A BUSCA DO PARAÍSO MITOLÓGICO PELAS CULTURAS INDÍGENA GUARANI E AFRO-AMERICANA



Raquel Pereira Bittencourt

Mestra em Teoria Literária pela Uniandrade / PR

Rua Antonio Olívio Rodrigues, 410 Curitiba / PR

Fone: (41) 3267-9211 / 9699-8315

raquelpbittencourt@yahoo.com.br


RESUMO

Este trabalho tem como objeto de estudo o nomadismo ou semi-nomadismo (na ótica do branco) ou migração (na visão do índio) da etnia tribal conhecida como Guarani, que tenciona buscar a "terra do sem mal" em comparação com o mito dos afro-descendentes oriundos do Caribe, Estados Unidos e América, sobre o "Africano Voador" e que pretendem, um retorno a África. Os mitos giram em torno do encontro da terra prometida, tanto por índios, quanto por afro-descendentes, porém com nomes e circunstâncias diferentes, mas com o mesmo ideal. O principal objetivo é demonstrar a aparente dicotomia entre os dois mitos e a ocorrência de modificação das características culturais do texto de partida em função dos interesses da cultura de chegada, que por sua tradição oral, foram se modificando com o passar dos tempos. A análise será realizada a partir dos pressupostos defendidos pelos escritores afro-descendentes e indígenas.

Palavras-chave: guarani, terra do sem mal, africano voador

ABSTRACT

This work takes the nomadic as an object of study or semi-nomadic (in the point of view of the white) or migration (in the point of view of the Indian) of the tribal etnia known like Guarani, which it intends to look for the "Land of without evil" in comparison with the myth of the afro-descendants originating from the Caribbean, the United States and America, on the "Flying African" and what intend, a return to Africa. The myths revolve around the meeting of the Promised Land, for Indians and for afro-descendants, however with names and different circumstances, but with the same ideal. The principal objective is to demonstrate the apparent dichotomy between two myths and the incident of modification of the cultural characteristics of the text of departure in function of the interests of the culture of arrival, which for his oral tradition, were if modifying in spite of spending the times. The analysis will be carried out from the presuppositions defended by the afro-descending and native writers.

Key words: Guarani, land of without evil, flying African


1.INTRODUÇÃO

Em princípio, os afro-americanos e os indígenas guaranis brasileiros, não teriam qualquer elo comunicativo, seja pelo ponto de vista religioso ou pelo aspecto lendário, não fosse a busca constante de um paraíso mitológico, localizado além mar e vislumbrado por esses dois povos distintos. Esses grupos étnicos têm alguma comunhão, apenas quando se fala de tribos indígenas africanas e tribos indígenas brasileiras, que são considerados como sujeitos autóctones (habitantes originais de determinado local). Mas, entre si e fora da cultura originária, tornam-se aparentemente diferentes e tão somente se unem novamente, através da mitologia.Também dentro de cada grupo, há várias etnias (tanto africanas, como indígena), pois diferentemente do que a maioria da sociedade externa acredita, ambas as culturas possuem diversidade etnológicas dentro de si mesmas. Para este artigo, falaremos especificamente de um povo indígena brasileiro, que são os guarani;do povo africano falaremos sobre o afro-americano. O primeiro por sua constante busca pela "Terra dos sem males", ou paraíso extra-terrestre e o segundo (oriundos do Caribe, Estados Unidos e América) pela busca de retorno a uma África mítica, através da lenda "O Africano Voador".

No século XIX, os Guarani Mbya aparecem na literatura com o nome genérico de Caingua ou Kayguá. Três grupos de guaranis descendem dos Kaiguás que são os - mbyá, xiripá e paim. Na época da colonização escapam dos jesuítas e conservam sua autonomia ao se estabelecem num território que, durante muito tempo, permanece inacessível. Daí a denominação de caaiguás ou cainguás ("gente da floresta") que lhes foi atribuída.A história dos guaranis, remonta ao século XVI e carregam o estigma de "índios aculturados" em virtude do uso de roupas, bens e alimentos industrializados. A sociedade externa os considerou por muito tempo, índios errantes ou nômades, estrangeiros (do Paraguai ou Argentina). Avessos em brigar por terra, a idéia que foi difundida entre os brancos, foi que eles não precisavam de terra, pois nem "lutavam" por ela. Dessa forma, os interesses fundiários e econômicos especulativos foram favorecidos e descaracterizou-se a ocupação territorialGuaraninegando-lhes, sistematicamente, o direitoterra.

