Gestação, Exercício E Respostas Fetais



   

GESTAÇÃO, EXERCÍCIO E SUA INFLUÊNCIA SOBRE O FETO

 

ANA PAULA DA COSTA SANTOS(1)

ORIENTADOR: Dr. FRANCISCO LUCIANO PONTES JUNIOR(1)

1 – Programa de Pós-Graduação Lato-Sensu da Universidade Gama Filho – Exercício Físico Aplicado à Reabilitação Cardíaca e a Grupos Especiais.

E-mail: anaap.aninha@gmail.com

Rua Professor Arnaldo João Semeraro, 660

Jd Santa Emília – São Paulo - SP

04184-000

Introdução

Durante a gestação o corpo da mulher muda completamente, ocorrendo diversas modificações, no aspecto fisiológico, hormonal, endócrino e nutricional. Estas alterações acontecem para acomodar, da melhor maneira possível, o feto e dar condições apropriadas para seu crescimento de desenvolvimento.

Atualmente, principalmente em função da estética, muitas mulheres têm procurado programas de exercício, com a finalidade pura e simplesmente de manter a forma. Porém, surge a dúvida sobre o efeito do exercício físico sobre o feto e até que ponto o exercício pode beneficiar ou prejudicar o feto.

Sabe-se que o exercício aeróbio provoca muitas alterações no corpo, causando aumento do consumo de oxigênio, aumento do gasto energético, entre outras alterações. Quando a prática se torna regular, auxilia na diminuição da freqüência cardíaca e da pressão arterial, ocasionando uma recuperação dos valores basais mais eficientes, além de favorecer a perda de gordura corporal.

O exercício provoca alterações na gestante e no feto, porém, essas alterações não são necessariamente prejudiciais à gestante ou ao feto. É necessário, no entanto, estar atento quanto ao tipo de exercício, bem como a intensidade e duração da atividade, para não causar efeitos deletérios ao feto.

O objetivo deste trabalho é verificar qual a influência do exercício aeróbio sobre o feto.

Revisão de Literatura

Alterações Fisiológicas na gestante

O feto necessita de um ambiente favorável no útero materno para crescer, se desenvolver e se nutrir adequadamente. Para que isso ocorra, a mulher passa por diversas mudanças de caráter fisiológico, bem como endócrino e nutricional.

Provavelmente a mais visível delas seja o útero, que, apesar de ser um órgão pélvico, neste período, se torna um órgão abdominal, podendo aumentar até 1000 vezes o seu tamanho e até 20 vezes o seu peso, sem levar em contar a tamanho e o peso do feto. Para compensar esse aumento de peso, o centro de gravidade da mulher é alterado e seu corpo tende a adotar uma nova postura, resultando uma progressiva rotação da pélvis sobre o fêmur, evitando prováveis quedas (Artal, Masaki e Romem, 2000).

Para Hanlon (1999), a modificação postural é um mecanismo compensatório, que tende a minimizar os efeitos ligados ao aumento de massa e distribuição corporal da gestante. Chistófalo, Martins e Tumerelo (2003), afirmam que, nos últimos meses de gestação, as mulheres tendem a projetar os ombros para frente a fim de conseguir um melhor equilíbrio postural. Segundo Artal, Masaki e Romem, 2000, o tempo de reação da mulher é alterado e fica mais lento, causando implicações quanto ao exercício e ao trabalho.

Ocorre um incremento do débito cardíaco; aumento do fluxo sangüíneo ao músculo, que pode ocorrer sem diminuição do fluxo ao feto, em 40%; aumento do retorno venoso; aumento da freqüência cardíaca, aproximadamente 15 – 20 bpm; aumento das células vermelhas; além da diminuição da resistência vascular periférica (Matsudo e Matsudo, 2000).

O aumento da ingestão alimentar é um fato visível durante a gestação, fato relacionado ao aumento nas concentrações de neurotransmissores hipotalâmicos, principalmente a norepinefrina (Nóbrega, 1999). Ela gasta aproximadamente 80.000 kcal, equivalente a 300 kcal extras por dia, ou seja, no primeiro trimestre, a gestante necessita de 150 kcal/dia e, no segundo e terceiro trimestres, de 300 kcal/dia.

