O PAPEL DA EDUCAÇÃO NA CULTURA



1. Pensamento antropológico

 

 

Entende-se por antropologia (cuja origem etimológica deriva do grego άνθρωπος anthropos, (homem / pessoa) e λόγος (logos - razão / pensamento) a reflexão do homem e de sua natureza. Desta forma, a tarefa da Antropologia, é o questionamento acerca do homem, do lugar que o mesmo ocupa no universo e de sua função como fazedor da história e criador de culturas.

Não é possível fazer uma reflexão sobre o que é a educação sem refletir sobre o próprio homem. Por isso, é preciso fazer um estudo filosófico-antropológico” (FREIRE, 1983). Desde os tempos mais remotos, quando o homem se espantou com a natureza e com tudo o que nela existia, incluindo a si próprio, este nunca mais deixou de ser estudado, admirado e ainda hoje incognoscível.

Quem primeiro se inclinou a estudar o homem foi Sócrates, filósofo grego do final do século V e IV a.C., que dizia “Conhece-te a ti mesmo”. Enquanto as maneiras de ser ou de agir de certos homens forem problema para outros homens, haverá lugar para uma reflexão sobre essas diferenças que, de forma sempre renovada, continuará a ser o domínio da antropologia (ALVES, 2006 apud STRAUSS, 2000). A definição mais comum a se perpetuar por mais tempo foi a de que o homem é um animal racional, defendida por muitos filósofos importantes de gerações passadas como: Descartes, Spinoza, Kant, Hegel e outros. Mas muito já mudou, e hoje são muitas as definições que temos, baseadas em características do homem. Como a de que este é um ser livre, segundo Sartre; para Gabriel Marcel, um ser problemático; para Luckmann, um ser religioso.

Dentre as diversas culturas mundiais, há várias concepções sobre o homem. A seguir estão as três principais visões sobre o homem:

- visão racional do homem: de acordo com essa visão, o que mais distingue o homem dos demais animais é o fato de que ele é um ser racional. A razão é o orgulho e glória para o homem. O homem inteligente é o homem virtuoso. Conhecer o que é certo é praticá-lo.

- visão religiosa do homem: para a tradição judeu-cristã o homem é compreendido, inicialmente, do ponto de vista de sua origem divina. Ele é um ser criado por Deus a sua imagem e semelhança. O homem se situa onde a natureza e o espírito se encontram. Sua consciência está sempre lhe lembrando que ele deve e é capaz de produzir o bem, pois o bem é aquilo que tem valor para a pessoa. No islamismo, é a orientação de Deus que dá ao homem coragem para enfrentar os problemas diários. O dever do homem é observar as leis divinas e submeter-se à vontade do Deus único (Alá). Para o hinduísmo, o homem deve apoderar-se da vida eterna que é indestrutível e imperecível. E para o budismo, a existência humana é em termos uma migração para a outra vida.

- visão científica do homem: o homem é tido como a mais complexa forma de vida e pode ser entendido pelas mesmas leis que governam todas as outras matérias.

Para Paulo Freire o homem é entendido como um ser que se faz, em suas relações no mundo, com o mundo e com os outros, pelo trabalho livre, graças ao exercício de sua condição de ser criativo e curioso. Possui alta potencialidade para se desenvolver enquanto vive em equilíbrio na sociedade.

 

2. Antropologia Cultural

 

Entre as antropologias existentes hoje, filosófica, biológica, cultural, social, física, de cunho pesquisador e investigador, particularmente verificaremos a antropologia cultural.

A antropologia cultural dedica-se primordialmente ao desenvolvimento das sociedades humanas no mundo. Estuda os comportamentos dos grupos humanos, as origens da religião, os costumes e convenções sociais, o desenvolvimento técnico e os relacionamentos familiares.

Para o antropólogo a palavra cultura adquire uma outra dimensão do que a que convencionalmente entendida. Não se trata de identificá-la, com sabedoria ou sofisticação, como é comum associar-se essa palavra, mas sim de utilizá-la para definir tudo aquilo que o homem faz, pois, para o antropólogo, cultura é forma de vida de um grupo de pessoas, uma configuração dos comportamentos aprendidos, aquilo que é transmitido de geração em geração por meio da língua falada e da simples imitação.

