INTERDISCIPLINARIDADE



INTERDISCIPLINARIDADE

Conceitos e aplicabilidade no ambiente escolar

Vanessa Schieffelbein Machado

 

Resumo:

 

Este trabalho não tem a pretensão de contemplar todas as questões e definições em Interdisciplinaridade. Trata-se de uma pesquisa concisa sobe o assunto, porém com muita dedicação e carinho. Interdisciplinaridade tornou-se termo corrente em métodos educacionais. Portanto, busca-se aqui esboçar a conceituação de interdisciplinaridade, suas concepções atuais, sua utilidade, valor e aplicabilidade, para então analisar os obstáculos e possibilidades de um trabalho interdisciplinar na escola. Eleger a interdisciplinaridade como eixo da educação escolar implica em comprometer-se com novas responsabilidades, decisões e planejamentos. Entretanto, esta mudança se faz necessário a medida em que esta nova sociedade globalizada exige de nós mais do que estamos conseguindo realizar com a escola e com a educação de nossos futuros cidadãos.

 

 

Palavras-chave: Conceitos de Interdisciplinaridade, Interdisciplinaridade, Metodologia Interdisciplinar.

 

 

1 INTRODUÇÃO

 

Realizar um trabalho sobre interdisciplinaridade no ensino tornou-se necessário, já que é um tema atual e, uma possibilidade de solução para uma nova metodologia educacional. Tal situação exige uma investigação e uma análise do significado da interdisciplinaridade. A busca de uma bibliografia especializada no assunto revela a existência de poucos livros sobre o tema.

 

Considerando interdisciplinaridade como uma atitude a ser assumida no sentido de alterar os hábitos já estabelecidos no desenvolvimento do conhecimento, buscamos elucidar esta questão abordando os seguintes aspectos: utilidade, valor, aplicabilidade, obstáculos e possibilidade da interdisciplinaridade no ensino.

 

Pensando em investigar sobre o significado da interdisciplinaridade, elaboramos um pequeno retrospecto histórico, onde procuramos situar a questão interdisciplinaridade como preocupação constante desde os primórdios da História do Pensamento.

 

Em seguida, fazemos à descrição de algumas das concepções de interdisciplinaridade mais em uso na atualidade, segundo opinião de vários autores. A inclusão destas concepções faz-se necessária na medida em que são inúmeras as controvérsias em torno do significado do termo interdisciplinaridade e isto pode gerar grandes equívocos.

 

Utilidade, valor e aplicabilidade foram colocados pelo fato da interdisciplinaridade estar na moda e, muitos profissionais a utilizarem sem ter uma idéia bem clara a respeito de sua importância.

 

A efetivação da interdisciplinaridade, seus obstáculos e possibilidades, fazem-se necessários na medida em que uma reflexão teórica não poderia deixar de abordá-los para uma verdadeira efetivação no ambiente escolar. Os obstáculos foram sendo identificados em função de idéia de atitude mencionada anteriormente.

 

A partir desta pesquisa pudemos chegar a conclusão de forma respeitosa e, ressaltando que este trabalho pode contribuir muito para todos que de alguma forma participam do processo educativo.



1 CONCEITO DE INTERDISCIPLINARIDADE

 

Com o impacto da tecnologia no cotidiano de cada indivíduo é exigido competências que vão além do simples lidar com máquinas. O trabalho ganha uma nova exigência, que é a de aprender continuamente num processo não mais solitário, já que, a velocidade de renovação de novos saberes e de formas de fazer em todas as atividades torna-se rapidamente ultrapassada. Esse desenvolvimento incessante da tecnologia faz surgir inúmeras especialidades científicas, fragmentando cada vez mais o conhecimento humano. O saber dissolveu-se em pequenas parcelas, uma ciência em migalhas conforme afirma G. Gusdorf:

 

A ciência em migalhas de nossa época não passa de reflexo de uma consciência esmigalhada, incapaz de formar uma imagem de conjunto do mundo atual. Invertendo a marcha do pensamento, os sábios da nossa época devem renunciar a se confinarem em sua especialidade, para procurarem, em comum, a restauração das significações humanas do conhecimento. Esquecemo-nos demais que o saber representa uma das formas da presença do homem no mundo. (GUSDORF apud JAPIASSU, 1976, p.15)

 

É nesse contexto de fragmentação que se faz necessário um novo especialista, aquele que tem uma concepção unitária de ser humano e do seu conhecimento. Ai surge à exigência do interdisciplinar, que impõe a cada especialista que transcenda a sua especialidade, conscientizando-se dela e aceitando as contribuições das outras disciplinas.

 

Em nossos dias o conceito de “interdisciplinaridade” esta em voga e se conhece muito pouco a respeito das suas características. Podemos citar alguns autores tais como Hilton Japiassú, Ivani C. Fazenda, Jean Piaget, entre outros.