Ocorre um acúmulo de gordura nos dois primeiros trimestres da gestação, no último trimestre esse acúmulo cessa, fazendo com que a gestante necessite de menos calorias (Artal, Masaki & Romem, 2000).

É mais comum a gestante reduzir a atividade durante esse período não somente devido às condições impostas pelo feto, mas também, pela instabilidade mecânica. O exercício altera esse gasto, assim como a homeostase cardiovascular e respiratória, mas os resultados variam de grávida para grávida (Matsudo, 2004).

Segundo Artal, Bessam e Zaidise (2000), é aconselhável um ganho total de massa de 10 a 12 Kg com uma nutrição adequada. A mulher deve prestar muita atenção a esse aspecto e ter um bom acompanhamento médico, pois deficiência na nutrição altera a oferta energética ao feto podendo causar adaptações como a redução no depósito de gordura para atender as necessidades nutricionais do feto. Isso pode fazer com que o bebê, ao nascer, pese até 300g a menos do que o de uma mãe bem nutrida (Butterfield & King, 2000).

Logo no início da gravidez, quando ocorre a liberação de hormônios, existe um relaxamento crescente dos ligamentos, amolecendo a cartilagem e, conseqüentemente aumentando o fluido e o espaço sinovial, ampliando as articulações pélvicas. Como resultado a gestante apresenta uma mobilidade articular aumentada, se tornando mais flexível. No terceiro trimestre, a mobilidade das articulações do tornozelo e punhos é reduzida, apesar do aumento do relaxamento dos ligamentos, causado pela retenção de água (Artal, Mazaki & Romem, 2000).

Este relaxamento dos ligamentos acontece em decorrência de alterações hormonais, como a relaxina, por exemplo, a gestante se torna mais flexível porque a síntese de colágeno é maior do que sua degradação e aumentando o volume de água nas articulações (Verderi, 2006).O aumento de elasticidade pode causar contusões mais facilmente, por isso, é importante o alongamento.

Segundo Matsudo & Matsudo (1994), ocorre o incremento da secreção de ACTH (hormônio adenocorticotrófico) e do cortisol, diminuição da secreção de hormônio do crescimento (hGH), aumento da secreção da insulina e glucagon.

Mas a modificação hormonal que se deve tomar mais cuidado é quanto ao comportamento dos níveis de glicose, relacionado diretamente à insulina e ao glucagon, pois são muito sensíveis ao tipo, intensidade e duração do exercício, bem como a condição física da gestante, podendo causar hipoglicemia mais rapidamente durante o exercício muito prolongado (Matsudo & Matsudo, 1994).

Artal (2000), afirma que, durante o exercício breve a insulina e o glucagon modulam a homeostase da glicose e durante o exercício prolongado outros hormônios como o hGH e o cortisol participam da homeostase metabólica do exercício.

Diversos hormônios agem durante a gestação, proporcionando alterações, adaptações e preparação do corpo da mulher, para facilitar o crescimento e desenvolvimento do feto, bem como preparar o corpo feminino para receber o bebê após o nascimento. Diversos autores relaram essas alterações hormonais no corpo da mulher. O quadro abaixo mostra os principais hormônios e quais suas principais alterações durante a gestação.

Hormônio

Principais Alterações

Estrogênio

-É responsável pelo crescimento do útero a dos ductos mamários;

-aumenta os níveis de prolactina,preparando as mamas para a lactação;

-retém mais água, causando, muitas vezes, a retenção do sódio.

Progesterona

-Aumenta a temperatura corporal em 0,5° C;

-reduz o tônus da musculatura lisa, razão pela qual aumenta a absorção de água no cólon e constipação;

-é responsável pela hiperventilação e desenvolvimento das células alveolares;

-aumenta o depósito de gordura; desenvolve as glândulas produtoras do leite.