 

2.1 O Humano na Cultura

 

Não existe produção humana que não seja cultural. Com ela e a partir dela os humanos se relacionam com o mundo, consigo mesmos e com suas criações. O Homem é um existente que tem consciência de si e do mundo que o circunda. Mas isso não é suficiente para explicá-lo. O Homem é mais do que isso, ele é complexo, pois é insatisfeito; é insatisfeito porque pensa e faz escolhas. “Quando o homem compreende sua realidade, pode levantar hipóteses sobre o desafio dessa realidade e procurar soluções. Assim, pode transformá-la e com seu trabalho pode criar um mundo próprio: seu eu e suas circunstâncias” (FREIRE, 1983).

 

“As relações que o homem trava no mundo com o mundo (pessoais, impessoais, corpóreas e incorpóreas) apresentam uma ordem tal de características que as distinguem totalmente dos puros contados, típicos da outra esfera animal. Entendemos que, para o homem, o mundo uma realidade objetiva, independente dele, possível de ser conhecida. É fundamental, contudo, partirmos de que o homem, ser de relações e não só de contatos, não apenas está no mundo, mas com o mundo. Estar com o mundo resulta da sua abertura à realidade, que o fazer o ente de relações que é” (OLIVEIRA, 1983 apud FREIRE, 1969, p. 111).

 

O homem é um ser cultural, mas a cultura não é tudo no ser humano. A cultura, essa capacidade re-criadora, permite ao Homem re-produzir o mundo dinamizando a existência dos existentes. O fato de estar sempre criando ou re-criando sua obra ou suas manifestações faz da cultura uma das marcas mais tipicamente humanas, pois é principalmente pela sua capacidade de recriar o mundo e as manifestações culturais que o homem se diferencia dos demais existentes.

            O homem é também cultura e/ou social devido ao seu relacionamento com o outro. Uma outra diferença entre o homem e os outros seres é a sua comunicação e/ou diálogo. O falar é seu principal tesouro, sua herança divina. Sem o diálogo o homem não seria ‘o homem’, ou como dizia Karl Jaspers: “O homem não é assim um ser fechado em sim mesmo. A auto-realização da existência humana se processa, portanto, na comunicação e no encontro com o outro através do diálogo” (OLIVEIRA, 1983), e também Gabriel Marcel: “O encontro com a vida se dá quando o homem encontra-se consigo mesmo. Mas esse encontro só é possível através do diálogo, isto é, através do outro que o homem se descobre ou se afirma plenamente como pessoa” (OLIVEIRA, 1983).

            O Homem se caracteriza a partir de diferentes e diversas dimensões, mas não se limita a eles. Uma dessas dimensões, talvez uma das mais amplas e complexas para o entendimento seja a cultura. O Homem não se limita ao mundo natural; ele o transcende e o transforma. Transcende porque tem expectativas que não se limitam ao mundo como ele se apresenta e nem à sua materialidade. Transforma porque o recria constantemente, imprimindo sua marca: a marca da cultura. Em razão disso é que dizemos que o Homem se humaniza produzindo seu mundo, gerando sua marca cultural ou as diferentes manifestações culturais.

            Uma das capacidades que diferenciam o ser humano dos animais irracionais é a capacidade de produção de cultura:

 

“Todas as pessoas têm cultura. Melhor dizendo, todas as pessoas vivem de acordo com uma determinada cultura. A cultura abrange a maneira de viver (agir, pensar e sentir) de um povo. Maneira de viver que pode ter aspectos comuns e aspectos diferentes em relação à maneira de viver de outros povos. A forma de organização social de um povo, portanto, também parte de sua cultura.” (PILETTI, 1999, p. 210).

 

2.2 A Cultura no humano

 

Cultura significa tudo aquilo que deve sua origem à intervenção, livre e consciente do homem. Cultura é o conjunto de manifestações artísticas, sociais, lingüísticas e comportamentais de um povo ou civilização. É a herança que determinada sociedade transmite à seus membros através da educação sistemática e da convivência social. Portanto, fazem parte da cultura de um povo as seguintes atividades e manifestações: música, teatro, rituais religiosos, língua falada e escrita, mitos, hábitos alimentares, danças, arquitetura, invenções, pensamentos, formas de organização social, etc.