 

Segundo H. Japiassú (1976, p. 43), a interdisciplinaridade se apresenta sob a forma de tríplice protesto: contra um saber fragmentado, contra o distanciamento entre a universidade compartimentada e a sociedade percebida como um todo e contra o conformismo das situações adquiridas. Para ele toda a ciência é unitária para quem a produz e, esta idéia de saber unitário sempre existiu na história do pensamento.

 

Na tentativa de esclarecer melhor sobre o significado da interdisciplinaridade, procuramos obter uma visão geral de algumas análises conceituais. O termo interdisciplinaridade não possui ainda um conceito próprio porque apresenta diferentes significações e compreensões. Mesmo existindo inúmeros termos para designar interdisciplinaridade, a idéia é sempre a mesma: “A interdisciplinaridade caracteriza-se pela intensidade das trocas entre os especialistas e pelo grau de integração real das disciplinas no interior de um mesmo projeto de pesquisa” (JAPIASSU,1976, pg. 74)

 

Georges Gusdorf, segundo Ivani Fazenda em seu livro Integração e Interdisciplinaridade no Ensino Brasileiro – Efetividade ou Ideologia, desenvolveu uma filosofia da História (1977) apresentando as preocupações interdisciplinares principalmente no século XVIII, em que a passagem do Múltiplo ao Uno foi uma das maiores preocupações dos enciclopedistas franceses. Já no século XIX, ele ressalta que a História do Saber é marcada pela expansão do trabalho científico e as variadas tecnologias de pesquisa suscitam a multiplicação das tarefas e o advento de especialização. “Pela acumulação quantitativa das informações, o preço que se paga é o desmembramento da inteligência”.

 

A esse desmembramento do conhecimento, Japiassú (1976) chama de “Patologia do Saber”, uma doença do homem e uma doença do saber. O remédio seria a interdisciplinaridade que surge como uma tentativa de preservar a integridade do conhecimento e conscientizar o especialista sobre os principais problemas colocados pelas ciências humanas. Para ele, interdisciplinaridade é uma exigência interna destas ciências, principalmente no âmbito do diálogo entre as disciplinas que as compõem, isto nos faz querer reformular a nossa concepção do mundo e do homem como partes integrantes de um mesmo universo. Também é uma necessidade para melhorar os ensinamentos que os professores nos fazem conhecer.

 

1.1 CONCEPÇÕES ATUAIS DE INTERDISCIPLINARIDADE

 

Com a exigência cada vez mais clara da necessidade de superar a fragmentação do conhecimento e suas implicações sobre a educação, surge em todos os segmentos do ensino-aprendizagem, e até mesmo da atuação humana, várias idéias. Pode-se dizer que a interdisciplinaridade é uma delas e objetiva contribuir para a unificação do saber que deveria ser praticado na educação permitindo o desenvolvimento do ser humano na sua plenitude.

 

Dentre os autores que escrevem sobre esta concepção de ensino, Ivani C. Fazenda (1996) serve-nos de orientação a respeito da análise sobre como vários peritos internacionais referem-se acerca da terminologia do interdisciplinar. Ela apresenta diversos conceitos pesquisados no relatório CERI/HE/CP/69.01 (1969), dentre os quais o de Guy Michaud (CERI/HE/CP/69.04, 1969) que propõe uma distinção terminológica em quatro níveis: multi, pluri, inter e transdisciplinar.

 

Hilton Japiassú (1976, p.78) também faz menção em seu livro da existência de diversas modalidades de interdisciplinaridade com a correspondência terminológica empregada por quatro desses participantes: Guy Michaud (França), E. Jantsch (Áustria), H. Heckhausen (Alemanha) e M. Boisot (França) cada um com diferentes nomenclaturas para o mesmo conceito. Sendo assim, apresentamos de uma forma resumida, as análises feitas por Ivani Fazenda (1996) a respeito do esclarecimento das idéias empregadas pelos especialistas acima mencionados.

 

Com base no relatório L’lnterdisciplinarité: problèmes d’enseignement et de recherche dans les Universités, E. Jantsch (perito da OCDE — Áustria) procurou aprofundar as conclusões iniciais de Guy Michaud e tentou estabelecer o papel da interdisciplinaridade acreditando que primeiro se deve elucidar os seguintes significados:

 

Disciplina - conjunto específico de conhecimentos com suas próprias características sobre o plano do ensino, da formação dos mecanismos, dos métodos, das matérias.

 

Multidisciplina - Justaposição de disciplinas diversas, desprovidas de relação aparente entre elas. Ex.: música + matemática + história.

 

Pluridisciplina - Justaposição de disciplinas mais ou menos vizinhas nos domínios do conhecimento. Ex.: domínio cientifico: matemática + física.