Gonadatrofina coriônica

-Induz o corpo lúteo a secreção de progesterona;

 

Somatomamotropina coriônica humana

-desenvolvimento das mamas;

-crescimento fetal;

-assegura a nutrição adequada do feto ( diminui a utilização de glicose pela mãe e aumenta a utilização de ácido graxos para fonte energética materna);

Fonte: Verdéri (2006); Matsudo (2004); Artal, Masaki e Romem (2001).

Durante a gestação ocorre a troca de calor da mãe com o ambiente e também entre a mãe e o feto. A progesterona é responsável pela elevação da temperatura basal no primeiro trimestre da gestação e o estrogênio é oposto a este efeito, pois age ao término da gravidez e determina a descida de temperatura basal para os níveis originais (Rama, 2002).

Segundo Fischer (2003a), a taxa metabólica da mulher aumenta em 10 – 25%, no primeiro trimestre, acelerando todas as suas funções corporais, os ritmos cardíaco e respiratório aumentam à medida que mais oxigênio tem que ser levado para o feto e mais dióxido de carbono é exalado. Há uma expansão uterina pressionando a bexiga e aumentando a vontade de urinar. Ocorre o aumento do tamanho dos seios, as auréolas escurecem e aumenta a sensibilidade na região já nas primeiras semanas, além do aumento do fluxo de sangue, deixando as veias dos seios mais aparentes.

A partir do segundo trimestre acontece um retardamento gástrico provocado pela diminuição das secreções gástricas, ocasionadas pelo relaxamento da musculatura do trato intestinal. A pigmentação da pele é acentuada, principalmente nos mamilos, o refluxo do esôfago pode provocar azias, as gengivas podem se tornar esponjas devido à ação hormonal e os seios podem formigar e ficarem doloridos. Além disso, o coração trabalha duas vezes mais, já que tem que fazer circular aproximadamente seis litros por minuto, o útero necessita de 50% a mais de sangue que o normal e os rins de 25% a mais (Fischer, 2003a).

Já no terceiro trimestre, segundo Fischer (2003a), a taxa de ventilação aumenta aproximadamente 40%, porém o consumo de oxigênio só aumenta 20%. Em decorrência do aumento fetal as costelas são empurradas para fora. Ocorrem dores nas costas em função da alteração do centro de gravidade; mãos e pés inchados pode ser sinal de pré-eclâmpisia (pressão alta) e os mamilos podem secretar colostro. Além disso, há um aumento da necessidade de urinar e de repousar e dormir.

 

O Feto e o seu desenvolvimento durante a gestação

Desde o momento da fecundação até o nascimento, ocorrem inúmeras modificações tanto com a gestante quanto para o próprio feto, para melhor desenvolvimento do feto, a fim de ser mais saudável ao nascer. Após a fecundação, o óvulo fecundado segue pela tuba uterina em direção ao útero. As células se duplicam a cada 12 horas, podendo ocorrer um leve sangramento quando se infiltra na parede uterina (Verderi, 2006).

Galahue e Osmum (2003), dividem o período pré-natal em três períodos diferenciados e distintos, que são: Período Zigótico (vai desde o momento da concepção até a primeira semana de gestação); Período Embriônico (compreende a segunda semana ao segundo mês) e Período Fetal (do terceiro ao nono mês de gestação).

No período zigótico acontece uma rápida e interna divisão celular (mitose), aumentando sua complexidade. À medida que se dividem, as células passam a ter uma aparência semelhante a uma amora, conhecida como mórula. Na mórula pode aparecer uma cavidade, formando o blastocisto, que na segunda semana, se implanta na parede uterina, causando a diferenciação celular (Bouchard e Malina, 2002). Uma destas camadas diferenciadas se tornará o próprio embrião, enquanto que as outras camadas serão responsáveis pela nutrição e desenvolvimento do cordão umbilical e da placenta.