O conceito de cultura é bastante complexo. Em uma visão antropológica, podemos o definir como a rede de significados que dão sentido ao mundo que cerca um indivíduo, ou seja, a sociedade. Essa rede engloba um conjunto de diversos aspectos, como crenças, valores, costumes, leis, moral, línguas, entre outros. 

Há também outros três significados sobre cultura:

Primeiro, significa que cultura pode ser entendida num sen­tido bem amplo como o conjunto de práticas pelas quais os homens agem sobre e transforma o que está na natureza, tor­nando-se co-responsáveis com a natureza por aquilo que se tornam.

Segundo, significa que cultura é a forma de viver dos hu­manos e, ao mesmo tempo, o nosso jeito de viver em grupos sociais específicos. Assim, no primeiro caso, falamos em cul­tura no singular, como aquilo que diferencia os homens de tudo que existe na natureza. Já no segundo caso, precisamos falar em culturas, no plural, como o que diferencia os homens entre si. Mas não podemos deixar de notar que esses concei­tos e diferenciações são criados pelos próprios homens!

Terceiro, significa o conjunto de conhecimentos, de valo­res, de crenças, de idéias e de práticas de um grupo social e ou de um povo e ou de uma época.

Com esses três significados percebe-se que cada um de nós, homens e mulheres, nos tornamos o que somos quando produzimos e adquirimos cultura; aprendemos e construímos nosso modo de viver socialmente. Nesse sentido, podemos chegar à conclusão de que é impossível que um indivíduo não tenha cultura, afinal, ninguém nasce e permanece fora de um contexto social, seja ele qual for.

 

“Todas as pessoas, ao longo da vida, adquirem conhecimentos (a língua materna, uma profissão, etc.), crenças (religião, por exemplo), hábitos (modo de vestir, costumes alimentares, etc.), normas de comportamento (o que se pode e o que não se pode fazer); e todos utilizam diversos instrumentos (lápis, caderno, enxadas, carros, máquinas, etc.) para realizar suas atividades. Tais conhecimentos, crenças, hábitos, normas e instrumentos fazem parte da cultura.” (PILETTI, 1999, p. 210).

 

O jeito de viver humano é um jeito de viver sociocultural e envolve três elementos muito importantes que ajudam a padronizar o comportamento de um grupo social: a linguagem, o trabalho e os valores, com os quais produzimos e transformamos coisas e idéias, nos comunicamos, decidimos o que é e o que não é importante e organizamos nossas relações, criando regras para a vida social.

Homens e mulheres produzem cultura e são produzidos nela como humanos, então, na medida em que significam (práticas de linguagem), agem (práticas de trabalho) e valorizam (práticas de valorização) a natureza e o que eles mesmos produzem. Com isso criam regras que orientam as relações sociais. Assim, construímos o nosso mundo e nos fazemos presentes na natureza.

A condição de viver, de pensar e de organizar a vida coletiva (vida social), como percebemos, é o que movimenta o processo de autocriação humana, de produção da humanidade e da cultura. A cultura ao formar o homem, ao proporcionar-lhe a sua dimensão humanística, enriquece a natureza. Acrescenta algo à natureza. Assim, passaremos do estado natural ao estado cultural, que se manifesta em várias atividades, e tanto se faz sentir na própria natureza física, por exemplo, nas culturas dos campos, como cultivar a terra e como na cultura humana que se traduz pela criação da filosofia, da matemática, da tecnologia, da economia, da física, da sociologia, da política, etc.

Os modos diferentes de organização de grupos sociais (família, comunidade, categorias profissionais, etc.) podem tornar as pessoas desses grupos diferentes entre si, pelo cultivo ou não dos costumes e padrões de comportamento próprios de cada grupo.

 

“O homem enche de cultura os espaços geográficos e históricos. Cultura é tudo o que é criado pelo homem. Tanto uma poesia como uma frase de saudação. A cultura consiste em recriar e não repartir. O homem pode fazê-lo porque tem uma consciência capaz de captar o mundo e transformá-lo. Isto nos leva a uma segunda característica da relação: a conseqüência, resultante da criação e recriação que assemelha o homem a Deus. O homem não é, pois, um homem para a adaptação. A educação não é um processo de adaptação do individuo à sociedade. O homem deve transformar a realidade para ser mais (a propaganda política ou comercial fazem do homem um objeto)” (FREIRE, 1983, p. 30).   

