A Hora De Recriar O Brasil



Nos anos 90, enquanto eu estudava no Center for Creative Leadership, tive a surpresa de encontrar um estudo sobre o Jeitinho Brasileiro. O autor da obra era Robert Burnside, consultor especialista em inovação que havia trabalhado no Brasil, e, como a maioria dos americanos, adorou a nossa gente, mas observou vários problemas quando a questão era produtividade.

A definição de Jeitinho Brasileiro me pareceu bastante interessante: "Criatividade Adaptadora voltada para um Benefício Pessoal e de Curto Prazo, ou seja, um enorme potencial... mal-direcionado.

De lá para cá, o que houve com o nosso potencial? Quando bem direcionados, arrasamos: em alta tecnologia, criamos sistemas de integração bancária e de votação eletrônica de deixar pessoas de outros países de queixo caído. Estamos nos projetando cada vez mais na moda, publicidade e design. A maior parte de nossas indústrias tem muito do que se orgulhar.

Por outro lado...

É verdade que o mau direcionamento do nosso potencial deixa a maioria dos brasileiros chocados e desanimados: o jeitinho brasileiro no seu pior sentido se expõe desavergonhadamente nas CPIs e outras denúncias de corrupção que chegam até nós.

Será que mais uma vez vamos nos deixar vencer pelo desânimo e permitir que a crise desencadeada pelas denúncias de corrupção sirva apenas para atrasar a nossa evolução? Será que todas as nossas conquistas serão mais uma vez ofuscadas pelo desfile de aberrações ideológicas que assistimos na TV?

E se analisarmos um pouco mais o nosso potencial, será que daria para virar a mesa?

Abaixo vai uma reflexão minha sobre aspectos da criatividade brasileira que nos influenciam. Vejamos:

JOGO DE CINTURA Qualquer executivo brasileiro pode se considerar PhD em administração de surpresas. Essa nossa flexibilidade - em termos macro e micro - já é tão reconhecida que alguns americanos andam dizendo que Brazilian rima com resilient, que significa flexível, maleável. Nem por isso deixamos de planejar. A segurança de saber improvisar não faz de nós pessoas irresponsáveis.

PREOCUPAÇÃO COM OS OUTROS Gostamos de agradar, de estar bem com todos. Às vezes exageramos, deixando de expor nossos pontos de vista ou de lutar por uma causa com medo de desagradar. É o famoso deixa quieto. Por outro lado, desenvolvemos uma sensibilidade específica, que nos ajuda a perceber o outro.

CONVIVÊNCIA COM A MAGIA Não somos uma cultura cartesiana. Aceitamos as religiões afro-brasileiras e respeitamos nossa intuição. A criatividade precisa desse componente: por definição, quando somos criativos, nunca sabemos aonde vamos chegar. E só criamos quando acreditamos que chegaremos a um bom resultado.

SINCRETISMO Não somos uma cultura que divide, compartimentaliza ou rotula. Religiões, pratos de comida, raças, tudo se mistura em nossa cultura. Não é assim que a Criatividade funciona? Sei bem que nem só de criatividade vive o homem, ou seja, a criatividade não é a única competência necessária para mudar um país.

Sei também que uma cultura não muda fácil nem rapidamente; Mas acredito na velha história de que toda crise é também uma oportunidade. Não poderíamos dar uma virada agora, recriar um Brasil que canaliza seu potencial a favor do seu crescimento? Já vi empresas que, ao darem foco aos seus colaboradores fizeram com que eles aliassem jogo de cintura à visão de longo prazo, já vi nossas habilidades interpessoais serem decisivas em concorrências internacionais, e vejo nosso sincretismo como um poderoso instrumento para a propagada administração da diversidade, fundamental num mundo globalizado. Quem sabe agora não seja a hora de praticarmos uma Criatividade Inovadora, Voltada para um Benefício Coletivo e de Longo Prazo?


Autor: Gisela Kassoy


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