Os Versos Satíricos De Gregório De Matos E Tobias Barreto: Uma Visão Do Barroco E Do Realismo No Brasil



OS VERSOS SATÍRICOS DE GREGÓRIO DE MATOS E TOBIAS BARRETO: UMA VISÃO DA SÁTIRA NO BARROCO E NO REALISMO

PEREIRA, Marcos José Santos.

Mj52@bol.com.br

SANTOS, Josane Cristina Batista. (Orientadora)

Graduada em Letras e História, Mestre em Literatura Brasileira, Profª dos Cursos de Letras-Português e História da Universidade Tiradentes – UNIT

Resumo

O estudo do tema Os versos satíricos de Gregório de Matos e Tobias Barreto: Uma visão da sátira no Barroco e no Realismo tem como objetivo mostrar a sátira mediante o ponto de vista de Gregório de Matos Guerra e Tobias Barreto, como também as influências sofridas por eles, o foco de suas poesias, quem são os elementos inspiradores deste tipo de verso e mostrar um pouco do percurso da sátira de Roma ao século XIX. Tendo como principais referenciais teóricos A sátira e o engenho, de Adolfo Hansen e Dias e noites de Luiz Antonio Barreto, utilizando o primeiro para fazer um estudo diacrônico da sátira e o segundo como fonte de poesias para fazer uma comparação com versos de Gregório de Matos para verificarmos a existência ou não de similaridade.

OS VERSOS SATÍRICOS DE GREGÓRIO DE MATOS E TOBIAS BARRETO: UMA VISÃO DA SÁTIRA NO BARROCO E NO REALISMO.

Duas escolas distintas, o Barroco e o Realismo estão presentes na obra de Tobias Barreto de Meneses e Gregório de Matos e Guerra sucessivamente. Este, filho da fidalguia portuguesa, aquele filho de um alferes da Vila de Campos em Sergipe. O estudo deste tema Os versos satíricos em Gregório de Matos e Tobias Barreto tem como objetivo analisar a produção literária talhada no Nordeste no período Colonial, em Gregório de Matos, e no Império, por Tobias Barreto, fazendo uma analogia entre os versos para que se perceba até que ponto há uma similaridade e/ou distinção poética entre os dois pólos.

Serão analisados os contextos históricos dos dois momentos, o século XVII que foi marcado pela Escola Literária Barroca e o século XIX com o Realismo-Naturalismo. O estudo será desenvolvido através dos métodos dialético e comparativo, apoiando-se em pesquisa bibliográfica em livros, Internet e periódicos com o propósito de endossar o pensamento de Silvio Romero, quando se refere a Tobias Barreto como sendo o Gregório de Matos pernambucano. Far-se-á também um levantamento das influências intelectuais sofridas pelos dois satíricos e, em seguida, uma conclusão acerca do que foi apresentado.

Este estudo se justifica pelo fato das universidades pública e privada no nosso Estado não valorizarem escritores locais, o que denuncia um certo descaso nesse sentido. No caso de Tobias Barreto não encontramos nenhuma catalogação de monografias e trabalhos científicos no ramo das Letras, sem contar com a dificuldade de se encontrar material acerca deste autor sergipano, Patrono da Cadeira 38 da Academia Brasileira de Letras, jurista, filósofo, ensaísta, crítico. Dentre outras funções exercidas ao longo de sua existência, abraça também a causa abolicionista e a Proclamação da República com o seu ideário de liberdade. No outro lado encontramos Gregório de Matos considerado o precursor da literatura extremamente brasileira, com suas críticas ferrenhas à sociedade baiana do século XVII. Portanto, o primeiro passo para a análise dos versos é contextualizarmos historicamente as duas épocas para que entendamos a analogia que será feita adiante.

