História e Música: um Brasil dos anos 80.



Centro Universitário do Norte-UNINORTE/Laureate
Curso de Licenciatura Plena em História



Música e História: um Brasil dos anos 80.







André de Araújo Gama

Elisângela Maciel





RESUMO:

A música em detrimento de outras manifestações culturais é aqui, o meio pelo qual procuramos promover a relação entre estudante, História e realidade. As experiências musicais do rock nacional de meados dos anos 80 são expressas neste artigo como contraponto da análise economicista da chamada "década perdida", mostrando o quanto a expressão musical se fez livre e eficaz para compreender o fim dos Anos de Chumbo e a charrete sem condutor da segunda metade do século XX. É como recurso didático nas aulas de História que a música se apresenta neste artigo.

Palavras-chave: Música, História, Juventude e Cultura popular.

















Introdução

As músicas da atualidade possibilitam aos alunos pensarem sobre a realidade a qual estão inseridos? Desenvolvem o senso crítico? Conduzem à reflexão, tratando com seriedade as questões políticas, sociais, econômicas e culturais? Estas indagações foram necessárias para a delimitação do tema e adequação da problemática à realidade escolar. Assim, este trabalho propõe o rock brasileiro como manifestação cultural pró-ativa considerando as reflexões de seus compositores no contexto da década de 1980.
Refletindo sobre música e a forma com que ela vem sendo absorvida por alguns estudantes, percebemos a relevância de utilizá-la no ensino de história, assim, "o uso da música é importante por situar os jovens diante de um meio de comunicação próximo de sua vivência, mediante o qual o professor pode identificar o gosto, a estética da nova geração" , afirma Circe Bittencourt.
Conhecendo um pouco da história e vivenciando uma pequena parte de sua trajetória, queremos mostrar através do rock a possibilidade de falar a linguagem do jovem, utilizando-o como um gênero musical , capaz de revelar à juventude pós século XX, as desigualdades sociais entre outros problemas enfrentados por nossa sociedade, ausentes nas composições correntes que condicionam os jovens ao desinteresse pelas causas relevantes, tornando-os incapazes de acreditar em uma sociedade menos díspare e menos individualista.
É importante ressaltar que neste artigo não foi realizado o aprofundamento na origem e evolução do rock, tendo em vista a priorização de nossa proposta que consiste em utilizá-lo como recurso didático, dando ênfase à produção nacional. Porém, se houver necessidade, a inclusão desta instigante história será, sem dúvida, apresentada em outro momento. Por acreditar na música como uma linguagem cultural de alcance universal, admitimos as várias tendências e propostas. O rock com suas raízes no que há de mais simples e criativo, a cultura popular, vem ser aqui nosso ponto de partida para entendermos o quanto a música pode, ou não, contribuir para vivermos numa sociedade, onde seus membros assumam uma postura mais consciente e crítica perante a realidade.
Embora a utilização do conceito cultura popular seja alvo de divergências, pela insuficiência explicativa e dificuldade de traçar limites culturais, por ele optamos sabendo da importância de sempre rever a terminologia, ampliando-a cada vez mais. Juntos ou separadamente estes termos geram debates quando utilizados para definir essa ou aquela expressão artística. Devemos assim, perceber o processo de mudança e de vinculação à sociedade mais abrangente mostrando a importância de se estabelecer "a direta relação entre o patrimônio cultural da humanidade e o universo cultural do aluno" como propõe o historiador Leandro Karnal .
A historiadora Janice Theodoro também expressa preocupação acerca do homem contemporâneo e sua relação com o tempo presente nos mostrando que é indispensável que a preparação do aluno para a vida esteja pautada no aprofundamento da "consciência de si mesmo e do outro". Aprender a ver e ouvir são elementos essenciais para as gerações futuras se perceberem como herdeiras do patrimônio cultural que lhes é relegado em detrimento da alienação promovida pela diversidade de mídia presente no meio social .
Não se pode permitir que valores sejam substituídos por status social, que a criatividade seja achatada pela tecnologia, não podemos desta última, nos tornar reféns. Ler um livro, planejar um acampamento com música, fogueira e amigos, como rota de fuga parece a cada dia um programa retrô e monótono para a maioria dos jovens que não conhecem outro espaço a não ser o urbano. Embora por experiência própria, possamos constatar a preferência por leituras, luais e o contato direto com as pessoas, sendo a nosso ver, mais salutar que passar horas em relacionamentos virtuais ou freqüentando os grandes templos de consumo, os shoppins centers.
Este artigo caminhou no sentido de mostrar aos jovens do ensino público que através da música e sua proposta, é possível compreender e indagar sobre nossa vida em sociedade, clarificando os contrastes e contradições sociais, provocados essencialmente pela falta de conhecimento sobre alternativas viáveis que podem colaborar para que as disparidades sejam atenuadas.
Alguns referenciais indispensáveis permitiram o avanço da pesquisa, ajudando-nos com os estudos feitos sobre música, de forma que possamos aplicá-la a um público mais amplo e diferenciado. Trabalhamos com autores como José D?Assunção Barros, que nos ofereceu importante conhecimento acerca das abordagens, sem as quais teríamos dificuldade em enquadrar nosso trabalho ao campo que nos propomos seguir. Assim, nosso objetivo é através do rock brasileiro, como manifestação cultural no contexto da década de 1980, demonstrar, por meio de suas características comportamentais, não convencionais, a possibilidade de entrecruzá-lo com o ensino de História suscitando questões acerca de economia, política, sociedade e cultura. Para isso, faremos uso de algumas composições nacionais, identificando entre outros, artistas como Raul Seixas que nos legou um referencial que hoje é muito presente nos trabalhos acadêmicos onde a pós-modernidade e a contracultura são objeto de estudo. Iniciemos, pois, com a reflexão a seguir:
Se você acha que tem pouca sorte
Se lhe preocupa a doença ou a morte
Se você sente receio do inferno
Do fogo eterno
De Deus, do mal
Eu sou estrela no abismo do espaço
O que eu quero
É o que eu penso e o que eu faço
Onde eu estou não há bicho papão não não não
Eu vou sempre avante no nada infinito
Flamejando o meu rock, meu grito
Minha espada é a guitarra na mão
Se o que você quer em vida paz
Muitas doçuras, seu nome em cartaz
E fica arretado se o açúcar demora
E você chora, você reza
Você pede, você implora
Enquanto eu
Provo sempre o vinagre e o vinho
Eu quero é ter tentação no caminho
Pois o homem é o exercício que faz
Eu sei que o másculo gosto do mel
É apenas defeito do fel
E que a guerra é produto da paz
O que eu como a prato pleno
Bem pode ser o seu veneno
Mas como vai você saber sem tentar
Se você acha o que eu digo fascista
Mista, simplista ou anti-socialista
Eu admito, você tá na pista
Eu sou ista
Eu sou ego
Eu sou ista
Eu sou ego
Eu sou egoísta...






