Através de dados levantados na última década, o povo guarani no Brasil (e fora dele), divide-se em quatro sub-grupos:os Kaiowá ou Kaiuá no Mato Grosso do Sul, os Nhandeva ou Avá Guarani no Mato Grosso do Sul e Oeste Paraná, os Mbyá no Paraguai, Norte da argentina, Uruguai, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Espírito Santo e Pará e Tupi-Guarani no oeste e no litoral paulista. Existe uma dificuldade relativa em quantificar os Guarani, porque para eles não existem fronteiras, e portanto, estão sempre numa intensa mobilidade visitando parentes, fazendo intercâmbios entre si, casamentos e rituais. A rede de parentesco é imensa e se estende por todas essas regiões, pois na concepção deles, as fronteiras foram inventadas pelo branco (Juruá) e para eles, todos são guaranis independentemente de estarem no Brasil ou fora dele. Para preservar suas tradições e se relacionarem com a sociedade dominante, os Guarani foram tolerantes e diplomáticos, mesmo que perseguidos cultural e fisicamente, garantindo a continuação dos costumes e tradições, além de reprodução da etnia. Em relação ao idioma, o Guarani pertence a família Tupi-Guarani do tronco lingüístico tupi. No Brasil não houve continuidade da língua geral, mas no Paraguai o Guarani ainda hoje é uma língua oficial, paralela ao Espanhol. A transmissão oral é o método mais utilizado na educação das crianças, na divulgação de conhecimentos e na comunicação interna entre aldeias, constituindo-se o mais forte elemento de sua identidade (manter o idioma vivo e pleno). Atualmente existem poucos representantes guaranis, que falam português com certa fluência e poucos escritores que se aventuram a contar a mitologia guarani de uma forma mais eloqüente. Os velhos, mulheres e crianças na maioria são monolíngües.A forma escrita na realidade é um fenômeno recente (1980) e foi sendo introduzido gradativamente desde 1997, com a implantação de escolas bilíngües e da criação de Núcleos de Educação Indígena, vinculados ao MEC.

Sobre os afro-descendentes, Stuart Hall explica que, no continente onde tudo se originou"...o termo "África" é, em todo caso, uma construção moderna, que se refere a uma variedade de povos, tribos, culturas e línguas cujo ponto de origem comum situa-se no tráfico de escravos" (2003, p. 31). Os africanos de um modo geral foram dispersos em quase todos os locais do globo, mais ou menos entre o século dezesseis até o século dezenove. Como escravos, chegaram primeiramente ao Caribe, depois foram dispersos para a América do Norte e depois para a América do Sul, onde o Brasil se destacou. O inicio da colonização dos Estados Unidos, se deu em 1619, quando os primeiros afro-descendentes chegaram a Jamestown. Stuart Hall e muitos outros teóricos empregam o termo diáspora, para definir esta dispersão dos negros pelo continente, um termo emprestado dos escravos judeus bíblicos, que foram escravos no Egito.Geralmente a diáspora simboliza a expulsão violenta de um determinado grupo da terra natal, em que um sonho de retorno para a terra-mãe se estabelece e um esforço da coletividade em adaptar-se a cultura do colonizador, através de várias gerações, apesar das diferenças que a própria diáspora exerce sobre o grupo, no que concerne a religião, etnia e raça da pátria que os recebeu. Desta problemática deportação e escravidão da África para muitos continentes, surgiram os afro-descentes que em um primeiro momento, tornou-se um povo subjugado ao branco. Houve muitos os que rejeitaram essa submissão, mas a maioria assimilou os costumes europeus.

Ao discutirmos o que é ser afro-descendente, Appiah, escritor negro diz "(...) essa identidade é de um tipo que devemos continuar a reformular. Ao refletir sobre como havemos de reformulá-la, seria bom nos lembrarmos de que a identidade africana é, para seus portadores, apenas uma dentre muitas" (Appiah, p. 246).O que o escritor nos diz é que, os povos se tornaram mestiços e, portanto, das várias etnias que se misturam, ser afro-descendente é apenas mais uma identidade no meio da diversidade em que se encontram. Ou seja, os negros ao chegarem em outras terras, começaram aformar uma outra identidade, ao se misturar, quer por pressão ou por vontade própria,criando um povo duplo em si mesmo. O afro-descendente independente do país em que esteja, além de africano, é o produto da adição também,do povo que se misturou a ele.