A estética barroca surge no momento em que a Companhia de Jesus em nome da luta pela Contra-Reforma é favorecida pela unificação da Península Ibérica permanecendo como reduto da cultura medieval, enquanto a Europa vive uma efervescência no campo científico influenciada por Francis Bacon, Galileu, Kepler e Newton. A Espanha foi o principal foco irradiador desse estilo literário. No contexto brasileiro, o Barroco surge concomitantemente com a presença cada vez mais forte do comércio, das modificações que aconteceram no Nordeste por conta das Invasões Holandesas, com o apogeu e o declínio do cultivo da cana-de-açúcar. Nesse frenesi de acontecimentos nasce na Bahia, "o Boca do Inferno" que, após formar-se em Direito na cidade de Coimbra, retorna à cidade natal onde divulga suas sátiras, mas ao chegar no Brasil escreve também a poesia religiosa e a lírica. Durante a época que viveu na Europa sofre a forte influência dos espanhóis Luis de Gôngora e Quevedo. Estes responsáveis pelos dois estilos literários do Barroco, o Cultismo e o Conceptismo respectivamente. Um marcado pelo jogo de idéias, de conceitos, racionalista utilizando uma retórica aprimorada, é também chamado de Quevedismo. O outro é caracterizado pela linguagem culta chegando a ser extravagante, valorizando o pormenor mediante o jogo de palavras, o Gongorismo. Dentro deste cerne, o homem seiscentista para evadir-se das tensões cultua exageradamente a forma fazendo uso freqüente das figuras de linguagem como a metáfora, a antítese, a hipérbole e a alegoria, fazendo com que a poesia da época fique sobrecarregada de conotação. Evidenciando assim na Europa uma espécie de efervescência literária em torno desta escola surgindo várias denominações, Gongorismo (Espanha), Marinismo (Itália), Eufuísmo (Inglaterra), Preciosismo (França) e Silesianismo (Alemanha).

Já a estética Realista surge em oposição ao Romantismo que até então estava em voga, analisando fortemente o caráter humano e o critica veementemente. A Europa da segunda metade do século XIX sofre profundas transformações sociais por conta da 2ª fase da Revolução Industrial, como também pelo desenvolvimento do pensamento científico e a difusão das doutrinas filosóficas e sociais, tendo como representantes Hegel, Haeckel, Comte, Marx, Engels e Darwin. O Realismo no Brasil se dá no final da década de 1860: na poesia contrapõe-se ao padrão Romântico na forma, pois exige rigor em oposição ao verso espontâneo tão praticado pelos românticos. Defendendo o princípio da arte pela arte, não toma como temas questões voltadas para o social. Já na produção romanesca há toda uma representatividade da realidade político-social do Brasil. Em 1870, Tobias Barreto e outros intelectuais da época fundam a chamada Escola do Recife influenciados pelas idéias disseminadas na Europa: o Positivismo, o Evolucionismo e a filosofia alemã, esta última influenciando totalmente o sergipano. O Brasil vive um momento delicado em torno das questões abolicionistas, da crise da monarquia, do ideal republicano e da Guerra do Paraguai. Todas estas servindo de mote para a elaboração dos versos satíricos de Tobias Barreto. O Realismo apresenta suas características em total consonância com o momento histórico em que está envolvido este movimento literário surgindo assim o objetivismo, o não-eu, o universalismo, o materialismo, o presente, o contemporâneo, o determinismo, o cientificismo, são antimonárquicos, antiburgueses e anticlericais, todos estes aspectos se opondo ao Romantismo. Isto posto, faz-se então necessário traçar aqui um estudo sobre a sátira a fim de entender o seu percurso histórico e como esta se faz presente na produção poética de Gregório de Matos e Tobias Barreto.

A sátira é um estilo literário que ridiculariza as pretensões humanas ou expõe os males sociais e foi cultuada pelos poetas romanos Juvenal e Horácio, tornando-se popular na Europa dos séculos XVII e XVIII. É perceptível que seu efeito tanto dependia do intelecto quanto das emoções de quem as escrevia para serem eficazes. Valendo-se dessa técnica, os dois escritores supracitados denunciaram, de forma veemente, acontecimentos da época que iam desde a maledicência de uma senhora aos vitupérios que envolviam as classes políticas e a igreja.A sátira foi também bastante utilizada na cultura trovadoresca que surgiu entre os séculos XI e XII, data provável da Canção da Ribeirinha, considerado o mais antigo texto em galego-português. Como forma de evidenciar de forma cômica o momento histórico que caracterizava o período em questão a partir da dicotomia política x religião. Os textos eram acompanhados de música, surgindo assim as cantigas satíricas que se dividiam em cantigas de escárnio e cantigas de maldizer. Esta se caracterizando por uma linguagem objetiva e sem disfarce algum chegando até a utilizar palavrões, aquela se caracterizando pelo sarcasmo, a zombaria e uma linguagem de sentido ambíguo. Com isso o satírico joga com a dupla hierarquia do seu ponto de vista. Segundo Adolfo Hansen em 1989 apropriando-se da retórica de Quintiliano, Cícero e Aristóteles; predominam na poesia de Juvenal; cantigas de escárnio e maldizer. Tal estilo está bem representado no Cancioneiro Geral, e na produção literária de Resende; Camões, Suárez, Melo, Rodrigues Lobo, Grácian, Saavedra Fajardo, Quevedo, Gôngora, Botero e Tesauro.

