O Entre-Lugar do Discurso Latino-Americano



SANTIAGO, Silviano. O entre-lugar do discurso latino-americano. In: Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural. São Paulo: Perspectiva: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, 1978.

Publicado no livro Uma literatura nos trópicos, este ensaio logo avulta no conceito de seus leitores, estudiosos de literatura, ou não, por estar vinculado aos Estudos Literários tanto como por alçar vôos mais abrangentes, em direção aos Estudos Culturais. Na ordem cronológica, aparece em primeiro plano no sumário, seguido destes outros: Retórica da verossimilhança, Eça, autor de Madame Bovary, O Ateneu: contradições e perquirições, A bagaceira: fábula moralizante, Os abutres, Caetano Veloso enquanto superastro, Bom conselho, O caminho circular da ficção, O assassinato de Mallarmé e, por fim, Análise e interpretação.

Resenhista: Alcir de Vasconcelos Alvarez Rodrigues

Ao buscarmos uma chave de leitura para resenharmos este texto, desde o subtítulo do livro, em cuja obra este ensaio está enfeixado "Ensaios sobre dependência cultural" , desde o próprio título O entre-lugar do discurso latino-americano, até mesmo em suas duas epígrafes, devemos partir da idéia de que o autor se situa realmente como um ensaísta (como já esboçamos no parágrafo anterior) que se arma de pressupostos não só dos Estudos Literários, em esferas mais estritas, mas também do conhecimento dos horizontes mais largos dos Estudos Culturais, cujas 'ferramentas' metodológicas vai buscar nas pesquisas mais contemporâneas dentro do âmbito da Filosofia, Sociologia, História, Geografia, Etnologia, etc., todavia não de maneira superposta ou sob forma de miscelânea, mas de modo transdisciplinar, de forma extremamente coesa e coerente com os tópicos que procura analisar, comparar e (re)interpretar, buscando soluções novas para problemas não tão novos assim, como o preconceito entre metrópole e colônia, colonizador e colonizado, europeu e latino-americano, etc., com o caráter de superior sempre atribuído aos membros primeiros destes pares dicotômicos, ficando os segundos com o estigma de inferiores. E por causa de seu posicionamento frente a problemáticas contemporâneas dos Estudos Literários, é difícil ler Santiago obrigando-se a situá-lo frente às correntes críticas contemporâneas, tendo em vista sua flutuação coerente entre todos os pós-estruturalismos (Marxismo, Desconstrução, Teoria Pós-Colonial, etc.).

Para Silviano Santiago, como já dito, faz-se necessária uma inversão de valores, buscar para a Latino-América seu lugar no mundo da cultura, e da literatura. E aprofundando a questão, analisando 'microscopicamente' o título do ensaio, diríamos ser um lugar entre outros (lugar de interação, de dialogismo bakhtiniano mesmo), o da miscigenação, que não é de um (o europeu) nem de outro (o autóctone), é o do meio, do diferente, do novo, do renascido. O discurso referido seria literário, ou não, de início, pois que no título o vocábulo "discurso" não está determinado, a não ser pela exclusão da Norte-América, tão ou quase tão colonizadora quanto a Europa, quando exporta para os latino-americanos tudo quanto é produto de massificação, em todos os sentidos. Por esses motivos, o discurso dos latino-americanos não pode, não deve e não é europeu, nem, tampouco, norte-americano.

Desde a primeira epígrafe, de Antônio Callado, Santiago já demonstra aderir ao Antropofagismo, à assimilação de virtudes culturais e descarte de valores estéreis e ultrapassados, típicos da Europa colonialista/neocolonialista. Apoiando-se em Foucault, na segunda epígrafe, e mais tarde, no corpo do texto, em Derrida, o estudioso quer estabelecer a negação de noções que sempre algemaram o pensamento do povo que é 'dependente cultural': a continuidade, pela influência, pela duplicação especular que na verdade é uma forma de unificação do que é plural de valores impostos pela violência com que foram transmitidos. Em vez disso, quer ele (o autor) uma (re)valorização do que é diferente e pluricultural, extirpando do discurso literário os valores de unidade e pureza.

Comparando o ensaísta a outros críticos respeitados, percebemos de chofre seu pensamento rebelde: enquanto Antônio Cândido e Flávio Kothe (não citados por Silviano) podem considerar certos autores brasileiros e mesmo outros latino-americanos como escritores de obras "parasitas" (analisando sua produção a partir do prisma das fontes e influências, considerando a verdade de seus textos estigmatizada pela imitação/dívida), o estudioso diz ser necessário declarar falido este tipo de método comparativo preconceituoso, elegendo a diferença como 'o' essencial valor crítico das obras de escritores da Latino-América. Defende uma falsa submissão, uma subversão mesmo, da obra segunda, recriada de uma primeira, que 'sofreria' com esta nova (que a relê, que a reescreve e reinterpreta) um processo de enriquecimento interpretativo, a partir de um pastiche, de uma versão parodística e inquieta.

Desse modo, segundo o autor, deve nascer uma nova Literatura Comparada, renovada e metodologicamente mais bem equipada para seu trabalho de disciplina científica de apoio aos Estudos Literários, os quais, agora, podem ter uma visão mais benevolente em relação a nosso passado literário, dar menor importância a certas condições do tempo pretérito e visualizar o presente primoroso da produção literária latino-americana, com a plêiade de autores extraordinários, como Borges, citado por Silviano, como Rosa, e muitos outros, que só fazem a imaginação voar para um futuro até mesmo extraordinário para esta nova e contemporânealiteratura, que já terá uma tradição autóctone da qual se apropriar, como novos modelos a alimentar a alma literária de mensagens polifônicas, intertextuais, agora supervalorizadas como nunca neste atual horizonte literário, que compreende o escritor como, nas palavras de Santiago, "devorador de livros", um leitor por excelência, antes de ser escritor e antropófago, a realizar a 'travessia', a junção étnica, estilística, multicultural, só possível aos latino-americanos, que, finalmente, encontram seu lugar de discurso: o lugar-entre, o seu-próprio.


Autor: Alcir de Vasconcelos Alvarez Rodrigues