já vivem no território onde há oferta de trabalho correm para se capacitar para poder competir por uma vaga, no entanto são poucos os que conseguem custear cursos e investimentos em aprendizagem. Desta forma, incapazes de concorrer com os estrangeiros altamente capacitados, enfrentam a realidade não ser mais necessárias em sua própria terra. "Aqui, o fantasma da inutilidade se sobrepõe ao medo dos estrangeiros, o qual por baixo da camada de puro e simples preconceito étnico ou racial está impregnado da angústia" (SENNETT, 2006). A xenofobia é por muitos considerada uma questão européia, porém tem atingido muitos outros países como, por exemplo, os Estados Unidos, com os imigrantes brasileiros, indianos e mexicanos. Dentro do próprio país se vê conflito entre regiões: utilizando o estado de São Paulo como exemplo, vê-se um principio de xenofobia dos paulistanos em relação aos migrantes do nordeste, principalmente da Paraíba.

Outro grande motivo citado é a automação. Atualmente as máquinas são criadas com capacidade de exercer atividades de alto valor econômico e com aptidão que o homem ainda não possui. Desde a revolução industrial no século XVIII, a automação vem ameaçando o emprego de muitos trabalhadore, acentuando-se no pós-fordismo no século XX, mas especificamente na década de 60 no Toyotismo.

Porém o "fantasma da inutilidade" não assombra apenas os desempregados,

O envelhecimento determina uma área muito mais abrangente da inutilidade. Todo mundo envelhece, e, debilitados, todos nos tornamos em algum momento inúteis, no sentido de improdutivos. Na economia moderna. Contudo, a idade como critério de medida de inutilidade. [...] A organização de ponta efetivamente tende a tratar os empregados mais velhos como pessoas acomodadas, lentas, com pouca energia.[...] O empregador pode optar entre voltar a treinar um homem de cinqüenta anos, para atualizá-lo, ou contratar um jovem de 25 anos cheio de gás. Sai muito mais barato contratar o jovem cheio de gás. [...] O indivíduo mais jovem ao mesmo tempo sai mais barato e causa menos problema. As muitas empresas que efetivamente investem na capacitação dos empregados no longo prazo costumam ser organizações o tipo mais tradicional.[...] O fantasma da inutilidade representa um desafio para o Estado previdenciário. (SENNET, 2006)

A própria sociedade se divide em população economicamente ativa e economicamente inativa. As expressões ativa e inativa possuem cargas semânticas muito fortes: ativo dá a idéia de funcionalidade, e inativo de ócio e desocupação. É muito difícil para uma pessoa que foi criada dentro dessa "linha de montagem" aceitar o fim da sua funcionalidade dentro deste processo do trabalho. O que vê-se hoje é uma grande quantidade de aposentados voltando ao trabalho não só para complementar a renda da previdência, mas também para não ficar em casa sem uma ocupação. Segundo uma pesquisa realizada pela Fecomercio-RJ (Federação do Comércio do Rio de Janeiro) em 2007, revela que a cada quatro aposentados com média de idade em torno dos 55 anos, um volta ao mercado de trabalho. Dos aposentados que retornam ao trabalho, 59% procuram trabalhar por conta própria - formalmente -, o que representa crescimento de 5,2 pontos percentuais em relação à mesma pesquisa realizada em 2006, quando 53,8% deram a mesma declaração. Outros 24,4% preferiram buscar uma segunda remuneração no mercado informal, contra 18,8% no ano de 2006. O número de aposentados que declararam trabalhar por necessidade diminuiu em relação a 2006: 65,4% contra 72,5%.

Muitas vezes esse aposentado retorna a trabalhar por não conseguir aproveitar o seu tempo livre. Para SILVA (s/d), isso acontece porque somos educados para o trabalho e não para o lazer. A maioria dos aposentados não se aceita no ócio. No documentário "Foucault por ele mesmo" Michael Foucault fala que "o ócio em uma sociedade tão atarefada como a nossa é como um desvio, aliás que é um desvio biológico quando está ligado a velhice." E continua com um toque de humor ácido "Ao mesmo tempo é um desvio constante para todos os que não tem a discrição de morrer de infarto nas três semanas que seguem ao início de sua aposentadoria".