O aspecto diacrônico da sátira se reflete em duas vertentes, ora como reflexo realista, ora como ressentimento e oposição, qualificando-a como uma prática discursiva crítica. Nesse sentido, a poesia barroca do século XVII é um estilo, levando em consideração a concepção romântica do poético como expressão de cunho positivista, sendo conseqüência de uma lei natural com um caráter de linguagem teológico-política.

A sátira na Península Ibérica chegaa ser considerada uma koiné e potencializa-se como um dispositivo de caráter altamente crítico às maneiras, morais e a boa política. Valendo-se de figuras de linguagem como a metáfora e a antítese criam um gênero literário engenhoso que também ensina algo por alguma teoria da catarse, abrindo-se para o público e para o distante tendo como preceito a idéia de que o receptor reconheça o apelo racional da caricatura, pois esta nada mais é que uma convenção. No entanto, obedece a regras precisas que a fazem funcionar, inspirando-se no fundamento jurídico do direito canônico.É importante frisar que a sátira nasce na oralidade de poetas maldizentes e vai para escrita como registro de uma evocação da fala de outrora que era feita a partir de uma inspiração vinda das ruas, da casa, dos palácios.

No século XVII,Gregório de Matos aterroriza a sociedade baiana com a sua lira maldizente não deixando escapar nada que lhe interessasse ridicularizar: a freira, a jovem donzela, a senhora, o governador, os senhores de engenho, a escrava, enfim toda a estrutura social da época. Este mazombo, ou seja, filho de portugueses nascidos no Brasil, utilizou a sua cultura adquirida na Europa para fazer escárnio na Colônia de maneira acentuada com seu lirismo ferrenho e peçonhento que aterrorizava todo aquele que tivesse um pouco de dignidade. Segundo Adolfo Hansen na obra A sátira e o engenho, Gregório de Matos soube fazer emergir ou evidenciar uma dupla temporalidade, a das regras de funcionamento dos poemas conforme um lugar e um trabalho nele produzido, e a das regras de funcionamento desta escrita que, produzida num lugar institucional para um fim predeterminado, recusa-se a trabalhar com o romântico.

Cerca de três séculos depois surge a figura de Tobias Barreto que se fez influenciado pela sátira gregoriana no seu sentido lato, sendo contagiado pela febre de não calar diante da realidade que assolava Pernambuco na época, mais precisamente na cidade de Escada onde foi profundo defensor dos oprimidos na função de Juiz Provincial. Imbuído pelo ideal da trilogia francesa Igualdade, Fraternidade e Liberdade fez discursos enfurecidos em prol dos explorados pelas classes dominantes.

Os versos satíricos dos dois poetas têm as suas peculiaridades no que diz respeito ao conteúdo formal e estético. No entanto, em termos semânticos se assemelham por demais, haja vista terem o mesmo propósito que é a denúncia, o escárnio, o maldizer e até mesmo um tom conscientizador para o leitor mais atento produzindo um efeito mais forte que os sermões do Padre Antônio Vieira. Poetas das reprovações, Gregório de Matos e o Dr. Tobias Barreto fizeram uma poesia onde a subjetividade se prevalece do real, suas rimas assemelham-se com o martelo do juiz no ato de anunciar a sentença do réu. Este não tinha direito à defesa, pois na visão do mazombo e do mulato o tom mais alto seria dado pelos seus quereres e não pela camada social vigente em suas épocas.

