VAI COM DEUS



VAI COM DEUS

Manuel pára uns dias sem beber. Está sem trabalho. A vida não anda muito bem. Passa o dia em casa. Às vezes passeia no bairro onde mora. Está sempre desanimado. Ninguém parece notar a presença dele. Sente até vontade de roubar, mas é tão azarado que se fizer isto, sairá na pior. É bem provável que no primeiro muro que pular, cairá bem em cima do dono. Não. Não poderia fazer isto. A vida é ruim, mas quem sabe melhora um dia. Pelo menos ele tem o nome limpo. Isto é muito importante.

Como nada tinha para fazer, Manuel resolve ir pescar com alguns amigos. Arrumaram linha, anzol, minhoca e foram. Pescaram durante a tarde toda, mas pegaram pouca coisa. Alguns peixinhos, apenas. Não valia a pena. E que sacrifício tinha que enfrentar: lama, mato, picão, carrapicho. As pernas de Manuel ficaram com muita coceira. Voltou para casa. Os peixes estariam livres dele.

Passou no bar do Nestor e mandou vir bebidas. O Nestor tinha que esperar Manuel arrumar um serviço para poder receber o dinheiro. Enquanto isto ficaria devendo, mas pagaria. Tinha crédito em alguns bares. Manuel bebeu durante toda a tarde. Os amigos pagaram muita coisa também.

Foi convidado para um churrasquinho na casa de um amigo. Ele aceitou. Foi pra casa, tomou banho, se aprontou e partiu para a festinha. Havia muita bebida na casa do amigo. Manuel não recusava nada. E com muita conversa, comida e bebida, iam passando as horas. Como havia muita gente, Manuel foi solicitado a ajudar a assar os churrasquinhos. Ele passou a colaborar. Para isto ele era bom.

A festa se animou muito, mas ficou tarde. Sobrou muita bebida e o dono convidou os amigos mais beberrões para darem conta daquele estoque, pois precisaria devolver os cascos. Manuel aceitou. Passaram então a beber o restante. Havia uma estória para cada um contar. Qualquer uma servia. Até que a festa não estava tão ruim. Com muita bebida, todos acabaram ficando zonzos. Como já era muito tarde, resolveram ir cada um pro seu lado. Manuel já não via mais nada. O olho nem piscava mais. Estava mais morto que vivo. Despediu-se várias vezes do dono da casa, mas retornava antes de chegar ao portão.
Às vezes ia com garrafa e tudo. Nem andar sabia mais. Como o dono da casa disse que ia dormir e fechar a porta, Manuel resolveu sair mesmo.

Vai com Deus, Manuel - disse o dono da casa. Té logo - respondeu Manuel. Parece que desta vez Manuel ia mesmo chegar em casa. Apesar de a estrada ser ampla e sem buracos, Manuel levava cada tropicão enorme. Como o dono tinha dito pra Deus ir com ele, Manuel reclamava de Deus. Também não precisa empurrar Deus. Houve uma vez que Manuel caiu e pediu ajuda ? me ajude a levantar daqui, Deus. A garrafa ele não largava, apesar dos tombos.

O dia já estava clareando quando Manuel chegou em casa. O povo ainda dormia. Manuel entra. Já está melhor. Toma um banho, faz o cafezinho e descansa um pouco.















Autor: Henrique Araújo


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