Entrevista: Qualidade de Vida no Trabalho



Entrevista inédita sobre Qualidade de Vida no Trabalho concedida por Diego Berro ao JORNAL VALE PARAIBANO* que será publica no próximo dia 30 no caderno especial do jornal que tem tiragem distribuída em mais de 40 cidades de São Paulo.

JORNAL VALE PARAIBANO - Qual o conceito de qualidade de vida no trabalho?

Diego Berro - De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), qualidade de vida nada mais é do que a percepção do indivíduo sobre sua posição no mundo, no contexto da cultura e no sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações. A qualidade de vida, portanto é um estado completo de bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças.

Estas partes não podem ser separadas, pois as dimensões físicas, emocionais, sociais, espirituais e intelectuais estão intimamente inter-relacionadas. O equilíbrio, a integração e a harmonia entre estas dimensões representam no contexto mais profundo a Qualidade de Vida.

Qualidade de Vida no trabalho, portanto, pode ser definida como uma forma de pensamento envolvendo pessoas, trabalho e organizações, onde se destacam dois aspectos importantes: a preocupação com o bem-estar do trabalhador e com a eficácia organizacional.

Segundo o Modelo de Walton, algumas variáveis devem ser consideradas na avaliação da QVT:

compensação justa e adequada, condições seguras e saudáveis de trabalho, oportunidade de contínuo crescimento e segurança, integração social na organização do trabalho, congruência do trabalho com o espaço total da vida (equilíbrio entre vida profissional e familiar), etc.

JORNAL VALE PARAIBANO - Quais os benefícios para o empresário/empresa de criar condições para promover essa qualidade?

Diego Berro - Diversas pesquisas e cases de sucesso, apontam que a implementação de programas de qualidade de vida nas empresas, diminuem os índices de absenteísmo (faltas no trabalho), turn over (rotatividade de pessoal), diminuem os índices de acidentes no trabalho, os custos com assistência médica, entre outros, o que além de gerar uma melhor imagem da empresa no mercado devido a sua cultura de qualidade de vida como diferencial competitivo, melhora o ambiente de trabalho, fazendo com que os colaboradores trabalhem mais integrados e motivados. A empresa ganha em todos os sentidos. Aumenta diretamente a produtividade e diminui a rotatividade dos funcionários. Isso representa lucro para empresa, pois os gastos contratuais da rescisão de um funcionário, somados aos gastos para a seleção de um novo, seu processo de contratação e treinamento, quando somados representam uma grande perda de recursos.

JORNAL VALE PARAIBANO - Como convencer o empresário de que vale a pena?

Diego Berro - Todos os anos a Revista Exame aplica e divulga a pesquisa nacional: Guia Você S/A - Exame - As 150 Melhores Empresas para Você Trabalhar. O estudo é feito em parceria com a FIA (Fundação Instituto de Administração) e na sua 12ª edição (2008) a multinacional sueca, Volvo foi considerada a melhor empresa para se trabalhar no Brasil. Não é difícil entender por que a Volvo é a melhor empresa para se trabalhar no Brasil. A empresa é referência em tudo que envolve gestão de pessoas, do desenvolvimento à qualidade de vida. Para garantir a boa saúde dos funcionários, a empresa oferece uma equipe médica com diferentes especialistas, em tempo integral, além de um excelente plano de saúde e odontológico, auxílio de 70% na compra de medicamentos, óculos de grau e lentes de contato, e programas de combate ao tabagismo e ao estresse.

Destaque neste ano na categoria Saúde do Guia, a Eurofarma desenvolve ações simples a programas estruturados, garantindo uma vida equilibrada ao seu grupo de colaboradores. A empresa, por exemplo, incentiva que o funcionário se desligue totalmente da empresa no período de férias para, realmente descansar. O laboratório também oferece academia de ginástica a valor simbólico de um quilo de alimento não perecível como mensalidade, o que estimula a adesão de funcionários. Há acompanhamento com personal trainer e nutricionista, alimentação diferenciada para quem precisa e salão de beleza, entre outros.

Com essas ações o crescimento da empresa é notável. A empresa já é um dos três maiores laboratórios do mercado brasileiro e busca é estar em breve entre as três melhores companhias do ramo e conquistar 90% do mercado latino-americano.

Mais do que valorizar um bom ambiente de trabalho, a pesquisa desse ano mostrou que o sentimento de orgulho em pertencer à determinada empresa está atrelado a práticas consistentes de gestão de pessoas e qualidade de vida no trabalho.

