Como A Educação Pode Contribuir Com O Capital Humano



COMO A EDUCAÇÃO PODE CONTRIBUIR COM O CAPITAL HUMANO

Sonia Regina Catellino Loureiro

Resumo

Em um mundo cada vez mais globalizado e marcado por mudanças rápidas, como podemos ter um capital humano compatível e integral para atender as demandas empresarias cada vez mais competitivas? Este artigo tem como objetivo demonstrar que a Educação não poderá ser mais pautada em um modelo tradicional, assim como foi denominada pelo educador Paulo Freire - "Educação Bancária", onde o único foco era a simples transmissão de conteúdos.Hoje, cada vez mais obedecendo ao modelo da complexidade, a Educação deverá ser constituída de tal maneira que promova uma aprendizagem integral. A absorção do conhecimento ocorre por toda a vida. O objetivo é fazer em que o aluno transforme-se em capital humano valorizado à luz da sociedade contemporânea, e, simultaneamente do mundo corporativo. A Educação sempre teve um papel importante na sociedade, porém hoje é essencial para a consolidação do capital humano.

Palavras Chaves: Era da Informação, Capital Humano, Educação, Professor,Formação Integral do Ser Humano.

As sociedades, os mercados e os locais de trabalho

estão sendo impulsionados por novas populações

com novas demandas.

 

Edersheim, 2007

 

As mudanças sempre existiram na história da humanidade. O que muito chama a atenção é que elas hoje, além de serem constantes, a velocidade com estão ocorrendo é cada vez mais rápida. Segundo o especialista em Administração Peter Drucker, a atual regra dos negócios é estarmos preparados para competir com competência até porque aquilo que foi feito ontem, mesmo com sucesso, já não garante mais o sucesso de amanhã.

Em uma economia cada vez mais globalizada o mundo torna-se totalmente interconectado, o que nos faz perceber que atualmente os desafios são bem maiores. Até praticamente meados do século XX, o estilo paternalista vigorava nas empresas. Atualmente a situação é bem diferente. O que hoje predomina na grande maioria delas é a competência e o profissionalismo. As empresas precisam de forma cada vez mais imediata ajustar-se a estes novos tempos sob o risco de não mais se manterem competitivas e serem eliminadas pela concorrência global.

O ser humano constitui hoje (mais do que em qualquer outra era da história), o principal eixo deste processo de mudança. Ele é o único fator capaz de tornar a empresa permanentemente competitiva, pois somente com seres humanos competentes e devidamente qualificados é que as empresas poderão fazer a diferença em relação à acirrada competição mundial.

Segundo Cortella (2007, p.33) "Hoje, o trabalho das pessoas não pode mais ser entendido como commodity". Segundo este raciocínio podemos entender que, na atualidade, as empresas precisam desenvolver uma Educação Continuada visando a obtenção e manutenção de uma força de trabalho cada vez mais intelectual. A gestão do conhecimento na empresa é algo que deve ser tratada com bastante atenção, pois ela já se constitui um fator estratégico. Seguindo este pensamento podemos fazer uma retrospectiva sócio-econômica dos últimos três séculos, passando por três épocas importantes que, resumidamente, podem ser definidas, segundo De Masi (2000), da seguinte maneira:

1)Uma primeira época conhecida como produção rural. Esta época durou cerca de sete mil anos, onde o poder estava nas mãos dos donos de terras. Neste período o conhecimento não era valorizado e sim o trabalho na agricultura, em particular o trabalho braçal escravo.

2)Depois surge uma outra época denominada industrial, onde a sociedade estava centrada na produção em grande escala de bens materiais. Podemos perceber este cenário no filme clássico "Tempos Modernos" interpretado por Charles Chaplin, em que fica claro que, nesta época, também não era valorizado o conhecimento humano, mas quanto o ser humano produzia em uma sociedade que julgava importante a produção quantitativamente dos bens materiais. O importante era o "ter" e não o "ser".