CAPÍTULO 4 – SOCIEDADE X TEMPO X TRABALHO

Como já foi dito no capítulo anterior, o novo capitalismo exige dos trabalhadores uma maior flexibilidade, agilidade e disposição para alterações de curto prazo. As organizações estão sempre em uma constante mudança, nada é fixo, nem mesmo o horário de trabalho dos empregados. São colocados em prática os chamados "flextempo" (ou flexitempo). "Em vez de turnos fixos, que não mudam de mês para mês, o dia de trabalho é um mosaico de pessoas trabalhando em horários diferentes, mais individualizados" (SENNETT, 2008).

O flextempo é adotado principalmente por profissionais que utilizam a força imaterial, na qual o trabalho dele depende quase que exclusivamente de sua capacidade intelectual. Já os horários dos trabalhadores que utilizam a força física permanecem rígidos por dependerem de materiais e supervisão.

Há várias formas de flextempo, em algumas empresas o trabalhador faz todo trabalho de uma semana em poucos dias, em outras o número de horas é determinado pela companhia e a forma como empregá-las é escolhida pelo profissional, por exemplo, a empresa define quarenta horas semanais e o funcionário é quem decide se quer fazer dez em cada dia e ficar com um dia e o final de semana livre ou se quer dividir em oito horas por dia ficando com apenas com o final de semana sem precisar ir ao trabalho, porém com o dia menos ocupado.

Trabalhar afastado da empresa é outra opção que o flextempo oferece. Esta alternativa só é possível devido aos avanços tecnológicos e ao desenvolvimento de intra-redes de comunicação. Quando se opta por trabalhar em casa você gera uma falsa impressão de possuir maior liberdade.

Um trabalhador em "flextempo" controla o local de trabalho, mas não adquire maior controle sobre o processo de trabalho em si. A essa altura, vários estudos sugerem que a supervisão do trabalho muitas vezes é na verdade maior para os ausentes do escritório que para os presentes. (SENNETT, 2008)

Muitas vezes, os funcionários que trabalho em flextempo acabam trabalhando mais que funcionários que "batem ponto" no escritório, pois ao misturar a casa com o escritório perdem a noção do tempo de trabalho e acabam permutando as tarefas de casa e as do emprego.

Toda essa supervalorização e esse envolvimento com o trabalho fazem com que o empregado dedique seu tempo quase que unicamente ao trabalho deixando vários afazeres de sua vida pessoal em aberto, sempre a espera de uma "sobra" de tempo para a sua realização.

Para Alcione Araujo (SADER et al., 2000) ,

todo o tempo, de toda a família, é consumido, direta ou indiretamente, pelo trabalho - doméstico, informal ou institucional. Seja trabalhando as sagradas oito horas diárias, seja preparando-se para ir trabalhar, seja no transporte para o trabalho. Seja ansioso com as perspectivas no trabalho, seja apreensivo com a avaliação do desempenho no trabalho. Seja submetendo a rotina doméstica aos horários do trabalho, seja dedicando o escasso tempo livre a cursos de aperfeiçoamento profissional. [...] Não há tempo nem dinheiro para o lazer, nem para a vida cultural, às vezes, nem mesmo para as práticas religiosas. Divertir-se é sentar-se em frente à televisão; [...] Cada dia, cada semana, começa e termina com o trabalho.

As músicas "Capitão de Indústria" e "Vai Trabalhar Vagabundo" são duas outras músicas que ajudam a elucidar essas questões e discutem o estrangulamento do tempo e a conseqüências do ritmo frenético que o trabalho impõe:

"Eu às vezes fico a pensar

Em outra vida ou lugar

Estou cansado demais

Eu não tenho tempo de ter

O tempo livre de ser

De nada ter que fazer

É quando eu me encontro perdido

Nas coisas que eu criei

E eu não sei

Eu não vejo além da fumaça

O amor e as coisas livres, coloridas

Nada poluídas

Ah

Eu acordo pra trabalhar

Eu durmo pra trabalhar

Eu corro pra trabalhar"