Um Breve Contexto

As abordagens históricas, herdadas do século XIX, permaneciam assentadas na assumida cientificidade analítica, estrutural, explicativa, preocupada com a delimitação do irracional e do subjetivo. Da França, na década de 1920, surgiria a confluência de idéias, a interdisciplinaridade como uma alternativa livre de dogmas e sem a pretensão de postular uma única teoria que desse conta de compreender e explicar a trajetória dos homens, suas organizações sociais e especificidades culturais no tempo histórico. A pluralidade teórico-metodológica e a história-problema proposta pelos annales, abririam novos horizontes para a produção historiográfica e também para a noção de totalidade.
A pós-modernidade se auto-afirmou demonstrando uma vontade de superação do moderno, principalmente após as consecutivas guerras do século XX. Ganha expressão própria se posicionando contra os valores modernos, o cientificismo e racionalismo exacerbados, os quais se mostraram imprescindíveis ao aprimoramento tecnológico dos mecanismos de autodestruição, ineficazes para evitar a guerra e miséria global .
É importante assinalar que em meio à repressão do regime militar as décadas de 1970 e 80 fervilharam com os movimentos sociais, liderados por estudantes, trabalhadores, músicos entre outros artistas e membros da sociedade que, da maneira que encontravam, manifestavam-se contra a ditadura.
Em todo o país, entre janeiro e abril de 1984, realizaram-se nas capitais e principais cidades comícios que reuniram multidões. Vale lembrar que no dia 25 de janeiro de 1984, São Paulo comemorava aniversário, enquanto a rede Globo de televisão na mesma data negligenciava o comício histórico no Vale do Anhangabaú, onde se fizeram presentes 1,7 milhões de pessoas, entre outras razões, pelo movimento Diretas Já.
As gerações do pós-guerra disseram por meio de várias expressões, não à guerra, denunciando seus financiadores, entusiastas e o mal que elas promovem antes, durante e depois do conflito. Tinha razão Rauzito ao escrever sobre suas aventuras na cidade de Thor, afinal os homens tornaram-se carrascos e vítimas do próprio mecanismo que criaram. Nascido em 1945, término oficial da Segunda Guerra Mundial, foi um dos que tiveram, sob a égide artística, a percepção de onde os seres humanos haviam chegado com sua demasiada ambição, e nos perguntamos por que tão vivas continuam suas palavras? Quando propôs a Sociedade Alternativa justificou-a com base na leitura do tempo em que viveu:
Hoje eu sei que é possível o Mundo Novo, porque estou sentindo que a semente libertária já foi plantada sem imposição; o próprio processo histórico, o próprio sofrimento humano, as condições, a falsa ética, as mentiras convencionais, dogmas enganadores, guerras, desgraças e opressões, a própria arbitrariedade da sociedade foram pouco a pouco denunciando o caminho do universalismo, da paz e da harmonia.






Não se pode imaginar outra coisa à não ser a sensibilidade do artista, ao traçar por meio de suas músicas, lúcida percepção diante do mundo e seu parecer da vida a seus semelhantes. Talvez isto seja o que ele mesmo denominou raulseixismo em 12 de janeiro de 1979 ao lhe pedirem, em entrevista, para classificar sua obra . A sensibilidade proporcionada pela experiência musical, aliada à observação histórica, aguça o senso crítico permitindo aos jovens, sejam artistas ou não, encararem a vida com maior lucidez, valorizando e percebendo a importância da música, a denúncia nela contida, bem como sua relação com a história e, consequentemente, uma possível atividade investigativa.
Perguntaram-lhe ainda sobre o porquê de lançar seu disco, na época o LP Mata Virgem, num show de discoteca, pois o entrevistador, diferentemente do entrevistado, permanecia preso aos padrões convencionais de nossa sociedade, negligenciando, naquele momento pelo menos, o manifesto cultural que ocorria, do qual Raul Seixas era apenas um dentre seus representantes.
Nota-se, além do aparelho ideológico atuante em nossa sociedade, a heterogeneidade cultural desse país, a refutação do estigma de passividade do brasileiro que sabe muito bem como lutar quando julga necessário. Para exemplificar esta afirmativa basta conferir o LP Abre-te Sésamo lançado em 1980 pela CBS, e mais especificamente a música título do álbum, no trecho que diz:
Lá vou eu de novo
Brasileiro nato
Se eu não morrer
Eu mato
Essa desnutrição
Minha teimosia
Braba de guerreiro
É que me faz o primeiro
Dessa procissão

Fecha porta
Abre a porta
Abre-te Sésamo...