 

Interdisciplina - Interação existente entre duas ou mais disciplinas. Essa interação pode ir da simples comunicação de idéias à integração mútua dos conceitos diretores da epistemologia, da terminologia, da metodologia, dos procedimentos, dos dados e da organização referentes ao ensino e à pesquisa. Um grupo interdisciplinar compõe-se de pessoas que receberam sua formação em diferentes domínios do conhecimento (disciplinas) com seus métodos, conceitos, dados e termos próprios.

 

Transdisciplina - Resultado de uma axiomática comum a um conjunto de disciplinas (ex. Antropologia considerada como “a ciência do homem e de suas obras”, segundo a definição de Linton). (JANTSCH apud FAZENDA, 1996, p.27).

 

Para Jantsch (1972) a interdisciplinaridade deve ser considerada ao nível da sociedade global, levando em conta o triplo papel da Universidade: o ensino, a pesquisa e o serviço. Toda sua análise é feita sob a perspectiva de sistema, no qual o modelo é a ação humana.

 

Nesse sentido, ele considera necessária a organização das ciências, segundo uma finalidade, onde as diversas interações ocorrentes terão por fim que exercer certa influência sobre a sociedade. Nesse sentido, o ensino aparece como uma maneira da pessoa gerar tarefas, prevalecendo a ação humana. Como ele admite que o ensino tem por objetivo fazer com que a sociedade tenha o poder de se auto-renovar, isto pressupõe a necessidade de uma atitude de coordenação e cooperação entre as disciplinas para efetivação da interdisciplinaridade e, desta forma, é necessária uma modificação na atitude epistemológica na compreensão do conhecimento.

 

Para a sua diferenciação terminológica, baseia-se nos graus de cooperação e coordenação dos sistemas de ensino e propõe os seguintes termos:

 

a)      Multidisciplinaridade – conjunto de disciplinas sem nenhuma relação entre elas e que se destinam a um sistema de um só nível e de múltiplos objetivos, sem cooperação nenhuma.

b)      Pluridisciplinaridade – diversas disciplinas justapostas de modo a aparecer relações entre elas, que se destinam a um sistema de um só nível e de múltiplos objetivos, com cooperação e sem nenhuma coordenação.

c)      Interdisciplinaridade – sistema de dois níveis e objetivos múltiplos onde há coordenação procedendo do nível superior.

d)     Transdisciplinaridade – coordenação de todas as disciplinas e interdisciplinas de ensino inovado.Há coordenação com vistas a uma finalidade comum dos sistemas.

 

Ao fazer este resumo, salientamos a importância das colocações de Jantsch. Preocupado em organizar as ciências segundo uma finalidade, ele procura, com esta atitude, eliminar as barreiras existentes entre teoria e prática, entre homem e mundo; a educação passa a ter um sentido, passa a ser um meio de engajamento nos problemas sociais, onde o aluno se tornará agente e paciente das transformações que vir a fazer cientificamente e socialmente. Com isto pode-se dizer que surge uma nova proposta pedagógica que é a interdisciplinaridade: um meio de auto-renovação e uma forma de cooperação e coordenação entre as disciplinas.

 

Heinz Heckhausen (1972), para estabelecer as diferenciações terminológicas a respeito da interdisciplinaridade utiliza somente as disciplinas empíricas, aquelas que se baseiam na observação e não na dedução pura, como a matemática. Para ele é importante conhecer a natureza de cada disciplina e estar continuamente reformulando os conhecimentos destes domínios, já que ele admite que uma disciplina pode impor sua autoridade às demais disciplinas e anular a contribuição das mesmas.

 

Para este conhecimento das disciplinas, enuncia sete critérios de caracterização: Domínio material, Domínio de estudos, Nível de integração teórico, Métodos, Instrumentos de análise, Aplicações práticas e Contingências históricas.

 

Interdisciplinaridade para Heckausen é considerada a “Ciência das Ciências” e isto nada mais é que transformá-la numa nova ciência dominante. Entretanto, a interdisciplinaridade não é uma ciência, mas sim uma nova postura de integração e trocas entre as disciplinas e especialistas dentro de um projeto escolar.

 

Diferente de Jantsch, ele propõe cinco tipos de relações interdisciplinares, a saber:

 

a)      Interdisciplinaridade Heterogênea – é dedicado à combinação de programas diferentemente dosados onde é necessária uma visão geral não aprofundada, dedicado a pessoas que irão tomas decisões bastante heterogêneas. Exemplo: professores primários.

b)      Pseudo-interdisciplinaridade – poderia estabelecer-se entre disciplinas heterogêneas que recorrem aos mesmos instrumentos de análise. Exemplo: uso comum da matemática.

c)      Interdisciplinaridade Auxiliar – utilização de métodos de outras disciplinas. Admite um nível de integração ao menos teórico. Exemplo: Pedagogia ao recorrer aos testes psicológicos.

d)     Interdisciplinaridade complementar – disciplinas que se juntam parcialmente, criando relações complementares entre seus respectivos domínios de estudo. Exemplo: Psico-biologia.

e)      Interdisciplinaridade unificadora – relação muito estreita entre os domínios de estudo de duas disciplinas, resultando na integração teórica e metodológica de ambas criando uma nova disciplina. Exemplo: Biofísica.

