Resenha do livro: A alegria de ensinar



ALVES.Rubem. A alegria de ensinar. 3. ed.São Paulo:Ars Poética,1994



Rubem Alves estudou Teologia no Seminário Presbiteriano de Campinas (1957), possui mestrado em Teologia pelo Union Theological Seminary (1964), doutorado em Filosofia (Ph.D.) pelo Princeton Theological Seminary (1969), na década de 80 tornou-se psicanalista pela Sociedade Paulista de Psicanálise, na década de 70 à década de 80 foi professor em universidades brasileiras e do exterior. O autor é membro da Academia Campinense de Letras, professor – emérito da Unicamp e cidadão honorário de Campinas.
O livro A alegria de ensinar , possui quatorze capítulos formados por textos que não se relacionam de maneira sequêncial, porém se completam, mostrando a visão particular do autor sobre o ofício de “ensinar”, onde ele trata do tema de uma maneira apaixonada expressando-se de uma forma muito transparente e é muito incisivo em suas críticas, relatando também suas experiências quando aluno. O autor utiliza poemas , cita alguns livros e menciona alguns filósofos , compartilha da opinião de alguns pensadores em educação, o que torna sua obra mais completa .
No texto “Escola e sofrimento” o autor mostra-se preocupado em parecer contraditório, pois mostra como a grande maioria das crianças vêem a escola, ansiosas e amedrantadas, portanto não condiz com o perfil de crianças que são ensinadas a serem felizes. Fala sobre o fim da tortura escolar com a vara e palmatória , porém tras outro tipo de tortura que permanece nas escolas, ou seja, a quantidade absurda de informações que as crianças e adolascentes não conseguem compreender por não terem nenhuma relação com suas vidas.Faz também uma crítica aos métodos de avaliação de aprendizagem, onde classificam os alunos pelos resultados .
“ A lei de Charlie Brown” mostra a visão equivocada , mas verdadeira, que as crianças e jovens têem da escola, a missão de tirar boas notas como garantia de se formar futuramente homens e mulheres bem sucedidos. Rubem Alves se mostra indignado com o nosso sistema educacional, ele o descreve como um sistema que ao invés de formar , deforma os alunos em sua essência, pelo que são submetidos a passarem em nome da educação, o desgaste físico e mental que na maioria das vezes é em vão, já que o aluno não consegue integrar o conhecimento a sua vida e acaba esquecendo de quase tudo que estudou.
Em “ boca de forno” o autor faz uma comparação com o que acontece nas escolas. Onde as crianças são ensinadas. “Aprendem bem. Tão bem que se tornam incapazes de pensar coisas diferentes”.Fala sobre o estado de prostação que se encontram nossos alunos, onde tornam-se incapazes de dizer o diferente. Mostra que o saber já testado tem uma função econômica: a de poupar trabalho, a de evitar erros, a de tornar desnecessário o pensamento. Assim, aprende-se para não precisar pensar. Chama a atenção sobre o método equivocado de ensinar aos alunos que a ciência ,o saber ,a vida são feitos de respostas certas e erradas. Pois quando a prendem as respostas certas , desaprendem a arte de se aventurar e errar, sem saber que, para uma resposta certa, milhares de tentativas erradas devem ser feitas.
O texto “ Lagartas e borboletas” tras como tema o” corpo”. Como numa lagarta mora adormecida uma borboleta, e na borboleta uma lagarta, assim , mora adormecido em nosso corpo um universo fantástico. E o que vai acordar é aquilo que a Palavra chamar. O autor diz que as Palavras estão dentro de nossos corpos em estado de hibernação, como sonhos. A esse processo em que a Palavra desperta os mundos adormecidos, se dá o nome de “educação”. E aos que têem esse poder de despertar mundos adormecidos através da Palavra, dar-se o nome de “educadores “.
Rubem Alves mostra que a educação pode ser algo que nos faz esquecer o que somos, a fim de nos recriar a imagem do Outro, ou seja, é preciso esquecer-se do aprendido, afim de poder lembrar daquilo que o conhecimento enterrou. Moldar jovens e crianças a este” Outro”, pode trazer um retorno econômico ao fim do processo, mas ele só se realiza ao preço da morte dos universos que um dia viveram, como possibilidades adormecidas no corpo das crianças : toda borboleta deve se transformar numa lagarta. Por isso que as pessoas passam as suas vidas com a estranha sensação de não era bem aquilo que desejavam, pois foram transformadas em alguma coisa diferente dos seus sonhos, e isto as condenou à infelicidade.
“ Um corpo com asas” é um texto em que ,o ”vovô” Rubem Alves, relata o crescimento constante do aprendizado de sua neta Mariana. Assim como uma borboleta, ao aprender a usar as palavras, Mariana começou a voar em espaços infinitos. Ao aprender a falar, ganhou o poder de voar pelos mundos que moram nas palavras. O autor descreve o ccorpo de uma criança como um espaço infinito onde cabem todos os universos. E quanto mais ricos forem estes universos, maiores serão os vôos da borboleta, maior será o fascínio, maior será a possibilidade de amar, maior será a felicidade. Porém , as vezes acontece o contrário, a borboleta voltam ao casulo e se transformam em lagartas . Porque voar é fascinate, mas perigoso.è preciso que não se tenha medo de flutuar sobre o vazio com asas frágeis.
A alegria de ensinar é um livro em que o seu autor,Rubem Alves, deixa claro que ensinar é um exercício de imortalidade, que de alguma maneira continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pelo instrumento fascinante da palavra, sendo que o educador é assim, não morre jamais, estando a cada dia no pensamento daquele que ele ensinou.
Autor: Eva Coutinho Matos Santana