A proposta da música como recurso didático não pode prescindir de uma análise sobre o conjunto de elementos que culminam no produto final. Até porque, o processo de produção cultural, a partir da música gravada, é contínuo. Esta preocupação não pode ser menor que a necessidade de refletir sobre a mensagem trazida pelo som produtor de devaneios, e muito lúcido e poético ao falar da "lenta, gradual e segura" abertura política em Abre-te Sésamo, ou em crise econômica, ironizando com Aluga-se, o caduco modelo econômico do ministro Delfim Neto. Outras abordagens podem ser feitas desses exemplos de música, no entanto, é notável o mal estar da consciência ao enfrentar, com as armas que possuía o tédio do cotidiano vigiado dos anos de repressão.
No pós-guerra houve o florescimento de uma juventude que mudaria a história da música mundial, tornando evidente a capacidade da arte de ultrapassar as fronteiras culturais entre brancos e negros nos Estados Unidos. País no qual, vale dizer, a segregação racial ocorria de maneira drástica e explícita se bem observada. No meio artístico, a criatividade foi decisiva para que através de músicas, filmes e outras mídias, as insatisfações acerca daquele contexto pudessem ser elencadas pelos jovens.
Inicialmente, o rock era apenas uma música afro-americana, herdeira de características dos negros e brancos. As primeiras experiências já continham sentimentos e uma fusão entre blues urbano e rural, música gospel e jazz, chamada na época de rhythm and blues. Dessa mistura se constituiu a essência da música negra nos anos 50. O termo rock & roll era uma gíria dos blueseiros para designar o ato sexual, difundido em 1951 por Alan Freed, um disc-jockey branco da época.
Na perspectiva do historiador Eric Hobsbawm, a década de 1950 corresponde, para 80% da humanidade, ao término do medievo. É a partir de então que temos em nossa história a morte do campesinato e um mundo definitivamente urbano. Em meados da década de 1980, 42% da população já se encontrava nos grandes centros urbanos. Essas aglomerações consequentemente geraram os típicos problemas de habitação, saneamento, educação e segurança.
Os anos 60 são caracterizados como a década de maior agitação estudantil, a maioria aversiva ao serviço militar. Os novos tempos (pós-guerra) eram os únicos que aqueles jovens conheciam. Jovens ressentidos tendiam a se inclinar para a esquerda, como afirma Hobsbawm:
Os grupos jovens, ainda não assentados na idade adulta estabelecida, são o lócus tradicional da alegria, motim e desordem, como sabiam até mesmo os reitores de universidades medievais, e as paixões revolucionárias são mais comuns aos dezoito anos que aos 35, como têm dito gerações de pais burgueses na Europa a gerações de filhos e filhas céticos. [...]quando muito era mais um sinal de personalidade agitada do que lerda.






Com relação à produção historiográfica da segunda metade do século XX, podemos apontar como uma de suas características a eliminação das fronteiras entre as culturas popular e erudita em meio a outras dicotomias. Contraditórias, simplistas, as dicotomias acabaram se tornando inspiração para muitas composições onde o cotidiano, as crenças e a vida do homem comum se tornam objeto de interesse da arte e da concepção de cultura formada a partir das mais diversas experiências da vida cotidiana. A preocupação com novos objetos de estudo é percebida juntamente com a concepção de "fontes históricas" que se ampliam ao notarmos que quaisquer vestígios deixados pelo homem podem vir a se tornar fontes desde que estes sejam adequadamente utilizados. Segundo a historiadora cultural Lynn Hunt:
No final da década de 1950 e início dos anos de 1960, um grupo de jovens historiadores marxistas começou a publicar livros e artigos sobre "a história vinda de baixo"[...]. Com essa inspiração, os historiadores das décadas de 1960 e 1970 abandonaram os mais tradicionais relatos históricos de líderes políticos e instituições políticas e direcionaram seus interesses para as investigações da composição social e da vida cotidiana de operários, criados, mulheres, grupos étnicos e congêneres.






O livro O que é história cultural, lançado originalmente em 2004 por Peter Burke, mostra a influência da antropologia para a noção de cultura na produção historiográfica recente. A cultura assume uma das principais, ou a maior das preocupações dos historiadores e não historiadores, além de chamarem a atenção quanto aos métodos e objetivos da história em geral, segundo Burke:
Muitos dos principais historiadores culturais do final do século XX, ? por exemplo, Emmanuel Le Roy Ladurie e Daniel Roche na França, Natalie Davis e Lynn Hunt nos Estados Unidos, Carlo Guinsburg na Itália, Hans Medick na Alemanha ? originalmente se definiam como historiadores sociais e admiradores de Marx, quando não marxistas propriamente. Do final da década de 1960 em diante eles voltaram-se para a antropologia em busca de uma maneira alternativa de vincular cultura e sociedade, uma forma que não reduzisse a primeira a um reflexo da segunda ou a uma superestrutura, como glacê de bolo.








Este artigo percorre o caminho traçado nos anos 80, momento em que as análises sobre o contexto de fim do regime militar dão ênfase aos movimentos culturais da época. Nessa esteira, a música de protesto significou não só um importante instrumento de contestação como também mostrou a necessidade da historiografia compreender o momento além da análise economicista que estigmatizou os anos 80 como década perdida.
A abordagem cultural da História mostrou-se fértil, no Brasil, a partir de meados dos anos 80. O historiador Carlos Fico, no artigo para a Revista Brasileira de História em 2004, propôs a discussão sobre as importantes correntes da historiografia que tiveram o regime militar como objeto de estudo.
No artigo referido é possível verificar o crescente interesse pelas abordagens dos movimentos sociais urbanos, arte e cultura. Os trabalhos que privilegiaram a economia como foco de análise, tiveram leve redução visto que na década de 1970 eles eram predominantes.
Já os estudos dos anos 80 sob a perspectiva da "história nova" , ou seja, a que privilegia o indivíduo, seu cotidiano, suas emoções, sua "mentalidade", sua "trajetória de vida" etc. mostram o relativo abandono do marxismo não pela insuficiência teórica, mas, pela constituição de um novo paradigma de narratividade, motivado pela valorização da subjetividade, do cotidiano etc., através de versões verossímeis que não almejam firmar-se como verdade absoluta, concatenadas, quando possível, em narrativas saborosas.
Assim, fazendo uso de novas perspectivas da abordagem histórica, apostamos, neste artigo, em sua utilização. No entanto, a dificuldade de caminhar nesta direção é percebida já no momento em que por ela optamos. Mas, como uma primeira experiência, a conclusão deste trabalho consiste também num grande desafio na medida em que o percebemos como o início de uma longa caminhada acadêmica que objetiva a produção do conhecimento histórico para além do interesse dos historiadores.


