Ensaio Sobre A Teoria Do Medalhão De Machado De Assis



O conto escolhido é A teoria do Medalhão, publicado originalmente n'A Gazeta de Notícias, em 1881, da autoria de Joaquim Maria Machado de Assis. Sendo atribuídos a este autor "217 contos, dos quais 205 reconhecidos consensualmente como da pena do autor, dez lhe foram atribuídos por R. Magalhães Júnior (incorporados a despeito de dúvidas sobre tal atribuição) e dois usualmente classificados como crônicas, mas que merecem estar aqui devido seu caráter ficcional"[1], tornou-se difícil escolher entre tão vasta obra. Pode-se, porém, tecer-se sobre o autor, o que fundamenta a justificativa da variedade da obra, não devendo ele ser classificado como um escritor prolixo: a significação desta palavra é insuficiente para dar conta da personalidade daquele, visto que a qualidade de seu trabalho foi reconhecida ainda em vida e perdura até a atualidade.

1.Comentários Biográficos

Nascido a 21 de junho de 1839, no Rio de Janeiro, filho da lavadeira D. Maria Leopoldina Machado de Assis e do pintor de paredes, operário mestiço de negro e português Francisco José de Assis, o pequeno Machado ficou órfão de mãe muito cedo. Casando-se novamente o pai, o garoto é criado pela madrasta, Maria Inês, também mulata, que se dedica ao menino e matricula-o na escola pública, única que freqüentará o autodidata. Frágil, epilético, gago, sabe-se pouco da sua infância e início da juventude, além de que foi criado no morro do livramento, constando que ajudava a missa na igreja Lampadosa. Morto o pai, em 1851, Maria Inês, à época morando em São Cristóvão, emprega-se como doceira num colégio do bairro, e Machadinho, como era chamado, torna-se vendedor de doces, tendo contato com professores e alunos do colégio.

Aos dezesseis anos publica, em 12-01-1855, seu primeiro trabalho literário nA Marmota Fluminense, o que os biógrafos discordam, uns afirmando ter sido o poema Ela, outros, A Palmeira, o trabalho publicado. Pode-se perceber, ainda, que a síntese cronológica veiculada em algumas páginas da web pesquisadas diferem de outras: enquanto umas afirmam ser 1885, outras trazem o ano de 1855 para o registro do primeiro trabalho. Outro ponto de discórdia é se A Marmota Fluminense tratava-se de um jornal ou uma revista. Entretanto, o mais interessante em Machado de Assis não são as discordâncias acerca de datas, nomes ou instituições: estas podem ser sanadas por pesquisa documental, caso existam, em museus ou bibliotecas, provas concretas, mas o fato de ter passado por severas dificuldades na infância, e ainda assim ter aproveitado cada oportunidade que a vida colocou diante dele. Tanto que, após a publicação nA Marmota, torna-se seu colaborador efetivo.

Em 1858, começa a colaborar intensamente em vários jornais, com breves interrupções, mas este será um trabalho mantido por toda a vida. O primeiro livro é publicado em 1864: Crisálidas, sendo composto por poesias. Dois anos depois é nomeado para o cargo de ajudante do diretor do Diário Oficial. Em 1869 casa-se com Carolina Augusta Xavier de Novais. Nessa época, o escritor era um típico homem de letras brasileiro bem sucedido, confortavelmente amparado por um cargo público e por um casamento feliz que durou 35 anos. Dona Carolina, mulher culta, apresenta Machado aos clássicos portugueses e a vários autores da língua inglesa. Sua união foi feliz, mas sem filhos. A morte de sua esposa, em 1904, é uma sentida perda, tendo o marido dedicado à falecida o soneto Carolina, que a celebrizou.

Retomando a ordem cronológica da biografia, Machado passa a primeiro-oficial da Secretaria do Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas em 1873.

Entre os anos de 1878 e 1879, passa ampla temporada no município de Friburgo, obrigado pela saúde frágil.

Torna-se Oficial de Gabinete de Pedro Luís, ministro da Agricultura em 1881.

Em 1888, passa a Oficial da Ordem do Rosa, por decreto do Imperador. No ano seguinte, ocupa o cargo de diretor na Diretoria do Comércio, e em 1892, ocupa o cargo de Diretor-Geral da Viação. É eleito presidente da Academia Brasileira de Letras em 1897, fundada no ano anterior. Torna-se membro correspondente da Academia de Ciências de Lisboa em 1904, quando morre sua mulher.

Quatro anos depois, em junho, entra em licença para tratamento de saúde e falece no Rio de Janeiro, a 29 de setembro.

Com tantas agruras, desfavorecido pela saúde e pela cor, Machado soube, como ninguém, aproveitar cada oportunidade que a vida pôs diante dele: órfão, continuou a viver com madrasta, de quem vendia os doces. Pela proteção da madrinha, aprendeu francês. Na profissão, foi um observador irônico da sociedade brasileira do século XIX, mas nem por isso teve problemas para nesta sociedade escravocrata, mesmo sendo mulato e de origem humilde.