(VALLE E VALLE, "Capitão de Indústria")

"Prepara o teu documento
Carimba o teu coração
Não perde nem um momento
Perde a razão
Pode esquecer a mulata
Pode esquecer o bilhar
Pode apertar a gravata
Vai te enforcar
Vai te entregar
Vai te estragar
Vai trabalhar

Vê se não dorme no ponto
Reúne as economias
Perde os três contos no conto
Da loteria
Passa o domingo no mangue
Segunda-feira vazia
Ganha no banco de sangue
Pra mais um dia"

(HOLANDA, "Vai Trabalhar Vagabundo")

Como vimos, o mundo exige dedicação práticamente exclusiva à empresa e isso faz com que o homem contemporâneo use o seu tempo prioritariamente para o trabalho. Há muitos casos de pessoas que conseguem organizar seu tempo e elencar as suas precedências de forma que o trabalho não comprometa o restante da sua vida. Entretanto o mais comum são pessoas que se sentem pressionadas e se atrapalham devido à correria do cotidiano e, por isso, deixam de realizar outras tarefas além de trabalhar. Mas em que isso realmente afeta a esse ser humano e a sociedade na qual ele vive? O que as pessoas poderiam estar fazendo com esse tempo se não estivessem trabalhando? Quais são as principais conseqüências dessa relação Sociedade X Tempo X Trabalho? São inúmeras as possíveis respostas para essas perguntas e todas dependem muito das prioridades e valores da vida de cada um. Podemos citar alguns exemplos de valores e obrigações que são historicamente difundidos como importante para o bom caminhar da sociedade e atualmente se encontram deixados de lado.

Família:

Freqüentemente entendida como uma das unidades fundamentais da sociedade, podemos definir o conceito de família como grupo de pessoas ligadas por descendência a partir de um ancestral comum, matrimônio ou adoção, existindo sempre algum grau de parentesco entre eles. A relação familiar sempre foi vista como um laço forte e infindável. Entretanto, SENNETT (2008) explica que, na sociedade atual, onde nada possui longo prazo, tudo é flexível e superficial os trabalhadores não tem como evitar as suas relações familiares sucumbam ao comportamento a curto prazo, ao espírito de reunião, acima de tudo a fraqueza da lealdade e do compromisso mútuo que assinalam o moderno local de trabalho. Manter casamentos e relacionamentos é uma tarefa muito difícil, até mesmo porque na maioria das vezes tanto o homem, quanto a mulher possuem esse ritmo de trabalho enlouquecedor, tornando o convívio complicado para ambos. Os dois chegam em casa exaustos e com o pensamento ainda preso as tarefas profissionais e não conseguem nem tempo para conversar e manter o relacionamento.

O caso fica mais delicado quando há um filho ou mais nessa relação, pois, além de dar atenção ao relacionamento do casal, é necessário cuidar e dividir as tarefas relacionadas a criação dos filhos. Muitas vezes as pessoas optam por "terceirizar" a criação do seu filho. Atualmente o mais comum é ter crianças criadas por funcionários de creches ou babás. Mas será que essa criação é a mais adequada? Será que um funcionário contratado pode substituir o papel dos pais na educação de um filho?

É fato que um dos grandes problemas dessa relação é que as crianças se apegam à esses funcionários. Os pais podem até ter amizade por aquela pessoa, mas tem a total consciência de que ele é um profissional contratado, diferentemente das crianças que criam laços afetivos, pois, muitas vezes, eles são as únicas fontes de afeto durante o dia. Uma possível demissão pode ser traumática tanto para o filho quando para o empregado contratado que também se envolve sentimentalmente.

Vale questionarmos, também, até onde vai o poder de censura desse funcionário. Comumente esses profissionais são impedidos de repreender as crianças, que acabam crescendo sem uma orientação correta e com atitudes muitas vezes reprováveis.

Outro hábito recentemente incorporado pelos pais consistir em preencher o horário vago de seus filhos com as mais diversas atividades extracurriculares. Em muitos casos as crianças acabam ficando com uma agenda de compromisso tão atarefada quanto a de adultos. Em entrevista a revista VEJA (2005) o psicólogo Steve Sauter afirmou que atualmente a tendência de acumular funções e atividades está começando cada vez mais cedo pode causar estresse ainda na infância.

