Sindicalismo e Classe Operária (1930-1964)



FICHA TÉCNICA: Eles Não Usam Black-tie. Direção: Leon Hirszman. Produção: Leon Hirszman Produções e Embrafilme. Brasil: 1981,1 DVD.

FICHA TÉCNICA: Rodrigues, Leôncio Martins. Sindicalismo e classe operária (1930-1964) IN História Geral da Civilização Brasileira. Brasil Republicano (Sociedade e Política). Vol 10. Divel. 1986. p . 509-555

TEXTO: ACADÊMICO

TEXTOS: SINDICALISMO E CLASSE OPERÁRIA (1930-1964) & O NOME DA COISA: O POPULISMO NA POLÍTICA BRASILEIRA.

O filme, Eles Não Usam Black-tie, apresenta o cotidiano dos trabalhadores metalúrgicos paulistas no ano de 1979, durante a ditadura militar. Envolvendo o telespectador em uma trama em que se abordam os conflitos ocorridos entre trabalhadores, patrões e o Estado. Sendo assim inicialmente os operários procuram decretar um movimento de greve, com o fim de garantir seus empregos, e as melhorias trabalhistas almejadas pela classe. Dentre as reivindicações, o aumento salarial ganha principal destaque. Neste contexto, inúmeros conflitos surgem devido à classe operaria não se encontrar coesa, provocando assim um embate entre os líderes grevistas, trabalhadores e as elites industriais. Nesse clima são tratados questões de grande importância, como as relações sindicais que vão separar famílias por questões ideológicas, tornando inevitável a convivência familiar de indivíduos que possuem convicções grevistas, ou sindicais diferentes. Logo, portanto o trabalhador durante as reivindicações da classe operária é obrigado a se decidir por um lado, ou esta dentro da greve ou fora. Fato que faz Tião o filho de um líder sindical, acreditando em suas convicções, furar a greve por ser indiferente as questões da militância, provocando um atrito, tanto trabalhista como familiar na vida dos homens que não vestem elegantemente com o Black-tie.

O presente trabalho tem o objetivo de relacionar aspectos convergentes e contraditórios entre o filme "Eles não Usam Black-tie" e as obras "Sindicalismo e Classe Operária (1930-1964)" do autor Leôncio Martins Rodrigues, e "O nome e a coisa: o populismo na política brasileira, do autor Jorge ferreira.

Percebemos nas obras que a classe sindical, não era homogênea, visto a forma com esta se formou, viabilizou um processo sindical no Brasil influenciado pelo populismo. O qual ideologicamente e economicamente tentava ganhar as massas controlando-as para satisfazer principalmente os interesses do grupo dominante. Fato em que alguns historiadores acreditam ter se aproveitado a falta de uma consciência operaria da classe dos trabalhadores, pelo fato do trabalhador urbano, ser oriundo do meio rural, estando este acostumando ao paternalismo tendo suas expectativas sanadas por meio de uma consciente troca de favores. Que acabava atendendo suas reivindicações por meio de concessões, persuasão ou manipulações políticas, pois o trabalhador tinha um interesse próprio, individualista, que fazia com que sua consciência também promovesse uma resistência.

Em relação aos sindicatos Jorge Ferreira, descreve a prática do Estado, em manter o controle do operariado, onde são colocados profissionais próximos as massas, para compreender o movimento operário, com a finalidade de descobrir como controlá-lo. É claro também que tais indivíduos implantados, dentro dos sindicatos e dos movimentos grevistas, também como no filme, tinham o objetivo de vigiar, minar, e desestruturar a base grevista com a finalidade de estabelecer o domínio do Estado e das Elites. Esses indivíduos no filme tinham o anseio individualista de conseguir subir de cargo, para tanto para estes operários era preciso ficar do lado de quem manda.

Neste sentido, os sindicatos também eram controlados pela elite, pois no Brasil, a partir do golpe militar de 1930, o presidente Vargas, junto com as elites que compunham seu governo, montou uma estrutura sindical, para cooptar os trabalhadores, fazendo com que essa classe operária participe de um projeto sindical, em que Estado funda o sindicato desempenhando um papel de mediador, ou arbitro dos conflitos entre trabalhadores e as elites patronais. Assim essa interlocução manteria o domínio e os interesses da elite, garantindo também algumas "conquistas" da classe trabalhadora, que na maioria das vezes eram concedidas estrategicamente pelos grupos dominantes. Onde podemos fazer uma critica, sobre o real papel dos sindicatos no Brasil contemporâneo, pois se a estrutura sindical, é praticamente a mesma criada por Vargas, é porque tal estrutura não incomoda as elites industriais, pois mantém os interesses, garantindo o lucro, e a dominação ideológica das massas.