De acordo com o estudo em questão, se faz necessário salientar que os versos tobiáticos têm uma forte influência do mazombo Gregório com sua língua mortal e incisiva como as presas de uma serpente pronta para atacar a quem lhe desagrada.

A sátira barroca fundamenta-se na crítica de costumes. A partir desta característica, também podemos analogamente atribuir um caráter de prudência, pois se deve levar em consideração o momento histórico em que este gênero está enquadrado para observarmos mais amiúde a relação do claro e o escuro, que nada mais é que uma ponderação judiciosa e sombra do gosto confuso. Com isso, no século XVII encontramos vários paradigmas. No entanto, gira em torno do direito, da ética e da religião constituindo assim o código que determina o que é evento, sendo que esse código é operado binariamente como branco x não branco, católico x herege, discreto x vulgo, fidalgo x plebeu, livre x escravo entre outros. Assume ainda um caráter delator a sátira inspirando-se nas técnicas inquisitoriais católicas do Santo Ofício, caracterizando assim uma aversão ao laicismo da população sem contar que esta prática é notada também na lei do direito divino dos reis, confundindo política e religião.

Após essas considerações sobre a sátira, será feita uma análise de alguns poemas dos autores em questão e, em seguida se fará uma comparação para que sejam observadas as similaridades e/ou distinções entre Gregório de Matos e Tobias Barreto.

Os versos satíricos de Gregório de Matos tratam de assuntos que envolvem a sociedade baiana do século XVII onde este poeta fez suas produções com base em aspectos de seu cotidiano, tratando de religião, sociedade, filosofia, elegia entre outros. Faz-se necessário observar os seus sonetos, vejamos: Poema a um estudante.

Mancebo sem dinheiro, bom barrete,

Medíocre o vestido, bom sapato,

Meias velhas, calção de esfola-gato,

Cabelo penteado, bom topete.

Presumir de dançar, contar falsete,

Jogo de fidalguia, bom barato,

Tirar falsídia ao moço do seu trato,

Furtar a carne à ama que promete.

A putinha aldeã achada em feira,

Eterno murmurar de alheias famas,

Soneto infame, sátira elegante.

Cartinhas de trocado para a Freira,

Comer boi, ser Quixote com as Damas,

Pouco estudo, isto é ser estudante.

Pode-se observar a estrutura camoniana evidenciar-se em sua forma plena, uma construção com dois quartetos e dois tercetos com rimas interpoladas ABBA, ABBA, CDE e CDE, com uma métrica regular, onde o poeta utiliza a subjetividade para relatar a vida de um estudante, provavelmente da cidade de Salvador corroborando o grau de dependência em que se encontra um discente em meio às tentações da carne. Quando se refere à "putinha aldeã achada na feira", "cartinhas trocadas para a Freira" e "comer boi, ser Quixote com as Damas", notamos o caráter promíscuo da sexualidade dado por este poeta um sentido pejorativo e sarcástico à figura da mulher para um estudante comparando a prostituta da feira com a freira e a dama. É importante frisar a presença de metáforas no texto, fazendo com que as idéias sejam passadas de forma primorosa e coerente. No primeiro terceto, a malícia satírica é observada quando utiliza a expressão "comer boi", deixando uma dupla possibilidade de leitura, podendo ser o ato de degustar uma carne bovina em uma refeição, como também evidenciar uma certa perversão sexual. Em um único soneto ele faz uma crítica à prostituição das mulheres em feiras livres com o propósito de obter dinheiro, a promiscuidade das freiras com os estudantes e a jovem dama que não mede esforços em satisfazer aos estudantes.

Em seguida analisar-se-á soneto denominado A Jesus Cristo Nosso Senhor:

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,

Da vossa alta clemência me despido;

Porque, quanto mais tenho delinqüido,

Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,

A abrandar-vos sobeja em um só gemido:

Que a mesma culpa, que vos há ofendido,

Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada

Glória tal e prazer tão repentino

Vos deu, como afirmais na Sacra História:

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,

Cobrai-a; e não queirais, Pastor Divino,

Perder na vossa ovelha a vossa glória.