A musicalidade histórica

O historiador Marcos Napolitano, através de trabalhos referentes à música e cultura popular brasileira formada de múltiplas influências, oferece importante contribuição acerca do conceito de música popular como elemento que "caracteriza e identifica os grupos sociais enquadrados em uma mesma sociedade". Na obra História oral e memória: a cultura popular revisitada, o professor Antonio Montenegro refere-se a importante e difícil análise sobre a cultura popular, tendo em vista que esta se "manifesta pelas próprias condições materiais de carência das condições mínimas de sobrevivência, ao gerar uma produção material e simbólica que muitas vezes manifesta características muito distintas da cultura oficial".

Na segunda metade do século XX, os jovens ocidentais são os grandes consumidores de música. O passaporte para o mundo do rock é emitido muitas vezes na adolescência e no decorrer da juventude as restrições diminuem à medida que a autonomia econômica é conquistada. Nesse meio tempo, de exposição aos mais variados gêneros musicais, presume-se o aprimoramento do gosto musical. Considerando as experiências musicais, tanto dos artistas quanto dos que apenas ouvem música, é pertinente a preocupação com a vivência dessas experiências, ainda que estas não recebam a devida importância.
No artigo intitulado Da necessidade de Experiências Musicais, escrito por Adriana Fernandes , é possível conferir os benefícios que podem trazer experiências musicais bem vividas pelos jovens, por meio delas podemos apreender desde tabuada cantada no ensino básico à contextualização de uma época através de análise, trazendo à luz pormenores que passam desapercebidos quando apenas ouvimos música, sem dela extrairmos nenhuma experiência.
Para Adriana Fernandes, a experiência musical é bastante democrática ao percebermos sua amplitude em várias situações como dança, lembrança, imaginação, tendo em vista a compreensão de sons, idéias e comportamentos que demonstram o caráter universal da experiência musical. Mais do que "a arte de combinar sons de uma forma agradável ao ouvido", na definição de Rousseau ( 1712-1778), música é um conceito mutável que ora pode revelar mais que a ciência e filosofia, outrora é a imagem da vontade, a arte de expressão séria e sublime ou simplesmente, o conto do sábio chinês capaz de adormecer nossas crianças.
A amplitude do conceito de música é cada vez maior, despertando o interesse da física, sociologia, antropologia e história, assim como o termo cultura mostra-se um universo há pouco tempo explorado por antropólogos e historiadores. Abordagens que propuseram a ligação entre o fenômeno musical e cultura são ainda mais recentes, embora, a emoção e sensibilidade tenham sido percebidas na antiguidade.
Por outro lado, e não menos importante de se refletir, está o interesse da indústria fonográfica e, naturalmente, a fabricação de ídolos para atingir o maior número de consumidores. A comercialização em detrimento da qualidade da arte musical é maior a cada dia, sem falar nas facilidades oferecidas pelo mundo contemporâneo no qual a velocidade e diversidade dos meios de difusão torna possível a veiculação de futilidades que terminam por atrair multidões.
O sentido histórico da canção não se restringe a letra da música, muitos significados contidos no conjunto da obra, são relativamente insondáveis pelo ouvinte, que por sua vez, se abstém do esforço de compreender. A composição da musica e os significados que lhe são atribuídos variam da elucubração de quem ouve à subjetividade de quem a produz. A utilização de fontes audiovisuais deve estar pautada na percepção de "suas estruturas internas de linguagem e seus mecanismos de representação da realidade, a partir de seus códigos internos".
Portanto, a vulgaridade, presente e nociva aos diversos gêneros musicais, precisa ser concebida não apenas pelos artistas que se esmeram para criar uma bela arte musical, mas, principalmente pelo ouvinte que pode e deve optar pelo conteúdo que ofereça a ele uma aprendizagem para toda vida. A atenção na escolha do gênero musical não é o mais importante, visto a possibilidade de análise e qualidade que todos oferecem. O cuidado principal deve ser em distinguir rock, samba ou forró de seus segmentos de baixo calão. Afinal, estamos na maior e mais diversificada usina sonora do mundo, segundo o termo de Marcos Napolitano ao se referir a rica musicalidade brasileira.
No Brasil do século XX, o artista baiano Raul Seixas foi praticante da contracultura exemplificando bem, a necessidade de transformação exigida pelo pós-guerra. Já em 1959, Raul, então adolescente de classe média, fundou o Elvis Rock Club, freqüentado por estivadores e empregadas domesticas, pois "menina de família não dançava rock". É importante compreender que seu comportamento e sua obra estão em sintonia com aquela realidade se o considerarmos apenas como um dos vários artistas que fizeram da música seu principal instrumento de contestação e repúdio à sociedade moderna capitalista, sendo que de acordo com a análise de Luís Alberto Boscato:
O conjunto de movimentos de contestação juvenil que a partir da explosão do rock?n roll e da rebelião de muitos escritores nos anos 50 e principalmente a partir do desbunde dos anos 60 do século XX, ficaram conhecidos pelo nome de contracultura.





De acordo com Napolitano, Circe Bittencourt também assinala: a música popular emergiu do sistema musical ocidental tal como foi consagrado pela burguesia do século XIX, e a dicotomia "popular" e "erudita" nasceu mais em função das próprias tensões sociais e lutas culturais da sociedade burguesa do que por um desenvolvimento "natural" do gosto coletivo, em torno de formas musicais fixas.
Dessa forma, almeja-se merecer a atenção dos amantes da leitura de modo geral, sem que os limites do rigor acadêmico, necessário para constituição deste trabalho, se torne um obstáculo no ato da leitura. Mostrando a presença da música em nosso cotidiano, e a sua expressividade eis aqui um exemplo:

Música para ouvir no trabalho
Música para jogar baralho
Música para arrastar corrente
Música para subir serpente
Música para girar bambolê
Música para querer morrer
Música para escutar no canto
Música para baixar o santo
Música para compor o ambiente
Música para escovar o dente
Música para fazer chover
Música para ninar nenê
Música para tocar na novela
Música de passarela
Música para vestir veludo
Música para surdo-mudo
Música para estar distante
Música para estourar o falante
Música para tocar no estádio
Música para escutar no rádio
Música para ouvir no dentista
Música para dançar na pista
Música para cantar no chuveiro
Música para ganhar dinheiro
Música pra fazer sexo
Música para fazer sucesso


















Música pra funeral
Música para pular carnaval
Música para esquecer de si
Música pra boi dormir
Música para tocar na parada
Música pra dar risada
Música para ouvir...







