AS OPERA합ES DE MANUTEN플O DA PAZ EM RUANDA E O ESTABELECIMENTO DA MANUR.
Joabson Cruz Soares
E-mail: [email protected]
Resumo
As etnias tutsis e hutus que habitavam o ent�o Reino de Ruanda viviam em harmonia, embora houvesse diferen�as entre esses povos. A partir da coloniza豫o europ�ia na 햒rica as rivalidades se acentuaram, principalmente quando o pa�s se tornou protetorado belga, esse que imp�s a classifica豫o da popula豫o quanto � ra�a. Ap�s a independ�ncia do pa�s e a ascens�o de Gregoire Kayiabanda ao poder o conflito �tnico se intensificou. A ONU, neste contexto, procurou uma resolu豫o pol�tica para o conflito por meio do acordo de paz de Arusha e o estabelecimento da Miss�o de Assist�ncia das Na寤es Unidas para Ruanda (MANUR) em 1993. Mas esses mecanismos diplom�ticos n�o lograram, pois o pa�s foi assolado por uma guerra civil que matou 800.000 pessoas. O objetivo deste artigo � provar que a ONU n�o se omitiu no caso de guerra civil em Ruanda.
Palavras-chave: Conflito �tnico, Gregoire Kayiabanda, ONU, Acordo de paz de Arusha, MANUR.
Abstract
Tutsis and Hutus that inhabited the then kingdom of Rwanda were living in harmony, although there were differences between these peoples. The European colonization in Africa rivalries has become more acute, especially when the country became a Belgian protectorate, which imposed that the classification of the population regarding race. After independence the country and the rise to power Kayiabanda gregoire, ethnic conflict has intensified. The UN in this context has sought a political resolution to the conflict through the Arusha peace agreement and establishment of the United Nations Assistance Mission International for Rwanda (UNAMIR) in 1993. But these diplomatic mechanisms have failed. The country was ravaged by a civil war that killed 800,000 people. The purpose of this article is to prove that the UN wasn큧 neglect in civil war case of Rwanda.
Key-words: Ethnic conflict, Gregoire Kayiabanda, UN, Arusha Peace agreement, UNAMIR.
Introdu豫o
As etnias tutsis e hutus que habitavam o ent�o Reino de Ruanda viviam em harmonia, embora houvesse diferen�as entre esses povos. Com a ascens�o da etnia tutsi frente � administra豫o do reino em 1860, inicia um processo de inferiorizar�o da etnia hutu. No contexto da partilha da 햒rica, os territ�rios ruandeses foram anexados pela Alemanha, mas com o t�rmino da Primeira Guerra Mundial e a responsabiliza豫o deste Estado no que tange aos preju�zos ocasionados pelo conflito, Ruanda passou a ser protetorado da B�lgica por determina豫o da Liga das Na寤es. Esse contexto seria mudado com o advento da Segunda Guerra Mundial, pois a Alemanha de Hitler retoma os territ�rios anteriormente citados, perdendo-os ao t�rmino o conflito. Assim, Ruanda mais uma vez retornou � condi豫o de protetorado belga, agora por determina豫o da Organiza豫o das Na寤es Unidas.
Com o fim do colonialismo europeu na 햒rica e sob a press�o das Na寤es Unidas no que concerne a independ�ncia de Ruanda, a B�lgica, que havia administrado esse pa�s e que havia implantado no mesmo, pol�ticas de identifica豫o racial, concede a emancipa豫o deste Estado. Ao vencer as elei寤es comunais o candidato hutu Gregoire Kayiabanda declarou independ�ncia do Burundi, causando �xodo de tutsis e a escalada de viol�ncia entre as etnias. Com a intensifica豫o do conflito entre tutsis e hutus, a Organiza豫o das Na寤es Unidas prop�s a concilia豫o entre os representantes de Ruanda e Burundi atrav�s do acordo de paz em Arusha, mas um atentado terrorista que os matou, impossibilitou o fim do processo pacificador. Ap�s esse evento o conflito �tnico se intensificou, obrigando a ONU a implantar uma opera豫o de paz denominada Miss�o de Assist�ncia das Na寤es Unidas para Ruanda (MANUR).