 

            A cultura em si, é aquilo que faz com que o Homem seja aquilo que é, numa sociedade específica e num tempo próprio. Falar de cultura é, essencialmente, falar do Homem, das suas faculdades, do seu desenvolvimento, da sua maneira de ver e entender o cosmos, de compreender o sobrenatural. A cultura é o desejo permanente e incessante do Homem se conhecer, crescer no mundo e escrever a história.

            A palavra cultura pode, também, exprimir a totalidade, ou uma parte do pensamento e das ações que distinguem uma sociedade de outras. Assim, podemos dizer que o fator cultural na vida dos povos, é o que de mais essencial faz perpetuar a sua maneira de ser e de estar no mundo. Deste modo, podemos afirmar que há uma pluralidade de culturas que convivem em diferentes tempos e lugares.

            Por fim, ressaltando, todos os seres humanos têm cultura, e que a cultura não é inata nas pessoas, mas é adquirida na convivência em grupo. E o lugar ideal para a aquisição, desenvolvimento e conscientização da importância da cultura, ainda é a escola. Nela alunos e professores trocam experiências, vivências e singularidades. Convivem diariamente com as diferenças e praticam a “inclusão cultural”.

           

 

3. Educação e cultura

 

 

A educação tem, a princípio, como finalidade, promover mudanças desejáveis e relativamente permanentes nos indivíduos, e que estas venham a favorecer o desenvolvimento integral do homem e da sociedade. Portanto, é importante ressaltar que a educação atinja a vida das pessoas e do conjunto em todos os âmbitos, visando à expansão dos horizontes pessoais, o desenvolvimento humano, além da observação das dimensões econômicas e o fortalecimento de uma visão mais participativa, crítica e reflexiva dos grupos nas decisões dos assuntos que lhes dizem respeito.

 

“Não há ninguém que, tendo sido abandonado durante a juventude, seja capaz de reconhecer na sua idade madura em que aspecto foi descuidado, se na disciplina, ou na cultura (pois que assim pode ser chamada a instrução). Quem não tem cultura de nenhuma espécie é um bruto; quem não tem disciplina ou educação é um selvagem. A falta de disciplina é um mal pior do que a falta de cultura, pois essa pode ser remediada mais tarde, ao passo que não se pode abolir o estado selvagem e corrigir um defeito de disciplina”. (NETO, 2003 apud KANT, 1996, p.16).

 

A educação é um acontecimento pessoal. É pela educação que a cultura e a humanidade são transmitidas, conservadas e transformadas. Educação tem tudo a ver com devir humano. A escola se faz em um espaço de participação, de compartilhamento, de disputa e de negociação de sentidos que implicam em transformações na vida pessoal de cada um dos que a freqüentam e na vida social de todos. A escola é um espaço em que produzimos, transmitimos e criamos cultura.

No Brasil, o debate sobre as relações entre cultura popular e escola pública surge entre as décadas de 50 e 60, a partir do método Paulo Freire e de outros movimentos de educação popular, aparecendo o que se denominou educação popular. Educação esta que valoriza, sobretudo a cultura popular e que estaria, inicialmente, destinada ao povo, aos oprimidos, referindo-se nesta perspectiva à valorização desta cultura como meio de lutar contra a discriminação dos seus produtores e reforçar os grupos sociais que tem sua participação restrita na sociedade pela classe dominante, ou elite, cuja cultura seria, teoricamente, a erudita.

Infelizmente, o que observamos da realidade educacional, social e cultural do nosso Brasil, é que este não favorece o desenvolvimento do verdadeiro potencial do nosso povo, pois este vive, ou melhor, sobrevive aos favores das vontades dos poderosos. As escolas públicas que abrigam os alunos oriundos das camadas populares são vítimas de programas governamentais que nunca priorizam suas necessidades e nem oferecem condições reais para o melhoramento e avanço da educação brasileira, posto que não há como progredir sob o domínio de um Estado cujas medidas se mostram contrárias aos interesses populares, devido ao seu comprometimento com a classe dominante.

            A educação tem também de enfrentar outros tipos de obstáculos que impedem o seu progresso tais como a necessidade de a criança trabalhar para complementar a renda familiar, a violência urbana que afasta os pobres da escola além das greves dos professores, que embora justas, prejudicam o bom andamento escolar.