É importante assinalar que a música, especificamente o rock nacional, constitui neste artigo o meio pelo qual se fará a relação entre o ensino de História e o alunado, mostrando as possíveis analogias entre o cotidiano dos discentes e o conteúdo da disciplina História. Porém, a sensação de vazio e incertezas deixam claras as frustrações de quem viveu no mundo pós-moderno cantando e se desencantando com o mesmo. Veja abaixo o refrão da canção Século XXI:

Se você correu, correu, correu tanto
E não chegou a lugar nenhum
Baby, oh baby, bem vinda ao século XXI




No LP A panela do diabo lançado em 1989, Raul Seixas e Marcelo Nova, líder do grupo Camisa de Vênus, pareciam não haver chegado a lugar algum, mas a obra mostrava o contrário, pois Rauzito estava prestes a imortalizar-se pelo conjunto de sua obra e sua extensa percepção do mundo contemporâneo através de suas viagens pela história.



Há muito tempo atrás na velha Bahia
Eu imitava Little Richard e me contorcia
As pessoas se afastavam
Pensando que eu tava tendo
Um ataque de epilepsia (de epilepsia)
No teatro Vila Velha, velho conceito de moral
Bosta Nova pra universitário,
Gente fina, intelectual










Oxalá, oxum dendê
Oxossi de não sei o quê (de não sei o quê)
Oh, rock'n'roll, yeah, yeah, yeah,
That's rock'n'roll
A carruagem foi andando e uma década depois
Nego dizia que indecência
Era o mesmo feijão com arroz
Eu não podia aparecer na televisão
Pois minha banda era nome de
Palavrão (nome de palavrão)
E lá dentro do camarim no maior abafamento
A mulherada se chegando
Altos pratos suculentos
E do meu lado um hippie punk
Me chamando de traidor do movimento
(Vê se eu aguento)
(Traidor do movimento)
Oh, rock'n'roll, yeah, yeah, yeah
That's rock'n'roll
Alguns dizem que ele é chato
Outros dizem que é banal
Já o colocam em propaganda
Fundo de comercial
Mas o bicho ainda entorta minha
Coluna cervical (coluna cervical)
Já dizia o eclesiastes
Há dois mil atrás
Debaixo do sol não há nada novo
Não seja bobo meu rapaz
Mas nunca vi Beethoven fazer
Aquilo que Chuck Berry faz
(Chuck Berry faz)
Roll over Beethoven, roll over Beethoven,
Roll over Beethoven, tell,
Tchaikovsky the news
E pra terminar com esse papo
Eu só queria dizer
Que não importa o sotaque
E sim o jeito de fazer
Pois há muito percebi
Que Genival Lacerda tem a ver
Com Elvis e com Jerry Lee
(Elvis e Jerry Lee)
Por aí os sinos dobram,
Isso não é tão ruim
Pois se são sinos da morte
Ainda não bateram para mim
E até chegar a minha hora
Eu vou com ele até o fim
(com ele até o fim)
Oh, Rock'n'roll, yeah, yeah, yeah,
That's rock'n'roll...


































Ao ser mencionado o nome do músico russo do século XIX, Tchaikovsky, é possível imaginar o potencial contido no domínio da arte musical e o significado dela para sua vida. Através de um sucinto, mas elucidativo, trecho da obra de Martins Ferreira foi possível constatar tal significado:

É a partir da distinção entre o expressar-se pela música e esta observada pelo outro como expressão, que entendemos o triste destino material e o feliz destino espiritual dos quais participam muitos grandes compositores ao longo da história, os quais souberam compor seus sonhos do melhor modo para que expressassem seus sentimentos, embora nem sempre tais composições fossem assimiladas por seus ouvintes coetâneos.





Afinal Tchaikovsky e Beethoven estão presentes na mesma música, assim como são citados, inusitadamente Chuck Berry, Little Richard, Elvis Presley, Jerry Lee Lewis , Genival Lacerda, a mulherada, o hippie punk e o Eclesiastes. A música como recurso didático pode proporcionar a afinidade com a disciplina história. A importância da utilização da música está na abertura de um segundo caminho comunicativo que não o verbal, comumente utilizado, visto que no início deste artigo a música é concebida como uma linguagem universal, e, portanto, de amplo alcance.
Essa abrangência nos desperta a preocupação com o potencial negativo de composições que atraem a juventude muito mais pelo conteúdo vulgar, do que pela prática reflexiva, incitando os jovens muitas vezes ao despudor sem a sociedade e seus compositores intervirem no futuro e nas conseqüências sofridas por essa geração, de certa forma, aprisionada pela corrente musical alienadora presente em nossa sociedade.
Quando nos referimos à música alienadora, utilizamos a discussão de Pedrinho Guareschi em sua obra Sociologia Crítica, ao nos mostrar como a sociedade está repleta de aparelhos ideológicos que têm por objetivo conservar a ordem vigente de modo que estejamos condicionados por aqueles que exercem o controle sobre nós pelos mais variados meios de comunicação. As músicas que atingem as massas devem ser submetidas à análise para que seus reais objetivos sejam mostrados ao senso crítico da juventude.
Grupos em evidência nos anos 80 como Legião Urbana, entre outros, continuaram mostrando através de suas músicas, que as normas de conduta, os valores morais herdados da modernidade, as guerras do século XX e as desigualdades acentuadas pelo capitalismo, não ofereciam expectativas capazes de contemplar os jovens descontentes com a presente situação do país e do mundo.
No trecho da música faroeste caboclo , o "santo cristo" de Renato Russo, líder da banda Legião Urbana, demonstra não apenas a sua repulsa, mas a de milhares de jovens no Brasil, aos atentados cometidos contra a liberdade de expressão: "Não boto bomba em banca de jornal/ Ou em colégio de criança, isso eu não faço não/ E não protejo general de dez estrelas/ Que fica atrás da mesa com o cú na mão". Não podemos esquecer as bombas colocadas em bancas de jornais que explodiam na frustrada tentativa de anular as vias de informações alternativas já nos últimos anos do regime.