3) Hoje vivemos a Era da Informação. Mais do que em qualquer outro momento da nossa história, a riqueza é produto direto do conhecimento. Thomas Stewart compartilha do mesmo pensamento de De Masi. Segundo Stewart (1998, p. XIV) "hoje, os ativos capitais necessários à criação da riqueza não são a terra, nem o trabalho físico, tampouco ferramentas mecânicas e fábricas: ao contrário, são os ativos baseados no conhecimento". De acordo com a linha do autor percebemos que o conhecimento está centrado na produção em grande escala de bens não-materiais, na criatividade, nas inovações, nos relacionamentos etc. Estes quesitos possuem um grande valor para o homem e para a sociedade atual. A sociedade poderá ser mais justa e equilibrada se houver a participação, o diálogo e o compartilhamento do conhecimento entre as pessoas, independentemente da classe social.

Por conta disso, observa-se que a Educação possui um papel importante na construção do conhecimento. Dentro deste contexto, questiona-se:

Na era da informação, qual é o verdadeiro papel da Educação?

Quando pensamos em Educação (dentro de uma visão partindo do macro para o micro), precisamos situar a escola; os educadores; a atualização dos profissionais envolvidos na aprendizagem; além das questões governamentais, entre outros.

É evidente a necessidade de um interesse coletivo para que os verdadeiros objetivos educacionais sejam plenamente atingidos e essa responsabilidade não se limite somente na atuação do educador como profissional, mas envolva também os órgãos governamentais no sentido de prover e alocar recursos suficientemente adequados ao perfeito cumprimento desses objetivos.

A mídia registra uma baixa qualidade do ensino, quando da realização dos exames, desde o ensino fundamental até ao superior praticado pelos alunos. Em diversas cidades do Brasil, percebe-se um grande número de movimentos por reivindicações quase sempre adiadas ou habitualmente negociadas por interesses outros. Logo, cabe uma política pública adequada em que o professor receba remunerações financeiras justas para a sua sobrevivência e atualizações profissionais exigidas nos dias atuais para que tenha como prioridade uma preocupação com o desenvolvimento dos seus alunos.

Desta maneira a Educação deve contribuir para o Capital Humano com o compromisso em educar de uma forma integral, não se restringindo somente a uma visão utilitarista, ou seja, transmitindo apenas conteúdos que se julgue necessários para a formatação do curso e de grades curriculares totalmente extemporâneas.

Como educadora percebo que a contribuição está no sentido que devemos oferecer uma formação geral na direção de uma Educação ampla e interdisciplinar, condizente com os desafios inovadores da atualidade. No meu ponto de vista, uma Educação integral vai muito além da simples transmissão de conhecimentos. Ainda segundo De Masi (2000, p.288) "Seria muito melhor se ensinassem como dar sentido às muitas coisas que já possuímos: é inútil e pouco inteligente gastar energias para tentar angariar novos bens, se ainda não usufruímos realmente dos que já dispomos".

Uma nova dimensão de Educação (e automaticamente da postura do novo professor), consolida-se na medida em que se permita que o aluno tenha a oportunidade de pensar, criticar, rever, pesquisar, criar e saber articular o conhecimento com a prática, provocar o aumento do conhecimento, construir e [mais ainda] reconstruir o conhecimento elaborado. Dessa forma estaremos exercitando junto aos alunos a possibilidade de encontrar novas respostas para os desafios que, com freqüência, surgem na atualidade. As mudanças dos valores devem também mudar os métodos pedagógicos adequados à sua transmissão. Egoísmo, hierarquia exagerada e agressividade foram valores possivelmente praticados no passado, como instrumentos básicos do sucesso profissional. O que se observa hoje é que os alunos, em especial os jovens, devem ser educados para a valorização do diálogo, da solidariedade e da criatividade.

Reforçando este pensamento temos Delors (1998), que aponta como principal conseqüência da atual Era a necessidade de uma aprendizagem ao longo da vida fundada em quatro pilares que são ao mesmo tempo pilares do conhecimento e da formação continuada. Assim temos, a saber:

1) Aprender a conhecerAprender a conhecer é mais do que aprender a aprender. É preciso aprender a pensar, a pensar a realidade e não apenas "pensar pensamento", pensar o já dito, o já feito, reproduzir o pensamento. É preciso pensar também o novo, reinventar o pensar, pensar e reinventar o futuro. É preciso construir e reconstruir o conhecimento. É sair do lugar comum.

