Impactos da Crise Financeira Mundial no APL de Santa Rita do Sapucaí



IMPACTOS DA CRISE FINANCEIRA MUNDIAL NO ARRANJO PRODUTIVO LOCAL (APL) DE SANTA RITA DO SAPUCAÍ

Fernanda Moreira da Silva

Bacharelanda em Administração da Faculdade de Administração e Informática (FAI).

E-mail: femoreira@rocketmail.com

Vanessa Neri Martins Macedo

Bacharelanda em Administração da Faculdade de Administração e Informática (FAI).

E-mail: vanessa.neri@yahoo.com.br

Vinícius Antônio Montgomery de Miranda

Graduado em Engenharia Elétrica e com mestrado em Engenharia de Produção pela UNIFEI. Especialista (MBA) em Gestão Financeira e Controladoria pela UNITAU. Professor pela FAI e pelo Universitas-Itajubá.

Email: professormontgomery@yahoo.com.br

RESUMO

Este artigo faz um estudo sobre a maior crise financeira mundial desde 1929, que se iniciou nos Estados Unidos tendo reflexos no Brasil e no mundo. É objetivo do artigo, identificar os impactos da crise internacional no Arranjo Produtivo Local – APL de Santa Rita do Sapucaí e investigar quais foram as empresas mais afetadas e quais medidas de contingência foram adotadas. Os dados da crise no APL do município foram coletados através de pesquisa de campo realizada em 16 diferentes empresas. Os resultados da pesquisa mostram uma significativa queda nas vendas e na produção de grande parte dessas empresas, porém sem que isso fosse suficiente para causar impactos extremos no município, como demissões em massa e pedidos de falência.

Palavras-chave: Estados Unidos. Crise. Falência. Empresas. APL.

ABSTRACT

This article studies the largest global financial crisis causes since 1929, started in the United States, and its effects in Brazil and in the world. It identifies the international crisis impacts in the industries that belong to the Local Productive Arrangement - APL of Santa Rita do Sapucaí, investigating which were the most affected and contingency procedures adopted. The data of the crisis in the city APL has been collected through field research in 17 different industries. The survey's results shows a significant drop in sales and production in the most of these firms, although, this was not enough to cause extreme impacts in the city as mass resignations and requests for bankruptcy.

Keywords:United States. Crisis. Bankruptcy. Industries. APL.


INTRODUÇÃO

Envolto num mar de prosperidade econômica devido à redução dos juros para incentivar empréstimos e financiamentos, o Federal Reserve - FED, Banco Central Americano, contribuiu para com o surgimento da maior crise financeira que assolou os Estados Unidos, desde 1929.

Maior disponibilidade de crédito e financiamentos sem análise de risco, elevou a demanda por diversos tipos de bens, especialmente por residências, o que impulsionou o setor imobiliário norte-americano. Devido à essa abundância de créditos, a aquisição de imóveis passou a ser uma forma lucrativa de investimento. O mercado imobiliário norte-americano passou então a operar alavancado. Isto é, obtinham-se empréstimos para a aquisição de imóveis que posteriormente deveriam ser revendidos com lucro. Com a euforia e o crescimento dos gastos norte-americanos, os bancos e financeiras passaram a ofertar empréstimos e financiamentos numa proporção muito maior, viabilizando créditos até mesmo a clientes de um segmento de renda mais baixa, os chamados subprimes.

A crise nasceu a partir do momento em que o mercado percebeu a fragilidade da capacidade de pagamento dos créditos subprimes. Uma onda de consumidores tornou-se inadimplente. As instituições financeiras que lhes confiaram créditos, como o até então quarto maior banco de investimentos dos Estados Unidos, o Lehman Brothers e as instituições hipotecárias Fannie Mae e Fredie Mac, duas das maiores financiadoras do país, entraram em colapso.

Este colapso econômico, que nasceu em Wall Street, alastrou-se pelos EUA e Europa, afetando bancos e seguradoras. Também, boa parte das instituições financeiras asiáticas fora afetadas, como a Yamato Life, uma companhia de seguros de vida que se tornou a primeira vítima da crise no setor financeiro japonês.

