Seja outro o que te louve, e não a tua boca; o estrangeiro, e não os teus lábios. (Provérbios 27:2).

-- Boa tarde, com quem deseja falar, por favor?

-- Professor José Bonan Tagon.

-- Ah, o Zé. Ele está desocupado pode entrar.

-- Você é o Landim e você o Cáspio. Eu sou o Zé.

-- Por favor não reparem, sou autodidata, mas como tudo tem limite, não me atrevi a configurar esta rede local. Vocês querem conhecer o colégio?

Andando pelas dependências do prédio, verificamos uma automação equiparada aos padrões da Europa e uma disciplina esplêndida, mesmo nos intervalos das aulas. Tudo primava pela organização.

Onde o professor passava era saudado por empregados, alunos e professores, com cumprimentos regados a carinho, respeito e admiração. Uma particularidade: todos faziam questão de pronunciar seu nome: Zé.

-- Antes que pudesse dar alguma mancada, arrisquei: Zé, onde podemos ajudá-lo?

-- Landim, você e o Cáspio são “marketeiros” mesmo! Em geral as pessoas chegam até aqui, presenciam o mesmo que vocês e insistem que eu atenda pelo nome de Professor José Tago. Há quem até exagere, chamando-me pelo sobrenome. Vamos lá, preciso arrumar esta rede, aumentar a capacidade do servidor...

Acertados os detalhes alusivos a orçamento e todos os atavios comerciais, interessei-me pelo Zé, pedindo-lhe que falasse um pouco mais sobre sua vida.

-- Zé, você nos daria o prazer de contar parte de sua história?

-- Rapaz, quem sou eu para ter história. Eu morava na favela e era muito pobre. Comecei a pensar o que poderia fazer para sair daquela vida além de trabalhar, pois isso já era de praxe. Resolvi. Vou levar a sério o estudo. Essa decisão me fez entrar na faculdade de matemática do estado. Como eu estava indo bem, resolvi dar aula e arrisquei o vestibular para engenharia da federal. Mesmo como matemático e engenheiro, na verdade eu sou um autodidata, como lhes falava no início.

-- Como autodidata, já dava aula em alguns cursos, tornando-me um consultor em educação. Algumas economias guardadas, permitiram-me comprar esse colégio e administro outros. Sabe o que é? Eu gosto!

-- Zé, porque a recepcionista não verificou se você podia atender, simplesmente limitou-se a dizer que estava desocupado e mandou entrar?

-- Veja. Não posso perder tempo, fingindo que estou ocupado, impedindo que as pessoas entrem para falar comigo. Sou o diretor, o dono. Tudo aqui funciona sem a minha presença. Não preciso mostrar a ninguém o meu trabalho, que aliás nem dá para ver, por que em geral é feito com o cérebro. Pelo que eu saiba, ler pensamento só Deus – disse Zé.

-- Zé desculpe tomar ainda seu tempo. Eu nunca vi ninguém fazer questão de ser chamado de Zé. Por que contigo não acontece isso?

-- Não espalha. É uma estratégia de marketing. Deu pra notar que todo mundo gosta de me chamar por esse nome? Por que eu rejeitaria esse agrado?

Às vezes uma coisa simples, sobrepuja grandes sofisticações e produzem resultados, capazes de surpreender os mais capacitados profissionais.

Fizemos o trabalho para o Zé, que não nos chamou mais. Acho que prestou tanta atenção, que acabou por aprender. Ele sente um prazer maior do que todo o mundo em dizer que é autodidata. Acho que vou seguir seu método.

Foi muito gostoso, conhecer o Zé!


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Escrito por:
Gilberto Landim
palestrante@vendasplus.com.br
www.vendasplus.com.br
Autor: Gilberto Landim


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