LETRAMENTO DIGITAL E AS RELAÇÕES ESTABELECIDAS COM O PROFISSIONAL ARQUIVISTA



Carlos Eugênio da Silva Neto

E-mail: netinhooaurelio@hotmail.com

Considerações iniciais

Ao longo do desenvolvimento da humanidade, os avanços tecnológicos sempre foram os agentes causadores das mudanças nos mais distintos campos de atividades. Hoje, o crescimento informacional e técnico está transformando a sociedade sob diversos ângulos, e o arquivista não pode ficar alienado a esse processo.

A chegada do século XXI e a hegemonia da globalização acarretaram algumas mudanças, tais como, o mundo cada vez mais competitivo, onde a informação passou a ser algo indispensável à sobrevivência do ser humano e à emergência de uma nova sociedade, antes sociedade da informação, hoje, convencionalmente chamada de sociedade do conhecimento. O momento atual tem levado o surgimento de uma série de mudanças nas esferas sociais, econômicas, culturais e políticas globalizadas, em um processo irreversível e cada vez mais veloz. Uma das causas dessas transformações está relacionada às tecnologias da informação e da comunicação – TIC's.

Ao se refletir sobre o advento e o uso intensivo dessas novas tecnologias, na perspectiva da Ciência da Informação, constata-se positiva turbulência no campo do conhecimento, especialmente no que se refere à armazenagem, à representação e à recuperação de informações, áreas intensamente co-relacionadas à cognição humana. Os atributos particulares da organização do conhecimento na vertente, que costumam ser identificados como parte que integra o escopo da Ciência da Informação – a Arquivologia, a Biblioteconomia – não interferem no processo essencial da descrição e da classificação documental. Em suma, com a chegada, o desenvolvimento e a intensificação do uso das novas tecnologias eletrônicas de processamento de comunicação e de informações, os chamados arquivos digitais tornaram-se realidade.

Registre-se, aqui, que estamos em uma era de tecnologia avançada e, para acompanhar o ritmo do progresso tecnológico, é preciso que, também, o arquivista verifique as possibilidades de aplicar as mais modernas técnicas aos seus Sistemas de Arquivo.

Com a formação de uma sociedade mundial, emblema do fenômeno da globalização amplia-se as possibilidades de comunicação, bem como um novo impulso é dado ao trato da informação no que se refere à sua produção, a seu armazenamento, à sua distribuição e à sua utilização. No entanto, a primeira limitação a tornar-se evidente nessa nova sociedade é a questão do contexto, pois, a informação só terá valor se for contextualizada. Posteriormente sua disseminação é alvo de intensos questionamentos, sendo que aí está o cerne das mudanças referentes ao novo perfil exigido do profissional da informação, pois esse se defronta com um universo informacional complexo, repleto de novas mídias, suportes, formatos e conceitos com os quais tem que, não só lidar, mas tratar e disseminar. (SOUTO, 2006)

A partir desse contexto, o presente estudo visa discutir a atuação do profissional arquivista no cenário do século XXI no âmbito das tecnologias da informação e da comunicação - TIC's. Nesta reflexão, merece destaque o letramento digital entendido como algo premente à sua formação. Dominar o processo de letramento digital é, portanto, uma necessidade elementar para os arquivistas.

O que é letramento digital? Algumas considerações

O conceito de letramento começou a ser usado nos meios acadêmicos numa tentativa de separar os estudos sobre o "impacto social da escrita" dos estudos sobre a alfabetização, cujas conotações escolares destacam as competências individuais no uso e na prática da escrita (KLEIMAN, 2002). Antes de darmos prosseguimento ao debate, é de suma importância estabelecermos a diferença entre letramento tradicional e letramento digital.

O termo letramento tradicional surgiu no final do século XX, em decorrência das grandes transformações culturais, sociais, políticas, econômicas e tecnológicas, ampliando assim o significado tradicional da alfabetização (SOARES, 2003).

