Humano, um animal não tão racional assim



O ser humano é capaz de muitos feitos impossíveis ou difíceis para todos os outros animais terráqueos. Temos muitos aspectos anatômicos e orgânicos que nos permitem ir mais longe do que eles. Nossos olhos podem enxergar cores nítidas, ainda que sendo as cores de um trecho muito limitado do espectro da luz; temos voz articulada que nos permite desenvolver uma linguagem falada extremamente complexa; o formato de nossas mãos, especialmente preênseis, nos permitiu manejar instrumentos de escrita, ferramentas e armas que permitiram a defesa dos primeiros humanos de predadores naturais; e, o mais destacado de todos, nossa estrutura neurológica permite uma inigualável capacidade de elaborar pensamentos muito complexos, raciocinar, lançar mão da essência da Razão e desenvolver comunicação simbólica, ciências, filosofia e artes. É esta última vantagem que determina que nós somos “animais racionais” e os demais são os “irracionais”, certo?

A resposta mais certa é: nem tanto! Se analisarmos o comportamento histórico do ser humano, todo ele, veremos que essa diferença é muito, muito mesmo, mais tênue do que o senso comum alardeia por repetição insistente. Não somos tanto assim mais racionais com R maiúsculo do que os bichos. A verdade é que temos tanto ímpeto bruto, selvagem, passional e irracional como qualquer fera temível dos habitats selvagens em cuja destruição investimos. Se não fossem nossos artificiais métodos de controle social criados pelo desenvolvimento da vida em sociedade ao longo de milênios, muito dificilmente haveria condições de existirem sociedades humanas. É esse controle que mantém a civilização em equilíbrio, apesar de estar longe do intransponível. Em outras palavras, só ostentamos os epítetos de “racionais” e “civilizados” porque vivemos encurralados em cercas abstratas que controlam, falivelmente, nossos impulsos destrutivos e raivosos. Há diferença de intensidade no “potencial selvagem” inócuo entre uma pessoa e outra, dependendo do nível de educação e esclarecimento, mas não existe ninguém imune, livre da feralidade. Não existe racionalidade perfeita na humanidade, nem nos mais cultos filósofos e cientistas.

O que digo neste artigo é, com toda a certeza, digno de um livro com muitas folhas. Um artigo como este, que ocupa poucas páginas num editor de texto e conta com um alcance um tanto limitado de conhecimento, é pouco demais para descrever o lado irracional do ser humano e a sua incompletude racional. Mas faço questão de escrevê-lo, fazendo minha parte no esforço de derrubar o pedestal usado pelas pessoas para se porem acima dos animais não-humanos, criando uma distância artificial e falsa entre o “Homo sapiens sapiens” e o universo terráqueo de bichos ao melhor estilo de Quico “Han-han-han-han. Han-han-han. Sou racional e vocês não sã-ão! Sou superior a vocês.”, e induzir o leitor a ter ciência de que o seu atributo de “animal racional” absolutamente não é perfeito, saber aceitar e lidar com a existência de seu lado animalesco, procurar usar mais o seu lado racional e deter os impulsos emocionais em momentos complicados e, quebrando a tradição antropológica de ser moderado apenas pelo controle social externo, tornar-se com mais poder e vigor o seu próprio moderador.