De acordo com uma pesquisa aplicada por Eliete Bernal Arellano em sua tese de doutorado defendida na FCF/FEA/FSP com o tema: Avaliação dos programas de qualidade de vida no trabalho - análise crítica das práticas das organizações premiadas no Brasil, concluiu-se que 72% das organizações tiveram diminuição do índice de turn over no período posterior à implantação do programa de qualidade de vida e 40% tiveram diminuição do índice de absenteísmo.

Portanto, as próprias experiências de sucesso das grandes empresas no que diz respeito a implementação de programas de qualidade de vida devem estimular outros empresários a adotar essa política.

JORNAL VALE PARAIBANO - E para os funcionários? Quais os benefícios?

Diego Berro - Ao participar destes programas, o colaborador melhora sua saúde e trabalha mais motivado. Melhora a resistência a doenças e o relacionamento interpessoal além de melhorar a eficácia e concentração no trabalho. Através da multiplicação de conhecimentos em treinamentos e palestras de Qualidade de Vida, o colaborador fica mais apto a administrar melhor e resistir ao estresse, melhorando sua auto-estima e tendo um maior controle emocional, além de contribuir para a melhora de suas relações ergonômicas no trabalho, prevenindo a LER (Lesão por Esforço Repetitivo), melhorando a concentração no trabalho, entre outros.

JORNAL VALE PARAIBANO - Como o empresário pode 'medir' o nível da qualidade de vida na sua empresa?

Diego Berro - Avaliar o bem-estar e a qualidade de vida é uma atividade cada dia mais importante dentro das organizações devido a importância do tema para o equilíbrio entre o paradoxo: interesses organizacionais X interesses pessoais dos colaboradores. Para isso, existem diversos instrumentos desenvolvidos em todo mundo para se avaliar os índices de Qualidade de Vida nas empresas. Países como Estados Unidos e Inglaterra desenvolvem constantemente instrumentos que possibilitem essa atividade. No entanto, a utilização desses instrumentos em países diferentes foi durante muito tempo alvo de críticas pelo fato de não haver até então um instrumento que avaliasse a qualidade de vida dentro de uma perspectiva transcultural. Isto motivou a OMS (Organização Mundial da Saúde) a desenvolver um instrumento com essas características. Surgiu então a necessidade da criação de um instrumento que fosse capaz de avaliar a QV dentro de uma perspectiva genuinamente internacional. Foi desenvolvido então, o WHOQOL-100 (World Health Organization Quality of Life), disponível em vinte idiomas. É um instrumento auto-explicativo e possui seis domínios (psicológico, físico, nível de independência, relações sociais, ambientes e espiritualidade/crenças pessoais). O questionário completo possui 100 questões. A necessidade de um instrumento mais curto para uso em extensos estudos epidemiológicos fez com que a OMS desenvolvesse a versão abreviada com 26 questões, o WHOQOL – Bref. Ambos os questionários estão disponíveis para download em meu site: www.diegoberro.com.br ou através de solicitação pelos e-mail: diego_berro@hotmail.com e contato@diegoberro.com.br

JORNAL VALE PARAIBANO - Os funcionários costumam apresentar algum comportamento ou sintoma quando há a ausência de condições satisfatórias para o trabalho?

Diego Berro - De acordo com nossa parceira de trabalho, Priscilla de Souza Alves, enfermeira carioca, especialista em enfermagem do trabalho, dois principais problemas ligados a qualidade de vida atingem as empresas: o Absenteísmo, ausência temporária no trabalho por motivo de doença, gerando baixa produtividade nas empresas e o Presenteísmo que acontece quando o colaborador esta fisicamente presente no ambiente de trabalho, porém, mental e emocionalmente ausente.

Estas vítimas não faltam ao trabalho, mas apresentam sintomas como dores de cabeça, dores nas costas, irritação, alergias, dores musculares, cansaço, ansiedade, angústia, irritação, depressão, insônia, estresse, distúrbios gástricos, etc.. Com isto, há queda da produtividade e prejuízos para a empresa.

Estatísticas revelam que 40% dos afastamentos nas empresas são motivados por pequenas doenças e mal-estar, como gripes, dores nas costas, entorses, que podem ser evitados por um bom condicionamento físico.

Um estudo realizado pelo Institute for Health and Productivity Studies, dos Estados Unidos, mostrou que as empresas brasileiras chegam a perder 42 bilhões de reais/ano, o equivalente a 3% do Produto Interno Bruto, devido à presença de funcionários doentes apresentando falta de rendimento nas suas atividades e calcula-se também que o custo relacionado com presenteísmo chegue a 150 bilhões de dólares, nos Estados Unidos, por ano.

JORNAL VALE PARAIBANO - O que o chefe ou empresário pode fazer para criar um programa de qualidade de vida no trabalho?