 

No primeiro tipo de relação, Heckausen anula o mérito das ciências em favor do bom senso que o profissional terá que usar, tornando assim o ensino sem consistência e baseado apenas na experiência de vida do professor.

 

No segundo tipo proposto, tem uma falha no que diz respeito a associar disciplinas em que os conteúdos teóricos são distantes. Os instrumentos de análise, mesmo sendo comuns em algumas disciplinas, são apenas recursos utilizados, não constituindo um meio de interação entre as mesmas.

 

No tipo denominado Interdisciplinaridade Auxiliar, seria interessante se aplicado á problemas grandes e complexos tal como guerras, fome, etc. porque reuniria diversos especialistas para resolver um determinado problema, entretanto, isto não se constituiria numa real interdisciplinaridade porque cada disciplina daria sua contribuição, em nível teórico, mas preservaria para si a integridade de seus métodos e conceitos, sem uma real interação. Numa atitude interdisciplinar toda ciência é complemento de outra e não apenas utilização de teorias ou métodos.

 

O último tipo de relação seria uma integração de conteúdos de disciplinas heterogêneas em uma mesma disciplina, o que resultaria na criação de uma nova disciplina, onde os conceitos e métodos seriam comuns. Este tipo de combinação possibilitaria a abertura ao estudo de novos campos do conhecimento, mas não resolveria a tentativa de restabelecimento da unidade do saber.

 

Esta diferenciação em cinco tipos de relações interdisciplinares na proposta de Heckausen tem um aspecto importante, pois num dos tipos relacionados, aparece a tentativa de eliminação das barreiras entre as disciplinas, mesmo que ocorra a contribuição delas em apenas um nível de interação.

 

Boisot (1972) acredita não existir interação entre as disciplinas, cada uma se restringe a um campo específico de atuação onde ocorrerá o projeto de ensino. Disciplina é considerada como Estrutura “aquilo que designa um sistema no qual se reconhece uma organização e no qual a soma de suas partes não coincide com sua totalidade” (BOISOT, 1972, p. 90)

 

Distingue três tipos de interdisciplinaridade:

 

a)      Interdisciplinaridade Linear – um conjunto de leis de uma disciplina pode ser aplicado à outra (corresponde a Interdisciplinaridade Auxiliar de Heckausen).

b)      Interdisciplinaridade Estrutural – interação de duas ou mais disciplinas que resulta numa nova disciplina (corresponde a Interdisciplinaridade Unificadora de Heckausen).

c)      Interdisciplinaridade Restritiva – num dado projeto, cada disciplina restringe seu campo de ação, impondo certas barreiras às outras disciplinas (corresponde a Pseudo-Interdisciplinaridade).

 

No primeiro tipo de relação, ele acredita que a linearidade interdisciplinar ocorre quando um determinado conhecimento de uma disciplina pode ser aplicado a diferentes áreas.

 

No tipo Interdisciplinaridade Estrutural, da interação entre algumas disciplinas surge uma nova totalmente diferente das disciplinas originárias.

 

Na Interdisciplinaridade Restritiva, ocorre apenas uma troca de idéias entre os especialistas, como se fosse um projeto para resolver um determinado problema, onde cada profissional atuaria na sua área específica sem interagir no trabalho do outro.

 

Esta diferenciação do trabalho interdisciplinar de Boisot, como já havia mencionado anteriormente, permanece apenas na noção de Estrutura, onde cada disciplina atua no seu campo específico sem uma interação efetiva entre elas. 

 

Essa noção de Estrutura proposta por Boisot, parece querer fornecer a solução para todos os problemas da interdisciplinaridade. Nesse sentido, encontramos em Piaget (1978) o mesmo tipo de pensamento. Ele estabelece que os problemas interdisciplinares reduzem-se à comparação de diferentes estruturas ou sistemas de regras. A este pensamento, a matemática aparece como instrumento privilegiado do interdisciplinar, pois proporciona uma organização dos conceitos e das estruturas.

 

Num sistema de regras, os especialistas procuram uma linguagem comum que passará a reger os fenômenos e nesse meio, o ensino se prestaria a fazer homens lógico-matemáticos, que tentam aparentar uma atividade intelectual. Nessa tentativa, Piaget (1978) reconhece a impossibilidade de relações entre os sistemas das ciências do homem, por não haver ainda a definição de hierarquia entre as ciências, ocorrendo então inúmeros fracassos na tentativa do interdisciplinar.