Antes que você ache que eu estou dizendo que não deveríamos assim ser e que o certo seria sermos zero por cento irracionais, é necessário que fiquem claras algumas observações. A verdade é que, se nunca houvéssemos tido um lado emocional, sentimental, impulsivo, seríamos seres muito “monótonos” que, ao que tudo indicaria, não teriam sobrevivido por muito tempo. Até porque nos faltariam muitos instintos básicos de sobrevivência, não conseguiríamos transpor predadores – algo que requeria, além de armas, a cólera que impulsionava a força muscular e a adrenalina –, não encontraríamos forças para superar obstáculos naturais – em tempos de nomadismo, a crença de estar sendo guiado por entidades superiores era praticamente indispensável para não se desistir de tarefas que seriam extremamente mais difíceis para quem ouvisse apenas à Razão numa época de inexistência da Geografia e da Cartografia, como explorar mares traiçoeiros, desertos vastos, pântanos sombrios e montanhas ameaçadoras – e sequer sentiríamos a paixão que guiava nossos ancestrais ao ímpeto da excitação sexual reprodutiva. A própria Razão em si pode configurar-se como incompleta se não tem algum fator irracional próximo ou precedente para se pensar, filosofar e estudar. E, como aprendemos em nossas vidas, não é de todo mal que sejamos parcialmente irracionais, quando, por exemplo, deixamos de lado hesitações pensativas para irmos paquerar uma pessoa do sexo oposto por quem nos apaixonamos e um religioso, numa realidade privada de educação filosófica esclarecedora, é ajudado pelos impulsos e esperanças trazidos pela fé a superar momentos angustiantemente difíceis e desafios robustos. A abordagem deste artigo não necessariamente critica a existência do nosso lado selvagem, mas sim intenciona mostrar que ele é muito mais relevante do que se pensa de costume, a racionalidade humana não é tão “o máximo” assim e nossa própria estabilidade civilizacional só não é precária porque é controlada por “currais” abstratos que detêm nossa feralidade, fatos que contrariam contundentemente os pontos de vistas do senso comum e dos especistas.

Começando a análise de nosso lado selvagem, a primeira idéia que temos é das crianças que choram por qualquer coisa, das birrentas, das que trocam puxões de cabelo ou socos ao mínimo xingamento, dos bebês que, desprovidos de raciocínio consolidado e noção do perigo, lançam-se à vontade de pegar a panela quente ou o frasco de veneno ou de explorar a varanda insegura. É até óbvio reiterar que essa fase é de longe a mais irracional. Até porque, evidentemente, o cérebro ainda está em desenvolvimento, não está com as estruturas neurológicas de raciocínio prontas. O comportamento instintivo está no seu ápice, sendo mais freqüente do que em qualquer outra época da vida humana. E vai decaindo ao longo do tempo em que a criança vai absorvendo experiências de vida e adquirindo discernimento e sabedoria, assim como tomando as noções de como usar suas forças, seu pensamento e outras propriedades vitais.

É basicamente a mesma regra de qualquer animal vertebrado. O filhote, sem discernimentos, vive na base da tentativa-e-erro e vai desvendando a solução do desafio que a Natureza lhe impõe. Há os casos da orientação materna ou familiar, em que existe a guia paternal e/ou maternal dos pequenos para aprenderem a usar suas capacidades físicas para com elas levarem a vida. É aí que o lado ignorante da bruteza animal é diminuído, mas nunca erradicado, e substituído pelo amadurecimento. A metade desvinculada da ignorância é “aperfeiçoada”, “lapidada” de modo que o bicho, quando crescer, saberá usá-la para sobreviver, defendendo-se de predadores e, caso carnívoro, caçando presas.