Segundo Galahue e Osmum (2003), a diferenciação celular ocorre no final do período zigótico, quando inicia o período embriônico. Ocorre, no final do primeiro mês de gestação, a formação de três camadas celulares distintas: a ectoderme (responsável pela formação de todos os órgãos do corpo); a mesoderme (forma os sistemas musculares, esquelético e circulatório) e a endoderme (forma o sistema digestivo e o sistema glandular).

O período fetal dá-se início na nona semana e seu término acontece com o parto, aproximadamente na 40ª semana de gestação. Neste período ocorre um crescimento muito rápido com relação ao tamanho e massa, ocasionadas tanto por mudanças nas proporções como pelo próprio desenvolvimento dos tecidos, órgãos e sistemas do corpo (Bouchard e Malina, 2002).

É no período fetal, segundo Galahue e Osmum (2003), que o feto cresce, se desenvolve e ganha peso, chegando até a triplicá-lo. Seu cérebro se torna mais ativo, assumindo, gradativamente, o controle sobre os sistemas corporais.

Galahue e Osmum (2003), afirmam que a diferenciação sexual tem início no período embriônico e vai até o período fetal, aproximadamente no terceiro mês.

Entre o oitavo e o nono mês o feto se move com muito mais freqüência dentro do útero. O processo do parto se inicia pela placenta e pela contração da musculatura do útero e se dá entre a 38ª e a 40ª semana (Galahue e Osmum, 2003).

O feto necessita de suprimento de oxigênio continuamente para manter o seu metabolismo normal, bem como o crescimento e o desenvolvimento. São vários os fatores que contribuem para que a transferência de oxigênio pela placenta ocorra. Entre eles estão: pressões arteriais parciais de oxigênio materna e fetal; afinidades de hemoglobina materna e fetal por oxigênio; fluxo de hemoglobina placentários materna e fetal; capacidade de difusão pela placenta; relações vasculares de vasos maternos e quantidade de dióxido de carbono trocadas entre eles (Koos e colaboradores, 2000).

A transferência de oxigênio da circulação da mãe para o sangue fetal acontece por difusão facilitada, é a hemoglobina do sangue materno que contribui para que essa transferência ocorra pela placenta. Segundo Koos e colaboradores (2000), a concentração de hemoglobina aumenta de, aproximadamente, 8,5gxdl -¹ para 16,5gxdl -¹ com 10 semanas de gestação. Já a mãe, neste mesmo período cai de, aproximadamente, 13 para 11,5gxdl -¹. No final da gravidez, a capacidade de oxigênio no sangue do feto é maior do que no sangue da mãe.

A freqüência cardíaca média do feto antes do trabalho de parto é de 140 batimentos por minutos (bpm). Com 20 semanas de gestação a freqüência cardíaca fetal média é de 155 bpm e com 30 semanas de 144 bpm. Podem ocorrer variações de 20 bpm acima ou abaixo desses valores é considerado normal (Koos e colaboradores, 2000).

O Exercício Aeróbio

Segundo o ACGO (2002), exercício aeróbio consiste em qualquer atividade que utilize grandes grupos musculares e tenha como característica principal ritmo contínuo, como, por exemplo, caminhar, dança aeróbia, natação, ciclismo, entre outros. São relativamente fácil de controlar sua intensidade, dentro de limites bastante precisos, geralmente são recomendados para o início de um programa de exercícios.

O exercício aeróbio envolve uma grande porção de massa muscular, ocasionando num aumento do consumo de oxigênio (VO2) e um aumento no volume sistólico, elevando também a pressão arterial sistólica e diminuindo a resistência vascular periférica. Quando regular, o exercício aeróbio favorece a uma diminuição da freqüência cardíaca e da pressão arterial em repouso ou mesmo em esforço submáximo, o que ocasiona numa recuperação mais eficiente dos valores basais tanto da freqüência cardíaca quanto da pressão arterial (Lopes, Andrade e Almeida, 1999).

Matsudo e Matsudo (2000), afirmam que existem alguns estudos que mostram que o consumo máximo de oxigênio e a freqüência cardíaca máxima não se alteram durante a gestação e dois a seis meses após o parto. Porém, existem estudos que mostram um pequeno incremento no consumo máximo de oxigênio em 7,3%, em atletas recreacionais previamente bem condicionadas que continuarem se exercitando moderadamente durante e após a gravidez.