No soneto acima, o poeta ataca de forma maciça e violenta a igreja afirmando todo o seu descrédito nesta Instituição religiosa. Com relação à métrica do poema estaé irregular:os dois quartetos são compostos por versos brancos, ou seja, não há combinação de sons entre versos, no entanto, nos dois tercetos que seguem percebe-se a presença da rima cruzada. Utiliza-se também de antíteses, formando contradições claras logo no primeiro quarteto, deixando claro que não precisa da clemência do onipotente, pois com a sua transgressão ele perdoa Jesus, tirando do onipotente toda a sua autoridade ao mesmo tempo em que o desafia. Com esse ataque direto a Igreja o poeta atesta uma espécie de aversão aos seus dogmas quando em tom irônico afirma:

"como afirmais na Sacra história". Ele põe indagações acerca do poder de perdão que Jesus pode oferecer, chegando a chamá-lo de forma enfática de Pastor Divino, e com toda a sua arte de escrever e argumentar com a palavra-veneno atesta que é a verdadeira personificação do pecado. Com relação à sátira social eis o exemplo:

Se Pica-flor me chamais,

Pica-flor aceito ser,

mas resta agora saber,

se no nome que me dais,

meteis a flor, que guardais

no passarinho melhor!

Se me dais este favor,

Sendo só de mim o Pica,

e o mais vosso, claro fica,

que fica então Pica-flor.

Esta décima foi escrita por Gregório de Matos para satirizar uma freira que não gostava dele. Observa-se que estes versos têm um tom erótico, pois o poeta utiliza expressões que remetem ao ato de cópula. Tratado pela freira por "Pica-flor" o mesmo diz aceitar a alcunha desde que esta tenha um lugar para guardá-lo, se ocorrer tal possibilidade permite que ela assimo chame.

Após ser feita a análise de alguns versos de Gregório de Matos, se fará agorauma leitura de alguns versos de Tobias Barreto. É necessário se fazer uma análise do soneto Ignoramibus,de cunho filosófico, para podermos entender a sátira tobiática.

Quanta ilusão!... O céu mostra-se esquivo

E surdo ao bardo do universo inteiro...

De dúvidas cruéis prisioneiro,

Tomba por terra o pensamento altivo.

Dizem que o Cristo, o filho de Deus vivo,

A quem chamam também Deus verdadeiro,

Veio o mundo remir do cativeiro,

E eu velo o mundo ainda tão cativo!

Se os reis são sempre os reis, se o povo ignavo

Não deixou de provar o duro freio

Da tirania, e da miséria o travo,

Se é sempre o mesmo engodo e falso enleio,

Se o homem chora e continua escravo,

De que foi que Jesus salvar-nos veio?...

Segundo uma crítica feita por Mário Cabral no livro de poesias de Tobias Barreto intitulado Dias e noites, o soneto acima é um dos mais belos da literatura devido a sua urdidura, técnica perfeita, pela rajada de pensamento, pela profundeza grandiosa do conceito e pelo argumento logístico de que se reveste. Os versos do poeta são frutos de sua espontaneidade, prezando pelo rigor formal da poética. Era amante do verso branco e com seus quatorze versos denuncia a relação explorado x explorador no século XIX, maisprecisamente no ano de 1880, época na qual as questões acerca da abolição da escravatura eram bastante debatidas, principalmente pelos intelectuais que pretendiam acabar com a dependência da metrópole, proclamar a República e libertar os escravos. Nota-se que os versos de Tobias Barreto estão impregnados de ideais libertários. Em seguida será feita a análise de duas poesias deste autor. De início,

Namoro não é crime

Considerando que as flores

Existem para o nariz

E as mulheres para os homens,

Na opinião do juiz;

Considerando que as moças,

Ariscas como a perdiz,

Devem ter seu perdigueiro,

Na opinião do juiz;

Considerando que a gente

Não pode viver feliz

Sem fazer seu namorico,

Na opinião do juiz;

Amemos todos, amemos,

É cupido quem o diz;

Pois namoro não é crime,

Na opinião do juiz...

