O Ficar na Adolescência



Parte I

A palavra FICAR do latim figicare significa estacionar num lugar, não sair dele. Assim, o termo ficar no uso atual de nossa época, representa um relacionamento afetivo bastante popular, breve, passageiro, descompromissado, volátil, e imediatista entre os adolescentes.

A adolescência por si mesma acabou por ganhar um espaço na sociedade, onde influências sociais, étnicas, religiosas e psicológicas passam a ter uma forte presença no cotidiano do indivíduo.

Assim é freqüente descrever o adolescente como um indivíduo em constante conflito, rebelde, inconformista, idealista, vanguardista, revolucionário, e tantas outras nominações.

Podemos nos reportar ao século XX, onde o adolescente era a personificação de beleza, juventude, liberdade, potência, inteligência, com espírito batalhador e desbravador. Bem como um ser dotado de ideais exacerbados, como também um crítico ferrenho às questões sociais.

Outrossim, a adolescência foi vista como um período onde mudanças de teor afetivo, emocional, de identidade, de valores sociais, etc. eram muito intensas. Este comportamento era aprovado pela sociedade, que considerava o jovem, um instrumento positivo para o ressurgimento de mudanças para o bem comum.

E também no quesito das crises existenciais, onde mudanças, rupturas, desestruturação e outros sofrimentos diversos geravam no final, um avanço.

A chamada crise da adolescência traz como significação básica, a potencialização da vida, a dinamização do indivíduo e do seu mundo.

Ao contrário das crises de outras idades, como por exemplo, a crise da velhice, onde a aposentadoria inevitavelmente traz um grande prejuízo numa desvitalização, enfraquecimento e mesmo desmoralização do indivíduo.

A adolescência é a fase das grandes transformações biopsicológicas e sociais que irão dar o acabamento final do indivíduo, enquanto um ser desejante.

Assim, muitas são as teorias científicas, como a psicanálise, a epistemologia genética, etc., mas todas elas concordam em que a adolescência é a fase das grandes conquistas e das transformações.

O adolescente irá incorporar tudo a seu redor, e estará se desvinculando de um círculo social restrito e primário, como é a sua família, e entrando para um círculo social muito mais amplo e secundário, que representa o mundo todo.

É aqui que mora o impasse do jovem adolescente e este FICAR e seus aliados no novo universo social.

O ingresso no mundo adulto é repleto de rituais, ou seja, o menino passa a ser um homem com barba, com os hormônios a lhe incitarem a sua sexualidade, a inserção no trabalho, o serviço militar, etc.

Já a menina, além das transformações semelhantes como nos meninos, como a sexualidade aflorada, passa por rituais tradicionais da classe média, como seja a de debutar, significando a passagem da vida infantil para a vida adulta..

Muitos estudiosos percebem, é que a adolescência é um período onde o jovem não possui nenhum tipo de blindagem protetora, como na infância em que os pais deliberam o que, para que, e como fazer para proteger a criança.

O jovem fica exposto e suscetível às questões e idiossincrasias da contemporaneidade, uma vez que não possui bagagem suficiente em suas defesas egóicas capaz de lhe aliviar as tensões. Ele passa a ser um alvo frágil e vulnerável para quem quer que lhe delibere algum novo comportamento.

Assim é que, não é à toa que, questões como a violência, o uso de drogas, o desemprego, a dificuldade da inserção no mercado de trabalho, a gravidez precoce, se tornam mais agudas.

.Parte II

Segundo CALLIGARIS (1992) a formação da cultura brasileira nasceu da ruptura de imigrantes com as suas referências anteriores, ou seja, a pátria abandonada para uma nova pátria. Assim é que temos muitas cidades com nomes referenciados a outras cidades, isto é, Nova Friburgo, Nova Odessa, Novo Hamburgo, etc.

Para AZEVEDO (1963) e FREYRE (1936) esta formação da cultura brasileira é um encontro de três raças, o branco europeu, o negro africano e o vermelho indígena.

Esta necessidade de renomear com prefixo NOVO, antigas e tradicionais cidades, também existe na miscigenação entre os diferentes povos, como um acontecimento inevitável e extenso na constituição da brasilidade.

Aqui também se tem a sensualidade, afetividade e o prazer como marcas de um povo miscigenado, que se encontra aberto às influencias externas, ou seja, o brasileiro venera o desconhecido, o diferente e assim por diante.

Para BERMAN (1986) o culto ao novo, enquanto um indivíduo jovem, é valorizado, enquanto existe uma notória depreciação ao idoso. A cidade é dos jovens, diferentemente do que acontece em outros países..

O adolescente brasileiro pode ser considerado como sendo o protótipo do sujeito errante, sem raízes ou em processo de desenraizamento, plástico, desterritorializado, flexível, consumista, narcisista, etc..

Para GIDDENS (1991) a errância ou desterritorialização implica a disposição para vivenciar situações de desencaixes e re-encaixes, por meio de mudanças de cidades, habitações, em busca de melhores condições de vida, de salários, de estudos, de empregos, etc. significando toda uma reconstrução das relações sociais internalizadas nos lugares de origem.

Assim também o jovem adolescente migra para novos comportamentos numa plasticidade afetiva e maleável em todos os planos da sua vida, ou seja, ele é essencialmente um ser volátil, portador dos germes das mudanças, é uma metamorfose ambulante num ritmo frenético, numa velocidade e competitividade muito intensas.. E estas nem sempre adequadas e satisfatórias à sociedade.

E nós vivemos hoje, a era da instantaneidade, em que não é preciso mais esperar ou retardar a satisfação de um desejo, como banco 24 horas, disk pizza, o celular, a Internet, e mesmo o FICAR, etc.