Durante o exercício, a pressão sangüínea tende a aumentar, resultando num aumento progressivo do débito cardíaco em até cinco vezes, quando a mulher não é treinada e até oito vezes numa mulher treinada (LOPES, ANDRADE e ALMEIDA, 1999).

Segundo Matsudo e Matsudo (2000), com o exercício ocorre uma redistribuição seletiva do sangue para a musculatura que está envolvida na atividade, reduzindo o fluxo sangüíneo para o órgãos viscerais, para o útero e para o feto. Como conseqüência disso, o aumento do débito cardíaco que acontece na gestação, quer dizer que o aumento do fluxo sangüíneo aos músculos pode acontecer sem que haja diminuição do fluxo ao feto.

Lopes, Andrade e Almeida (1999), afirmam ainda que uma mulher que possui o coração sadio, quando submetida a um esforço muscular intenso, não possui risco cardiovascular, pela sua capacidade de fazer com que o músculo mobilize oxigênio durante o exercício, mantendo os fluxos coronários e cerebrais estáveis.

O exercício eleva o gasto energético durante a gestação, principalmente, em função do aumento do peso corporal, porém, quando sua intensidade é controlada, em atividades que não suportam o peso, como, por exemplo, natação e bicicleta estacionária, o gasto energético não se altera em função do peso corporal (Matsudo, 2004).

Tanto a gravidez como o exercício modificam o gasto energético bem como a homeostase cardiovascular e respiratória. No entanto, a proporção destas diferenças na resposta fisiológica do exercício depende do tipo e intensidade, assim como o peso ganho materno e idade gestacional (Matsudo, 2004).

No exercício submáximo o gasto energético, a ventilação por minuto, o débito cardíaco e a freqüência cardíaca se elevam durante a gestação, já no exercício máximo a habilidade para transformar energia provavelmente não modifiquem na gravidez. Com relação às respostas fisiológicas do exercício na gestação são semelhantes às respostas de uma mulher não grávida (Matsudo, 2004).

Quando uma gestante pratica exercício, mantém a circulação cerebral e miocárdica protegida, fato que não ocorre com relação à circulação uteroplacentária. O exercício para a gestante poderá causar um dano potencial ao feto, pois o fluxo uteroplacentário pode diminuir, dependendo da intensidade do exercício. Porém, o exercício é importante para o preparo do trabalho de parto e para a manutenção do condicionamento físico da gestante (Lopes, Andrade e Almeida, 1999).

Wolfe e colaboradores (1999), acompanharam 27 mulheres que faziam condicionamento aeróbio baseado em subir escadas, com uma freqüência cardíaca entre 140 a 150 batimentos por minuto (bpm), 30 minutos por dia e três vezes por semana durante o segundo e o terceiro trimestres. Após serem comparadas com as 28 mulheres do grupo de controle, notaram que o peso corporal, a adiposidade, as circunferências, os comprimentos totais e de membros inferiores dos bebês, ao nascerem, eram semelhantes, no entanto, a realização de exercícios mais intensos realizados na gestação de animais causaram alterações no crescimento fetal. Portanto, o condicionamento aeróbio, quando moderado, realizado numa gestação normal não afeta ou altera as características antropométricas dos recém-nascidos.

Respostas fetais ao exercício aeróbio

A prática do exercício pela gestante gera respostas fisiológicas tanto nela como no feto durante e após o exercício. Paolone (1987),diz que a freqüência cardíaca do feto pode ser medida por eletrocardiograma abdominal, ausculta, fonocardiografia, Doppler e ecocardiograma de duas dimensões.

Em seus estudos, os registros ecocardiográficos mostraram que, durante o exercício materno, a freqüência cardíaca fetal obtém respostas independentes da resposta materna. Mas ainda é difícil se mensurar, por meios destes aparelhos, respostas do feto durante o exercício materno. O que pode ser feito, segundo Campos ([s.d.]), é a monitoração antes e depois do exercício para fazer comparações.