Duas peculiaridades dão ao ser humano um comportamento educado requintado e proporcionam o desenvolvimento de seu lado racional, o que o distingue dos animais não-humanos. A primeira é que a pessoa conta com um aprendizado social muito mais detalhado e desenvolvido do que o dos bichos. Entre muitas espécies destes, como leões, lobos, elefantes e primatas, a socialização em clãs e o desenvolvimento de sentimentos harmônicos para com os companheiros são notáveis, mas dentro da espécie humana é que são bem mais complexos. Nos ambientes de convivência a criança aprende a falar, a interagir com os colegas, familiares e vizinhos, a exercitar incipientemente suas vocações de trabalho e, o mais importante, a desenvolver virtudes como assertividade, amor-próprio, valentia e sabedoria. O segundo ponto, propriedade unicamente humana, é o desenvolvimento da educação, especialmente nas sociedades modernas, dotadas de escolas e amparadas pela extensão do direito ao ensino didático a todos os estratos sociais. São as escolas, aliás, que desenvolvem com mais poder as propriedades avançadas da racionalidade humana, como o intelecto, as habilidades laborais, o pensamento estrategista (do militar ao empresarial) e a complementação do aprendizado social. No caso das sociedades mais tradicionais, onde a educação escolar não é acessível a todos, são a educação caseira familiar e o serviço militar que tomam as rédeas do ensino humano. Evidentemente, não desempenham o desenvolvimento do pensamento racional com a mesma eficiência da escola – aliás, estão muito longe de fazerem-no com competência –, daí notamos que nessas populações o uso procedimental da violência física nas normas, a facilidade das pessoas de explodirem de raiva em determinados momentos e a conseqüente suscetibilidade a cometerem atos violentos é maior do que nas escolarizadas. O ímpeto selvagem humano que levaria ao caos social e ao desmanche da vida coletiva é evitado pelo controle proporcionado majoritariamente pelas normas vindas da religião, seguida inquestionavelmente pelo povo que teme punições divinas das quais não haveria como escapar e promove sua harmonia pela esperança de receber recompensas de vida próspera e (em grande parte das religiões) pós-morte tranqüila e por ocasionais motivações sagradas.

E é ela mesma, a religião, que equaliza as emoções humanas de muitos. E controla uma gigantesca maioria da humanidade hoje, das sociedades mais tribais até as mais urbanas, industrializadas e mesmo secularizadas. Além de que, segundo a análise de um sem-número de filósofos e cientistas contemporâneos, faz uma incômoda oposição à expansão da secularidade, da irreligião, do modo de vida que, livre de crenças em divindades, é guiado predominantemente pela Razão e pelo pensamento crítico – ao contrário do viver religioso dependente da fé e das emoções movidas pela(s) divindade(s). Temos aqui três pontos que convergem numa verdade: a maior parte da população humana do planeta é de fato movida com predominância pela emoção, age pelo “coração”. Quando segue, vive ou utiliza algo proporcionado pela Razão, é porque foi outra pessoa, mais capaz, que o pensou em lugar dela. Levanta o professor Alberto Montalvão, no livro de psicologia da antiga Biblioteca de Ciências Exatas e Humanas: “De um modo geral, a maioria das pessoas raramente ‘pensa’ no mais alto sentido desse termo. Sem raciocínios e faculdades lógicas, são ainda rudimentares”.

Ele tem a sabedoria de pôr a questão dentro de um assunto intitulado por uma palavra: sugestão. Definida em segunda mão por ele como “algo sutil e indiretamente insinuado na mente” ou “uma insinuação ou idéia apresentada à mente de modo direto”, a sugestão mental praticamente é um combustível, ora positivo ora negativo, da pessoa não-pensadora e a comanda através do atiçamento de seus sentimentos, de seu lado emocional. Abrange desde o proferir de uma frase qualificativa ou desqualificativa para alguém até apelos indiretos transmitidos por idéias tocantes. Montalvão expõe que “um apelo aos sentimentos e emoções de uma pessoa produz maiores resultados do que se dirigido à sua razão. É ainda o sentimento a mola que faz mover a massa, as ações da multidão”. Destoando dessa massa de pessoas comuns, estão os humanos que menos se deixam levar por instintos emocionais sugestionados. Elas são as que terminam assumindo as vidas mais bem-sucedidas e muitos dos papéis sociais mais admirados ao redor do mundo. Como se libertas de uma Matrix, têm em mente o conhecimento da suscetibilidade das massas a serem facilmente manipuladas por apelos emocionais e controladas por quem “pensa para elas”, havendo o ajuste da eficácia dessa manipulação quando se usam recursos como a repetição e a autoridade. É aproveitando-se disso que aparecem líderes mal-intencionados, inteligentes por si ou aconselhados, ou seus oradores braços-direitos, tais como o papa cruzado Urbano II, o nazista Joseph Goebbels, o presidente belicista George W. Bush e muitos bispos de igrejas neopentecostais. O povo reduz-se a cordeirinhos obedientes e muitas vezes fanáticos – olhe o ímpeto selvagem humano batendo à porta aqui – e segue inconseqüentemente aquele que tem a maior habilidade de liderança acompanhada de intelecto, por mais perversidades e/ou idéias idiotas que o pensamento crítico desmascare do tal líder. Embora eu tenha deixado claro que minha posição não é de condenar a incompletude racional humana, é muito relevante concluirmos que esse ponto da atual hegemonia da emoção e do instinto sobre a Razão e o pensamento crítico é de fato negativo para o progresso da humanidade e bastante perigoso para a sua própria integridade. Montalvão, apontando uma das conseqüências, afirma que “muitos países perderam a sua liberdade por uma frase hábil, a qual analisada nada significava. Apenas despertava sentimento”.

