Difilobotríase: A Tênia do Peixe



Drª. Elisama dos Santos Monteiro Silva*

CRN/3 –5393

Resumo:

A Difilobotríase é uma doença pouco conhecida, porém que já se manifestou na cidade de São Paulo em 2005. É uma doença que pode se tornar grave devido a manifestação de anemia no indivíduo parasitado e está relacionada ao consumo de peixes crus ou mal passados contaminados. Com o aumento crescente do consumo de preparações orientais com peixes crus ou mal passados pelos ocidentais a tendência é que a doença se torne cada vez mais presente.

  1. Definição: A difilobotríase é uma parasitose intestinal; é causada por um verme cestódeo da mesma classe da Tênia (solitária).
  2. Agente Etiológico: Diphyllobothrium spp..
  3. Classificação:
  • Filo:Plathyhelminthes
  • Classe:Cestoda
  • Ordem:Pseudophyllidea
  • Família:Diphyllobothriidae
  • Gênero: Diphyllobothrium spp.
  1. Histórico:

Ovos da espécie Diphyllobothrium pacificum foram detectados emexcrementos fossilizados (coprólitos) de múmias Chinchorro do Chile, com idade estimada de 4.000 a 5.000 anos.Ao adotar o hábito de comer peixe cru ou mal cozido os nativos adquiriram o verme cestódio Diphyllobotrium pacificum.

Na Europa, Ásia e América do Norte são descritos casos do Diphyllobothrium latum.

A doença é comum em países como Chile, Peru e Argentina, por ingestão de salmão contaminado. A difilobotríase é uma doença comum em áreas com hábito alimentar de ingestão de peixes crus ou mal-cozidos.

Na América do Sul registro de casos de difilobotríase veiculada por peixes de água doce (Diphyllobothrium latum) ou de água salgada (Diphyllobothrium pacificum).

O Diphyllobothrium spp é um cestóide, conhecido como um dos maiores parasitas intestinais do homem e como a "tênia" do peixe. Diversas espécies de Diphyllobothrium podem parasitar os seres humanos, mas na América do Sul estes casos estão restritos a duas espécies: o D. pacificum e D. latum, sendo esta a mais prevalente.

O parasita pode persistir no intestino humano por mais de dez anos, instalando-se no intestino delgado e podendo atingir até dez metros de comprimento, com mais de 3.000 proglotes.

5. Modo de Transmissão:

Não há transmissão direta pessoa-a-pessoa. A contaminação se dá através da ingestão de peixes crus, defumados em temperatura inadequada ou mal cozidos que contém a larva infectante.

O Homem é o hospedeiro definitivo.

6. Ciclo de Vida:

O ciclo de vida deste parasita envolve 01 hospedeiro definitivo, no caso o homem e 02 hospedeiros intermediários.

·Hospedeiro definitivo:

O homem ingere o peixe contaminado com a larva infectante denominada plerocercóide ou espargano. No intestino do homem atinge o estágio adulto. No homem, o verme adulto se localiza no jejuno, e mede entre 3 a 15 metros de comprimento (é o maior cestódio que pode parasitar o homem), com mais de 3.000 proglotes. Como é hermafrodita, cada proglote, que é uma estrutura re reprodução, apresenta órgão sexual masculino e feminino. O Diphyllobotrium spp instalado no intestino delgado, ataca a mucosa.

Ovos são liberado pelos proglotes (anéis grávidos) e eliminados nas fezes do hospedeiro.Em contato com a água, e dependendo da temperatura, de oito dias a várias semanas o embrião contido no ovo diferencia-se em coracídios, que então saem dos ovos. Estes, quando ingeridos por pequenos crustáceos (Cyclops e Diaptomus), transformam-se em larvas procercóides. Os peixes ingerem estes crustáceos que contêm a larva.

O combate a práticas inadequadas de higiene é muito importante, pois quando o homem que está contaminado, defeca na natureza, principalmente perto de qualquer fonte d'água, ele será a fonte de propagação da doença.

·Primeiro Hospedeiro Intermediário:

Artrópode chamado Crustáceo do Plâncton (cópede): Os coracídios após serem ingeridos por crustáceos (Cyclops e Diaptomus), se transformam em larvas procercóides.

·Segundo Hospedeiro Intermediário:

Os peixes ingerem o crustáceo que contêm a larva, onde esta migra para os músculos do peixe, desenvolvendo-se larvas plerocercóides.

A transmissão pode ocorrer, quando um peixe de maior tamanho se alimenta de um peixe de menor tamanho contaminado. Como os seres humanos geralmente não ingerem pequenos peixes crus ou mal-cozidos, estes não representam importante fonte de infestação. Entretanto, os pequenos peixes podem ser ingeridos por espécies de peixes maiores e predadores. Nestes casos, a larva "plerocercóide" pode migrar para a musculatura do peixe predador e os seres humanos se infestam pelo consumo do peixe cru ou mal cozido. Após a ingestão, a larva "plerocercóide" se desenvolve em verme adulto imaturo, localizando-se no intestino delgado. Os vermes adultos do D. latum aderem à mucosa intestinal do homem e iniciam seu ciclo no hospedeiro definitivo.




