SUBMUNDO POLÍTICO



Hoje resolvi brincar de descobrir o significado lingüístico das palavras relacionando-as com o comportamento das pessoas dentro da sociedade.
John Joseph, em Linguaje and Politics, edição 2006, pág. 170, disse que “na identidade que caracteriza o ser humano, destacam-se os aspectos biológico, cultural, educacional, geográfico, lingüístico, psicológico e político”, completando em vários capítulos sobre as maneiras como a política permeia a linguagem e vice-versa, chegando mesmo a questionar se seria correto dizer se a linguagem não seria a própria política.
Se analisarmos as palavras de Joseph, concluímos que em parte ele tem razão, quando procuramos monitorar o que dizemos ou “policiar” o que falamos, mas ao mesmo tempo, manifestamos com liberdade através da linguagem escrita, do silencio, libras e gestos, nos permitindo realizar escolhas através de relações interpessoais.
Diante destes fatos filosóficos comecei a brincadeira antes proposta, com a palavra “submundo”, relacionando-a com pensamentos de Joseph sobre política, despertando a curiosidade de entender o que se passa neste obscuro universo que determina as regras de vida que devemos seguir.
Confesso encontrei dificuldade para começar a brincadeira, pois são tantas as palavras e situações que devem ser analisadas neste quebra-cabeça em formato de pizza, com milhares de peças e imagens semelhantes e recortes repetitivos, sabendo que ao encontrar o resultado final, ninguém mais se lembrará da brincadeira.
Comecei por analisar o apadrinhamento, o tráfico de recomendações e influências, as paixões pessoais, os pedidos de favores, as promessas de ajuda futura, o abuso do poder, enfim, tentar entender esse obscuro submundo político, que é destaque nos noticiários televisivos, nas revistas semanais, nas divulgações das indecentes transcrições de escutas telefônicas, apontando todo tipo de corrupção.
Diante de tantos caminhos, optei por tentar entender o significado lingüístico e real de “mensalão”, por ser uma palavra nova e que ainda não consta dos dicionários, mas já transita de forma livre e desenvolta pelos terrenos da semântica.
“Mensalão” pode significar pagamento mensal feito a políticos, em troca de apoio, ou corrupção pela compra da consciência, apesar do jeito carinhoso, brando e complacente escolhido para designar tão torpe ação, misturando com expressões como paizão, amigão, paixão, brasileirão, domingão, “Ricardão”, “amorzão” e tantos outros.
Hoje o “mensalão” já faz parte do folclore nacional, com livre penetração e de visão inimputável, estimulando praticas criminosas como esconder dinheiro nas meias, sutiãs e cuecas ou praticar a multiplicação dos “panetones”.
Assustado com a “brincadeira” das palavras resolvi parar, mas não sem antes constatar que o “mensalão” encobre os fatos que levam à miséria, ao aumento da distribuição e consumo de drogas, a prostituição de adolescentes, a falta de segurança, a decadência da educação e a interminável fila nos hospitais, devido ao desvio de verbas, resultando na transmissão em AM e FM do sofrido gemido de dor da grande massa do povo brasileiro.

Marco Antônio de Figueiredo – Advogado e Articulista - marcoantonio.jm@uol.com.br
Autor: Marco Antônio de Figueiredo


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