Morfologia, Uma Ciência Autônoma?



Delimitar as fronteiras entre morfologia e sintaxe é objeto de polêmica entre os lingüistas, para fazê-lo Mattoso Câmara se baseia na dicotomia saussuriana – eixo sintagmático e eixo paradigmático. A este se reserva a relação com elementos do mesmo paradigma (objeto de estudo da morfologia) e àquele se reserva a relação com os demais elementos da frase (objeto de estudo da sintaxe).

Como exemplo, o autor expõe a forma portuguesa ele em três seqüências: "ele fala", "fui a ele", "o livro dele". Observamos que o pronome aparece com função diferente em todas as orações. Na primeira, ele figura como sujeito, na segunda, como complemento e na terceira, adjunto; para chegarmos, porém, a essa análise devemos levar em consideração as relações presentes entre os termos, portanto uma relação sintagmática.

Contudo, além desse valor, Mattoso destaca que a oposição entre ele/ela; eles/elas é um traço de valor imanente, decorrente da circunstância de que os associamos as outras formas presentes no sistema lingüístico, logo um valor morfológico.

Para o mestre suíço, as relações sintagmáticas também ocorrem no interior do vocábulo, obviamente quando há presença de dois morfemas. Ainda que percebamos a presença de dois morfemas, por exemplo, em re - ler (entenda-se por prefixo + radical), eles formam um conjunto que pode se manifestar em novas relações associativas como em recriar, reintroduzir, refazer etc.

Logo, entendemos que, em sentido lato, a sintagmática não só inclui a sintaxe como também vai além dela. Isso leva Mattoso a especificar a sintaxe dentro da sintagmática.

Mattoso afirma que "Temos assim o fundamento teórico para depreender da sintagmática ampla de Saussure uma sintaxe no seu sentido estrito e usual. É ela a parte da gramática que estuda as seqüências frasais, isto é, aquelas em que um valor lingüístico associativo não interfere e não entra em conflito com o valorsintagmático que a sucessão das formas determina".

O autor ainda afirma que há na unidade mórfica um valor inerente, ou seja, um valor lingüístico associativo quando se trata da forma simples, por exemplo, "ler"; podendo acumular um valor sintagmático, mais básico, se a forma é decomponível em unidades significativas menores, a saber: reler.

BIBLIOGRAFIA

CÂMARA, J. Mattoso. Dispersos. Rio de Janeiro: Lucerna, 3ª. Ed., 2004.

CÂMARA, J. Mattoso. Dicionário de Filologia e Gramática. Rio de Janeiro: J.Ozon Editor, 4ª Ed. refundida e ampl., 1970.

FREITAS, Horácio Rolim de. Princípios de morfologia. Rio de Janeiro: Lucerna, 5ª Ed., 2007.

CÂMARA, J. Mattoso. "Morfologia e Sintaxe" in Dispersos, Rio de Janeiro: Lucerna, 3ª Ed., 2004, p.61. (grifo nosso)


Autor: Eliane Vieira