O Brasil não ficou livre da crise econômica. Os primeiros efeitos foram sentidos no mercado financeiro com a Bolsa de Valores e o mercado de câmbio. O dólar disparou e após um bom tempo de segurança e otimismo, o Brasil despertava para os primeiros sinais da gravidade da crise. Montadoras de veículos passaram a apresentar quedas recordes de vendas, as empresas exportadoras de commodities viram suas vendas despencar e o cliente internacional desaparecer. Para se ajustar à nova demanda, a indústria local reagiu, cortando a produção. Como conseqüências, houve o aumento do desemprego, a redução da renda e do consumo, num ciclo que passou a afetar todas as empresas, inclusive as de médio e pequeno porte, incluindo o comércio.

Pretende-se analisar com este estudo, os principais aspectos da crise financeira norte-americana e seus reflexos no Brasil. Para verificar os impactos da crise na cidade de Santa Rita do Sapucaí foi realizada uma pesquisa de campo investigando as consequências da crise no chamado Arranjo Produtivo Local – APL de Santa Rita do Sapucaí.

METODOLOGIA

A coleta de dados primários foi realizada através de uma pesquisa de campo no formato de questionários e entrevistas em uma amostra de empresas que compõem o Arranjo Produtivo Local - APL de Santa Rita do Sapucaí.

A CRISE FINANCEIRA AMERICANA

A crise financeira de 1929 quebrou a economia americana, provocando uma queda de 20% no PIB das sete maiores economias do mundo, com um índice de desemprego de 33% nos Estados Unidos (CYSNE, 2009). A crise atual, por sua vez, teve seu início na concessão desenfreada de empréstimos sem garantias.

Segundo Averbug (2009), o processo de crescente desigualdade social e de renda verificada nos Estados Unidos é o ponto crucial que desencadeou a crise.

No período 2004-2008 (deste último ano, primeiro, segundo e terceiro trimestres), a remuneração ao trabalho representou 45,8% do PIB, o mais baixo nível registrado desde 1929, a partir de quando existem dados agregados sobre salário, segundo o Department of Commerce, Bureau of Economics Analysis.

Averbug (2009) afirma ainda, que o salário mínimo real em vigência é o mais baixo dos últimos 50 anos. Outro grande flagrante da diferença de renda norte-americana é mostrado pelo estudo da United States GPN Report de 2007, onde entre os 20% mais pobres, a renda média subiu apenas 2%, enquanto que entre os mais ricos esse crescimento alcançou 63%.

A partir desta afirmação, pode-se perceber que o endividamento passou a ser o principal impulsionador dos gastos das famílias na aquisição de bens e serviços, quando expostos a financiamentos atraentes.

A fim de manter o padrão de consumo norte-americano e a satisfação com o governo Bush, o Federal Reserve reduziu os juros, incentivando os consumidores de baixa renda e empresas a realizarem empréstimos e financiamentos. A abundância de créditos permitiu que qualquer consumidor pudesse fazer um empréstimo ou financiar um imóvel sem a menor burocracia. Com isso, surgiram os chamados subprimes, clientes de renda mais baixa, com dificuldade de comprovar renda ou que possuíam históricos de inadimplência. Comprar a casa própria para esses clientes já não fazia mais parte de um sonho. Passou a ser também fonte de renda, pois, com a liberação do crédito, financiava-se a compra do imóvel que seria posteriormente utilizado para alugar. As instituições financeiras adquiriam os créditos subprimes e os transformavam em títulos que eram revendidos a outras instituições de forma que esses créditos não se distinguiam dos créditos dos clientes primes, de baixo risco de liquidação. A partir do momento que os juros começaram a subir, revertendo a tendência anterior, a crise ficou iminente. Em 2007, a taxa de juros do FED chegou à marca de 5,25% ao ano. Foi então que os clientes subprime mostraram suas reais condições. Ou seja, não tinham condições de liquidar as dívidas adquiridas.

Segundo a BBC Brasil (2008), as principais consequências da inadimplência decorrentes do aumento dos juros nas maiores instituições norte-americanas foram:

·O Citigroup, maior grupo financeiro do país, apresentou um prejuízo de US$ 18 bilhões com o mercado de créditos subprime e buscou reforço de capital no valor de US$ 14,5 bilhões junto a investidores. A partir daí, perdeu o posto de líder em seu setor para o Bank of America;

·O Lehman Brothers, quarto maior banco de investimentos dos Estados Unidos, foi o primeiro a entrar em colapso e a pedir concordata;