 

Pensando agora na questão do ensino, a organização atual dos currículos, da forma como vem sendo trabalhado, por disciplinas, mostra-se insuficiente para lidar com os complexos fenômenos da realidade. Estes currículos apresentam ao aluno apenas um acúmulo de informações pouco relevantes para sua vida profissional, o que faz com que os educadores utilizem inadequadamente os conhecimentos, repartindo-os em fragmentos dispersos esquecendo-se do senso comum das disciplinas.

 

Desta forma, segundo Ivani Fazenda (1991), o conhecimento interdisciplinar deve ser uma comunicação entre os domínios do saber, não uma forma de neutralizar todas as significações das outras disciplinas. Uma atitude interdisciplinar, conforme ela, leva o especialista a conhecer as barreiras de sua disciplina e acolher as outras disciplinas na tentativa de substituir o conhecimento fragmentado por um conhecimento unitário. Isto confere validade ao conhecimento do senso comum porque é através do cotidiano que damos sentido a nossa vida.

 

Assim como Ivani, Japiassu (1976) também pensa que no ensino, uma metodologia interdisciplinar requer uma reformulação generalizada das estruturas de ensino das disciplinas, na medida em que coloca em questão não somente a pedagogia de cada disciplina, mas também o papel do ensino. É preciso que cada profissional esteja impregnado de um espírito epistemológico suficientemente amplo para que possa observar as relações de sua disciplina com as demais, sem negligenciar o terreno de sua especialidade.

 

O professor, como sujeito cognoscente, deve sempre buscar teorias, estudo e trocas de experiência com os outros professores, para analisar sua prática e refletir o caminho que o aluno está seguindo. Vemos aí a importância da interdisciplinaridade. A construção do conhecimento em conjunto com todas as áreas, sem menosprezar nenhuma e, modificando nossa prática escolar, tornando-a menos individualista e mais centrada na interação social.

 

Permanecendo agora em torno dos conceitos de pluri, multi, inter e transdisciplinaridade, por serem os mais utilizados, tentaremos estabelecer as suas diferenças.

 

Ao nível de multi e pluridisciplinaridade, percebe-se que ocorre uma aproximação das disciplinas em apenas um tipo de integração: teoria ou método.

 

Ao nível de interdisciplinaridade, percebe-se uma colaboração entre as disciplinas favorecendo uma integração efetiva onde ocorre, num primeiro momento, um aprofundamento dos conhecimentos da sua especialidade e das outras disciplinas; em seguida, cada especialista procura esclarecer as questões que os outros lhe colocam a respeito da sua disciplina e por último, uma tomada de consciência coletiva do problema em questão constituindo um campo de trabalho próprio. Convém lembrar, que os conceitos de cada área ainda preservam suas identificações originais.

 

A interdisciplinaridade não se caracteriza como uma transformação profunda entre os diversos conhecimentos, mas já é uma abertura para parcerias.

 

O nível de transdisciplinaridade seria o nível mais importante e abrangente das relações multi, pluri e inter. Seria uma atitude mais ousada. Uma organização do conhecimento ultrapassando os limites das fronteiras tradicionais de sua divisão por disciplinas fechadas.  D’AMBROSIO (1999) diz claramente que:

 

A transdisciplinaridade leva o indivíduo a tomar consciência da essencialidade do outro e da sua inserção na realidade social, natural e planetária, e cósmica. Uma conseqüência imediata da essencialidade é que a inserção só pode se dar através de um relacionamento de respeito, solidariedade e cooperação com o outro, consequentemente com a sociedade, com a natureza e com o planeta, todos e tudo integrados na realidade cósmica. Esse é o despertar da consciência na aquisição do conhecimento. A grande transformação pela qual passa a humanidade é o encontro do conhecimento e da consciência. (material da internet, 1999)

Sabemos que é um pouco utópico esta idéia de participação de todos os seres humanos nessa mudança de atitude, mas não é impossível. Requer muito estudo e disposição para buscarmos a integração da humanidade num todo.

 

No princípio, a interdisciplinaridade surgiu como uma tentativa das ciências de ultrapassagem do distanciamento entre disciplinas e da ação do homem e na exigência de um ensino coordenado e integrado das mesmas. Porém, a busca pela interdisciplinaridade não é exclusiva das ciências humanas, na medida em que qualquer área do conhecimento buscar uma melhor reflexão acerca de seus limites. Um exemplo disto foi Descartes quando associou a álgebra à geometria, ele já estava praticando interdisciplinaridade.

 

Portanto, interdisciplinaridade não é apenas uma conseqüência da especialização científica, mas um processo referente à produção e evolução do conhecimento quando ocorre, por parte dos professores, a reconstrução de seus referenciais teóricos e métodos.

