A distinção entre Zoé e Biós em Aristoteles




TÍTULO DA COMUNICAÇÃO: A distinção entre zoé e biós na "Política" de Aristóteles.
Autor: José Gilardo Carvalho. (Licenciatura plena em Filosofia ?UECE; Especialista em Filosofia ? Faculdade Faria Brito; Professor de filosofia do Estado e do Município.)
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A presente comunicação pretende compreender, com base na Política de Aristóteles, as razões que levam os homens a constituir uma comunidade política, em particular no que se refere às suas vidas. Para tanto, partimos do entendimento de que Aristóteles concebe o homem como um ser que além de viver, possui a qualidade de dar forma a sua vida, como vida política. Nesse sentido apresentamos duas espécies de significação da vida, a saber, a vida como zoé, vista como mero fato de viver (katà to zen auto mónon); e a vida enquanto bíos compreendida no sentido de um modo de viver (katà ton bíon). Finalizamos discutindo a passagem 1278b, onde Aristóteles distingue os homens que se valem da vida comunitária para alcançar ou um bem subordinado, como o simples fato de viver; ou um bem elevado e supremo que é constituir uma vida melhor, uma vida justa.
Na sua "Ética a Nicômaco", Aristóteles defendeu que o fim supremo da vida humana é a felicidade. Felicidade é o termo empregado por muitos comentadores de Aristóteles, para designar o conceito de eudaimonia. O termo eudaimonia, forma em termos literais a qualidade do ser "vigiado por um bom gênio". Mas, de acordo com o uso corrente na Grécia Antiga, o termo eudaimonia é melhor empregado no significado de bem-aventurança. Para Aristóteles a eudaimonia é uma classe de vida muito específica, escolhida e alcançada por poucos. Com efeito, os homens, em geral, parecem escolher entre quatro gêneros de vida, dos quais a bem-aventurança é uma delas. Assim, em busca da compreensão de um propósito elevado para a vida humana, pergunta-se na ética: qual classe de vida corresponde ao ser bem-aventurado?
Para responder a essa questão, Aristóteles aponta 4 gêneros da vida. O primeiro é a vida que serve à sensibilidade, ou seja, a vida que se guia pela satisfação e pelo prazer. A esta concorre o maior número de indivíduos, embora ela compreenda um fim restritamente deplorável, próprio de homens não livres, ou seja escravos, ou de homens não civilizados, ou seja, bárbaros e bestas. O segundo gênero de vida é a vida pautada na riqueza. Na Política, Aristóteles critica os homens que vivem em função da riqueza e com a intenção de acumulá-la, deixam de gozar de muitos prazeres. Para ele, estes homens só pensam em viver e não em viver bem. Para Aristóteles, a riqueza é antes um meio, do que um fim, de modo que a vida cuja prioridade é a riqueza não partilha da idéia da autarquia, da independência de sua ação, mas antes sob a medida da dependência e da subordinação. A vida pela riqueza, não se afasta muito da vida dos prazeres, pois ambas, não possuem autarquia, e não estão pautadas pelo viver bem, mas sim pelo mero viver. O viver bem compreende duas coisas: a atividade moral e a intelectual. O terceiro gênero da vida é a vida política, ela reúne essas duas condições do viver bem. O mérito da vida política é recompensado pela honra e a glória. A vida política é a escolha de um bom número de homens, que consideram a honra a medida social da virtude. A virtude é o maior fim da vida política. 4) Por fim, a vida contemplativa, apresentada no livro X da Ética à Nicômaco. A vida contemplativa corresponderia ao fim mais elevado da vida humana, pois nela a vida é um fim para si. Nesse sentido, David Ross, afirma:
A atividade que constitui a felicidade é teorética. É a melhor atividade de que somos capazes, posto que é o exercício do que há de melhor em nós, acerca dos melhores entre todos os objetos: os que são eternos e imutáveis; é o que podemos fazer com mais continuidade; aporta um prazer de uma pureza e de uma estabilidade assombrosas; é a que depende menos de outros homens, enquanto que a virtude moral tem necessidade de outros como objetos de sua atividade; só ela parece ser amada por si mesmo, enquanto que as atividade práticas ? notadamente a maior delas, as ações do homem de Estado e do soldado ? tendem a bens que as ultrapassam; é o gênero de vida que devemos atribuir aos deuses, porque seria absurdo atribuir-lhes uma vida moral. Mas a vida contemplativa é demasiado elevada para nós; não podemos vivê-la enquanto homens, ou seja, enquanto seres compostos de corpo, alma irracional e de razão, senão somente em virtude do elemento divino que está em nós.