Nessa estrutura sindical a qual foi formada antes dos anseios da classe operária, observa-se que não existia uma classe coesa em que o fruto das reivindicações, ou das aspirações alcançaria a criação dos sindicatos. Mas sim foi o governo que instituiu tal sindicato, com base no intervencionismo, controlando a voz do trabalhador, fazendo com que este não questionasse a pauta de reivindicações já existente.

Para isso também se criou a figura dos sindicatos de "pelego", onde os trabalhadores que se tornavam lideres sindicais, com a finalidade de representar a classe operária, acabavam sendo cooptados para elites patronais, que por meio de concessões particulares a estes líderes, tinham seus interesses garantidos nas reivindicações da classe trabalhadora. Ou seja, o sindicato geralmente colocava em pauta, itens já avaliados secretamente pela a elite, a qual concordava, deixando ficar na pauta das reivindicações, fazendo com que muitas greves ou conflitos não passassem de um jogo de cartas marcadas.

Em relação à especialização no trabalho percebemos no filme, que havia uma desqualificação do trabalhador, fazendo com que este não necessite mais conhecer todo o processo de produção de um objeto, pois o modelo de fabricação dos produtos fez com que os trabalhadores se tornassem semi qualificado, logo responsável por apenas uma parte do processo, o que para o empregador proporcionava uma facilidade na substituição da mão-de-obra, bem como um controle no ritmo da produção e principalmente na alienação desses proletariados.

No filme percebemos também, os trabalhadores imigrantes, que não aceitavam a passividade dos demais, onde acreditamos que estes tinham suas formações ideológicas baseadas no socialismo, comunismo, e anarquismo, concepções que adentraram ao país durante o século XX.

Durante a era Vargas, o Departamento Nacional do Trabalho tinha a finalidade de vigiar os sindicatos, e o Ministério do Trabalho de unificar as leis trabalhistas, inicialmente satisfazendo a classe empresarial, que almejava a eliminação das vantagens trabalhistas.

Percebemos no filme que há um confronto político-ideológico entre os trabalhadores, até mesmo em âmbito familiar, em que o líder sindical Otávio, defende o direito de se fazer greve, de se ter uma consciência de classe contra a posição "covarde" e passiva do filho Tião o qual segundo a trama só pensa individualmente, temendo perder seu emprego.

Considerações finais

Acreditamos que tal modelo sindical, bem como o de centralização do poder que Vargas idealizou, esteja presente atualmente, não só nos sindicatos brasileiros, bem como na atual estrutura política, que mantém cargos de administração ou controle dos órgãospúblicos sobe o poder de deputados, governadores e presidentes, os quais colocam a frente de instituições como a Secretária de Educação, a Polícia militar, a Policia civil e a Secretária de Saúde, indivíduos que mesmo despreparados intelectualmente, são preparados ideologicamente na perspectiva de completa aceitação das ordens emanadas da autoridade que o colocou no poder, onde acreditamos, que tais indivíduos, poderiam ser facilmente chamados de Diretores pelegos, Comandantes pelegos, Secretários pelegos, dentre outros. Pelo fato destes indivíduos, quando em suas instituições defenderem um discurso de luta pelos direitos trabalhistas, pelas garantias constitucionais, mas quando nomeados em cargos públicos ou eleitos, passam a desempenhar interesses do Estado.

Portanto acreditamos que a repressão e a opressão hoje aconteçam porem de forma mais velada, pois não há mais tantos conflitos autoritários ou tanta repressão policial durante as reivindicações das classes trabalhadoras como nos anos oitenta. Fato este que nós trabalhadores brasileiros devemos estar atentos a possíveis formas de controle por parte das elites e do Estado. Principalmente em questões que regem demissões, direitos trabalhistas, qualificação funcional, e conquistas que hoje temos é fruto o empenho de muitos trabalhadores que não se calaram, nem se entregaram diante das dificuldades que envolviam os interesses coletivos.

Dessa forma o filme, apresenta os lideres sindicais que não foram comprados e que possuem uma responsabilidade coletiva, tendo sempre o compromisso de almejar melhorias ao grupo trabalhador, mesmo muitas das vezes tendo seus projetos grevistas manipulados pela forte estrutura política das Elites e do Estado ditatorial brasileiro.


Autor: EDUARDO SANTOS