Na primeira parte deste artigo, procurei explicar a fundo a inser豫o do Estado de Ruanda no Sistema Internacional, desde o surgimento do mesmo, as influ�ncias europ�ias, a sua independ�ncia, o acirramento das rivalidades �tnicas, como tamb�m os conflitos que ceifaram milhares de vidas humanas. Na segunda parte mostro a import�ncia das opera寤es de manuten豫o de paz das Na寤es Unidas, dando um breve hist�rico de como essa institui豫o come�ou a utilizar essa t�cnica, suas caracter�sticas e seus objetivos. Na terceira parte procuro me aprofundar ainda mais sobre as opera寤es de manuten豫o de paz da ONU, contudo focando na Miss�o de Assist�ncia das Na寤es Unidas em Ruanda, explanando sobre seu estabelecimento no pa�s, os objetivos, as a寤es diante a situa豫o de conflito e acima de tudo procuro contrariar a tese de que a ONU se omitiu quanto a situa豫o em Ruanda e no �ltimo cap�tulo externarei a atual situa豫o de Ruanda quanto a puni豫o dos culpados de genoc�dio e as provid�ncias tomadas no �mbito internacional para que tal epis�dio n�o torne a ocorrer
1. A inser豫o de Ruanda no cen�rio internacional: do s�culo XVI ao s�culo XX.
Por volta do s�culo XVI pastores n�mades tutsis e agricultores hutus se estabeleceram na regi�o que hoje � compreendida pelos Estados de Ruanda e Burundi, vivendo em harmonia. Segundo o Mundo Atl�ntico (2009, p.1), a aproxima豫o entre esses povos por meios de uni�es matrimoniais, partilha dos referenciais ling茴sticos, proximidade de pr�ticas religiosas n�o eliminou a diferen�a entre ambas.
Ainda, segundo este site , explica-se que no per�odo posterior a 1860, um tutsi de nome Kigeri Rwabugiri, ascendeu ao cargo de chefia tornando-se mwami . Atrav�s de campanhas militares e pol�ticas, ele expandiu o territ�rio sob seu dom�nio, passando a administrar uma grande extens�o do que atualmente compreende as �reas do centro e do sul de Ruanda. Assim os tutsis foram nobilitados com os cargos de maior poder e, com isso destacaram-se financeiramente das demais etnias presentes na regi�o.
Ap�s a morte de Rwabugiri iniciou-se o acirramento das divis�es internas, isto porque a aus�ncia da figura do chefe provocou um grande conflito de sucess�o ao trono em que diferentes cl�s da etnia tutsi viram na presen�a colonizadora europ�ia, em um primeiro momento a Alemanha, uma forma de receber aux�lio para exercer poder e liberdade de a豫o, no sentido de controlar determinadas faixas de terra e explorar a m�o-de-obra hutu.
No contexto da Partilha de 햒rica, o Congresso de Berlim tinha como finalidade dividir os territ�rios do continente entre as pot�ncias colonialistas. Sobre esse processo Pina (2010) explana que "em 1884-1885, as antigas pot�ncias negreiras reuniram-se em Berlim para partir entre elas os territ�rios da 햒rica. Sendo assim, a Alemanha teve como parte o Sudoeste Africano ? (atual Nam�bia), leste africano (correspondente � Tanz�nia, Burundi e Ruanda), Togo e Camar�es."
Ap�s a Primeira Guerra Mundial e a derrota Alem� nesse conflito, a Liga das Na寤es determinou que Ruanda fosse transferido para B�lgica como esp�lio de guerra. A administra豫o belga se deu a partir do estabelecimento de rela寤es pol�ticas e econ�micas com os tutsis. Carteiras de identidades foram utilizadas para classificar as etnias em Ruanda, onde os hutus foram tratados como inferiores e expostos a todo tipo de explora豫o e discrimina豫o, conforme assevera Doyle (2006, p.85).
No �mbito da Segunda Guerra Mundial as for�as beligerantes alem�s conseguem reaver o territ�rio ruand�s, contudo a derrota de Adolf Hitler nesse conflito veio modificar mais uma vez a administra豫o pol�tica de Ruanda que retorna, por determina豫o da ONU, ao protetorado belga. Destarte, o pa�s continuou sem autonomia para tomada de decis�es pol�tico-administrativas, situa豫o esta que inquietava o desejo nacional de independ�ncia.