Diego Berro - Em primeiro lugar é preciso que a idéia ou parta da diretoria da empresa ou que a mesma esteja totalmente aberta à implementação dos projetos sugeridos pelo gestor de pessoas da empresa. Na verdade a comunicação interpessoal entre esses níveis da hierarquia na empresa é o principal desafio para que um programa de qualidade de vida no trabalho tenha sucesso. Na verdade, o sucesso dos programas de qualidade de vida depende, por um lado, do comprometimento dos colaboradores em estar dispostos a mudanças comportamentais quanto aos hábitos saudáveis e, por outro lado, da empresa em poder fornecer condições necessárias para que essas mudanças aconteçam.

A empresa deve buscar favorecer uma comunicação aberta ao diálogo através de uma política de feedback, além de estruturar programar contínuos de treinamentos e palestras, abordando temas de desenvolvimento de forma global, isto é, considerando os aspectos biológicos, psicológicos, sociais e espirituais do ser humano.

Para que os programas sejam eficazes é preciso também que ele parta da realização de uma pesquisa sobre o perfil dos colaboradores e suas reais necessidades e uma implantação de ações contínuas a curto, médio e longo prazos e avaliações constantes sobre os resultados do programa avisando as correções necessárias para se atingir o objetivo final.

Todas as ações que revertam-se em benefícios à saúde dos funcionários são válidas. É preciso que as empresas tenham a consciência que a qualidade de vida no trabalho é muito mais do que a prática de atividades físicas e uma alimentação adequada. Um grande amigo, Paulo Dunningham, extraordinário palestrante motivacional, sabiamente costuma dizer que qualidade de vida é ter plena consciência dos benéficos à saúde que essa escolha trará para as pessoas e um meio para que a empresa possam aproveitar melhor o potencial dos seus colaboradores.

JORNAL VALE PARAIBANO - Cite algumas ações para proporcionar qualidade de vida que dão resultados a curto/médio prazo.

Diego Berro - De acordo com uma pesquisa realizada em 2007 entre as 44 Empresas premiadas pela Associação Nacional de Qualidade de Vida no Trabalho de 1996 a 2006 as principais práticas premiadas em Programas de Qualidade de Vida no Brasil, foram respectivamente:

1. Gerenciamento do Estresse – 29,6% Através de programas como: massagem expressa, Sala de descompressão, reflexologia, workshops, palestras e vivências, atendimento psicológico em rede credenciada, yoga, shiatsu, curso sobre gerenciamento do estresse, massagem anti-estresse, exercícios de relaxamento e massagem bioenergética.

2. Assistência Psicológica – 18,5% Através de programas como: orientação por telefone, tratamento em psiquiatria, atendimento por psicóloga contratada, extensivo aos familiares e orientação vocacional.

JORNAL VALE PARAIBANO - O que o próprio funcionário pode fazer para melhorar a qualidade de vida dele e dos demais no trabalho?

Diego Berro - Já o colaborador deve se comprometer em cultivar um estilo de vida saudável, o que faz uma grande diferença para seu rendimento no mercado de trabalho. É preciso adquirir uma condição física boa e manter a saúde sempre em dia, por meio de exercícios e de uma alimentação equilibrada.

Cuidar dos aspectos emocionais e psicológicos também é indispensável, o que inclui uma atenção muito especial à questão da auto-estima. Guardar um tempo para curtir momentos de lazer e conectar-se com o lado espiritual é essencial. O importante é saber conciliar afazeres profissionais com a vida pessoal, dedicar-se a si mesmo e aos familiares.
JORNAL VALE PARAIBANO - Qual o ambiente de trabalho ideal? Como seria a 'empresa dos sonhos'?

Diego Berro - Sem dúvida a empresa dos sonhos conseguiria conciliar equilibradamente os interesses organizacionais com os interesses de cada colaborador.

A empresa ideal é aquela que torna o profissional produtivo, saudável, ativo e sonhador. A empresa ideal é aquela que oferece em sua gestão de pessoas, diretrizes iguais para todos, sem distinção de cargo, reconhecimento, oportunidades de carreira e treinamento, programas de qualidade de vida, ambiente de trabalho agradável, clareza e abertura na comunicação interna, salário compatível e ótimo clima organizacional como conseqüência disso tudo.

Parece utópico, mas alguns empresários precisam acordam que os profissionais atualizados e motivados pela função que exercem não buscam apenas um bom salário e sim sua satisfação pessoal e profissional, o que significa ter uma proposta de trabalho com projeção e planejamento de carreira com perspectivas de crescimento e outros reconhecimento em forma de benefícios, inclusive através de palestras e treinamentos.