Seguindo o itinerário de David Ross, passemos agora, para a "Política". Esta começa com uma seção (I, 1.2) cujo objetivo primeiro é defender o Estado contra a teoria sofística. A sofística representava o Estado como existindo meramente por convenção, de modo que a exigência de lealdade de seus membros, cairia totalmente sem justificação. Aristóteles vai de encontro a essa representação, e busca, nesse empreendimento teórico esclarecer a natureza do Estado distinguindo-o de outras comunidades. Para realizar esse projeto, Aristóteles parte da proposição de que toda comunidade é formada em razão de algum bem. Nesse sentido, o Estado, que é a comunidade suprema e que abrange a todas as outras, deve tender ao supremo bem. Cito Aristóteles,
A observação nos mostra que cada Estado é uma comunidade estabelecida com alguma boa finalidade, uma vez que todos sempre agem de modo a obter o que acham bom. Mas, se todas as comunidades almejam o bem, o Estado ou comunidade política, que é a forma mais elevada de comunidade e engloba tudo o mais, objetiva o bem nas maiores proporções e excelência possíveis.
Essa linha de argumentação é identificada por Ross , como o ponto de vista teleológico adotado por Aristóteles, recorrente em todo seu sistema. Esse ponto de vista compreende a idéia de que a explicação das coisas não deve buscar naquilo a partir do qual foi desenvolvido, senão naquilo para o qual se desenvolvem, ou seja, a natureza de algo não se revela em sua origem, mas sim no seu destino. Segundo Ross:
A significação e a natureza de toda coisa no mundo, criatura vivente, instrumento ou comunidade, devem ser consideradas segundo o fim de sua existência. No caso de um instrumento, é um fim desejado por quem o usa, e a forma do instrumento está determinada por este fim imposto desde fora a sua matéria. No caso de uma criatura vivente ou de uma comunidade, o fim é imanente a coisa mesma; para a planta, é a vida do crescimento e reprodução; para o animal, a vida da sensação e do apetite, que se superpõe à vida vegetativa; para o homem e para a comunidade humana, a vida da razão e da ação moral superposta às outras duas.
Retomamos a questão principal: Por que e como os homens constituem a sua interação social? Para Aristóteles, a primeira forma de interação é muito espontânea, é a relação entre homem e mulher. Essa relação não é constituída pela escolha, mas pelo desejo, pré-determinado pela natureza. Para Aristóteles há dois instintos primários que levam os seres humanos a associar-se entre si, a saber, o instinto de reprodução e o instinto de conservação. A união entre o homem e mulher corresponde ao instinto de reprodução. Enquanto, a relação que envolve o senhor e o escravo cuja natureza é mais econômica, corresponde ao instinto de conservação. Essa esfera corresponde à forma de comunidade denominada família. Segundo Aristóteles, "a família é a associação estabelecida por natureza para suprir as necessidades diárias dos homens". Seguindo ao instinto de conservação, os homens unidos em famílias, formam uma comunidade mais ampla, denominada aldeia. Ou seja, a primeira sociedade surge, quando várias famílias estão unidas de modo que essa associação aspira a algo mais do que suprir as necessidades cotidianas. Aristóteles não especifica estas novas necessidades, mas depreende-se que se trata de uma maior proteção contra animais, feras, e contra outros homens, no caso de guerras. Também fica implícita a idéia de que em uma comunidade mais ampla, as necessidades humanas são mais variadas, de modo, que a vida pode ser algo mais que um mero viver. Percebe-se que toda comunidade se constitui com o fim de ser sustentável, de conservar a sua forma.
