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E-MAILS

De Romano Dazzi

 

A mensagem era simples, mas densa de ternura.

Dizia :

Carlos, meu amor:

Você me deu o presente mais lindo que já recebi

 Foi a noite mais bonita de toda a  minha vida.

 Nunca vou esquecer seu carinho, seus beijos, seu calor. 

 Sinto todo o meu corpo em chamas, sei que não posso mais ficar sem você.

 Por favor, supere seus receios, não me abandone.

 Sou completamente, inevitavelmente sua.

 Até a próxima sexta,  à mesma hora, no mesmo lugar.

 Beijos.

 Bia”

 

Carlos leu, incrédulo.

Olhou em volta, levantou um pouco da cadeira, esticando-se para ver se não seria uma brincadeira boba de algum colega. Nada. todos estavam ocupados, nas suas baias, ruminando suas tarefas enfadonhas .

Leu de novo, com atenção, o endereço; sim, estava correto, era para ele mesmo:

[email protected]/creditoconsumidor.com.br

absurdamente correto; terrivelmente correto.

 

Aí, começou a ficar em pânico.

Correu os olhos pelo monitor, procurando o remetente:

 

[email protected]

Hora da mensagem: 8:15 -  dia: 14/07/2008

Vinte minutos atrás !

Mas quem era esta Bia Coutinho?

 

Nunca ouvira falar dela; não era uma colega de escola, de cursos, de serviço; e muito menos, uma conhecida ocasional.

 

Definitivamente: não conhecia nenhuma Bia.

O e-mail vinha de uma cabine pública, portanto com endereço nebuloso, difícil, mas não impossível, de identificar.

 

-  Talvez seja uma brincadeira da Tercília – pensou; mas logo percebeu que seria um absurdo; simplesmente,  não podia ser..

Tercília, sua esposa havia  dez anos, uma moça bonita. delicada e tranqüila, era ainda agora a estrela de sua vida.

Desde sempre, ela havia apostado tudo nele, empurrando-o para o trabalho,  amparando-o nos momentos de incerteza, ajudando o nos estudos.  

Tudo para que ele vencesse. E graças à Tercília, eles tinham vencido.

Carlos e Tercília  eram  mais que um binômio: eram uma equação bem resolvida.    

Agora, como sub-gerente da Carteira, estava finalmente com a vida tranqüila. Era um momento de felicidade, depois de dez anos de lutas.

 

Mas nesse momento, com as letras do e-mail piscando na sua frente, ficou confuso e incerto; sentiu-se vítima de alguma trama.

Estava indefeso, sem saber o que fazer.

 

Metade de nosso futuro depende das atitudes que tomamos, ao aceitar os desafios que o momento propõe.

A outra metade, é definida pelo destino, que decide em nosso lugar, enquanto ficamos  hesitando.

   

Teve um  primeiro impulso, de  excluir o e-mail,  escondê-lo, jogá-lo na lixeira, enterrá-lo sob a tonelada diária de lixo eletrônico que recebia.

 

Mas alguma coisa o deteve. Queria ver claro, nessa mensagem.

Tentou novamente relacionar todas as hipóteses possíveis:

uma brincadeira dos colegas, ou de algum conhecido,  ou dos parentes? - não; sem dúvida, não; seria coisa de mau gosto e sem motivo.

um erro de identidade ? Mas os nomes estavam claros, o endereço completo; não havia  erro. Não era uma mensagem anônima.

Voltou a vasculhar na memória. Não encontrou nada.

 

E depois, o e-mail falava de um fato recente.

O pensamento voltou à semana anterior.

Na tarde da sexta feira, depois de um longo e cansativo diálogo, o seu Diretor Financeiro, o  Dr Mathias, o havia convidado para jantar num restaurante.

Um daqueles convites irrecusáveis, aos quais ele estava aos poucos se acostumando.

O Banco, a Empresa, a Corporação, sempre se  apoderam do tempo e da vida de seus empregados, acima de um certo nível.

. 

Tercília tinha ido visitar a mãe, em Piracicaba. 

Chamou-a, avisando-a que jantaria com o dr Mathias e pousaria em casa. Viajaria no sábado de manhã e voltariam juntos no domingo.

Havia jantado, chegando em casa ao redor da meia noite, talvez antes. E ferrou no sono. De manhã, bem descansado e disposto, pegou um ônibus confortável e estava em Piracicaba  antes do meio dia. Tudo normal.