O desenrolar da hist�ria de Ruanda no in�cio da d�cada de 60 foi caracterizado pela press�o da ONU sobre a B�lgica, no que concerne � independ�ncia do pa�s. Existia ent�o a forma豫o de grupos que lutavam pela soberania ruandesa frente ao colonialismo europeu. Conforme assevera Braeckman (2004, p.1), o ano de 1959 foi marcado pela cria豫o de dois grupos partid�rios antag�nicos. De um lado, os tutsis, atrav�s da Uni�o Nacional Ruandesa (UNAR), lutavam pela independ�ncia, contudo, defendiam a manuten豫o da monarquia; de outro, os hutus, atrav�s do PARMEHUTU ou Movimento Democr�tico Republicano (MDR-P).
Segundo Takeuchi e Marara (2009, p.9), em 1960 o l�der do PARMEHUTU, Gregoire Kayiabanda, venceu as elei寤es comunais e em 1963 declarou a sua independ�ncia do Burundi, provocando o aumento do �xodo dos tutsis. Sua administra豫o foi marcada por dificuldades econ�micas e o aumento dos conflitos tribais, atrav�s do favorecimento de tribos hutus, da zona central e sul do pa�s.
Em 5 de julho de 1973, o ent�o ministro da defesa, Major-General Juvenal Habyarimana ascendeu ao poder atrav�s de um golpe militar e fundou em 1975, o Movimento Revolucion�rio para o Desenvolvimento (MRND), que foi declarado partido �nico. Havia ind�cios de que seu governo promoveria a democratiza豫o do pa�s, projetando o retorno a uma pol�tica multipartid�ria e a elabora豫o de uma nova constitui豫o. Mas nenhuma mudan�a foi observada e as retalia寤es aos tutsis continuaram constantes.
Os tutsis refugiados, organizados na Frente Patri�tica de Ruanda (FPR), engendraram uma invas�o a partir de Uganda, chegando at� Kigali. O ex�rcito ruand�s, com o apoio de combatentes do Zaire (atual Estado do Congo), e de um corpo de militares franceses e belgas chamados para o treinamento das mil�cias hutus, tentou resistir ao ataque, mas o resultado foi a morte de milhares de pessoas de ambas as etnias. Sobre os confrontos na capital de Kigali, o Relat�rio do Secret�rio-Geral sobre a Situa豫o em Ruanda (1994) informa que:
A capital, Kigali, est� dividida entre as for�as do governo ruand�s e FPR, mas a linha de frente est� mudando conforme as a寤es militares continuam. As tropas do governo Ruand�s continuam a controlar o aeroporto, mas hostilidades nas adjac�ncias interrompem as opera寤es frequentemente. (RELAT�RIO DO SECRET핾IO-GERAL SOBRE A SITUA플O EM RUANDA 1994, p.1)
A partir disso, acordos de paz foram temas de di�logo com a Frente Patri�tica de Ruanda, sendo o mais conhecido deles o de Arusha, em que se estipulava o cessar-fogo e a forma豫o de um governo provis�rio tendo a participa豫o de representantes de ambas �s etnias, como afirma revista MUNDO e MISS홒 (2010, p.1). Por�m, a paz � interrompida quando em 6 de abril de 1994, Juv�nal Habyarimana e Cyprien Ntaryamira, o presidente do Burundi foram assassinados em um atentado quando o seu avi�o aterrissava na capital ruandesa, Kigali. Sobre os acordos de Paz Wallensteen (2002) firma que:
Acordos de paz s�o parte integral de Resolu豫o de Conflitos. Sem alguma forma de acordo entre as partes conflitantes, � dif�cil falar sobre resolu豫o de conflito. Contudo, um acordo se implementado, pode n�o ser suficiente para estabelecer paz dur�vel. (WALLENSTEEN 2002, p.8)
Como estrat�gia de seguran�a, o Conselho de Seguran�a da ONU estabeleceu a Miss�o de Assist�ncia das Na寤es Unidas para Ruanda (MANUR), Contudo, a animosidade das duas etnias n�o foi interrompida, sendo instigados o �dio e o interesse genocida dos hutus contra os tutsis atrav�s da R�dio Mil Colinas, dirigida pelo cl� Akazu, do qual integrava a esposa de Habyarimana. (Bigat�o,2006, p.11)