O conto escolhido para este trabalho pertence à fase madura do autor. Suas obras psicológicas, de características únicas, fazem dele um dos maiores escritores realistas. A teoria do Medalhão, a seguir em síntese, traduz os cuidados que deveriam ser tomados para viver na sociedade de época: citado pelas palavras de uma das personagens, a obra compara-se aO Príncipe, de Nicolau Maquiavel. Os conselhos inescrupulosos do pai ao filho que atinge a maioridade são revestidos de sua sutileza e ironia, num humor cáustico.

2.Síntese dA Teoria do Medalhão

Um pai conversa com seu filho, após o jantar de aniversário de 21 anos deste, falando que, na vida, uns são conhecidos e reconhecidos, e outros são anônimos, sendo estes últimos, a maioria. Propõe, então, ensinar ao filho uma profissão para recompensar o esforço durante a vida, caso as outras profissões não alcancem as expectativas.

O conselho é que o filho cultive o ofício de medalhão. Acentua que deve moderar os impulsos da mocidade e que, aos quarenta e cinco anos, seria a idade em que o medalhão normalmente se manifesta. Alguns um pouco mais velhos, outros, ainda mais jovens, sendo estes últimos verdadeiros prodígios.

Nesta carreira, deve-se abster de ter idéias. O pai ainda diz que o filho enquadra-se perfeitamente nela: não tem idéias próprias. Com a idade pode ser que elas venham, mas deve preveni-las fazendo atividades que não permitam seu surgimento, como jogar bilhar, ter retóricas, passeios na rua – desde que seja acompanhado, para que a solidão não dê margem às idéias. Ir a uma livraria, mas para contar uma piada, um caso, um assassinato, e não para outro fim, pois a solidão não convém ao fim do ofício. Com isso, em até dois anos pode reduzir-se bastante o intelecto.

O filho reclama que não pode enfeitar muito aquilo fala ou escreve, ao que o pai diz que pode empregar figuras, sempre a carregar citações, máximas, discursos prontos, até mesmo frases feitas, procurando poupar problemas e discussões. Mas convém saber das descobertas e interesses das ciências do momento com o tempo, pois seus significados e terminologia, sendo aprendidos sem a interferência de professores e mestres não oferecem o perigo de formular idéias.

O pai ainda menciona os benefícios da publicidade. Primeiramente, em vez de escrever um "tratado científico sobre carneiros", deve dá-lo em forma de jantar aos amigos e fazer com que a notícia se espalhe. Em seguida, deve fazer festas, ter figuras da imprensa nelas para que se torne público seu acontecimento. Acaso a imprensa não possa, deve ele mesmo redigir uma matéria para ser divulgada. A conseqüência disso é, com o tempo, tornar-se conhecido e passar ele, então, a ser chamado para festas e vir a ser uma figura indispensável nelas.

Pode-se entrar na política, ficar ligado a algum partido, contanto que não adote a idéia de nenhum. Se entrar nela, é bom usar a tribuna chamar à atenção pública. É melhor que sejam discursos sobre algum assunto que incite debates e discussões, mas sem que surjam idéias novas, como, por exemplo, falar de assuntos ligados à metafísica política, pois neste ramo tudo já está pensado, devendo a pessoa só recorrer à memória para eventuais comentários.

O filho indaga se não deve ter nenhuma imaginação ou filosofia. O pai responde que não, mas deve falar sobre "filosofia da história", mas não sabê-la, devendo fugir de tudo que leve à reflexão. Quanto ao humor, ser medalhão não é sinônimo de ser sério, podendo-se brincar, sem usar da ironia, mas usar da chalaça.

Vendo que já é meia noite, o pai pede ao filho que vá dormir e pense bem no que foi conversado, pois, guardadas as proporções, a noite valeu pelO Príncipe de Maquiavel.

2.1O foco narrativo

De acordo com o glossário[2], o foco narrativo

designa aquele que narra a história num conto, novela ou romance. O estudo do foco narrativo esclarece o leitor a respeito do ponto de vista a partir do qual é feita a narração. Quando o narrador é uma das personagens, dizemos que o foco narrativo é em primeira pessoa; quando não é uma das personagens, estando, portanto, fora da história, dizemos que o foco narrativo é em terceira pessoa".

Logo, podemos afirmar que o conto trata-se de uma narração em primeira pesia, pois configura-se no diálogo entre pai e filho.

2.2O tempo

O tempo que transcorre durante a narração é do final da noite. Porém, toda uma linha de tempo psicológica é traçada no decorrer do conto, onde o autor desenha a maturidade do jovem que recém atingiu a maioridade. Pode-se, ainda, afirmar que este conto apresenta algumas características de crônicas, vista a contemporaneidade, brevidade e ausência de tempo na obra. Ocorre nas últimas décadas do século XIX, época em que a obra é publicada, mas não há menção de datas.