JORNAL VALE PARAIBANO - Cite um case de sucesso.

Diego Berro - Em 2006 tive a oportunidade de ministrar uma série de palestras de Qualidade de Vida durante a SIPAT (Semana Interna de Prevenção de Acidentes no Trabalho) na empresa BS Colway Pneus em Piraquara na grande Curitiba, no Paraná e conhecer seu programa de incentivo a uma melhor qualidade de vida.

Além de desestimular o hábito de fumar na empresa, a Bs Colway reduziu a carga horária de trabalho diária e implementou uma academia de ginástica no chão da fábrica, com personal trainers para orientar os funcionários.

Participando com freqüência da academia, os funcionários recebem um prêmio de R$130,00 (e mais o equivalente a R$20,00 mensais, acumulados a cada seis meses), mais R$50,00 para que utilizem bem o plano de saúde médico-odontológico, que prevê exames preventivos regulares e visitas ao dentista em períodos nunca maiores que seis meses.

Como resultado, na BS Colway as faltas ao trabalho são raras e os índices de algum tipo de lesão causada por esforço repetitivo ou má postura diminuíram de 18% para 5,5% além de gerar um clima organizacional extraordinário, favorecendo a motivação e o aumento da produtividade que teve como resultado 37% de aumento de produtividade em relação aos seus concorrentes do setor.

JORNAL VALE PARAIBANO - Por que muitas empresas ainda não acordaram para a importância de promover a qualidade de vida no ambiente de trabalho?

Diego Berro - No contato direto que temos com empresários diariamente por todo Brasil, percebemos que existem vários fatores que fazem alguns empresários terem a visão fechada quanto a fazer investimentos na promoção da qualidade de vida no ambiente de trabalho. Entre várias características que percebemos no nosso dia-a-dia, vamos apontar duas:

1. Imediatismo: A primeira característica que quero levantar é o imediatismo excessivo de alguns empresários. Alguns empreendedores exigem resultados concretos imediatos e desistem logo caso não os vejam aparecer, assim acabam elevando a importância das ações de curto prazo sem levar em conta os impactos que estas terão no valor da empresa em longo prazo. Portanto, ao pensar assim, acreditam que esses programas não trazem resultados. Nesta manha estive em reunião com um empresário na cidade de Vassouras, no interior do Rio de Janeiro. Nesta ocasião estávamos propondo justamente uma palestra de Qualidade de Vida, na qual não foi aceita pelo empresário com o argumento de que a empresa havia realizado num outro momento uma palestra e não havia surgido os resultados que ele esperava. Muitos empresários desistem do investimento pois esperam resultados milagrosos há curtíssimo prazo, quando sabemos que todo programa que visa melhoria da qualidade de vida deve ser de preferência continuo, pois visa maiores resultados a médio e longo prazo. O imediatismo tira a visão de futuro do empresário.

2. Procrastinação: É o diferimento ou adiamento de uma ação. Vejo muitos empresários pequenos crescem justamente por investirem enquanto ainda sao pequenos. Assim, crescem. Mas alguns pequenos empresários sempre adiam as decisoes de investir em programas de qualidade de vida por exemplo, alegando que nao tem estrutura e que quando ficarem grandes vao investir. O fato é que muitos, ao pensarem assim, deixam de fazer diversos outros investimentos na empresa, procrastinando, estagnam o crescimento da empresa. Isso é mais comum do que se imagina. Portanto, a dica aos pequenos é: Invita hoje para colher os resultados e tornar-se grande amanha.


* Jornal Vale Paraibano - www.valeparaibano.com.br
Fundado em janeiro de 1952 em São José dos Campos, o valeparaibano circula diariamente nos municípios do Vale do Paraíba, Serra da Mantiqueira e Litoral Norte de São Paulo, com tiragem média de 20 mil exemplares em dias úteis e 32 mil exemplares aos domingos.

* Diego Berro - Practitioner e Máster Practitioner em Programação Neurolingüística (Porto Alegre-RS); Graduando em Gestão Empresarial pelo FGV/EBAPE - Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (Rio de Janeiro - RJ) . Palestrante de Vendas, PNL, relações interpessoais e qualidade de vida.

Reprodução autorizada desde que mantida a originalidade do texto, mencionado o autor(Diego Berro), seu mini-currculo e o site (www.DiegoBero.com.br), e comunicada sua utilização através dos e-mails: diego_berro@hotmail.com e contato@diegoberro.com.br

Palestrante de Vendas Diego Berro - Palestras e Treinamentos de Vendas e Programação Neurolinguística.

www.diegoberro.com.br
Autor: Diego Berro


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