Kleiman (1995, p.19) define o letramento "como sendo um conjunto de práticas sociais que usam a escrita, enquanto sistema simbólico e enquanto tecnologia, em contextos específicos, para objetivos específicos".

Já Buzato (2003) comenta que "as pessoas alfabetizadas não são necessariamente 'letradas', pois apesar de saberem ler e escrever muitas pessoas não conseguem, construir uma argumentação, interpretar um gráfico, encontrar um livro em um catálogo, etc.". Ou seja, o autor versa que o letramento é uma capacidade do individuo, que vai além da aprendizagem de um código lingüístico, que possibilita a construção de sentidos e conseqüentemente, até a construção de conhecimento, com base no que foi aprendido.

Soares (2002, p.145), assevera que,

o letramento é a condição de quem se apropriou da leitura e da escrita incorporando as práticas que as demandam [...] e que não existe o letramento e sim, "letramentos" e nesta perspectiva a tela do computador se constitui como um novo suporte para a leitura e a escrita digital.

Ao analisar os estudos que convergem nesta área, percebe-se que o apoiador da ampliação do conceito de letramento tradicional para letramento digital é simplesmente a idéia de interagir para melhor interpretar no meio digital. Em outras palavras, o indivíduo além de saber fazer busca textuais no meio digital, tem que interagir com o texto e assim assimilar o conhecimento necessário.

O letramento digital distingue-se do letramento tradicional, pelo fato de que aquele transmite "as práticas de leitura e da escrita digitais, na cibercultura, de modo diferente de como são conduzidas as práticas de leitura e de escrita quirográficas e topográficas". (SOARES, 2002)

Lévy (1999, p.17) define letramento digital como um conjunto de técnicas materiais e intelectuais, de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço, como sendo um novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores.

Por outro lado Xavier (2007, p.2), concebe que, "ser letrado digitalmente pressupõe assumir mudanças nos modos de ler e escrever os códigos e sinais verbais e não-verbais, como imagens, desenhos gráficos, até porque o suporte sobre o qual estão os textos digitais é a tela digital". Ser letrado digitalmente significa que o usuário ao acessar a Internet não só deve fazer um simples busca mais esse tem que saber o que quer buscar com afinco e saber interpretar sua busca com clareza.

O indivíduo letrado digitalmente saberá utilizar as TIC's, acessar a informação em meio digital, compreendê-las, utilizá-las e com isso mudar o estoque cognitivo e a consciência critica e agir de forma positiva na vida pessoal e coletiva. (SILVA et al, 2005).

O domínio desse letramento possibilita efetivamente, o ingresso a outros mundos, como o da mídia, da tecnologia, da burocracia, e através deles, a oportunidade de acesso ao poder. O letramento tem um efeito potencializador, ou conferidor de poder, como aponta Paulo Freire há mais de trinta anos (SILVA NETO e SANTOS, 2008).

Como a sociedade está cada vez mais globalizada, mais complexa, exigindo um aperfeiçoamento constante, criando novas necessidades, a adesão ao letramento digital, faz com que a sociedade passe a se inserir nesta moderna era informacional através de novas ferramentas tecnológicas (computador, Internet, cartão magnético, caixa eletrônico etc.), subsidiando suas vidas, tanto profissional quanto pessoal, deixando de lado a exclusão digital. É necessário entendermos que, mesmo habitando em uma sociedade tecnológica, as oportunidades não são iguais para todos os cidadãos e que a popularização da tecnologia não deve ser confundida com democratização, haja vista que inclusão não é sinônimo de participação.

Muitos dos profissionais e alunos de graduação em arquivos parecem não ter muito interesse em conhecer essas tecnologias, imaginando que lidar diretamente com elas não faz parte de sua área de atuação ou que sempre terão um profissional de computação trabalhando ao seu lado para solucionar seus problemas (RONDINELLI, 2002).