Além da hegemonia da emoção, não é nada difícil flagrar casos em que há a prevalência do instinto de selvageria sobre o bom senso. Muitas vezes pegando carona na já descrita passionalidade, fatores pouco ou nada relevantes para quem se guia pela sobriedade racional, como derrotas de times esportivos ou até mesmo apelidos, são motivos para literais explosões de fúria nos que menos se guiam pela cabeça e mais pelo “coração”. A comédia gerada nos ataques coléricos causados por apelidos bobos ou besteiras de brincadeira, aliás, é o trunfo das Pegadinhas do Mução, renomado humorista de rádio. Nomes bobos como “Bebe-Ovo”, “Bode Rouco”, “Catatau”, “Remela de Gato”, “Sargento Pincel”, ”Papa-Véia”, “Rasga-Bandeira” e “Tartaruga Sem Casco” e também “’verdades’ de efeito” como a da mulher que “tinha um gato travesti”, a do homem que “comprava sempre fiado” e as de vários sertanejos que “faziam sexo com jumentos” motivam sessões de xingamentos e palavrões desprovidas de objetivo e até ameaças de espancamento ou morte por parte de quem, sem nem ter bebido, perdeu facilmente a sobriedade, proporcionando um cômico choque da brincadeira com a fúria descontrolada. Até garotas de voz angelical, professores admirados e autoridades militares respeitadas tornam-se verdadeiros trogloditas bárbaros diante de um dizer que lhes é recebido como uma provocação bélica.

Analisando historicamente, o ímpeto da bruteza violenta foi muito necessário para o ser humano no passado distante. Quando não tinha condições de promover mudanças no ambiente natural ao redor nem contava com armas requerentes de pouca força física, tinha que recorrer freqüentemente à cólera para se defender de animais predadores. Um troglodita podia vencer um urso sozinho desde que despertasse em si uma fúria que o deixasse à altura da feralidade do bicho e aumentasse suficientemente sua força e adrenalina para manejar a clava pesada que lhe era o único instrumento disponível para atordoar ou matar aquele gigante ameaçador de sua vida daquele momento. Sem esse recurso feral, provavelmente teríamos sucumbido com facilidade aos predadores do Paleolítico. Mas, muitos milhares de anos depois, em tempos de vida urbanizada e de propriedades rurais raramente suscetíveis a ataques de feras, épocas em que as armas são extremamente mais malignas do que necessárias, a cólera, raiva excessiva, não é mais necessária à nossa sobrevivência e só vem causando problemas, como brigas entre humanos por motivos fúteis e atentados violentos contra muitas vidas alheias, e sendo, ao lado do ódio, seu sentimento irmão que geralmente é parte integrante sua, o combustível que move e motiva todas as guerras. A verdade é que a humanidade socializada evoluiu muitíssimo mais depressa do que suas disposições biológicas. Com a ausência de feras de outras espécies, manifestamos raiva das humanas mesmo, das pessoas mais próximas que a ela nos induzem. E isso é o que gera, como diz Mução, as “pegadas de ar”. Visto isso, somos verdadeiros seres bestiais parcialmente domados por valores, crenças e normas sociais, ainda demonstrando às vezes a sobrevivência de nosso lado selvagem. O potencial furioso e cruel existe, inato ou prestes a explodir, em todo e qualquer humano. Até dentro do cérebro da pessoa mais zen há uma sementinha raivosa inócua esperando a hora propícia de exaltação sentimental negativa para se manifestar. Mas sua presença não é igual em todos, difere de um para outro no quociente de ignorância e na facilidade de erupção.