Saúde:

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define o conceito de saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença. Para muitos, essa definição de completo bem-estar torna a saúde apenas um conceito utópico, praticamente inatingível na vida real. Desta forma, a saúde é, por vezes, considerada como a total ausência de doença;

Grande parte da sociedade contemporânea encontra-se com alguma irregularidade em seu organismo possivelmente causada pelo crescente sedentarismo, pela tempo disponível para de ir ao médico e de fazer exames de rotina, pelos péssimos hábitos alimentares ou pelo alto nível de estresse. Segundo pesquisa realizada pela operadora de plano de saúde Omint, atualmente os executivos são as pessoas com maiores índices de doenças geradas pela falta de cuidado próprio. Dos 3.488 executivos entrevistados, 42% estão acima do peso, 96% têm má alimentação, 44% são sedentários, 12% hipertensos e 12% possuem taxa de colesterol superior a média. Um outro dado importante que a pesquisa indica é que 10% esses executivos apresentam dois ou mais fatores de risco associados às doenças cardiovasculares. Quanto aos problemas psicológicos, 32% dos entrevistados apresentaram nível alto de estresse, afetando, principalmente, executivos com menos 40 anos, que representam 77% do total. O diretor da Unidade Clínica de Aterosclerose do Instituto do Coração (InCor), o cardiologista Protásio Lemos da Luz, alerta em entrevista a revista época (2005): 'Está comprovado que é possível enfartar e morrer só por stress'.

Preocupada com seus funcionários e, principalmente, com o desfalque de mão de obra e gastos financeiros que seriam desperdiçados com profissionais doentes e afastados do emprego, as empresas começaram a colocar em prática estratégias que pretendem promover melhorias no bem-estar de seus funcionários. São cada vez maiores o número de empresas que aplicam, dentro do ambiente de trabalho, técnicas de relaxamento, alongamento, exercícios físicos e acompanhamento psicológico.

Lazer:

O termo lazer pode ser entendido como o conjunto de atividades que o indivíduo pode realizar por vontade própria, com toda a liberdade. O lazer é realizado em momentos livres de tarefas obrigatórias e são a mais pura expressão do desejo humano. É nos horários de lazer que você decide o que realmente quer fazer, isso pode ser desde descansar até praticar um hobby.

Existe estudos que comprovam que são nos momentos de lazer que o homem tem a sua capacidade criativa mais aguçada. Porém, atualmente, os momentos livres são cada vez mais raros. Na maioria das vezes as pessoas não conseguem relaxar, elas estão tão inseguras que acreditam que não podem abandonar o trabalho, mesmo quando estão de folga (VEJA, 2005).

Com o intuito de aproveitar ao máximo a capacidade produtiva e criativa dos seus funcionários as empresas estão criando espaços de lazer nas firmas. Um dos exemplos mais extremos é a corporação Google inc. que tem sua filosofia voltada inteiramente ao cultivo de um ambiente de conhecimento, altamente criativo e descontraído.

Cultura:

No sentido filosófico, a cultura é considerada o conjunto de manifestações humanas que diferem do comportamento natural. Ou seja, a cultura pode ser considerada como tudo o que o homem realiza que não pertence a conduta inerente do ser. Respirar, por exemplo, é algo natural ao ser humano, enquanto conversar é considerado uma atividade cultural.

As produções artísticas estão intimamente ligadas à cultura. Na linguagem popular, arte e cultura são, por muitas vezes, consideradas sinônimos. Com poder de atingir profundamente o ser humano, as artes são muito importantes para a sociedade como um todo e geralmente são usufruídas nos momentos de lazer das pessoas.