Entretanto, para os antigos africanos e consequentemente para os filhos destes, o retorno ao antigo continente de onde foram brutalmente arrancados, sempre esteve em suas memórias. A aspiração de alguns era tão forte, que formularam lendas e mitologias, que aparentemente nada tem haver com as dos índios, no entanto, veremos a seguir, que estes povos neste quesito se aproximam de uma forma bastante singular.

2.DOIS POVOS DIFERENTES:ASPIRAÇÕES SEMELHANTES

2.1. O guarani e a busca da terra dos sem males (Yvy marã ey)

Yvy mara ey, significa "Terra dos sem males" ou "Terra do sem mal" em português, que segundo a lenda, nesta terra não haveriam doenças e muito menos guerras.Na tentativa de preservar sua cultura e manter a tradição, o Guarani tem seu "nanderekó" (modo de ser) e a sua obstinada procura da Terra do sem mal. Os pajés foram predominantemente os divulgadores e articuladores do movimento para alcançar a terra dos sem males, e se tornou um dos principais instrumentos de resistência do povo guarani, contra as colonizações portuguesa e espanhola. Por ser um povo de tradição oral (como a maioria dos indígenas), a historicidade torna-se sinônimo do imaginário, para criar respostas coerentes a existência do grupo.Não se tem exatamente a solução exata para o encontro dos índios que aqui estavam, antes do descobrimento. Segundo Von Martius "... os ancestrais dos Guaranis teriam descido dos Andes em direção à planície oriental" (in Engel 1987, p. 98). Desde os primórdios da humanidade, os índios se deslocam de um lugar ao outro, firmando uma imagem entre os brancos de nômades e como vimos, para o índio essa máxima é falsa, porque não há fronteiras para eles. Essa infinita movimentação indígena, tem por objetivo a busca pelo paraíso terrestre (Terra dos sem males), que é comentada em muitas literaturas desde o século XIX, até os nossos dias. Não se sabe ao certo, se esse povo teve influência pagã oriental ou se sofreram influências religiosas cristãs ocidentais para a concepção dessa idéia, entretanto, o fato é que, os movimentos migratórios desse grupo, sempre foi voltado para o leste onde, segundo sua mitologia, ao atravessarem o mar, encontrariam a Terra do sem mal.

Mas como chegar até essa tão sonhada Terra do sem mal? Segundo Curt Nimuendaju Enkel "... esperaram a salvação do ameaçador fim do mundo, através da fuga para a "Terra do sem mal"". (1987, p. 95). O medo de uma inundação de proporções monumentais, profetizadas pelos xamãs, fazia com que migrassem do interior para as orlas marítimas. E ainda, conforme relato do autor, os pajés portadores da vontade divina, diziam que "tornar o corpo leve mediante o jejum e a dança, com que este pode ascender ao zênite e ingressar no paraíso pelos portais celestes (yváy roquě), e chegar a Ňanderyqueŷ" (idem p. 97). Ou seja, através da dança e do jejum, transcenderiam o nível material e iriam para o plano espiritual.

2.2.O africano e o retorno ao lar

Assim como os indígenas, os africanos tinham em mente, mitologicamente falando, um retorno ao lar, que se localizava além mar, um desejo inconsciente de retorno para o país de onde foram arrancados, escravizados e usurpados de seus direitos como seres humanos. Neste ponto, as lendas dos índios guaranis intertextualizam e se assemelham com as lendas dos africanos. No texto de Wendy W. Walters "The legend of the Flying Africans and Diasporic consciousness"[1] é discutidaa lenda do africano voador.Há uma série de fatos que ligam esses dois povos concernente à resistência ao opressor, ficando patente, o porquê de muitas tribos indígenas e negros fugidos, fundarem tantas comunidades em conjunto, na época do Brasil colônia. Nos quilombos existentes na atualidade, muitos descendentes deíndios e negros convivem tranquilamente e originaram uma terceira miscigenação do povo, chamada cafuzo.