Seres tão potencialmente brutos e emocionáveis, cuja estrutura neurológica não evoluiu o suficiente para acompanhar sua organização em sociedades estáveis, precisam de algo que os dome, os modere. Como acabei de expor, os valores, crenças e normas, incluindo aspectos religiosos, fazem a frente. Mas não são infalíveis em manter o controle da situação. Como um muro paralelo às cercas abstratas que inibem a feralidade do humano, eis a coerção. É graças a ela que sociedades avançadas onde a educação ainda não é devidamente decente e a paz social e/ou diplomática não está nas prioridades práticas da política nacional permanecem em ordem. É representada pelo ministério militar do Estado, pela religião autoritária que ameaça de castigos em vida temporários ou irreversíveis (como doenças, maldições, decadência ou a própria supressão da vida) e/ou penalidades pós-morte (tais como reclusão num mundo paralelo de sofrimento temporário ou eterno, reencarnação num nível espiritual inferior, imposição de destino hostil na encarnação seguinte ou a simples extinção da existência) transgressores da ordem e coesão sociais, pela polícia, pela legislação que penaliza com detenção, multa, confisco de bens, suspensão de licença profissional ou outras sanções e, em casos envolvendo grupos menores de convivência, pelas autoridades de poder localizado – diretoria escolar, moderação de fóruns de internet, departamento de recursos humanos da corporação, etc. É relevante perceber que a maioria dos humanos deixa a entender que, em vez de ser consciente naturalmente de que um comportamento benigno é necessário para sua sobrevivência, bem-estar e harmonia e proporciona prazer, só o adota porque ou está inconscientemente forçado pelas instituições coercivas a seguir normas impostas ou espera receber recompensas reais ou imaginárias de setores sócio-hierárquicos superiores por bons comportamento e ações. Falo desse entendimento me referindo à conduta social extra-familiar, fora dos círculos de família e amigos, os quais são unidos pelo amor. Em outras palavras, a harmonia macro-social atual podemos julgar como forçada: só toleramos/respeitamos o próximo que não nos desperta sentimentos positivos (pessoas neutras ou odiadas com as quais zeramos as chances de fazermos amizade) porque a isso somos obrigados ou induzidos, dificilmente porque queremos por vontade espontânea. Isso poderia ser experimentado numa situação hipotética em que um vendedor nos chamasse por aquele apelido indesejado, havendo uma viatura policial a poucos metros: nosso ímpeto bruto, a vontade de xingá-lo e mesmo agredi-lo, ferveria dentro de nós, mas estaria forçadamente contido pelo risco de os guardas chegarem e nos darem uma advertência ou mesmo voz de prisão.

Além dessa experiência imaginária, outra forma de constatar a tendência caótica da maioria das pessoas e as conseqüências da ausência de normas é se houvesse, por exemplo, um terremoto de médias ou grandes proporções em certo local. Considerando que as forças coercivas locais perderiam seu poder temporariamente e assim a situação de anomia (ausência ou desabilitação de normas) estaria instaurada, é quase certo que o caos humano se imponha. Saques são a primeira coisa que chega à nossa mente quando pensamos nos momentos seguintes a uma catástrofe natural, seguida de violência e desarmonia. É certo que uma das razões é a dificuldade imposta de se obter alimentos e roupas e a escassez dos mesmos, até porque é impensável manter a rotina de comprá-los calmamente, mas notemos que a tendência humana nessas horas dificilmente é aquela racional, a de pensar em soluções paliativas possíveis a curto prazo ou ajudar pessoas neutras, mas a passional, a de procurar desesperadamente a sua própria sobrevivência nem que tenha que passar por cima de todos. O caos é inibido com a escolha de líderes grupais e de mutirões em momentos de alívio do sentimento impetuoso coletivo e, dentro de mais tempo, a chegada do Exército nacional ou de coalizão estrangeira.