Segundo a Política, o terceiro grau de interação humana está constituído pela união de várias aldeias em "uma comunidade completa suficientemente grande para bastar-se ou quase bastar-se a si mesma, formada para assegurar o viver, mas que existe para poder viver bem." Tal é a diferença específica do Estado. Tem nascido pela mesma razão que a aldeia: para assegurar a vida. Mas satisfaz outro desejo: o desejo de viver bem. Temos aqui, a distinção entre mera vida, a zoé, e o viver bem, a bíos. A vida enquanto zóe é entendida como a vida meramente natural. Para os gregos antigos, a zoé significa a vida como o simples fato de viver, comum a todos os seres vivos (animais, homens ou deuses). Já a bíos significa a vida enquanto forma própria de um indivíduo ou de uma comunidade. A vida enquanto bíos é a vida social, a vida da pólis, a vida que possui qualidade política, onde o poder da palavra é exercido. Segundo Aristóteles, "o poder da palavra tende a expor o conveniente e o inconveniente, assim como o justo e o injusto. Essa é uma característica do ser humano, o único a ter noção do bem e do mal, a justiça e da injustiça. E é a associação de seres que têm uma opinião comum acerca desses assuntos que faz uma família ou uma cidade" .
Finalizamos discutindo a passagem 1278b, onde Aristóteles distingue os homens que se valem da vida comunitária para alcançar ou um bem subordinado, como o simples fato de viver; ou um bem elevado e supremo que é constituir uma vida melhor, uma vida justa. Cito Aristóteles,
O homem é, por sua natureza, como dissemos desde o começo ao falarmos do governo doméstico e do dos escravos, um animal feito para a sociedade civil. Assim, mesmo que não tivéssemos necessidade uns dos outros, não deixaríamos de desejar viver juntos. Na verdade, o interesse comum também nos une, pois cada um aí encontra meios de viver melhor. O viver segundo o bem é o fim supremo seja em comum para todos os homens, seja para cada um separadamente. Estes, porém, unem-se e mantêm a comunidade política até mesmo tendo em vista o simples viver, porque existe provavelmente uma certa porção de bem até mesmo no mero fato de viver (katà to zen auto mónon); se não há um excesso de dificuldades quanto ao modo de viver (katà ton bíon), é evidente que a maior parte dos homens suporta muitos sofrimentos e se apega à vida (zoé), como se nela houvesse uma espécie de serenidade (eueméria, belo dia) e uma doçura natural. Mas não é apenas para viver juntos, mas sim para bem viver juntos que se fez o Estado, sem o quê, a sociedade compreenderia os escravos e até mesmo os outros animais. Ora, não é assim. Esses seres não participam de forma alguma da felicidade pública, nem vivem conforme suas próprias vontades.
Como vimos, a cidade tem a sua origem no mero viver, ou seja, no impulso de satisfazer as necessidades dos homens. Mas, tem a sua finalidade, a sua razão de ser, o propósito de sua existência, a sua natureza, no viver bem. Aqui vemos que a natureza de uma coisa, para Aristóteles, não é determinada prioritariamente pela sua origem, mas sim pela sua finalidade. Nesse sentido, quando os sofistas defendiam que não havia nenhuma razão suficiente para que um indivíduo respeitasse as leis de uma comunidade política, porque tais leis haviam sido criadas por convenção e instituídas pela força da coação, eles buscavam sustentar esse argumento mais na origem do que no fim da existência de uma comunidade política. Para Aristóteles, o homem deve se integrar ao Estado para atingir o fim de sua vida, que é a virtude. Ora, "não é apenas para viver juntos, mas sim para bem viver juntos que se fez o Estado". Fora do Estado, o homem não passa de um animal como outros, de uma fera, perdida na barbárie, ou sujeita à dominação, à escravidão.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Trad. Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2004.
_____________ . Política. Trad. Therezinha Monteiro Deutsch e Baby Abrão. (Col. Os pensadores). São Paulo: Editora Nova Cultural, 2000.
_____________. Política. (trad. António C. Amaral e Carlos de Carvalho Gomes) Vega, 1998.
REALE, Giovanni. Introducción a Aristóteles. Barcelona: Editorial Herder, 1985.
ROSS, W. D. Aristóteles. 2ª Ed. Trad. Diego F. Pró. Buenos Aires: Editora Charcas.
TAYLOR, C. C. W.. Politics. In: BANNES, Jonathan. The Cambridge Companion to Aristotle. Cambridge: Cambridge University Press, 1995.




Autor: José Carvalho


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