·A American International Group (AIG), maior seguradora do mundo, perdeu em setembro de 2008, cerca de 60,8% de seu valor de mercado. Para evitar que tomasse o mesmo rumo que o Lehman Brothers, o governo norte-americano precisou injetar US$ 85 bilhões para aumentar sua liquidez;

·As hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac, criadas pelo governo para solucionar problemas de habitação, passaram a ser dependentes do governo e possuem apenas a metade dos US$ 12 trilhões em empréstimos para habitação;

·O Bears Sterns, um dos maiores bancos de investimento americano, chegou à beira da falência pelo seu envolvimento com os créditos subprimes, mas foi resgatado pelo FED ao ser vendido para o JPMorgan Chase;

·O Merril Lynch foi vendido para o Bank of America por US$ 50 bilhões;

·Goldman Sanchs e Morgan Stanley, dois dos grandes bancos de investimentos do país, se tornaram bancos comerciais após autorização do FED;

·O Washington Mutual teve grande parte de suas ações vendidas ao JPMorgan por US$ 1,9 bilhão;

·O Wachovia foi vendido para o banco Wells Fargo.

Além da quebra das instituições mencionadas, as famílias norte-americanas acordaram com dívidas imensas e destituídas de suas casas, compradas por financiamento. Averburg (2008) destaca que, em 2007, a inadimplência das famílias americanas chegou a 102,9% do PIB, enquanto que nas décadas de 60 e 70 não superou os 50%.

O DESDOBRAMENTO DA CRISE PELO MUNDO E NO BRASIL

Muitas instituições financeiras, bancos de varejo e seguradoras nos Estados Unidos e Europa foram primeiramente afetados pela crise, registrando perdas bilionárias. Da Europa, a crise alcança a Ásia e o resto do mundo, com consequências diversas que vão da negociação para nacionalização de empresas até quebras, concordatas e vendas por valor inferior ao valor de mercado, entre outras. Diversos países europeus que apresentavam um bom ritmo de crescimento, como a Alemanha, a Bélgica, a Islândia, o Reino Unido, a Irlanda, a França, Luxemburgo, Portugal, a Espanha, a Suíça, a Holanda e a Itália passaram a lidar com a ameaça de recessão, desaceleração econômica e o retorno da inflação. A falta de crédito tornou-se uma preocupação bastante importante nesses países e também no Brasil. As Bolsas de Valores, que representam um indicador de confiança dos investidores na economia, passaram a sofrer oscilações bruscas e quedas fortes, devido às especulações e as consequências da crise dos subprime.

Segundo dados do Portal Globo (2008), as maiores bolsas de valores do mundo despencaram com índices de 4,12% a 19,10% de queda. No Brasil, o dólar disparou e o governo, enfim, começou a se preocupar com a crise. A alta do dólar foi um reflexo do esforço de investidores internacionais em retirar seus investimentos do Brasil e dos demais países emergentes em direção a investimentos mais seguros como os Títulos do Tesouro norte-americano. Um conjunto de medidas financeiras foi adotado pelo governo brasileiro para amenizar os efeitos da crise, totalizando cerca de US$100 bilhões. Há unanimidade em afirmar que o país sobreviverá à crise por ter fundamentos sólidos, mas não há dúvida de que sairá machucado pela crise. A maioria das estimativas para o fim do ano de 2009 é de um crescimento abaixo da metade do que vinha acontecendo, em torno de 0,59% (AGÊNCIA BRASIL, 2009). Boa parte das exportações está sendo prejudicada pela falta de linhas de crédito em dólar para financiá-las, e pela redução da demanda dos consumidores tradicionais. Embora o dólar mais alto possa até beneficiar a exportação de manufaturados, a exportação de commodities,principais produtos da pauta de exportação do Brasil, sofre com a falta de demanda e redução de preços. Além disso, a alta do dólar encarece os alimentos e cria problemas para empresas que utilizam insumos importados. Num mundo menos próspero, mais inseguro, os bancos tornam-se mais arredios, o crédito fica ainda mais difícil.

Além dos problemas citados, alguns dos tradicionais parceiros comerciais do Brasil também sofrem retração em suas exportações.