Nesse sentido, cabe, ainda, a esse profissional da informação o desafio da preservação da memória coletiva e individual, pois, com o grande aparato tecnológico existente, em meio a diversos sistemas informacionais, documentos eletrônicos são perdidos com a mesma facilidade com que são gerados (INNARELLI, 2007). Todavia, isso não só acontece por causa das falhas proporcionadas pela mídia ou pelo descuido dos usuários desses sistemas, mas também, da falta de interesse dos profissionais oriundos da informação sobre as TICs.

Almeida (2005, p.174) pontua sobre a importância do avanço da inclusão digital para o letramento digital denominado este como fluência tecnológica:

A fluência tecnológica se aproxima do conceito de letramento como prática social, e não como simplesmente aprendizagem de um código ou tecnologia; implica a atribuição de significados à informações provenientes de textos construídos com palavras, gráficos, sons e imagens dispostos em um mesmo plano, bem como localizar, selecionar e avaliar criticamente a informação, dominando as regras que regem a prática social da comunicação e empregando‐as na leitura do mundo, na escrita da palavra usada na produção e representação de conhecimentos.

Na atualidade, a sociedade sobrevive através das mídias, que nos recomenda a repensar no nosso método de ensino/aprendizagem. Se até alguns anos passados, o letramento era o centro para as tecnologias tipográficas, hoje, as tecnologias digitais tornaram-se uma realidade, fazendo surgir novas técnicas de leitura e escrita, desencadeando novas práticas e eventos de letramento, agora digital.

O maior problema da implementação das novas tecnologias de comunicação e de informação na área educacional, não está na falta de equipamentos (computadores, televisores, rádios, DVD, acesso à Internet) ou outros recursos equivalentes, mas sim o fato de não se saber utilizar tais recursos como incremento educacional. O crescente analfabetismo em informação gera a dificuldade de se assimilar uma grande quantidade de informações e a diversidade de suportes e ferramentas de acesso, muitas vezes subutilizados (PASSOS, SOUZA, SANTOS, 2007).

A contribuição do Letramento digital perante as tecnologias digitais de informação e comunicação

Nesse ponto, pretendemos discutir sobre uma habilidade elementar para os arquivistas: a capacidade de tratar com as tecnologias que propiciam o trabalho com seu objeto – a informação, com o subsídio do letramento digital.

Hoje, devido ao advento de vários suportes eletrônicos, o arquivista deverá levar em consideração o caráter efêmero desses suportes, a necessidade de máquinas e softwares adequados, além de um conhecimento nivelado de informática, para que edições de livros eletrônicos e instrumentos de pesquisas, por exemplo, não desapareçam com o obsoleto dos suportes.

Essa realidade tem se encaminhado para outra direção. O fato é que o conhecimento mínimo sobre informática, gêneros textuais virtuais, mídia, hipertexto, lingüística computacional, dentre outros, é requisito básico, e conhecer determinadas tecnologias é sobremaneira importante para agir em áreas específicas, como por exemplo, a preservação digital; a representação digital da informação; o arquivamento de e-mails; a gestão de documentos em meio eletrônico e uma infinidade de funções ocorridas em meio digital. Vale salientar que a representação digital da informação promulga a demanda da utilização de sistemas apropriados, a fim de promover o acesso por meio da Internet.

Outra preocupação que recai para os arquivistas é de como irá proceder a preservação digital. Para Innarelli (2007, p.21), "o tema preservação digital ganha cada vez mais visibilidade e importância no mundo contemporâneo, pois cada vez mais o homem depende das tecnologias de informação e comunicação geradas neste e nos últimos séculos".

Nesse sentido, cabe, ainda, a esse profissional da informação o desafio da preservação da memória coletiva e individual, pois, com o grande aparato tecnológico existente, em meio a diversos sistemas informacionais, documentos eletrônicos são perdidos com a mesma facilidade com que são gerados (INNARELLI, 2007). Todavia, isso não só acontece por causa das falhas proporcionadas pela mídia ou pelo descuido dos usuários desses sistemas, mas também, da falta de interesse dos profissionais oriundos da informação sobre as TICs.