Entretanto, como dito acima, o homem dispõe de poucas horas de descanso e lazer, e quando encontra um espaço livre dentro de sua rotina conturbada em que pode tentar desfrutar de manifestações artísticas e culturais, ele acaba optando por consumir produtos "enlatados" e de fácil compreensão. É como comparar cultura à comida: quando está com tempo mais folgado, você opta por comer em um restaurante, porém quando está com pressa acaba escolhendo um restaurante de fast-food, de mais rápida absorção. O mesmo acontece na escolha do produto cultural: quando há tempo, você ainda opta por algo mais elaborado. Porém, quando não há esse tempo disponível, você escolhe o que é de mais fácil assimilação. É como se a indústria do entretenimento tivesse criado os "fast-arts", soluções rápidas de puro entretenimento, nas quais não precisa se processar muitas informações. Isso justifica o fato dos filmes chamados de "blockbusters" serem os mais assistidos atualmente ou então o fato de que as poucas peças que conseguem sucesso absoluto de público recentemente serem comédias, principalmente comédias "stand-up", que são piadas rápidas, que não exigem muito esforço mental e que ao final do espetáculo metade já foram esquecidas.

As "fast-arts" são as grandes mantenedoras da cultura na sociedade contemporânea. Sem ela as pessoas não teriam pouquíssimo contato com a produção artística. O problema é quando, cientes do sucesso com o público, as grandes companhias de entretenimento a exploram ao máximo, não sobrando quase nenhum espaço para outro tipo e manifestação artística. É preciso tomar cuidado para não acabar com a diversidade de produções culturais existente.

Convívio:

Se relacionar com os seres ao entorno é algo inerente a maioria dos seres vivos. A maior parte dos animais andam em bando para garantir sua sobrevivência. São poucos os que conseguem viver sozinhos. Uma das frases mais famosas é retirada do texto "Meditações XVII", do poeta inglês John Donne (apud KEZEN, S/d), e diz que nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo.

Porém o homem contemporâneo se afasta de tal maneira que acaba se sentindo um ser sozinho. Ao usar praticamente todo o seu tempo e seu pensamento no trabalho ele não tem como se relacionar com outras pessoas. As pessoas praticamente não conseguem sair para fazer novos amigos, seu circulo de amizades é bem pequeno e mesmo assim são raras as que conseguem acompanhar a vida de seus amigos, presenciar os momentos de felicidade ou tristeza. Na maioria das vezes o que se tem de mais próximo são colegas de trabalho, já que, devido ao convívio forçado dentro nas empresas, as pessoas passam a se relacionar, mesmo que de forma superficial.

A instabilidade da sociedade atual também pode fazer com que os laços acabem se tornando muito fracos. Como manter relações sociais duráveis desta forma? Tudo corre o risco de se tornar tão inconstante e frágil quanto o trabalho, inclusive as amizades.

Atuação na sociedade:

Na declaração americana dos direitos e deveres do homem- aprovada na nona conferência internacional americana, em 1948, em Bogotá- o primeiro dever citado é o dever perante a sociedade e ele diz que o indivíduo tem a obrigação de conviver com os demais, de maneira que todos e cada um possam formar e desenvolver integralmente a sua personalidade.

Porém conviver em sociedade exige mais dos homens do que espaço para desenvolver a sua personalidade. É necessário que cada um faça a sua parte para que o entendimento e a organização social sejam mantidos. É preciso ter a consciência de que o mundo é um só para todos e é responsabilidade de todos conservá-lo e partilhá-lo de forma sustentável. Isso não só ecologicamente, mas também comportamentalmente e até politicamente falando.

Ultimamente lê-se no jornal as mais diversas notícias de descaso com os bens sociais, desde praias poluídas até políticos corruptos sendo reeleito. Podemos atribuir vários motivos para isso, carência da devida instrução, comodismo, ceticismo quanto ao poder de mudança, falta de comprometimento... O fato é que o ser humano habituou-se a se ausentar nas tomadas de decisão da sua comunidade. Ele geralmente recorre ao pensamento mais fácil e popular para não ter que se dar ao trabalho de pensar com seriedade. É mais fácil falar que vai anular o seu voto, ou que vai votar em qualquer um porque todo político é corrupto, do que parar para analisar a melhor opção de candidato a governante. É mais fácil falar que é tudo responsabilidade do governo e se isentar do que parar para refletir: quem é mais corrupto? O policial que recebeu a propina para liberar um carro ou a pessoa que ofereceu a propina? A rua está suja por culpa do governo que não limpa ou porque as pessoas ficam com preguiça de levar o lixo até a lixeira? Existem sempre os dois lados, porém é mais fácil e mais cômodo acusar os outros e se livrar da responsabilidade do erro.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Depois de ver os conceitos de sociedade contemporânea, tempo e trabalho e como eles se relacionam, ficam alguns questionamentos: Quais são as nossas prioridades? Porque aceitamos trabalhar tanto? Quais são as possíveis rotas de fuga existentes?

