Inclusão de Amor



A fim de desmitificar a frase “papagaio come o milho e periquito leva a fama!”, Engodo Plumas, optou por inverter essa tendência, procurando fazer jus às acusações que certamente perseguiriam os menos afortunados.

Com uma sede de vencer extraordinária, Engodo, saiu por aí vendendo picolé na praia de Copacabana durante os dias quentes e para cobrir a sazonalidade do produto, negociava jornais nos semáforos nas outras semanas.

Desse jeito, conseguiu ajudar a família e entrar na faculdade de administração de empresas. E, arrumou um estágio em um escritório de contabilidade, onde percebia como salário a importância de duzentíssimos reais.

Legal! Grauzinho colado, o melhor dentre todos os estagiários; aquele que substituía o patrão na falta dele, encheu-se de alegria para ir à sua presença mostrar o diplomão! Ah!, agora, como doutor Plumas, seria respeitado, conheceria a honradez e o reconhecimento pelos excelentes serviços que com o maior esmero, sempre se esforçou por realizar.

-- Doutor Engodo Plumas! Meus muitos parabéns. Obrigado por ter sido o melhor dentre todos os meus estagiários. Como você sabe, seu contrato termina justamente agora. Leve essa carta de apresentação. Darei as melhores informações sobre você. – disse o Patrão.

-- Mas, seu Coisa! O senhor não falou que aproveitaria os que se dedicassem mais, os melhores e efetivaria. Desculpe minha burrice. É claro que o senhor vai arranjar como desculpa a CPMF, o PAC. – Despediu-se desiludido, o recém-formado.

Alguma experiência em mágica circense, não foi difícil tornar Engodo, em um picareta no jogo de baralho. Decidiu viajar pelo nordeste e jogar a dinheiro o Pif-paf. Sua habilidade com o baralho, fazia-o elaborar os mais imperceptíveis truques. Só perdia no jogo quando precisava disfarçar.

Isso lhe custou a fuga de mais de 30 cidades maranhenses, pois estava sendo cassado pelas pessoas enganadas, que desejavam assassiná-lo.

Antes que alguém o matasse, mudou o ramo de atividade. Descobrindo algumas crenças do pessoal do interior, apelou por ser um Escapularista, escritor de Breve. Escrevia uma “oração” em um pano e colocava no pescoço da pessoa para atender ao seu desejo.

E foi, na cidade de Grajaú, que uma senhora estava demorando a ter o filho, quando o marido procurou Engodo, para que sua esposa parisse. Deu seu melhor cavalo ao jovem picareta e alguns minutos depois o nenê vinha ao mundo.

Intrigado com o efeito do Breve, o feliz papai, retirou do pescoço da esposa o escapulário e leu:

Breve me pedem,
Breve eu dou;
Cavalo me dão
E breve me vou.

Passando bem,
Eu e meu cavalo alazão,
Pouco me importa
Que mulher para, ou não.

Em Imperatriz, outra cidade, lá estava o espertalhão pronto para colocar outro Breve, quando sentiu uma arma encostada em seu ouvido, acompanhada da voz indignada do Matuto de Grajaú, bradando:

-- Cabra safado! Eu vou escrever um Breve para você. Quando chegar no inferno, poderão ler: “O fim de um picareta”.

-- Moço, o senhor não pode fazer justiça com as próprias mãos. Viajei quilômetros para prender o senhor Engodo Plumas. – palavras da carioca, Liz.

Como bom observador da lei. O Matuto, esqueceu até de perguntar se a moça era alguma autoridade policial e, confiante na justiça foi embora.

Durante cinco anos, Engodo nunca sentiu nenhum constrangimento de agir erradamente. Estava se vingando da sociedade do mal que (segundo seu julgamento) fizera a um homem que era o melhor aluno, o melhor estagiário. Agora diante de Liz, não sabia o que fazer de tão envergonhado. E o pior de tudo, como se desvencilhar da trama que urdira para si mesmo? Precisaria dar “nó em pingo d'água” para sair dessa situação. Estava mudo diante da moça. Não conseguia falar.

-- Engodo. Papai faleceu e declarou em seu testamento que metade dos seus bens ficasse com você. Lembra de uma promessa que você me fez, quando estagiava naquele escritório? – perguntou Liz.

O jovem começou a chorar. Era um choro de esperança. Seu coração estava arrependido das maldades praticadas e sua alma agradecida pelo resultado positivo que o sacrifício finalmente lhe trouxera. Como a mulher mais bonita que seus olhos avistaram, lhe proporcionaria tamanha felicidade.

Recuperando-se completamente, com uma profunda alegria, aproximou os lábios de Liz e após sentir o valor do beijo da mulher amada, disse:

-- Você sabe que sempre a amei. Nunca escondi isso de você. Seja qual for a promessa que tenha feito, esteja certa de que cumprirei integralmente.

E, Liz, esquecendo as próprias festas de fim de ano respondeu:

-- Você, falando que me amaria enquanto vivesse, me pediu em casamento. Vai cumprir o prometido?

O casal procurou todas as pessoas enganadas, indenizando-as pelos prejuízos. Agora que nada mais poderia impedir, deram-se de presente, um ao outro.

O ano novo estará registrando uma forte Inclusão de Amor.
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Escrito por:

Gilberto Landim

palestrante@vendasplus.com.br

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Autor: Gilberto Landim


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