            Como a cultura, a educação sofre influências cada vez maiores do fator socioeconômico e do político, e é devido a esta conjuntura participativa que cresce o papel da educação em relação ao desenvolvimento como compromisso social. O desenvolvimento e a educação não podem ser vistos como idéias separadas, mas como um único conceito que se desdobra em uma cadeia de ações que se complementam. Assim o ensino deixa de ser exclusivamente da escola e o desenvolvimento se torna o maior meio de educação como prática social.

 

“Vivemos em uma sociedade de classes onde as desigualdades sociais, econômicas e políticas ultrapassam os limites da imaginação. Essas desigualdades são responsáveis pela situação de “apartação” reinante, na qual, muitas vezes, “rico” e “pobre” só se encontram em situações de faxina ou assalto. Por um lado condomínios de luxo, rodeados de grades de ferro, por outro, favelas que se estendem até os quatro horizontes, levando a justaposição, na mesma sociedade, de modos de vida radicalmente diferentes um do outro. É responsabilidade de todo cidadão zelar pela erradicação desta desigualdade, resultado de estruturas políticas e econômicas perversas”. (FONSECA, 2009, p. 03)

 

A reflexão sobre o papel da educação em uma sociedade cada vez mais de caráter multicultural, é recente e crescente no nível internacional e, de modo particular, na América Latina. No entanto, a gênese desta preocupação obedece a origens e motivações diferentes (sociais, políticas, ideológicas e culturais) em diversos contextos, como o europeu, o norte-americano e o latino-americano. De qualquer modo, é a própria concepção da escola, suas funções e relações com a sociedade, o conhecimento e a construção de identidades pessoais, sociais e culturais que está em questão.

Vivemos uma época em que a consciência de que o mundo passa por transformações profundas é cada dia mais forte. Esta realidade provoca em muitas pessoas e grupos, sentimentos, sensações e desejos contraditórios, ao mesmo tempo de insegurança e medo, potenciadores de apatia e conformismo como também de novidade e esperança, mobilizadores das melhores energias e criatividade para a construção de um mundo diferente, mais humano e solidário.             

Globalização, multiculturalismo, pós-modernidade, questões de gênero e de raça, novas formas de comunicação, informatização, manifestações culturais dos adolescentes e jovens, expressões de diferentes classes sociais, movimentos culturais e religiosos, diversas formas de violência e exclusão social configuram novos e diferenciados cenários sociais, políticos e culturais.

A escola não pode ignorar esta realidade. O impacto destes processos no cotidiano escolar é cada vez maior. A problemática atual das nossas escolas de primeiro e segundo graus, particularmente as das grandes cidades, onde se multiplicam uma série de tensões e conflitos, não pode ser reduzida aos aspectos relativos à estruturação interna da cultura escolar e esta necessita ser repensada para incorporar na sua própria estruturação estas questões e novas realidades sociais e culturais.       

No interior da cultura, recebemos, aprendemos, reproduzimos, transmitimos, transformamos e criamos o mundo e a humanidade por meio das práticas socioculturais. Podemos dizer que nos educamos e somos educados nessas práticas. Passamos a participar de um mundo humano.

Assim, a educação acontece em todos os lugares em que as pessoas estão se relacionando umas com as outras: na família, no trabalho, no templo, no quintal, no mato, etc. Em qualquer ambiente desses, alguém educa alguém com ou sem intenção de educar.

O processo pelo qual entramos em uma cultura e aprendemos a ser e a viver é denominado endoculturação. A endoculturação é diferente da aculturação, em que a cultura de um povo é negada pela cultura de outro povo.

A educação como endoculturação é forma que possibilita a convivência social em que compartilhamos, disputamos e negociamos o mínimo de valores, crenças, saberes, normas e símbolos. É, ao mesmo tempo, um acontecimento pessoal (educo-me com os outros) e social (sou educado pelos outros). E é, sobretudo, o modo como o humano se faz presente no próprio humano.