Belloto (2004) já ressalta que "muitos dos especialistas que têm se preocupado com a formação e o desenvolvimento profissional do arquivista [...] são unânimes em reconhecer as deficiências da formação, a falta de relação entre o mercado de trabalho e a universidade [...]". Ela também aponta que "as fraquezas internas da profissão não só é [sic] da debilidade de formação, mas também da carência de maior consolidação das teorias, das normas, da evolução [...] das tecnologias".

Em todas as áreas do conhecimento e em todas as profissões, há problemas, enquanto se desenvolvem. Na Arquivologia, não é diferente. Todavia, não podemos fugir dessa realidade, tendo em vista que, no que concerne à Lei n. 6.546, de julho de 1978, em seu Art.3, parágrafo IV, a legislação brasileira estabelece que o arquivista deve preparar os documentos de arquivos para processamento eletrônico de dados.

Com os baixos custos e o crescimento das potencialidades da informática, algumas instituições dos setores de documentação já oferecem o acesso on-line, via Internet, não só de seus instrumentos de pesquisa, como catálogos e guias, mas também alguns documentos de seus respectivos acervos. Mas é importante enfatizar que, apesar das encantadoras oportunidades oferecidas pela informática, não podemos esquecer que ela é apenas uma ferramenta destinada a auxiliar no trabalho arquivístico, cuja lógica de descrição, classificação, ordenação, dentre outros, o computador desconhece.

Figueiredo (1999) refere que "cada avanço tecnológico tem implicações maiores para os serviços de informação e, sem dúvida, oferece acesso aperfeiçoado à informação e maior flexibilidade para seu uso". Para tanto, essas preocupações e a inserção das tecnologias trazem consigo bonança. Assim, a Universidade deve abordar o campo do letramento digital para subsidiar seu alunado para a consolidação do entendimento dessas tecnologias e a autonomia sobre elas.

Uma preocupação que recai sobre nós é a desarmonia entre a evolução das tecnologias da informação e o ensino e a aprendizagem delas na formação do arquivista.

Espera-se, no entanto, que este trabalho contribua significativamente para a reflexão e as discussões sobre a importância da apropriação do letramento digital, por parte da comunidade acadêmica e dos profissionais arquivistas. Em súmula, ambiciona-se que esse tipo de letramento adentre nas faculdades de Arquivologia, para facilitar a vida profissional do arquivista.

Reflexões conclusivas

Neste trabalho, nosso objetivo primordial foi o de chamar à atenção sobre atuação do profissional arquivista no cenário da sociedade do conhecimento no âmbito das tecnologias da informação e comunicação - TIC's. Mesmo estando em destaque o uso das novas tecnologias e, conseqüentemente, o arquivamento em meio digital, a arquivística ainda não adotou esses mecanismos. São vários os motivos. Dentre os que se destacam, está a falta de recursos financeiros e de profissionais habilitados nesse segmento. Portanto cada profissional deve repensar essas questões, pois, cada vez mais, os centros de informação e de arquivos estão se automatizando, razão pela qual a Arquivologia deve inserir o letramento digital na formação do profissional arquivista contemporâneo.

Referências

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BUZATO, M. k. Letramento digital abre portas para o conhecimento. EducaRede .Disponível em: <http://.educarede.org.br/educa/html/index_busca.cfm>. Acesso em: 11 dez. 2008.

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KLEIMAN, A. B. (Org.). Os significados do letramento: uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita. Campinas: Mercado de Letras, 1995.

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PASSOS, R. SOUZA, J. F. C. SANTOS, G. C. Armadilhas do letramento digital: as necessidades de competências para recuperação da informação. 2007. Disponívelem: <www.alb.com.br/anais16/sem02pdf/sm02ss04_07.pdf.>

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SOUTO, Sônia Miranda de Oliveira. O profissional da informação frente às tecnologias do novo milênio e as exigências do mundo do trabalho. 2006. Disponívelem: <http://www.cinform.ufba.br/iv_anais/artigos/texto16.htm> Acesso em: 23 de outubrode 2008.

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Autor: Carlos Eugênio


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