Segundo Artal e Posner (2000), o exercício poderia induzir algumas alterações cardiovasculares de significado, ocasionando uma redistribuição seletiva do fluxo sanguíneo para o trabalho muscular, o que levaria a efeitos adversos sobre o feto. Porém, em estudos com animais, o fluxo sangüíneo uterino ficaria comprometido durante o exercício, se essa redução fosse maior do que 50%, o que poderia levar o feto a hipóxia ou asfixia.

Análises do comportamento, da respiração e dos movimentos fetais, foram parâmetros num perfil biofísico fetal, identificando que mais de 85% dos fatores anômalos podem levar o feto à asfixia, ao sofrimento e até mesmo ao óbito (Artal e Posner, 2000).

Quando em hipóxia, o feto tem uma redução da freqüência respiratória e dos seus movimentos corporais. Para Artal e Posner (2000), os movimentos fetais ocorrem cerca de 30% do tempo no último trimestre de gravidez, é uma ocorrência que pode estar relacionada com o estágio da gestação, com a hora do dia e com a glicemia e níveis de catecolaminas maternos.

Para o ACGO (2002), a hipóxia fetal causa a taquicardia ou até mesmo a bradicardia (freqüência cardíaca fetal menor que 120 bpm por 2 minutos ou mais), bem com o aumento na pressão sangüínea fetal. Essas respostas fetais ocorrem como mecanismos de proteção para facilitar a transferência de oxigênio pela placenta.

Estudos epidemológicos realizados pelo ACGO (2002), sugeriram que há uma ligação entre a atividade física intensa e a dieta deficiente com o crescimento e desenvolvimento do feto.

Outras pesquisas mostram que o feto pode apresentar também bradicardia durante ou após o exercício materno que, mesmo sendo rara, pode significar sofrimento fetal. Ela está ligada à compressão do cordão umbilical, hiperatividade uterina ou a lesões cardíacas congênicas e arritmias (Artal e Posner, 2000).

Artal e Posner (2000), afirmam que os movimentos fetais fazem parte de outro componente do perfil biofísico fetal, na qual refletem as condições atuais do feto de forma precisa, podendo ser utilizados para pesquisas e como acompanhamento clínico. Eles ocorrem entre 5 a 20% por hora.

Experiências com carneiros e macacos mostram que, durante o exercício materno, diversas variáveis que determinam a transferência de oxigênio pela placenta são alteradas como pressão de oxigênio arterial materna e fetal; concentrações de hemoglobina tanto materna como fetal; pH arterial materna e fetal; fluxo sangüíneo e a capacidade de difusão placentária (Koos e colaboradores, 2000). É previsto que a troca de oxigênio aumente durante o exercício e durante o período de recuperação tende a cair, porém ainda fica acima dos valores controle após 30 minutos.

Aparentemente o feto saudável poderá suportar leves e breves momentos de asfixia, pois podem ocorrer durante o exercício da mãe. Logo no início do exercício, o feto poderá responder com taquicardia e elevação da pressão arterial, os batimentos podem aumentar consideravelmente (de 10 a 30 batimentos por minuto), independente da idade gestacional e intensidade do exercício (Artal e Posner, 2000).

No entanto, mesmo passando por uma resposta inicial de taquicardia, o tempo prolongado em que permanece em hipóxia pode causar uma bradicardia breve. A dúvida está no fato de não se saber se estes breves momentos de bradicardia acontece normalmente durante a gestação ou mesmo quais são os mecanismos exatos para que ocorra, mas provavelmente seja um evento normal às alterações hemodinâmica e hormonais da própria gestante ou pela compressão da cabeça fetal por uma má posição temporária durante o exercício (Matsudo & Matsudo, 2000).

Em um estudo com 45 grávidas submetidas a exercícios leve, moderado e extenuante, após aproximadamente cinco minutos do início do exercício, a freqüência cardíaca fetal permaneceu alta em todos os exercícios. Nos exercícios leve e moderado, após 15 minutos, a freqüência cardíaca fetal voltou aos níveis normais, enquanto que no exercício extenuante, permaneceu elevada por aproximadamente 30 minutos e só depois voltou aos níveis normais (Artal e Posner, 2000).