Os países com maior grau de risco são Chile, Venezuela, Bolívia e Equador. No entanto, mesmo países com participações das exportações ao redor de 20% do PIB, como o Uruguai, Paraguai, Peru e Argentina partilham do mesmo problema: o baixo grau de diversificação das exportações que são concentradas em commodities. O diferencial do Brasil em relação aos parceiros continentais é, portanto, a menor participação das exportações no PIB e a presença de uma pauta mais diversificada de exportações. (PEREIRA, 2008)

No caso do Brasil, mesmo sendo as commodities o principal produto de exportação, o PIB do país não é tão comprometidocom sua queda como ocorre com outros países da America Latina, por ter participação de 12,9% no total exportado, como mostra o gráfico a seguir:

GRÁFICO 1 - Participação das exportações no PIB (%)

2006



FONTE: PEREIRA (2008)

Não se sabe quando os países ricos conseguirão se recuperar da crise, nem o tamanho do ajuste que a China ou a Índia farão em seu apetite por commodities, mas é certo que a tímida abertura comercial brasileira, apesar de limitar o desenvolvimento econômico; em tempos de crise, evita que o país sofra maiores impactos.

EUA X BRASIL

A comparação dos efeitos da crise nos Estados Unidos e no Brasil ajuda a entender semelhanças e diferenças importantes. As semelhanças começam com a escassez de crédito e dificuldades no sistema financeiro. Uma diferença importante é que, nos Estados Unidos, operações bilionárias com papéis podres, sem base no capital real dos bancos, contaminaram o conjunto da economia e criaram uma situação de insolvência para diversas instituições – que podem acabar nacionalizadas para não decretarem falência.

No Brasil, o diagnóstico é outro. Houve operações cambiais de risco no mercado futuro por parte de grandes empresas que apostaram no dólar baixo e sofreram perdas pesadas. A Sadia, por exemplo, teve um prejuízo estimado de R$ 760 milhões. Na Aracruz e na Votorantim, os prejuízos somaram R$ 1,95 bilhão e R$ 2,2 bilhões, respectivamente. As medidas tomadas pelo Banco Central brasileiro refletem a postura de que a crise tem proporções menores no Brasil. Em várias decisões sucessivas, o Banco Central diminuiu a quantidade de dinheiro que os bancos são obrigados a manter nos cofres da instituição, conhecida como depósito compulsório, liberando R$ 47,1 bilhões na economia (FOLHA, 2009). Na mesma direção, o governo elaborou uma medida provisória para comprar carteiras de crédito de instituições em dificuldade – com obrigação de recompra um ano depois. Comparadas com o pacote americano, as condições de salvamento são mais duras porque os bancos brasileiros são mais saudáveis. Apesar do recente crescimento no nível de crédito na economia, o grau de endividamento na economia brasileira ainda é baixo, sobretudo se comparado ao nível atingido nos Estados Unidos. No Brasil, não há nada que possa ser comparado à bolha americana. Mas as ruínas da economia americana mostram que toda prudência é pouca, em situações desse tipo.

O ideal seria agir na salutar redução de custos: a redução de impostos indiretos (CYSNE, 2009). De acordo com esta afirmação, uma forma de driblar a crise seria a redução das despesas públicas que tem impacto direto sobre a demanda e o emprego. Porém, sem dívida externa e com reservas de US$ 206 bilhões (FOLHA, 2009), o Brasil está mais protegido do que nunca para enfrentar a maré da crise mundial.

IMPACTOS NO ARRANJO PRODUTIVO LOCAL - APL DE SANTA RITA DO SAPUCAÍ

Um APL pode ser definido como uma concentração geográfica de empresas especializadas de um mesmo setor ou de um mesmo complexo industrial. Constitui-se de uma alternativa para se obter crescimento econômico a partir de parcerias entre o poder público e a iniciativa privada.

Segundo dados do Diagnóstico do arranjo produtivo da indústria de eletrônica de Santa Rita do Sapucaí (2004), o APL do município é formado por cerca de 120 empresas, que movimenta aproximadamente R$ 530 milhões por ano e emprega mais de 8.000 funcionários direta ou indiretamente.

Para conhecer os impactos da crise financeira no município, selecionou-se uma amostra de empresas pertencentes ao APL que atuam nos ramos de eletrônica, segurança, automação industrial, estamparia, usinagem, telecomunicações e consultoria.

Os resultados da pesquisa de campo realizada sobre os impactos da crise no APL de Santa Rita do Sapucaí, correspondentes ao período de Outubro de 2008 a Março de 2009, são mostrados no quadro abaixo:


Autor: Vanessa Neri


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