Entretanto, no caso especifico dos afro-descendentes, existe uma dualidade (dupla consciência de Dubois) em suas personalidades. O afro-descendente americano é africano, mas também é americano. Tratando-se da questão de retorno as origens, que remete diretamente a África, se faz um questionamento sobre a percentagem de África como terra materna, existente em cada descendente. Há uma grande diferença entre os africanos que foram capturados diretamente na África , os que mantinham a memória de "casa" dos escravos que nasceram em outros solos e os descendentes. O artigo de Walters tenta reavivar nos descendentes, a memória da lenda criada pelos africanos ancestrais, que vieram morar antes deles, em solo americano. No inicio do artigo de Walters, pode-se notar uma parte de um hino evangélico que diz "One of these mornings, bright and fair, take my winds and cleave the air" [2], uma alusão indiretamente a lenda do "Africano Voador" baseada na oralidade e conservada em hinos evangélicos (gospel), cujos ritmos são clássicos negros: blues ou jazz. Em relação aos indígenas, há uma aproximação de um modo geral , no que diz respeito a historicidade ser totalmente baseada nos contadores de história anciãos. Estes passam os ensinamentos adiante através da narração dos mitos e fatos acontecidos no passado e mantém a tradição da procura da "Terra dos sem males".

2.3. A fusão mitológica de dois diferentes

Existem dois aspectos interessantes entre as duas etnias, aqui mencionadas. O primeiro deles é alcançar o paraíso em vida através de um vôo mágico de um ou mais elementos da comunidade. Alguns guaranis acreditavam que conseguiriam andar por sobre o mar, mas outros, acreditavam que toda a comunidade seria "arrebatada" até a terra do sem mal. Curt Nimuendaju transcreve a fala de um guarani , que contava

(...) erguiam uma casa de dança e começavam seriamente a dança com o objetivo de atingir o "Yvy Mara ey" através da água. Então nosso pai caminha por cima (pelo ar), seus discípulos seguem pela terra e a água está seca para eles (...); outros, acreditavam que, uma vez que o corpo tivesse ficado suficientemente leve, eles se elevariam juntamente com o seu líder ou mesmo com toda a casa de dança e desceriam no Yvy Mara ey" (1987 p. 103).

Geralmente, quando uma história é recontada, há uma certa variação entre as narrativas, em decorrência do período de tempo do acontecido, do espaço e do local. Portanto, é claro que em cada lugar ocupado por guaranis ou mesmo por africanos, as histórias contadas na oralidade, tendem a mudar.Como no caso da lenda do africano voador, segundo Walters, existem mais de vinte e sete variantes desta lenda, mas a essência é a mesma, voltar para a África voando através das palavras mágicas "Kum...yali, kum buba tambe" (1997, p. 03). O segundo aspecto interessante entre os dois povos é que para se conseguir chegar ao paraíso voando, é necessário abster-se de comer sal. No caso dos guarani, muitos perderam a esperança de conseguir chegar até a Terra do sem mal , porque

Longe de duvidar da existência deste paraíso e de considerar que o fato impossível em si, eles explicam sua limitação argumentando que seu corpo adquiriu um peso invencível devido ao consumo de alimentos europeus (sal, carne de animais domésticos, cachaças, etc) bem como pelo uso de vestimentas européias. O ultimo que não só pregava aos seus discípulos abstinências dessas coisas, como ele próprio não as consumia, foi o pajé Guyracámbi. (in Unkel, C. Nimuendaju, 1987. p. 104).

Porém como o próprio Niemuendaju diz, muitos deles ainda crêem que possam chegar até a Terra do sem mal e lá comerão apenas pão doce, milho e bananas amarelas.Egon Schaden narra a Terra do sem mal da seguinte forma "... os Guarani imaginam a Terra sem males como terra ideal, em que se realizam os desejos que neste mundo não são satisfeitos" (1974, p. 161). Este estudioso classificou a lenda dentro de cada sub-grupo guarani, com suas várias nuanças, e pela extensão da pesquisa do escritor, sugerimos que os leitores adquiriam um exemplar do livro , no qual nos baseamos para fazer esta análise.