Este poema foi transcrito no jornal A Província em 1874 e dedicado a um juiz de Escada. A partir de um processo no qual entre o réu e a vítima houve um simples namoro, o juiz não interpretou como crime capitulado no Código Criminal por não ter ocorrido defloramento. Deste episódio o poeta inspirou-se para satirizar o ocorrido e, através da figura de linguagem comparação, faz alguns trocadilhos para evidenciar que a mulher está para o homem assim como as flores estão para o nariz, ou seja, será inevitável a aproximação entre os dois. Na visão do autor é conseqüência de uma lei natural da vida. Em seguida, afirma que a corrida do homem ao encontro da mulher é comparada ao perdigueiro no encalço de sua presa, enfatizando ainda que a felicidade é fruto desta relação e se por ventura isso não acontecer tudo é tristeza. Afirma também que o Cupido é defensor do amor e, portanto, namoro não é crime na opinião do juiz. Em seguida analisar-se-á uma poesia feita com o intuito de atacar a igreja, mas precisamente um padre, seu título é Padre Fonseca.

Não importa que o mundo atroz me seja

E enfureça a batina contra mim.

Crença é arminho. Mas na própria igreja

Há de padrecos muita estopa ruim.

Se injúria apenas o Fonseca espalha

Na terra maranhense e o clero ri,

Eu monto o padre, empurro-lhe a gargalha

E a besta geme e não se apruma aqui.

O padre em versos latinos

Havia de errar, bem sei;

Manes de Horácio e de Ovídio,

Quanta vergonha! Tremei!

E digo ante o reverendo

Que tais versos escreveu:

Só bastante é o Vaticano

P'ra conter esse sandeu.

Esse poema foi escrito com a intenção de atacar um padre, sendo necessário frisar que o poeta por ter tido problemas com a igreja no Maranhão, fez críticas ferrenhas à Instituição que renderam a ele o "ódio" dos seus representantes. O Padre Fonseca foi um dos quais demonstrava um certo desprezo a Tobias Barreto. No entanto, ele não se curvou e encarou esse "padreco" como se enfrentasse a mais vil fera. Faz-se necessário citar aqui um artigo que o mesmo escreveu.

A raiz quadrada, da soma de todas as vacas, com que boli, de todas as cascavéis que assanhei, inclusive a Chica-pandeiro, é hoje o padre Fonseca. Munido de um varapau, eu futuco-lhe as ventas, os vazios, os sovacos, e o bicho pinoteia, bufa, rincha, arreganha os dentes, querendo morder-me, não obstante o barbicacho religioso, que o tem preso; mas quando já está exausto de dar coices no ar eu volto à carga e grito-lhe de novo: he Jonas na Grécia, versos errados; que padre bobo... (BARRETO E LIMA, 1989, p.316).

Nota-se então a total aversão que Tobias Barreto tem ao membro da ordem eclesiástica, não medindo esforços em deixar clara sua posição em relação a este que o repudia tão veementemente.

Faz-se necessário frisar a importância da sátira como elemento de denúncia de um estado de insatisfação, observado por pessoas que, em determinados instantes de nossa História, tentaram ir de encontro ao regime imposto utilizando-se de um artifício que deixasse o satirizado com dúvidas a respeito do verdadeiro alvo. Nota-se que a sátira foi desenvolvida desde Roma com Juvenal e Horácio e, no decorrer da história, foi utilizada maciçamente. No século XI as cantigas nasceram em torno deste estilo literário dividindo-se em cantigas de escárnio e maldizer, esta com um caráter mais inquisidor, com palavras chulas, aquela com um tom mais suave, mas continuava com o mesmo espírito de agredir um determinado componente da sociedade. A literatura brasileira inspirou-se bastante nas fontes européias de cultura como a França, Espanha, Alemanha entre outros. No entanto, os dois autores em questão se fizeram valer da influência destes países para revelarem um caráter de insatisfação com a política instaurada em nosso país. Gregório de Matos, um fidalgo, filho de portugueses donos de engenho na Colônia, ao estudar na Europa influenciou-se pelos baluartes espanhóis Quevedo e Gôngora. Quando estava em Coimbra e ao retornar ao Brasil destilou toda a arte satírica na sociedade baiana do século XVII, não deixando escapar nenhum elemento constituinte desta: a Igreja, o padre, a freira, a donzela, o estudante, o Governador, a primeira dama, o judeu, o negro, enfim o mazombo não perdoou ninguém com suas sátiras que ora serviam de floretes agudos, ora de porretes grossos e, nesse sentido lhe valeu o degredo.