 

Para esclarecer a interdisciplinaridade escolar, baseio-me nos pensamentos de Ivani Fazenda (1991). A interdisciplinaridade é uma atitude tomada pelo profissional diante do conhecimento, na tentativa de buscar alternativas para conhecer mais e além de sua área. Esta busca nos leva a romper com as barreiras entre as disciplinas através do diálogo constante entre professores e, criação de projetos coletivos onde todos possam trabalhar integrando teorias, métodos e práticas. Isto é no mínimo uma tarefa difícil, pois significa modificar a prática e o funcionamento das escolas em que trabalhamos e da sociedade em que estamos inseridos. Significa a substituição de uma concepção fragmentária e individualista do ser humano, para uma visão do ser humano em constante processo de transformação que necessita da interação social para se desenvolver.

 

2 UTILIDADE, VALOR E APLICABILIDADE DA INTERDISCIPLINARIDADE

 

 A Interdisciplinaridade é a tentativa de interação entre duas ou mais disciplinas. Esta interação pode ir da simples comunicação de idéias até a integração mútua dos conceitos, procedimentos e metodologias. Ela provoca uma relação de reciprocidade, facilitando o intercâmbio de conhecimentos e saberes.

 

Surge como crítica e um questionamento a segmentação entre os diversos campos do saber baseado numa pedagogia que não leva em conta a inter-relação entre as diversas disciplinas.

 

Não é uma nova ciência, mas uma nova proposta de apoio ao ensino das ciências e da pesquisa; uma recuperação histórica das disciplinas; como um aprofundamento das diferenças e como um espaço de discussão das problemáticas sociais, onde se procura construir uma tecnologia mais humana, mais unitária.

 

A partir dessas considerações, pretende-se definir a utilidade, valor e aplicabilidade da interdisciplinaridade seguindo as pesquisas de Ivani C. Fazenda (1996) que se baseou nas conclusões de um grupo de peritos de diferentes Universidades, reunidos em 1970:

 

a)      Como meio de conseguir uma melhor formação geral – o objetivo de um enfoque interdisciplinar, neste aspecto, se faz necessário à medida que proporciona um melhor desenvolvimento de diversas atividades, possibilitando aos estudantes situarem-se no mundo hoje, criticando e compreendendo as inumeráveis mudanças e informações que chegam até nós diariamente.

 

b)      Como meio de atingir uma formação profissional – o saber de múltiplas disciplinas faz-se necessário por possibilitar ao ser humano à adaptação em diversos empregos. Sendo o homem um ser social, sujeito e objeto de seu conhecimento, enquanto parte da realidade, precisa acompanhar as desconstruções e reconstruções por que passa o mundo hoje. Através da interdisciplinaridade, pode integrar os problemas existentes com as experiências cotidianas e buscar soluções adequadas e humanas, sem tanta superficialidade, preocupando-se com o outro.

 

c)      Como incentivo à formação de pesquisadores e de pesquisas – a pesquisa interdisciplinar tem como objetivo acabar com a diferença entre teoria e prática. Conforme já mencionado, para Japiassú, não é mais possível separar o conhecimento da prática porque há uma profunda relação de dependência entre eles. O sentido da pesquisa interdisciplinar é de reconstruir o objeto de estudo, integrando métodos e teorias, através de uma visão crítica e coerente.

 

d)     Como condição para uma educação permanente – os estudantes, uma vez adultos, devem ser capazes de continuar seus estudos e aprimoramentos no sentido de participar da vida social e política. Neste sentido, a educação deve possibilitar ao homem instrumentos e conhecimentos que o permitam seguir nessa busca incessante por mais saber e, isto só será possível, se o estudante trabalhou numa prática interdisciplinar e na pesquisa.

 

e)      Como superação da divisão ensino-pesquisa – a partir do novo enfoque pedagógico da interdisciplinaridade na tentativa de superação do saber fragmentado, o ensino não se realizará sem a pesquisa, que será a melhor forma de aprendizagem.

 

f)       Como forma de compreender e modificar o mundo – devido ao fato de o homem estar no mundo e ser sujeito e objeto desse mundo, torna-se necessário que o mesmo conheça as múltiplas formas do próprio mundo para que possa compreendê-lo e modificá-lo. O homem que buscar somente uma especialidade estará se enclausurando num único saber, sem perceber a necessidade de um conhecimento amplo e variado. A escola surgiu com o objetivo de preparar o homem para ser sujeito das suas ações, contudo, esta idéia desapareceu e agora seu papel é de transmissora de conhecimentos, negando ao homem seu real objetivo. A interdisciplinaridade recupera essa idéia de formação do homem inserido na sua realidade e agente de mudanças no mundo.