Para o africano a ingestão do sal, significa perder o poder de retornar a África voando. Walters cita vários autores da Jamaica, Caribe, Estados Unidos entre outros e afirma "All of these tales involve abstinence from salt"[3]. Ou seja, para muitos dos autores não comer sal, significa ter o poder através das palavras mágicas, de conseguir voar e retornar para a África. Essa lenda ficou tão arraigada na mente dos africanos , que o autor citaMontejo para descrever a força deste mito "It was living men who flew (back to África) from a tribe the Spanish stooped importing as slaves because so many of them flew away that it was bad for business"[4] (in Walters, 1997. pg. 03).

Para finalizar o pensamento em relação as semelhanças entre esses povos, há de se fazer uma observação nesta negativa por alguns deles em não comer sal, a de não se tornarem brancos e a resistência em permanecer nas origens. Walters cita Schuler em seu artigo "to become too much like Europeans. So in Jamaica to resist eating salt may have been a metaphor for resistance to foreign ways (including Christian conversion). Thus, only those who were faithful to African aways were worthy to return to Africa"[5] (Schuler in Walters, 1997, pg. 03 ).Ou seja, não comer sal era não esquecer das origens e esse pensamento se estende também aos indígenas, que até os dias atuais, alguns deles resistem em não comer comida de branco.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os guarani são dos indígenas, o povo mais estudado por antropólogos, historiadores e estudiosos em geral. Tidos como nômades, o que ocorre de fato é a cultura que esses povos têm de transitar entre suas comunidades procurando o ajustamento de alianças políticas, casamentos entre outros.Essa intensa movimentação do povo Guarani dificulta sobremaneira, a integração cultural do grupo.O resultado, segundo Schadené "a diversidade dos dialetos, das crenças e práticas religiosas, de constituição psíquica e mesmo da aparência fisica (que) serve de motivo para cada bando afirmar a todo o momento a sua pretensa superioridade sobre os demais" (1974, p. 1). Porém esta é uma visão do branco em relação ao índio, interessante é saber a visão do índio de si mesmo e de sua comunidade, como nos relata Manzatti , transcreve depoimento do índio Roque Timóteo à antropóloga Maria Dorothea Post Darella

Uma pessoa do povo guarani não tem na cabeça os mesmos conceitos que o juruá, daí a necessidade de se ter clareza da cosmovisão desta etnia. Para um Guarani é absolutamente incognoscível a idéia de fronteira. Eles não se dizem gaúchos, catarinas, paranaenses, paulistas, capixabas, matogrossenses, uruguaios ou bolivianos. São Guarani e circulam por Ywy Rupa, como eles denominam o território Guarani. "Para você eu nasci no país Argentina. Para mim não, para mim não tem só um Paraguai, tudo isso aqui é mundo Paraguai. Tudo é Paraguai, porque nós não temos bandeira, não temos color [cor]. E para mim Deus deixou tudo livre, não tem outro país. Tem Paraná, tem quantas partes o Rio Grande. Do outro lado já é outro país, mas para mim não tem outro país, é só um país. Quando uma criança nasce aqui no Brasil, nasce lá no Paraguai. Quando nasce no Paraguai, ela nasce aqui também. Só um país. É igual. (...) Compreender isso é entender a alma Guarani. (2007, p. 03).

Entretanto os Guarani,no momento, apesar das não fronteiras, concentram-se em ter seu lugar para que possam viver, mantendo sua tradição, religião, leis, cultura, comportamento e costume. Vivem em aldeias demarcadas pelo governo e ainda continuam tutelados por este. Para não perderem as lendas de narrativa oral, os dois povos estão tendo espaço para externizar anos de privação, na atualidade, onde os estudos de alteridade (da relação com o outro), estão cada vez mais arraigados entre as academias. Com essa abertura para a cultura dita "periférica" e "hibrida", as literaturas indígenas e africanas, conseguiram se inserir como uma outra vertente nos espaços que antes eram apenas das culturas "eruditas", permitindo voz aos que antes eram oprimidos.

Muitos escritores africanos como Toni Morrison, Paule Marshall e Stuart Hall, encabeçam essa nova transformação na literatura canônica afro-americana e no Brasil em especial, Olívio Jekupé (Guarani), Eliane Potiguara (Potiguara), Daniel Munduruku (Munduruku), entre outros, têm conseguido levar adiante a fala dos indígenas no geral.

Se faz necessário então, a reflexão em termos humanos, no que consiste em repensar as diferenças e preconceitos. Somos realmente tão diferentes assim?

REFERÊNCIAS

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Autor: Raquel Bittencourt


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