 

Mas esse e-mail balançava, complicava, atrapalhava tudo.

Enquanto matutava, o João, amigão e colega de muitos anos, chegou pelas costas e :

- Maravilha ! – exclamou quase gritando -  dez anos de casamento e ainda se escrevem bilhetinhos de amor ! Deixa ver, deixa ver .....Mas.... Não é um e-mail da Tercília ! O que você está aprontando, Carlos ?...

A pergunta ficou no ar como um arco armado, tenso, tinindo, com a flecha pronta para ser lançada, apontada diretamente para as costas do pobre Carlos.

Este ainda tentou explicar que não sabia de nada, que estava procurando uma resposta;  mas estava tão inseguro, tão confuso, que o João parou de falar e saiu da sala, apenas meneando  a cabeça.

Carlos evitou aquele lugar comum de: “não é o que parece, eu posso explicar...”   pareceu-lhe inútil e prejudicial.

E continuou pensando no que poderia ter acontecido. 

Os fatos  estavam atropelando-o, simplesmente.

 

Neste mesmo instante, Tercília irrompeu inesperadamente no escritório do Banco. Chegou alegre, bem disposta, deu um beijo no Carlos e queixou-se:

 - O que há com o João ?  Cruzei com ele na porta e ele mal me cumprimentou. Estava com cara de quem viu um fantasma!.....

 

Carlos, na confusão, não teve tempo de fechar o “outlook” . a mensagem ficou  aberta na frente da Tercília, que sem querer começou a ler....

Bem, não precisa descrever toda a desagradável cena. Ela prorrompeu em lágrimas, depois levantou-se de um salto e saiu correndo, batendo a porta.

 

Carlos não teve nem tempo, pela segunda vez nessa manhã, de se refazer do estupor.

 

Passados um pouco de tempo, finalmente Carlos começou a reagir.

Iria descobrir o que havia atrás desta história e mostrar a todos a verdade.

 

Mas ainda haveria um provação. o Dr. Mathias passou na sala para cumprimentá-lo – e também leu a mensagem. Polidamente,  evitou tecer qualquer  comentário, mas olhou nos olhos do Carlos de forma tão estranha, que ele se sentiu culpado  e implorou que a terra o engolisse, só para fugir desse vexame.

 

Carlos aproveitou a hora do almoço para procurar a “lan house” da qual tinha partido a mensagem. Era o serviço público instalado no Metrô da Praça da Sé

Explicou pacientemente ao servidor que o atendeu, que tinha recebido uma mensagem e que não conhecia o remetente. Precisava saber quem a tinha mandado. O funcionário deu de ombros. 

- “ Se não era para você, jogue-a fora ! – exclamou, como se fosse a melhor solução do mundo – e seria, não fosse pelas confusões que tinha causado.

 

Mas o Carlos não podia parar por aí. Sua honra estava em jogo; e sua amizade com o João, e o respeito dos colegas ,   o amor da Tercília , a consideração da família ... Ele precisava encontrar o fio da meada. 

Foi difícil, porque não havia registros oficiais do conteúdo das mensagens. Trinta e seis posições ativas na “lan house” poderiam ter enviado o e-mail.  

Foi realmente um trabalho cansativo, mas Carlos chegou, ao cabo de dois dias, à conclusão.

 

 

 

 

 

Enquanto isso tudo acontecia, , do outro lado da Cidade, um rapaz simpático de nome Carlos Martinez, matutava sobre uma misteriosa mensagem em código, recebida do posto público 761.gov.sp.br  e assinada curiosamente por alguém com o mesmo nome de sua namorada.

 

A mensagem dizia :

 

[email protected]

 

Prezado Senhor,

desejamos informar que fizemos nesta data o depósito da quantia combinada de R$ 1.311,56 para liquidação final de nossa dívida junto a esse Banco.

O documento traz a autenticação n......

Agradecemos sua compreensão e firmamo-nos  

Atenciosamente

Modas Quintaferro Ltda

Bia Coutinho

Tesoureira 

 

  

Estava tudo certo, menos os destinatários, distraidamente trocados.

Tudo culpa do amor...

 

Dois dias depois, as nossas personagens reuniam-se, de início um pouco constrangidas, mas depois alegres, aliviadas, em uma agradável camaradagem.

Seis meses depois, Carlos e Tercília eram testemunhas do casamento de Carlos e Bia. Com os Carlos certinhos, e sem confusão. 

 


Autor: Romano Dazzi


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