 

g)      Integração como necessidade à interdisciplinaridade - A integração deve ser uma etapa decorrente da interdisciplinaridade, ou seja, uma etapa em que se iniciariam os estudos dos conhecimentos das áreas e fatos a serem interados. Se a interdisciplinaridade é uma mudança de atitudes e compreensões, a integração deve resultar numa reflexão crítica do mundo através do conhecimento dos conteúdos, métodos e teorias das diversas especialidades ao invés de apenas integração de conteúdos. Também deve converter-se na transformação da realidade.

 

A necessidade da interdisciplinaridade impõe-se no momento em que entendemos que o conhecimento deve ser uma construção entre as pessoas e a sociedade em que estão envolvidas. O ser humano deve compreender qualquer objeto relacionando-o com uma única realidade, onde o saber está unido ao ser. Se não acontecer este tipo de relacionamento, o homem não poderá compreender o mesmo objeto de um modo científico, ele não terá sentido. Portanto, a educação deve promover encontros com as pessoas, fazendo-as refletir e participar num mundo onde a separação homem-sociedade-natureza perderia o significado. A esta exigência, os professores devem estar abertos a projetos e pesquisas inovadoras.

 

Célia Pires (2000, p. 133) nos diz que: “Sobreviver no planeta Terra nos próximos anos dependerá da capacidade de o homem ter uma visão global da realidade. Isso vai exigir mudanças radicais em todos os níveis, em particular nas formas de apreender a realidade, de conhecer”. Analisando seu pensamento, podemos perceber claramente que a escola, a partir de agora, deverá modificar seu papel na tentativa de transpor barreiras entre os diversos campos do conhecimento e encontrar novos métodos educacionais, o que reflete um cenário muito complexo para as pessoas nele envolvidas. Contudo, enfrentar essa situação é a proposta da interdisciplinaridade que busca uma mudança de atitudes e compreensões.

 

 

3 OBSTÁCULOS E POSSIBILIDADES DA INTERDISCIPLINARIDADE

           

O ensino interdisciplinar nasce da proposição de novos objetivos, de uma nova pedagogia, para isto é necessária à eliminação das barreiras entre as disciplinas e das barreiras entre as pessoas. Também é preciso transpor certos obstáculos, tais como:

 

a)      Obstáculos epistemológicos e institucionais – a interdisciplinaridade torna-se possível quando se respeita à verdade de cada disciplina, tendo-se em vista um conhecer melhor; nesse sentido, a eliminação de barreiras entre as disciplinas exigiria a quebra da rigidez das estruturas institucionais, que continuam a valorizar a especialização culminando na fragmentação das disciplinas e na criação de condições de ensinar-se em função das relações entre as disciplinas e os problemas da sociedade;

 

b)      Obstáculos psicossociológicos e culturais – o desconhecimento do real significado do projeto interdisciplinar, a falta de formação específica, a acomodação e o medo de perder o prestígio pessoal impedem a montagem de uma equipe que busque uma linguagem comum; na medida em que a especialidade torna-se a fortaleza do especialista, este se perde na vontade de poder e domínio, preocupando-se muito mais em fazer carreira do que avançar a ciência;

 

c)      Obstáculos metodológicos – o currículo deverá ser restaurado, na medida em que uma metodologia interdisciplinar terá que: levar em consideração o pensamento dos diversos especialistas; reconstruir as práticas pedagógicas e cognitivas dos participantes, pais, alunos, professores, diretores e todas as pessoas que querem reconstruir seu saber levando-se em conta o tipo de individuo que se quer, na fala de Ubiratan D`Ambrosio: “a grande meta da educação é a formação de um indivíduo ético, criativo e crítico, preparado para viver participativamente na sociedade e consciente de sua cidadania.” (material da Internet, 1999);

 

d)     Obstáculos quanto ao tipo de metodologia (formação do professor) – na interdisciplinaridade, não se tem mais uma relação pedagógica baseada na transmissão do saber de uma disciplina ou matéria, mas sim, uma relação de construção do conhecimento. O professor passa a ser um coordenador do processo de aprendizagem;

 

e)      Obstáculos materiais – para a efetivação de um projeto interdisciplinar, numa sociedade em rápida evolução é primordial o planejamento do espaço e tempo da sua realização de modo que favoreça alunos e professores em encontros com pequenos grupos, uma espécie de assessoria individualizada em outros turnos e locais de trabalho. Também não podemos esquecer da questão da motivação pessoal do professor. Se este não se sente determinado e feliz para trabalhar, com salário adequado para disponibilização de certo tempo, não será muito duradouro o projeto em si.

 

Sabemos que o conhecimento é o produto de uma construção intelectual, social e afetiva sobre o mundo em que vivemos. Ele se realiza no contexto de uma sociedade organizada por partes individuais, coletivas e institucionais. As produções feitas por estas diversas partes subsidiam a idéia de que o conhecimento é uma rede de articulações dinâmicas e complexas, não havendo mais a exclusividade de uma ou outra área do saber.