A realidade de equilíbrio artificial da ordem social não é exclusiva a agregados desprovidos de coesão por sentimentos positivos. É infelizmente aplicável a muitas famílias e grupos de amigos, dependendo do potencial explosivo de cada pessoa. É por isso que há hoje tantas ocorrências de crimes em família e brigas muito agressivas entre amigos, familiares e mesmo casais. São casos em que a coesão e harmonia, a mais forte possível para o indivíduo quando se fala em relações humanas por envolver a família, amigos ou seu(sua) amado(a), são quebradas por instantes de raiva selvagem, algo que dificilmente acontece quando o motivo originário do descontentamento é posto em pauta sob a mediação da Razão e da sobriedade. São momentos em que o comportamento humano se iguala ou se torna pior do que o de muitos animais ferozes. E, se não fosse a coerção pelas autoridades, a freqüência desses incidentes seria ainda muito maior.

E quem disse que valores, crenças e normas impedem a prática coletiva do mal irracional e cruel? Como já foi posto, as cercas abstratas que encurralam os grupos humanos numa ordem não-natural não são intransponíveis e é isso que possibilita os crimes e as explosões de raiva e ódio dentro deles. E outro fator notório é que esses três “irmãos sociais” muitas vezes respaldam a própria maldade. Que o diga o tratamento reservado pelos humanos aos animais não-humanos. No grosso da sociedade, predomina o mal que encoraja a bruteza: valores põem o animal humano acima dos bichos e fazem destes sua propriedade; crenças pré-científicas (como o deus Javé ter declarado que aos homens caberia dominar os bichos) ou mesmo “verdades” científicas arcaicas (como os animais autômatos de Descartes) forjam uma linha grossa separando a trajetória humana no planeta e o domínio animal; normas – a saber, muito aprovadas e toleradas – permitem o assassinato massivo de seres encarcerados que não podem sequer se defender e vivem mergulhados em dor, tristeza e privação. Daí o pior da irracionalidade do ser humano, travestido de “virtudes” como “força”, “valentia”, “auto-afirmação”, “coragem” (que na verdade é covardia) e “determinação”, inflige pesada violência através de rodeios, vaquejadas, rinhas, atividades pecuárias em geral, circos com animais, vivissecções e testes de produtos, violência gratuita de rua e muitos outros crimes. É o descarrego, em seres inocentes e indefesos, do furor cruel guardado nos genes e no “coração”, em verdadeiros esforços de estagnar ou mesmo regredir a condição racional da espécie. E isso não está restrito à violência contra animais. O meio ambiente, por causa de outros valores e crenças semelhantes, sofre com a arrogância de quem, ignorando a racionalidade e prudência de se considerar a importância vital dele para a própria vida humana, arroga para si o direito de dominar a natureza e fazer com ela o que bem se quer.