Tobias Barreto também influenciado pelos ideais emanados pelos europeus no que diz respeito à Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade quando foi defensor ferrenho da abolição dos escravos, da Proclamação da República e assíduo ativista da Guerra do Paraguai. Influenciou-se também pelo ideal positivista alemão, mais precisamente pela filosofia Haeckeliana, escreveu vários discursos e monografias em alemão por conta da sua íntima relação com o direito.

Esses aspectos descritos acima servem de índice comparativo entre e o real e o ficcional, enquanto parâmetro para uma compreensão de qual seria a fonte de inspiração para esses dois grandes poetas que se utilizaram dos versos para externarem seus sentimentos com relação a uma sociedade medíocre culturalmente e usurpadora dos direitos alheios. É certo que as épocas são distintas. Entretanto, chegamos a confundir tempo e espaço quando falamos de Gregório de Matos e Tobias Barreto, ambos fizeram uso da palavra em prol dos desfavorecidos, cada um a seu modo, atestando que o satírico é um tipo virtuoso e indignado com a corrupção do seu mundo. Contudo utiliza-se de uma arte que insulta e finge não seguir nenhuma arte. A sátira não segue paixões naturais e é totalmente informal, dependendo apenas de um momento de espontaneidade para ridicularizar o satirizado. Com relação ao contexto social em que estavam enquadrados os autores em questão, se faz necessário evidenciar a verdadeira intenção das sátiras escritas e orais, que tinham um caráter meramente denunciador de um estado de insatisfação, seja da Metrópole em relação à Colônia, seja do senhor de engenho com os seus escravos, seja da Igreja para os seus fiéis, seja do estudante em relação a qualquer mulher, sendo moça, prostituta, dama ou freira. Enfim de uma relação explorado x explorador utiliza-se a sátira como o martelo de um juiz ao dizer a sentença imposta ao réu.

A grande diferença entre a sátira barroca de Gregório de Matos e a realista Tobias Barreto é que, aquele escreve uma poesia revolucionária, transgressora, libertária, falando mal de tudo e de todos, do governador despótico aos mulatos atrevidos, passando pelos padres sodomitas, mulheres adúlteras e traídos conformados. Enquanto que este último é mais prudente nas suas sátiras. Utilizando primorosamente as figuras de linguagem, critica o Estado, a Igreja, enfim toda a sociedade pernambucana da época. No entanto, não utiliza o florete, nem o porrete, e sim o verbo.

É possível evidenciar a presença marcante da influência de Gregório de Matos na obra de Tobias Barreto. No entanto este autor deixou-se influenciar mais pelas causas sociais que literárias, no sentido de ser um dos mais nobres condoreiros, alçou vôos muitas vezes arriscados para defender seus ideais e com essa fonte de inspiração conseguiu transferir para os seus poemas a mordacidade do Barroco gregoriano e a maleabilidade francesa de Voltaire. Os versos satíricos nesses dois momentos específicos de nossa história servem como pano de fundo para estudiosos pesquisarem uma produção poética de cunho contestador como foi e será a sátira.

REFERÊNCIAS

BARRETO, Luiz Antonio. Dias e noites: obras completas de Tobias Barreto. 7. (ed. rev. e ampl.). Rio de Janeiro: Record, 1989.

GUERRA, Gregório de Matos. Antologia poética de Gregório de Matos. São Paulo: Ediouro, 1998.

HANSEN, João Adolfo. A sátira e o engenho: Gregório de Matos e a Bahia do século XVII. São Paulo: Companhia das Letras: Secretaria de Estado da Cultura, 1989.

ROMERO, Sílvio. Compêndio de história da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 2001.

SPINA, Segismundo. História da Literatura Portuguesa: segunda metade do século XVI e século XVII. São Paulo, Ática, 1987.

Site Consultado:

www.secrel.com.br/jpoesia/jah01.html - Texto aqui abordado A praça e o púlpito: literatura brasileira.


Autor: Marcos Pereira


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