 

A possibilidade de um trabalho interdisciplinar surge na medida em que se concretize a eliminação das barreiras entre as disciplinas e entre os profissionais que pretendem se envolver nesse projeto.

 

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Quanto ao termo interdisciplinaridade, percebemos que existe uma grande variação quanto aos nomes, conteúdos e atuações e, também, a tentativa de definição dos diversos termos e seus conceitos com autores divergindo quanto às idéias.

 

Jantsch tenta estabelecer uma diferenciação terminológica tomando por base os graus de cooperação e coordenação entre as disciplinas. Ele quer uma educação voltada para a problemática político-social.

 

Heckausen pensa a interdisciplinaridade como Ciência das Ciências, convertendo-a numa nova ciência que seria soberana perante as demais. Isto se constituiria numa atitude sem muito sucesso, porque a realidade educacional é bem mais complexa do que se imagina.

 

 Boisot, assim como Piaget, são adeptos da idéia de que as disciplinas compõem uma estrutura organizada de tal maneira que a mesma seja a solução para os problemas de interação e que seja um novo instrumento epistemológico.

 

Ivani Fazenda, assim como Japiassu, acreditam que a interdisciplinaridade no ensino exige revisão da proposta de educação em suas origens, do contrário ela se tornará alienada, prestando-se a objetivos ideológicos de manipulação da educação.

 

A interdisciplinaridade tem seu valor e aplicabilidade confirmada na formação geral, profissional e de pesquisadores, surgindo como um meio de superação da divisão ensino-pesquisa e como condição para uma educação permanente.

 

Com a interdisciplinaridade os professores não mais se instalarão em suas especialidades, mas constatarão os limites existentes em cada disciplina e superarão as dificuldades de colaboração entre disciplinas heterogêneas para culminar em interações de verdadeira reciprocidade entre si.

 

O especialista precisa conhecer e respeitar os conceitos e métodos de outras disciplinas diferentes da sua. Deve renunciar qualquer tipo de atitude de que sua área é mais importante que a do outro, pois todas as áreas do conhecimento têm igual importância num empreendimento interdisciplinar.

 

Também devem estar bem seguros, não só dos conteúdos de suas disciplinas, mas também dos métodos que utilizam para suas aulas, para que assim possam confrontar idéias e resultados com os outros especialistas sem prejudicar as inter-relações entre eles. Essa exigência deve estar presente no pensamento de cada especialista. Nenhum professor pode confrontar suas idéias com os outros se não tem bem claro e seguro o que esta falando. Todo professor deve ter uma consciência crítica e orientação seguras a respeito da interdisciplinaridade.

 

 

A superação da barreira entre as disciplinas só será conseguida se as instituições escolares se redimensionarem no sentido de modificar sua função social. O espaço tradicional da escola não é mais o único lugar para a educação numa sociedade que se diz global. Com a tecnologia de comunicação se expandindo e inovando num processo crescente, a escola passa a ser apenas uma sala para o homem perceber o mundo e, enquanto ela continuar se preocupando com suas regras de funcionamento e sua divisão de disciplinas, continuará sendo apenas uma transmissora de conhecimentos baseada na antiga idéia de que sujeito e objeto se constituem separadamente, de que o mundo é fragmentado em pequenos saberes sem quaisquer ligações.

 

 

REFERÊNCIAS

 

ABREU JR., Laerthe. Conhecimento Transdisciplinar: O Cenário Epistemológico da Complexidade. Piracicaba: Editora Unimep, 1996.

 

APOSTEL, L.; BERGER; MICHAUD e outros – L’Interdisciplinarité: problemas d’enseingnement et de recherche dans les universités. Nice: OCDE, 1972.

 

D’AMBROSIO, Ubiratan. Transdisciplinaridade e a proposta de uma nova universidade. Disponível em: <http:vello.sites.uol.com.br/meta.htm>Acesso em: 09 set 2009.

 

FAZENDA, Ivani Catarina Arantes. Interdisciplinaridade – Um projeto em parceria. São Paulo: Edições Loyola, 1991.

 

FAZENDA, I. C. A. Integração e Interdisciplinaridade no Ensino Brasileiro – Efetividade ou Ideologia. 4ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 1996.

 

JANTSCH, Ari Paulo; BIANCHETTI, Lucídio. Interdisciplinaridade – para além da filosofia do sujeito. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.

 

JAPIASSU, Hilton. Interdisciplinaridade e Patologia do Saber. Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda, 1976.

 

PIAGET, Jean. Para onde vai a educação? - Tradução de Ivete Braga. 6ª ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1978.

 

PIRES, C. M. C.. Currículos de matemática: da organização linear à idéia de rede. São Paulo: FTD, 2000.

 

 

 


Autor: Vanessa Schieffelbein Machado