Além das provocações durante as greves do ABC, essas ainda acobertadas pelo comandante do II Exercito, general Milton Tavares, o braço clandestino da repressão continuou com seus pequenos atentados terroristas contra bancas de jornais que vendiam publicações alternativas, conhecidos por sua oposição intransigente à ditadura.





Infelizmente, a juventude é apenas uma das etapas em nossas vidas, porém ela não pode deixar de ser vivida intensamente, nela está a possibilidade de fazermos escolhas sobre o que seremos e como viveremos. Geralmente é nessa fase que buscamos uma identidade na sociedade para nos diferenciarmos, também nesse momento de nossas vidas somos apresentados ao rock and roll, ou á outros gêneros musicais, pelos quais tomamos gosto e somos influenciados.
Independente do gênero, o importante é estar atento ao que diz a música, seja rock, funk ou forró. Estes e outros segmentos da música estão sendo desvirtuados, os temas abordados não tratam, na maioria das vezes, do sofrimento dos miseráveis, o cunho contestador, a reflexão, parecem ter sido abandonados como se não tivéssemos do que nos queixar. A liberdade e bem-estar de que gozam os jovens na atualidade, ocultam, na verdade, o espectro conformista, alienador. Com o rock, denuncia-se os crimes contra a sociedade, a despudorada política brasileira recebe a atenção que merece, aliviando, pelo menos, a indignação com um estado de impunidade.
No tumultuado século XX foram inúmeras as mudanças, mas em detrimento das demais, a conquista da "autonomia" da juventude será privilegiada como foco de análise. Embora fossem considerados apolíticos ou de direita, os jovens dos anos 50 forneceram as bases para que nas décadas posteriores o mundo experimentasse a força da juventude contestadora, aversiva às guerras e aos valores obsoletos do discurso conservador dos que exercem o poder.
O mundo do século XX não é mais o mesmo de séculos passados e a maneira da juventude conceber a vida menos ainda, o avanço tecnológico e a velocidade com que as transformações sociais e culturais aconteceram não deixam dúvidas. O papel da juventude na sociedade tomou extraordinária importância, a cultura ou a chamada contracultura é a nosso ver a principal responsável. Mesmo sendo relutante, na publicação da obra, o historiador Eric Hobsbawm soube, com propriedade, nos apresentar ao breve século XX através da obra Era dos Extremos, onde caracteriza tais mudanças:
O que era e é muito mais interessante é que, grandes ou pequenas, as mesmas transformações podem ser identificadas por todo o globo "modernizante". Em parte alguma isso foi mais impressionante que no campo da cultura popular, ou, mais especificamente, jovem.





Sendo as escolas e as universidades os locais de maior concentração dos jovens, e onde se acredita que esteja o futuro promissor de nosso país, é pertinente a pretensão de introduzirmos a música (o rock) como recurso didático para o ensino ao ser concebido através de análise, estudo e investigação como uma linguagem acessível, difusora de arte, cultura e educação.
Tendo em vista uma pequena parcela da presente situação nas escolas públicas do Amazonas, esperamos que a música se torne tema de debate ultrapassando o interesse da indústria fonográfica, priorizando a compreensão da história ensinada na escola, relacionando-a com a realidade vivida do aluno.
Com a educação musical, a possibilidade de surgirem novas idéias, inquietações e até composições que cantem a vida real não somente exaltando-a, como se a mesma fosse uma eterna "bagaceira sem ressaca", é muito maior, comprometida com a reflexão, o senso crítico e a responsabilidade social. Com a música é possível ainda despertar e desenvolver nos alunos sensibilidades mais aguçadas na observação de questões próprias à disciplina e em sua própria vida cotidiana.
Por se tratar do cotidiano, consideramos pertinente a preocupação do professor Martins Ferreira. Além de advogar em defesa da música como recurso na sala de aula, chama atenção entre outras questões preocupantes ao profissional da educação, para a voz, o primeiro dos instrumentos musicais, deve ser adequadamente usada, principalmente, pelo educador que a tem como principal meio de comunicação.
Trata-se diretamente da saúde do educador que ao fazer uso indevido de suas cordas vocais pode estar abreviando a própria carreira. Gritar em sala de aula não é a solução e, mais do que demonstrar a falta de domínio da classe, explicita ainda o desequilíbrio emocional do docente.
A orientação de um fonoaudiólogo deve ser rigorosa quanto à má utilização da voz, a aplicação de exercícios específicos pode melhorar o desempenho do educador, já que os danos nem sempre são remediáveis e tampouco assumidos como uma preocupação acerca do ambiente de trabalho insalubre que a escola pode se tornar, ou seja, o profissional não deve ficar esperando que o alunado tenha essa preocupação com a saúde do educador, deve, sim, haver o respeito mútuo e a garantia da integridade física e moral do docente.
Outra problemática que se apresenta no contexto deste trabalho, são as mudanças anunciadas no plano educacional, que não se dissociam da conjuntura política e cultural vivida pelas sociedades, cada vez mais pluralizadas, através das manifestações culturais dos grupos sociais distintos em seus fundamentos, gestos e particularidades.
A reforma dos parâmetros curriculares educacionais tornou-se indispensável às mudanças que ocorriam no sistema político com o fim do período ditatorial no país, tendo em vista possibilidades trazidas por novos recursos utilizados na prática educacional, também se passou a repensar a própria concepção de educação, observando que o ofício do educador deve está em sintonia com a realidade que é mutante.
Na década de 1970 houve prioridade nas mudanças acerca de métodos e técnicas educacionais. Não devemos esquecer que em tempos de repressão, a história enquanto componente curricular esteve relegada, sendo considerada de importância secundária e com potencial subversivo, no momento em que se propunha uma nova concepção de educação trazendo em sua proposta a necessária revelação do potencial significativo e transformador do ensino de história.
A concepção curricular educacional, sugerida a partir dos anos 80 propõe alternativas que, se aplicáveis poderiam contribuir para a didática do professor e também para reconquistar a credibilidade da História, enquanto ciência indispensável na formação do aluno que através dela, se identifica e se torna consciente do lugar que ocupa na sociedade e o que de fato é capaz de fazer para melhorá-la.
O objetivo da proposta parece profícuo, no entanto, permanecem entre outros entraves, as heranças negativas de um sistema educacional, já historicamente superado pelo descaso social promovido pela corrupção do poder público em suas respectivas instâncias. A historiadora Circe Bittencourt, de forma sucinta, nos relata o que almejam as atuais propostas:
Proporcionar um ensino de História mais significativo para a geração do mundo tecnológico, com seus ritmos diversos de apreensão do presente e seu intenso consumismo, o qual desenvolve, no público escolar; expectativas utilitárias muito acentuadas.