Por incrível que pareça, não há um vilão nesta história. Tratar o capitalismo ou, até mesmo, o trabalho como um vilão é uma enorme ingenuidade. Na verdade o que existe é uma supervalorização do trabalho por parte da sociedade cobrando, quase impondo, que coloquemos o trabalho a cima de tudo. As empresas não irão pedir algo muito diferente disso, afinal elas estão lucrando financeiramente com essa exploração. Desta forma, não podemos considerar o capitalismo ruim por nos obrigar a trabalhar demais, pois nós aceitamos as exigências feitas por ele. Cabe, então, se perguntar até onde vamos? Há limites para as exigências feitas? Que exigências você não aceitaria? Quais são seus limites?

As conseqüências dessa relação Sociedade X Tempo X Trabalho vão depender apenas dos seus próprios valores. Se você define que a sua prioridade é passar tempo com a sua família nos finais de semana você irá procurar um emprego que tenha os finais de semana livres, se a prioridade for o meio ambiente você irá procurar trabalhar em uma empresa ecologicamente responsável e se recusaria a compactuar com atitudes antiecológicas. São os seus valores que definem até onde você é capaz de ir, quais linhas você não ultrapassaria pelas exigências do trabalho.

As próprias conseqüências citadas no capítulo quatro são apenas exemplos de valores historicamente difundidos pela sociedade, mas por si só são muito moralistas. A família, a atuação na sociedade, a cultura, nada pode ser considerado exclusivamente bom, tudo depende da prática, de como os fazemos. Logo, vê-los como valores que nós estamos perdendo é errado, pois valores são adotados, cada um possui os seus.

O problema não está em assumir o trabalho como um valor, ao contrário, existe muitas pessoas que lidam bem com isso, que escolheram o trabalho para ser uma prioridade em suas vidas. O problema está quando esse valor é imposto pela sociedade, deixando para o homem poucas escolhas diferentes dessa. Quando as pessoas assumem esse valor apenas obrigado pela sociedade ele corre o risco de ter seu bem estar comprometido.

Por isso o que importa é ter suas prioridades definidas e, por maior que seja a pressão para largá-las, defendê-las até o fim. É preciso lembrar que a sociedade somos nós. E se existe pressão é por que, de alguma forma, nós mesmo nos pressionamos e pressionamos os outros. È claro que as empresas e governos também exercem seus poderes para que tudo permaneça da maneira financeiramente mais vantajosa para eles. Mas a grande maioria de rotas de fuga existentes parte do próprio homem, principalmente da conscientização das forças de poderes exercidas em seu cotidianos. Como dito no capitulo um, esses poderes são desempenhados atualmente discretamente sobretudo na criação de subjetividade. Desta forma, somente o fato de não me deixar se tratado como massa impensante e reconhecer em que momento eu estou manifestando um desejo próprio meu ou em que momento os desejos que manifesto são uma imposição subliminar dos detentores de poder, já é o início de uma possível rota de fuga.

O intuito desse nunca foi dar respostas ou impor verdades universais. Na verdade a idéia principal era estudar alguns conceitos e criar questões para o debate da relação existente entre esses conceitos na atualidade. Desta forma, sempre existirão inúmeras repostas a ser respondidas, especialmente porque muitas dessas questões só poderiam ser respondidas de acordo com o olhar particular de cada um.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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MÚSICAS

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VÍDEOS

Calderon, Philippe. Foucault por ele mesmo (Foucault Par Lui-même). Documentário: 62,5 minutos. França, 2003


Autor: Bruna Barcelos