Segundo Fischer (2003b), mulheres grávidas deveriam participar, preferencialmente, de atividades recreacionais, pois estas, geralmente não apresentam riscos para ela ou para o feto, desde que não sejam atividades de baixo risco e média intensidade. Por outro lado, atividades de alto impacto, em função do risco de traumas são desaconcelhados.

Para Matsudo e Matsudo (2000), mulheres que se exercitam antes e durante a gestação tendem a ganhar menos peso e ter filhos menores. Estudos com animais mostram que o exercício extenuante pode afetar o ganho de peso da mãe, o tamanho da placenta e, conseqüentemente o desenvolvimento fetal e seu peso ao nascer.

Parizcova (1975) citado por Matsudo (1994),em seu estudo realizado com filhotes de ratas expostas a um programa de exercícios por 50 a 100, descreveu que o peso do coração, bem como o número de fibras musculares do ventrículo esquerdo e a proporção dos capilares por microfibrilas foi muito maior em relação aos filhotes de ratas sedentárias.

Campos ([s.d]), em seu artigo, cita uma pesquisa feita por Wallemburg et al (1995), em que houve o monitoramento fetal com eletrodos fixados em seu couro cabeludo após a ruptura da bolsa amniótica artificialmente, cuja mãetenha se exercitado em bicicleta ergométrica poucas horas antes de dar a luz. Observou-se que, durante o exercício materno, o feto não apresentou indícios de hipóxia nem de bradicardia, seja durante o exercício ou no período de recuperação.

A atividade do feto, tanto durante como após o exercício materno, ainda é pouco estudada. Marsal, Lofgren e Grewnser (1979) citado por Artal e Posner (2000),descreveram, em um estudo, um aumento transitório na incidência dos movimentos respiratórios fetais após o exercício materno moderado e breve. Este estudo mostrou um aumento na resposta dos movimentos respiratórios fetais quando foram comparados com a freqüência cardíaca fetal.

Além disso, a temperatura corporal da mãe regula a temperatura do feto e, com o exercício materno a temperatura corporal aumenta podendo causar hipertermia quando não estiver bem controlada (Matsudo & Matsudo, 1994). O calor armazenado é proporcional à intensidade do exercício, sendo assim é necessário ficar atento tanto à intensidade quanto à duração do exercício (Lotgering e colaboradores, 2000).

Segundo a ACGO (2002), a temperatura corporal do feto é de aproximadamente 1° C mais alta que a temperatura da mãe. Se a temperatura corporal materna for superior a 39°C poderá dificultar essa troca de calor causando complicações no desenvolvimento do feto e podendo até causar má-formação congênita.

Para Artal & Drinkwater (2000), exercícios de alta intensidade ou praticá-los em dias em que a umidade relativa do ar estiver alta pode elevar rapidamente a temperatura materna à 39° C ou mais. Por esse motivo, alguns cuidados devem ser tomados quanto ao tipo e intensidade do exercício, usar roupas que facilite a transpiração, exercitar-se em dias e em horários mais frescos em locais bem arejados, evitar a imersão em água quente, estar sempre atenta para os sintomas e efeitos do calor como náuseas, cefaléia, tontura, principalmente.

Conclusão

Numa gestação normal, sem complicações e contra-indicações, a mulher poderá praticar atividade física de forma moderada e bem orientada, sendo sempre acompanhada por um profissional especializado.

As alterações fisiológicas que ocorrem na gestante possibilitam uma forma de proteção ao feto e o exercício não causa efeitos deletérios. É necessário, no entanto, a gestante ter sempre um acompanhamento para ter a intensidade do exercício sempre controlada, pois, de acordo com os dados apresentados, exercícios muito intensos e mal orientados poderão causar complicações ao feto.

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Autor: Ana Paula Costa Santos Germano