É necessário fazer algumas considerações acerca do rock e o estigma que lhe foi atribuído. Por isso, a idéia é mostrar que o rock teve e tem participação significativa no combate às tradições e convenções obsoletas inadequadas a nossa realidade, e em parte, historicamente responsáveis pela ruptura causada pelos jovens que fizeram e fazem da música, seu manifesto de luta.
Acreditando no rock menos nocivo aos jovens do que outras propostas que se tornaram perniciosas ao longo dos anos, como a experiência do regime militar, por exemplo, procuramos relacionar a história com o rock na década de 1980, identificando potenciais que revele o quanto ele pode ser fértil, culto e profícuo à sociedade.
Porém, não se tem aqui a pretensão de fazer apologia ao rock, tampouco exaltá-lo por se tratar de uma preferência pessoal ainda que discriminada por diversas opiniões, mas desmistificar o equívoco de quem acredita que rock and roll se resume em sexo, drogas e em simples rebeldia sem causa.
Seria hipocrisia não reconhecer que a história do rock e alguns de seus precursores estiveram ligados ao consumo excessivo de drogas, entre outras práticas ilícitas. No entanto, nesse meio aparentemente simples transgressor, existe uma postura crítica e consciente em relação à realidade, uma filosofia de vida que não se limita à prática ilícita, ou que não se permite ser anulada pelos moldes de uma sociedade cada vez mais corrompida pelo consumismo desenfreado, produzido pelo capitalismo ou pela "fábrica de ilusões", de que falava Raul. O exagero, as contravenções fazem parte de nossa sociedade, entretanto, uma grande parcela de irresponsabilidades de outros segmentos da música é tolerada pela mesma visão tradicional que recrimina o rock e sua forma própria de manifestação.
No ensino de história devemos ter a preocupação em como conduzir a diversidade de materiais didáticos a serem utilizados, ou a ausência deles, em sala de aula. Antecipadamente, precisamos identificar e diferenciar os suportes informativos, que essencialmente constituem elementos necessários ao saber e procurem atender as exigências do setor da indústria cultural, que por sua vez vem adequando a informação às novas necessidades educacionais, bem como aos seus interesses comerciais.
No que diz respeito à música, sabemos que o desafio começa a partir do momento em que nos propomos iniciar este trabalho como recurso didático em sala de aula, analisando o conjunto da obra, as especificidades da época, as interinfluências, o contexto histórico e a visão de mundo dos compositores. Entretanto, a possibilidade de utilizarmos a música popular e mais especificamente o rock, para fins didáticos, requer antes de tudo, cuidado em sua aplicação, pelo fato de não estar propriamente destinado ao uso pedagógico.
O historiador norte-americano Paul Friedlander, com sua obra Rock and roll: uma história social, foi relevante para que pudéssemos traçar um preâmbulo das primeiras experiências e sobre os principais sujeitos do nascente rock and roll. Os jovens (uns não tão jovens assim como era o caso de Bill Haley, quando finalmente tornou-se mundialmente conhecido quando gravou em 1954, rock around the clock). Apesar do impacto inicial causado por Bill Halley, os produtores musicais torceram o nariz. Bill Halley não tinha a menor chance de se tornar um ídolo da juventude. Além de ser um bocado gordo e barrigudo, os músicos que o acompanhavam lembravam muito mais as fantasias neuróticas de um pai caretão do que a rebelião sem causa defendida pela massa de adolescentes da classe média urbana.
Os dez anos de ensino da história do rock, na Universidade de Oregon, lhe permitiram criar um esquema para organizar e sistematizar as informações recebidas da audição e leitura das músicas o qual denominou de "janela do rock". É uma experiência que pouco dos ouvintes comuns se dão ao trabalho, tratando-se de uma maneira organizada de entender a música pensando nos vários elementos que a compõem. Neste exercício, música, letra, histórico do artista, contexto social e atitude são levados em consideração, aos que se propuserem pensar nos pormenores que formam o conjunto da obra e o legado dela para o mundo dos que não a percebem, simplesmente, como palavras pequenas.
Comprometida com o senso crítico a música se torna um importante instrumento didático possível de ser levado à frente pelos profissionais da educação, aproximando a problemática suscitada nas composições, ao conteúdo escolar dos alunos. Pretendemos agregar conteúdo cultural, senso crítico e difundir a alteridade a partir da história cultural da sociedade, onde o rock, em detrimento de outros gêneros musicais, é privilegiado.
Sua importância enquanto abordagem histórica é encontrada, por exemplo, nos estudos de E.P. Thompson que "além de advogar a necessidade de um diálogo com a antropologia, já revela agora uma consciência muito clara de sua posição dentro de uma História da Cultura". Nesta citação o historiador José D?Assunção Barros refere-se à relevância dos estudos desenvolvidos pelo historiador inglês, que muito contribuíram para a noção de história cultural, e também para abertura de outros campos de estudo histórico que viriam posteriormente.
A concepção de "cultura" em Thompson foi adequada à música, neste artigo, como recurso didático. Por exemplo, um livro ou uma música, ambos não têm suas produções culturais encerradas no momento de publicação do produto final, consistem sim num processo em constante formação, seja na sua produção ou em sua recepção pelo leitor e ouvinte, que as toma como experiência para o seu cotidiano, dando continuidade à infinita produção cultural do indivíduo em relação com a sociedade da qual faz parte. Sendo a tarefa do Historiador cultural, "capturar a alteridade", segundo Robert Darnton, autor de O grande massacre de gatos(1984), não se pode esquecer que o educador jamais poderá enfrentar a realidade do ofício, se não estiver munido de alteridade.