2.3O espaço

Não há ambientação. Podemos acreditar que trate-se da casa da família, visto que houve o jantar comemorativo à maioridade de Janjão, e que ele é convidade à recolher-se à meia-noite, levando-nos à conclusão de que a conversa deu-se no quarto do filho.

2.4As personagens

As personagens do conto são Janjão – pseudônimo citado uma única vez no conto, e seu pai. O primeiro mostra-se inocente aos ardis do pai, enquanto o segundo, por afirmação própria, compara-se a Nicolau Maquiavel, autor da obra O Príncipe, considerado por muitos a Bíblia dos políticos.

Verdadeira raposa, o pai dá ao filho lições de como trançar uma verdadeira rede de relacionamentos que venham render-lhe, em alguns casos, boa ocupação na sociedade, revelando um intelecto ardiloso capaz de anular a personalidade do filho para garantir o êxito de seus planos, pois leva-nos a crer que desfrutará do fato de ser pai de um medalhão, quando afirma ser o filho sua esperança.

2.5Características realistas presentes na obra

A realidade "nua e crua" apresentada no conto é uma característica do conto realista. A única subjetividade presente na obra é a especulação provocada pelas idéias do pai, tecendo as prováveis conseqüências das atitudes que este aconselha ao filho.

Mesmo favorecendo, nesta escola literária, a terceira pessoa sobre a primeira, a apresentação em forma de diálogo dispensa a onipresença e onisciência. Esta, porém, apresenta-se nítida nos devaneios do pai em relação ao filho, e em sua sutil sugestão de benefícios próprios, onde confessa ter sonhado para si, mas faltando um pai que o aconselhasse, vê no filho sua esperança.

2.6Características dos costumes acerca da sociedade do século XIX

Todo o conto mostra-nos os costumes da sociedade no Rio de Janeiros do final do século XIX, nas atividades masculinas: o bilhar, as livrarias, a tribuna, os jantares – cuja sobremesa era a segunda-intenção que movera o convite – os passeios, e a inescrupulosa atividade do conchavo social para o benefício próprio. Qualquer semelhança com o cenário político atual talvez seja um traço cultural do brasileiro, talvez astuciosa coincidência.

2.7Comentários acerca da obra e possíveis diálogos

É desnecessário elogiar o trabalho do mestre Machado, entretanto, este conto foi escolhido propositalmente em função do atual cenário político nacional. A aula de ardis sociais descritos pelo pai, ensinando ao filho como tirar proveito próprio dos mais inocentes acontecimentos teve fechamento com chave de ouro: a comparação aO Príncipe de Maquiavel, verdadeira bíblia dos políticos, pois o termo "livro de cabeceira" é por demais ingênuo para adjetivar o uso da obra do escritor italiano.

Machado faz uma crítica aos costumes da sociedade carioca em fins do século XIC com seu humor cáustico, de maneira extremamente sutil, o que nos leva a imaginar a reação de ilustres senhores, pertencentes à mais alta camada da sociedade brasileira ao ler determinado conto, publicado inicialmente em jornal, comumente destinado aos homens. Talvez o próprio Machado tenha sido a inspiração de muitos, ou a "consciência" de outros; a verdade é que este conto é demasiado contemporâneo em seu teor: a dialogia pode ocorrer não só com obras cujo tema seja a corrupção – e aí temos manchetes de jornais, revistas e até mesmo a mídia eletrônica – ou a "Lei de Gérson"[3], mas principalmente com as notícias dos telejornais veiculados em cadeia nacional. Nos últimos meses, o conchavo político de que se têm notícias causa-nos espécie. É como se o messias se transfigurasse em anjo caído frente aos adoradores. Como se o cordeiro, cuidado e cevado, transforme-se em lobo.

Torna-se desnecessária a sugestão de obras para a dialogia, pois o conto, em si, despertará no leitor não apenas lembranças do noticiário político, do cenário esportivo, como, talvez, daquela pequena intriga lançada, digamos, inocentemente, para que o amigo brigasse com a namorada, a qual poderia ser consolada mais tarde; ou a falta do colega de trabalho, sentida tão profundamente que força a perguntar ao chefe se o colega recebera folga. Podemos resumir em uma frase: para pensar na cama, como já dizia o um professor de Ciência Política de quem tive o prazer de freqüentar as aulas. O problema é que pode causar insônia.




[1] Contos completos de Machado de Assis – disponível em http://www2.uol.com.br/machadodeassis/fim.html acesso em 27.022006.

[2] Spectrum – pequeno glossário de Literatura. Disponível em http://spectrumgothic.com.br/literatura/glossario.htm acesso em 27,02.2006.

[3] "O importante é levar vantagem em tudo" – slogan de comercial televisivo dos cigarros Vila Rica, que passou a ser chamado de Lei de Gérson, por ser o protagonista do comercial o ex-goleiro da seleção brasileira à época.


Autor: Elita de Medeiros