 

“Talvez a educação se torne sempre melhor e cada uma das gerações futuras dê um passo a mais na direção ao aperfeiçoamento da Humanidade, uma vez que o grande segredo da perfeição da natureza humana se esconde no próprio problema da educação. A partir de agora, isto pode acontecer. [...] Isto abre a perspectiva para uma futura felicidade da espécie humana”. (idem, p. 16-17)

 

Desde que nascemos vamos aprendendo a viver numa cultura que as gerações anteriores criaram. Essa transmissão cultural é a presença do humano no humano: a educação num sentido bem amplo, pela qual homens e mulheres se fazem humanos e educadores na vida.

Acontece que no movimento de transformação da cultura (criação de novos significados, de novos modos de trabalhar e de novas regras de convivência) a vida social transforma-se, a ponto de as pessoas precisarem se apropriar de saberes específicos para poderem participar das práticas sociais. Isso implica numa divisão do saber e do trabalho e na necessidade de novos saberes que possam dar conta de controlar a própria vida social.

Muito embora essa divisão signifique bem uma situação de desigualdade social, ela está presente na cultura e a escola tem a ver com ela. A escola foi criada como instituição educativa, isto é, para transmitir às novas gerações aqueles elementos culturais (saberes específicos) necessários para a participação na vida social, conforme a divisão do trabalho, do poder e do saber. “Na escola, vivemos nosso mundo, o mundo dos outros e compartilhamos, pensamos, imaginamos, planejamos, projetamos, criamos outros mundos juntos”. (BESSA, 2005).  Uns aprendem e fazem certas coisas, outros aprendem e fazem outras coisas.

A necessidade de ensinar e de aprender saberes específicos para poder participar da vida social fez que a escola fosse inventada como lugar em que se cuida e se ensina às crianças coisas que não se aprende em casa nem na rua (saberes científicos e técnicos) e lugar em que se aprende (muitas vezes sem saber) de maneira diferente as coisas que se aprende em casa e na rua também (o “jeitão” humano de viver).

 

“Com isso, podemos pensar que homens e mulheres se tor­nam humanos quando podem experimentar em suas vidas a possibilidade de falar e de escutar os outros, de expressar-se e perceber os outros, de sentir-se e de sentir os outros in­tegralmente: como seres simbólicos, produtivos, sensíveis, morais e políticos. Podemos pensar, também, que o homens e mulheres vêm a ser o que são pela educação de que partici­pam com outros homens e mulheres”. (BESSA, 2005, p. 77)

 

A escola, mesmo sendo uma instituição criada especificamente para ensinar aquele mínimo de cultura necessária à convivência das diferenças é, como qualquer outra instituição social, um espaço em que produzimos, transmitimos e criamos cultura. Logo, é também um espaço educativo em sentido amplo: tem a extraordinária tarefa social de criar intencionalmente as condições educativas para que possamos receber, desconstruir e reconstruir o mundo humano já construído.

            A escola, em sua tarefa social, educa tanto para a obediência aos costumes (padrões de comportamento) da comunidade e da sociedade como pode educar para um posicionamento crítico e autônomo em relação a esses padrões.

            Para tanto, é preciso integrar a cultura à questão educacional, porque a educação é resultado das práticas culturais dos grupos sociais. O próprio processo de ensinar e aprender revela essas práticas. Sabemos que todos os seres humanos têm cultura, e que a cultura não é inata nas pessoas, mas é adquirida na convivência em grupo. E o lugar ideal para a aquisição, desenvolvimento e conscientização da importância da cultura, ainda é a escola. Nela alunos e professores trocam experiências, vivências e singularidades. Convivem diariamente com as diferenças e praticam a “inclusão cultural”.

            A reflexão sobre educação não se esgota jamais. O processo educativo, seja o formal transmitido pela escola, seja o obtido através da experiência de vida não é temporário e se presta a insistentes debates e intenso estudo.

A pedagogia, como bem nos aponta o verbete do dicionário, trabalha com uma série de técnicas, fundamentações teóricas, experiência, conhecimento elaborado, com ideais educativos que passam a ser ideais de vida; portanto, a pedagogia pode-se dizer, mobiliza o indivíduo por inteiro. O papel da escola, no mundo da educação, é o de questionar criticamente os modos de pensar, de sentir, de atuar e os resultados dessa atuação das gerações humanas. Em síntese, o papel da escola perante as demandas contemporâneas seria o de recriar a cultura na escola e a cultura que nos rodeia.


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Autor: JAIME ROBERTO THOMAZ


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