 Figura 1: Ciclo de Vida




Figura 2:  Ovo do Diphyllobotrium spp.



Figura 3
Proglote gravídico do Diphyllobotrium spp.


Figura 4 Diphyllobotrium spp adulto.

7. Reservatório:

O principal reservatório da doença é o ser humano infectado, que eliminam ovos nas fezes, bem como cães, ursos e outros mamíferos piscívoros.

8. Período de incubação:

Caracteriza-se por um período de 5 a 6 semanas, desde a ingestão dos ovos até a eliminação do agente pelas fezes.

9. Sinais e Sintomas:

Os sinais e sintomas são variáveis, de acordo com o desenvolvimento atingido pelo parasita no homem. A maioria dos casos apresenta-se de forma assintomática, entretanto, podem ocorrer distensão abdominal, flatulência, cólica abdominal intermitente, emagrecimento e diarréia, sendo uma complicação importanteanemia grave.


10. Diagnóstico:

O Diagnóstico laboratorial da difilobotríase é realizado por microscopia mediante a detecção de ovos ou proglotes nas amostras de fezes. É importante a diferenciação do parasita com outras espécies de cestódeos e helmintos para o tratamento adequado.

11. Tratamento:

A droga de escolha é o praziquantel (10 mg/kg de peso em dose única). A administração de vitamina B12 pode ser necessária para correção da anemia.

12. Medidas de controle:

1)Notificação de casos: casos diagnosticados por laboratórios de análises clínicas e outros serviços médicos, públicos e particulares, do Estado de São Paulo, devem ser notificados para a Divisão de Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar [0XX 3081-9804, 8:00-18:00h] ou para a Central de Vigilância Epidemiológica - Disque CVE [0800-55-5466, 24 horas/dia, inclusive feriados e fins de semana].

2)Medidas preventivas:evitar consumir pescados crus, defumados em temperatura inadequada ou mal cozidos, os quais devem ser consumidos bem cozidos. O congelamento do peixe cru, durante 24 horas a – 18 º C ou a irradiação do produto inativam o parasita. O congelamento a – 20 º C, por 7 dias, é também um procedimento recomendado para inativar, não apenas o parasita da difilobotríase, mas as outras parasitoses de peixes assegurando a proteção do consumidor de sushis/sashimis ou outros pratos da culinária japonesa à base de peixes crus.

3)É recomendável a leitura dos Manuais dos refrigeradores e freezers, no sentido de verificar se os mesmos atingem a temperatura adequada. Outra medida de prevenção é o cozimento completo de peixes e mariscos a 60ºC por 10 minutos.

A ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) considerando a necessidade de orientação aos serviços de alimentação e aos consumidores recomenda que:

1.O consumo de pescados crus ou mal cozidos deve ser evitado;

2.Os pratos preparados ou que contenham peixe cru ou mal cozido deve ser precedido de congelamento do pescado em pelo menos -20ºC (menos vinte centígrados) por um período mínimo de 7 dias ou menos -35ºC (menos trinta e cinco centígrados) por um período de no mínimo 15 horas, condição suficiente para matar o transmissor.

3.Nos restaurantes onde são servidos pratos que contenham peixes crus ou mal cozidos, osproprietários devem garantir o mesmo procedimento de congelamento referido no item anterior antes de servi-lo ao consumidor. Por fim, informa que os pescados submetidos à cocção (cozer, fritar ou assar) não trazem risco para o consumidor.

A melhor prevenção se faz dando destino higiênico aos resíduos humanos e inspeção do pescado e congelamento adequado dos peixes nos frigoríficos.

REFERÊNCIAS:

INFORMAÇÕES BÁSICAS SOBRE A DIFILOBOTRÍASE

http://www.cve.saude.sp.gov.br/htm/hidrica/ifba_difilo.htm

Acesso em outubro de 2008

MANUAL DE DOENÇAS TRANSMITIDAS POR ÁGUA E ALIMENTOS

 Diphyllobothrium spp./Difilobotríase

http://www.cve.saude.sp.gov.br/htm/hidrica/IF_Diphy.htm

Acesso em outubro de 2008

EDUARDO, M. B. de P. et.Col. Investigação do surto de dilobotríase, São Paulo, maio de 2005.

http://www.cve.saude.sp.gov.br/agencia/bepa17_difilo.htm

Acesso em outubro de 2008

FIGURAS:

Figura 1 - Ciclo de vida do Diphyllobothrium latum

Fonte: CDC (http://www.dpd.cdc.goc/dpdx)

Figura 2 - A, B: Ovos de Diphyllobothrium latum (tamanho: de 58 a 76 mm por 40 a 51 mm).

Fonte: CDC (http://www.dpd.cdc.goc/dpdx)

Figura 3: F: Proglotes de Diphyllobothrium latum
(tamanho: 2 a 4 mm de comprimento por 10 a 12 mm de largura)

Fonte: CDC (http://www.dpd.cdc.goc/dpdx)

Figura 4: E: Proglotes de Diphyllobothrium latum

Fonte: CDC (http://www.dpd.cdc.goc/dpdx)

In: http://www.cve.saude.sp.gov.br/htm/hidrica/IF_Diphy.htm

Acesso em outubro de 2008.


Autor: Elisama dos Santos Monteiro Silva