Do ponto de vista psicanalítico, somos como os bebês que têm as suas necessidades prontamente atendidas por sua mãe, ou seja, vivemos o imediatismo, e assim somos soberanos.

A adolescência se insere numa disposição psicológica para o descarte, onde o plano afetivo emocional também segue a regra do descartável, uma marca da contemporaneidade que enaltece a adolescência e vitimiza o idoso.

O ficar é instantâneo, descartável, imediatista, e passa a ser tratado não como um afeto entre duas pessoas, e sim como uma mercadoria qualquer, que pode ser barganhada. Esta cultura e modo de comportamento invadem as subjetividades solapando as clássicas figuras da identidade de um indivíduo.

O imediatismo do ficar para o adolescente implica em não se fixar a nada e a ninguém, com um caráter de praticidade, que no futuro o irá pulverizar com diversas frustrações no âmbito emocional.

Segundo ROLNIK (1997) o adolescente diante do comportamento de ficar, pode ser considerado como um kit, como padrão de identidade disponível no mercado para amplo consumo, sendo também renovável.

Há algum tempo vêm-se observando mudanças na organização da família devido a transformações nos vínculos afetivos e nos relacionamentos que davam suporte à família nuclear tradicional. Assim, as relações passam a ser mais fluidas, breves, instantâneas, diversificadas e instáveis.

Como assinala GIDDENS (1991) o amor romântico está dando lugar ao amor plástico, algo parecido como um negócio dentro de uma relação, e onde tem prazo de validade, ou seja, dura enquanto durar a co-satisfação entre os parceiros.

Para BAUMAN (1998) um outro aspecto do relacionamento afetivo da contemporaneidade, assentado na sexualidade, é que antes a sexualidade era colocada a serviço de um projeto de vida, e hoje a sexualidade é colocada simplesmente de modo hedonista, egoísta, imediatista e também isolacionista.

Trata-se, portanto, de um mundo que não favorece a aproximação entre as pessoas, a criação de vínculos duradouros, a associatividade e a grupalização.

Nesse cenário, o adolescente se vê impelido a relações breves, voltadas tão somente para a satisfação pessoal.

Embora o relacionamento afetivo FICAR seja o mais expressivo entre os adolescentes, ele também pode estar presente em indivíduos com outras faixas etárias.

Parte III

E a palavra ficar no sentido genérico do termo como um estado de parada, para os adolescentes significa um relacionamento episódico e ocasional, com a duração de apenas algumas horas ao longo de uma noitada.

Envolve beijos, abraços, carinhos e eventualmente relações sexuais, sem compromissos futuros, e são vistos como um relacionamento passageiro, fortuito e superficial. A característica do ficar é uma atração ou interesse, normalmente num local de encontro de jovens na noite, e que dura enquanto durar aquele encontro.

Algumas pesquisas sinalizam que o ficar não foi citado como o tipo de relacionamento preferido, e sim o namoro.

O que isto significa?

Significa que o ficar é tão somente um modo de aprender com, uma experiência exploratória, um se perceber a si mesmo, um treino para futuras escolhas e para tomadas de decisão.

É diferente da paquera?

Sim, na medida em que na paquera há trocas de olhares e uma conversa mais discreta sem contato físico.

O ficar pode bem ser considerado uma variante da paquera e também veio para substituir um outro tipo de relacionamento, ou seja, o relacionamento estabelecido entre jovens e prostitutas. Então ele é um facilitador num treino sexual para os meninos.

As expressões namoro firme ou namoro sério, são bastante antigas e ainda hoje são utilizadas para designar relacionamentos com um maior grau de compromisso e de longevidade.

O que se percebe é que num grupo de adolescentes, as meninas discriminam as que ficam principalmente em relação àquelas que ficam e se relacionam sexualmente. São as chamadas galinhas ou não-sérias.

Também como antigamente, é sobre a mulher que recai o ônus de um comprometimento sexual, onde algumas surpresas de teor indesejável podem resultar, ou seja, a gravidez.

Para o jovem adolescente se é atraente o amor romântico, alicerçado na segurança, confiabilidade, fidelidade, durabilidade; por outro lado também lhe é fascinante o mundo da independência, da autonomia, etc.

Portanto, o que se depreende disto tudo é que, o ficar é um tipo novo de relacionamento que tende a se tornar hegemônico, ou seja, é um tipo de relacionamento movido pelas tendenciosidades da época.

Não é um modismo, mas um novo paradigma de relacionamento emergente nesse nosso tempo. Este ficar também está inserido na temporalidade de um imediatismo sem igual, em outros campos sociais que governam o nosso movimento.

Isto significa um abreviamento em todos os setores, quais sejam do trabalho, onde os vínculos empregatícios também encurtaram, da vizinhança, da amizade, da família, etc..

Hoje o vetor que rege a nossa vida é o do acelerador do tempo, do alargamento do espaço, da incerteza quanto ao futuro, dos riscos, da insegurança, da provisoriedade do amor ao trabalho, dos confinamentos, da solidão em que o indivíduo vive ,e da descartabilidade associada à pressão do consumismo, etc.

Hoje o homem é visto como uma máquina para produzir lucro e se caso vier a se tornar obsoleta, pode em um curto espaço de tempo ser substituída por outra máquina mais rentável.

Assim o ficar inscreve-se nesse paradigma da contemporaneidade que privilegia o achatamento do tempo, a expansão geográfica, econômica, política e psico-social, o individualismo, o isolamento, o desamparo, o hedonismo, o narcisismo, a competitividade, etc..

Escrito por Suely Bischoff Machado de Oliveira

Psicóloga CRP 06/8495 pela UNESP

Psico oncologista pelo Hospital do Câncer A.C.Camargo

sbischoff@globomail.com


Autor: Suely Bischoff Machado de Oliveira


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