E também a própria humanidade, quando há brechas normativas em parte dela, sofre a degradação trazida pelas suas piores feras. É quando as já descritas tendências violentas entre quem não se ama violam nossas cercas abstratas. Outra ocasião de perversão ética por valores e crenças é a presença de preceitos escravocratas, xenofóbicos e etnocentristas, vide a arrogância de superioridade por parte de civilizações de maior poder militar. Povos supostamente mais avançados exibem na verdade um espetáculo coletivo típico de grupos mais brutais, selvagens e desprovidos de racionalidade. São os casos, entre centenas de outros, das guerras de agressão expansionista-imperialista: hebreus – seguidores do mesmo Deus dos cristãos de hoje – contra tribos cananéias no primeiro milênio AEC (caso a narrativa bíblica seja confirmada); romanos contra povos estrangeiros nas épocas republicana e imperial; cristãos e muçulmanos contra todas as outras religiões vizinhas (e mutuamente contra si) na Idade Média; europeus contra ameríndios e africanos na Idade Moderna; ingleses contra chineses no século 19; alemães nazistas contra todos ao seu redor nas décadas de 1930 e 1940; estadunidenses contra vietnamitas e iraquianos na História recente.

Nenhum humano é absolutamente racional. Todo ele tem um lado irracional e instintivo que geralmente não precisa de esforços extraordinariamente grandes para ser acionado. Pouquíssimos são os humanos socializados que, em algum momento depois da primeira infância, se isentaram de ter alguma emoção colérica ou ímpeto racionalmente inadequado contidos por alguma ameaça coerciva. Quem não recebeu pelo menos uma bronca do tipo “cortarei sua mesada”, “o diretor quer falar com você”, “não gostei disso”, “você está advertido”, “vou dar uma pisa se não parar”?

Entretanto, não devemos nos martirizar pensando que a espécie humana está permanentemente condenada à selvageria, nem que eu ou você vamos morrer frustrados por não termos conseguido desabilitar a sementinha de potencial de raiva ou o excesso de passionalidade na cabeça. Como já especifiquei mais acima, uma educação psicológica e filosófica bem-estruturada e interessadamente assimilada nos traz o esclarecimento perante muito da vida e do nosso eu. Nos permite desenvolver o potencial de filosofar, refletir sobre nosso modo de viver. Permite à Razão, quando devidamente acompanhada de senso crítico, suplantar atitudes infantis e impulsivas. É verdade que jamais seremos absolutamente racionais, sempre seremos parcialmente irracionais, até porque isso faz parte de nossa natureza animal, mas podemos muito bem, com as devidas condições e aprendizados, diminuir o poder do lado passional, criar uma auto-afirmação de poder pensar por si só, combatendo a acomodação mental-intelectual de precisar receber idéias já mastigadas de líderes de índole questionável, e moderar ou reprimir impulsos destrutivos internos que possam fazer de nós “rudes trogloditas por um instante”. É esse o ponto principal que nos difere da condição mental dos demais animais, e, se quisermos nos consolidar como seres realmente dotados de pensamento, raciocínio e autocontrole mental, vamos seguir a linha da racionalização que começou há vários milênios. E isso inclui também abandonar valores e crenças que justifiquem a prevalência do lado malvado e estúpido da irracionalidade, como o caso das normas e preceitos especistas, xenofóbicos e segregacionistas.

Não é vasta como se pensa a distância que nos separa daqueles que chamamos de “animais irracionais”. Somos irracionais em parte, e às vezes até os superamos em questão de descontrole emocional e impulsos destrutivos, tanto contra outras espécies como contra mesmo os semelhantes mais próximos da nossa própria. Cientes disso, torna-se muito lógico que paremos de nos arrogar como os seres superiores do planeta, que acabemos com o “complexo de Quico” que nos impele a parecer os “tais” do mundo. É possível sim, no entanto, que, pelo autocontrole exercido nos impulsos brutos e na passionalidade manipulável, diminuamos os perigosos potenciais vindos da irracionalidade, embora jamais nos livremos da condição de imunes a eles.

E repito que o que está aqui é o “resumo do resumo” daquilo que pode ser abordado sobre o assunto e abarca um conhecimento limitado e possivelmente inacurado. Um conhecimento mais extenso e pesquisa mais apurada certamente trarão uma riqueza muito maior de detalhes sobre a nossa incompletude racional e uma análise completa dela só virá num livro grande ou mesmo numa série de livros.
Autor: Robson Fernando