Considerações Finais

Diante dos paradigmas que nos vêm sendo apresentados no decorrer de nossa trajetória acadêmica, foi possível conhecer a complexidade teórico-metodológica, na tentativa de reconstrução dos processos históricos, adotando a minuciosidade e critérios exigidos para essa empreitada. Entre outras exigências, quando temos de adotar o suporte do rigor acadêmico imprescindível para o trabalho científico, não pode nos faltar tempo, leitura e dedicação. Para a realização de um trabalho que acrescente na compreensão da história, enquanto processo, acreditamos na insistência em compreendê-lo através de problemáticas que nos inquiete, a elucidação virá a medida que insistimos e acreditamos no trabalho que estamos realizando. Desinteressando ao meio acadêmico, a realização deste trabalho poderá, pelo menos, auxiliar na identificação da trajetória desconhecida de nossas de vidas, da qual o meio acadêmico é apenas um passo significativo dessa experiência cuja pluralidade do conhecimento mostrou-se soberana.
Nossos mestres se empenharam para mostrar a diversidade de olhares sobre um único objeto de estudo, nos deparamos também com a impossibilidade de reviver o tempo passado. Podemos, todavia, atribuir o verossímil, alcançado pelo conhecimento histórico, à dissensão entre os paradigmas sem os quais os processos históricos não poderiam estar sendo compreendidos da maneira que vêm sendo, trazendo a subjetividade assumida e a escolha de diferentes perspectivas como imprescindíveis ao conhecimento, tenha ele a pretensão científica, ou não.
O arcabouço teórico-metodológico necessário às exigências do trabalho científico ainda precisam ser organizados, a insuficiente revisão bibliográfica também constitui as limitações deste artigo. Discografias analisadas, entre elas a de Cazuza, Titãs, Blitz, Engenheiros do Hawaii, Legião Urbana, Os Paralamas do Sucesso, Garotos Podres, e outros, integrariam este trabalho, mas pela brevidade que requer este artigo, ficaram de fora. Os LPs citados fazem parte de uma pequena coleção de discos de vinil que organizamos, e que, somados aos poucos livros de nossa estante, constituem, indubitavelmente, "janelas, ou, asas do conhecimento" abertas aos que através dela quiserem se deslocar para a história cultural da sociedade assinalada por Roger Chartier. O rock brasileiro dos anos 80 mostrou sua "cara" para o mundo. Um tempo e uma manifestação cultural recente, merecedora da atenção historiográfica, necessária aos que desejam compreender a história contemporânea e suas perspectivas.
Contudo, fazer um bom trabalho a nosso ver, depende mais de controlarmos nossa ficção e utopia sem que ela se pretenda ciência no sentido estrito da palavra, e tenhamos, como conseqüência que olhar para a realidade e perceber, infelizmente, que o discurso não condiz com a prática e que a teoria aqui e ali se esforça para, ao menos de longe, tentar explicar a realidade, que muito nos parece um museu de grandes novidades.
De acordo com Ciro Flamarion Cardoso, também não vemos o retorno ao marxismo, ou a adoção desse ou daquele paradigma como saída ou ponto final à crise teórica ou à rivalidade dos paradigmas. O interessante é poder se valer de ambos, identificando a sensibilidade de homens que viveram um tempo distante do nosso, sem os quais a tarefa historiográfica seria ainda mais difícil se não pudéssemos contar com as trilhas abertas e percorridas por nossos mestres.
Refletindo sobre a contribuição de nossos precursores para a posteridade, chegamos a uma conclusão acerca da história, seu significado, e importância para a manutenção de sua e nossa existência, vivemos sob permanências negativas do tempo contemporâneo, ao qual nos dedicamos neste artigo, contudo, a experiência adquirida pelo saber histórico não nos permite a omissão quando temos a chance de intervir, nem reiterar os equívocos de temporalidades anteriores, hoje compreendidos , mas não explicados no passado. A história do século XX tem muito a dizer-nos sobre a sociedade contemporânea.
Na busca pela reconstrução do passado, por meio dos dados, inesgotáveis que são, assim como a história é, somos a todo momento, sujeitos e atores da vida tentados à recontá-la, por que dela fazemos parte e ela é parte de nós. Assim, a escrita da história e o ato de ler podem ser concebidos, nas palavras de Roger Chartier: como uma prática criativa que inventa significados e conteúdos singulares, não redutíveis às intenções dos autores dos textos ou dos produtores dos livros. Ler é uma resposta, um trabalho, ou como diz Michel de Certeau, um ato de "caçar em propriedade alheia". Semelhante ao "farejar de carne humana pelo ogro" de Marc Bloch.
Enfim, esta perspectiva de ensino pode tornar a aula mais prazerosa favorecendo a identificação, compreensão e importância do que se pretende ensinar, desenvolvendo o estímulo do aluno, levando-o a iniciar o processo de maturação intelectual necessário para que se constitua no futuro, o cidadão consciente das transformações e diferenças culturais existentes numa mesma sociedade. Propor a inclusão da educação musical nos currículos escolares, como um elemento que também faz parte da formação da pessoa humana, sensível às injustiças dos homens, em outras palavras, o Artista ou o simples apreciador da arte é mais sensível e, portanto, mais humano.


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Autor: André Araújo Gama


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