2) Aprender a fazer -O fazer deixou de ser já há algum tempo algo puramente instrumental e mecânico. Atualmente, valoriza-se também a competência pessoal, além da qualificação profissional. Desta maneira é importante saber trabalhar em equipe; ter iniciativa; comunicar-se; saber administrar conflitos; saber lidar com as questões emocionais. Estas são algumas das qualidades humanas prioritárias no atual mundo do trabalho.

3) Aprender a viver juntos -A importância de compreender, descobrir o outro. Ter prazer no esforço comum. Participar de projetos de cooperação.

4) Aprender a ser -Desenvolvimento integral da pessoa: inteligência, sentido ético e estético, responsabilidade pessoal, pensamento crítico, espiritualidade, iniciativa, criatividade entre outras. Para que isto aconteça não se deve desconsiderar nenhuma das potencialidades de cada pessoa. A aprendizagem tem que ser integral.

Nesta linha, Dowbor (1998) diz que a escola sairia do papel secundário denominado "lecionadora" para ser "gestora do conhecimento" passando a ser um fator determinante para o desenvolvimento do aluno.

Como podemos perceber a Educação possui um papel fundamental e abrangente na formação do Ser Humano. A escola deve, de forma urgente, assumir o seu papel de gestora do conhecimento e os professores são pessoas imprescindíveis neste processo, uma vez que são os facilitadores para esta transformação na Educação.

Um novo paradigma deve ser criado.

Considerações Finais

No século XXI a Educação não deve ser mais centrada no tradicionalismo, onde o único objetivo era o professor apenas transmitir conteúdos, em que não se ensinava a pensar, mas que se "entregava" tudo pronto e acabado onde o importante era que o aluno decorasse. Hoje é premente que a Educação deva estar comprometida na formação integral do aluno. O objetivo é que o aluno reúna todas as condições necessárias, em sintonia com as demandas atuais exigidas pelo mundo cada vez mais competitivo do trabalho. Segundo Freire (2003, p. 86) "... a educação tem de ser, acima de tudo, uma tentativa constante de mudança de atitude".

Em consonância com esta realidade é importante que a ação do professor deva ser focada, onde ele possa contribuir com o aluno para a construção do conhecimento, criando condições para o necessário e permanente processo de Educação Continuada. Claro que o aluno deve ter uma ação participativa neste processo de conhecimento. Não basta mais ser um mero espectador. Para isso é importante que alunos e professores participem de uma Educação pelo diálogo, pela participação que sejam mais críticos e questionadores.

Referências

CORTELLA, Mario Sergio. Qual é a tua obra? Inquietações prepositivas sobre gestão, liderança e ética. Rio de Janeiro: Vozes, 2007.

DELORS, Jacques. Educação: um tesouro a descobrir. São Paulo, Cortez, 1998

DE MASI, Domenico. O ócio criativo. Tradução de Léa Manzi. Rio de Janeiro: Sextante, 2000.

DOWBOR, Landislau. A reprodução social. São Paulo: Vozes, 1998

EDERSHEIM, Elizabeth Hass. A essência de Peter Drucker: uma visão do futuro. Tradução Afonso Celso da Cunha Serra. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.

FREIRE, Paulo. Educação e atualidade brasileira. São Paulo: Cortez, 2003

STEWART, Thomas A. Capital Intelectual: a nova vantagem competitiva das Empresas. Tradução de Ana Beatriz Rodrigues, Priscila Martins Celeste. Rio de Janeiro: Campus, 1998.

Sonia Regina Catellino Loureiro

Mestranda em Educação, Arte e História da Cultura pela

Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Experiência de 25 anos em Recursos Humanos em conceituadas empresas.

Atualmente Professora Universitária das Faculdades Anhanguera e

Faculdade Integrada Rio Branco.


Autor: Sonia Loureiro