A participa豫o da ONU nos eventos ocorridos em Ruanda de abril a julho de 1994 foi bastante fr�gil. Milhares de pessoas eram exterminadas nas ruas e as a寤es da MANUR se restringiram a dar prote豫o a alguns grupos de tutsis que conseguiram obter ref�gio em poucos lugares. Em dois meses foram exterminados cerca de 800.000 pessoas, em sua maioria tutsi naquilo que foi considerado uma das piores guerras civis do s�culo XX. Mingst (2009) conceitua guerra civil como:
Guerras civis abrangem guerras entre fac寤es dentro de um Estado por controle de territ�rios; estabelecimento de um governo para controle de um "Estado falido" [...]; movimentos etnonacionalistas que buscam maior autonomia ou secess�o [...]; ou guerras entre grupos �tnicos, cl�s ou grupos religiosos pelo controle do Estado (Col�mbia, Peru, Arg�lia, Ruanda). (MINGST 2009, p. 207)
A invas�o Tutsi intensificou-se. A FPR, sob a dire豫o de Paul Kagame ocupou v�rias partes do pa�s e as tropas francesas autorizada pela ONU criaram no sul a Zona Turquesa para refugiados. Em julho de 1994, finalmente os rebeldes Tutsis tomam a capital Kigali. Ap�s a tomada da capital de Ruanda, Pasteur Bizimunga assumiu a presid�ncia e Paul Kagame ficou como vice-presidente, mas no ano de 2000, os dois homens fortes da pol�tica ruandesa entraram em conflito. Bizimunga renunciou � presid�ncia e Kagame assumiu a presid�ncia conforme ainda informa Pina (2010). Em 2003, este foi finalmente eleito para o cargo, no que fora considerada as primeiras elei寤es democr�ticas ap�s o Genoc�dio .
2. As opera寤es de manuten豫o da paz sob responsabilidade da ONU.
As opera寤es de manuten豫o de paz s�o t�cnicas que tem como objetivo manter a harmonia em situa豫o p�s-acordo de paz entre as partes beligerantes, de modo a assistir o cumprimento dos mesmos. Elas atualmente se tornaram elementos centrais da estrat�gia das Na寤es Unidas para a promo豫o da cultura da paz no Sistema Internacional.
A busca incessante pela paz nos dias atuais contraria as teorias do estado de natureza Hobbesiano, pois � objetivo de todos que almejam rela寤es pac�ficas, n�o apenas entre Estados, mas entre qualquer grupo que se diferenciam quanto a ra�a, credo, posi寤es pol�ticas ou ideol�gicas, de modo a suscitar o respeito m�tuo entre as pessoas.
A Carta das Na寤es Unidas que foi assinada em S�o Francisco, a 26 de junho de 1945, ap�s o t�rmino da Confer�ncia das Na寤es Unidas sobre Organiza豫o Internacional, entrando em vigor a 24 de Outubro daquele mesmo ano, respalda essa concep豫o quando neste documento advertia os povos do mundo a unirem for�as com o objetivo de manter a paz e a seguran�a internacional. Assim, em seu par�grafo 1 do artigo 1, defende como prop�sito da institui豫o:
Manter a paz e a seguran�a internacionais e, para esse fim: tomar, coletivamente, medidas efetivas para evitar amea�as � paz e reprimir os atos de agress�o ou outra qualquer ruptura da paz e chegar, por meios pac�ficos e de conformidade com os princ�pios da justi�a e do direito internacional, a um ajuste ou solu豫o das controv�rsias ou situa寤es que possam levar a uma perturba豫o da paz. (UNIC 2001, p.1)
Ao Conselho de Seguran�a se atribu�a a tarefa de decidir que medidas deveriam ser tomadas caso houvesse a exist�ncia de qualquer amea�a a paz que proporcionasse instabilidade em regi�es ou pa�ses que outrora se encontravam em estado de perfeita harmonia. A opera豫o de manuten豫o da paz n�o se enquadrava no rol de a寤es das Na寤es Unidas, contudo essa inova豫o t�cnica veio a ser empregada por essa institui豫o no ano de 1948 (Capacetes azuis, 2010, p.3). Sobre a primeira miss�o de manuten豫o de paz liderada pelas Na寤es Unidas ainda capacetes azuis explica que:
A primeira opera豫o de manuten豫o de paz das Na寤es Unidas ? o Organismo das Na寤es Unidas encarregado da Supervis�o da Tr�gua (ONUST), uma miss�o de observa豫o, foi criada em 1948, no M�dio Oriente. No in�cio de 1947, as Na寤es Unidas aprovaram um plano para dividir a Palestina e criar um Estado judaico e um Estado �rabe. [...] foi proclamado o Estado de Israel. Rebentaram de imediato fortes hostilidades entre as comunidades judaica e �rabe. O Conde Bernadotte, da Su�cia, que foi nomeado pelas Na寤es Unidas para mediar o conflito, conseguiu negociar um cessar-fogo. (CAPACETES AZUIS, 2010, p.3)
As opera寤es de paz utilizam contingente militar, conhecidos como capacetes azuis, sob o comando da ONU, com o intuito de evitar que comunidades ou pa�ses entrem em confronto enquanto est�o a ser desenvolvidos esfor�os de manuten豫o de paz, pois a natureza desses acordos � muitas vezes paliativa n�o definitiva, possibilitando o rein�cio dos mesmos. Sobre a presen�a das tropas de paz da ONU em Resolu豫o de Conflitos, VAN-D�MEN (2006) afirma que:
Em 1992, o ent�o secret�rio-geral das Na寤es Unidas, Broutos-Broutos Ghali, no seu relat�rio "Uma Agenda para a Paz", defendeu a necessidade da ONU criar mecanismos para a preven豫o e resolu豫o de conflitos, tal como para a preserva豫o da paz. Pela primeira vez a ONU real�ou o conceito de preven豫o de conflitos e prop�s tr�s mecanismos para a efectiva豫o desse objectivo: Diplomacia preventiva; Pacifica豫o de conflitos (peacemaking) e Manuten豫o da paz (peacekeeping). Essas novas formas de interven豫o implicam a presen�a das tropas da paz (peacemakeres) no local afectado antes, durante e depois do conflito. (VAN-D�MEN 2006, p.1)
Esta t�cnica de manuten豫o de paz viria a ser posta em execu豫o treze vezes, durante os primeiros quarenta anos da ONU. Nesse contexto, foram criadas quarenta miss�es alargando o conceito de manuten豫o de paz e entrando no campo do estabelecimento da paz e da consolida豫o da paz. Acerca das frequentes interven寤es humanit�rias exercidas pela ONU FREIRE E LOPES (2009) afirmam que:
As miss�es de manuten豫o da paz evolu�ram ao longo do tempo e as din�micas mais recentes sugerem uma tend�ncia de institucionaliza豫o. Esta tend�ncia � o resultado quer de um n�mero crescente de miss�es de manuten豫o da paz das Na寤es Unidas, o que reflecte uma participa豫o cada vez maior dos Estados individuais, quer de um maior comprometimento destes actores em rela豫o a este tipo de miss�es. (FREIRE E LOPES 2009, p.7)
Novamente capacetes azuis , explica-se que essas opera寤es t�m como caracter�sticas que as partes envolvidas consintam acerca a interven豫o da Institui豫o, sendo assim n�o podendo ser imposta. Elas n�o envolvem imposi寤es militares ou a寤es coercitivas, a n�o ser que seja por autodefesa ou de defesa de civis, entretanto todas implicam na coloca豫o de funcion�rios militar ou civil � disposi豫o do secret�rio-geral pelos governos.
Sendo assim, conceituo as for�as de manuten豫o de paz como as que ajudam as partes de um conflito a solucionarem pacificamente as suas incompatibilidades, incentivando os grupos hostis a n�o utilizarem as armas e a continuarem a negociar tendo em vista a solu豫o pac�fica da disputa. Nesse contexto, ficam-se os seguintes questionamentos: Quais foram as medidas tomadas pela ONU, no que tange sua opera豫o de paz em Ruanda? Como foi a sua participa豫o nesse conflito? Essas perguntas ser�o respondidas a seguir.
3. As resolu寤es da Organiza寤es das Na寤es Unidas e o estabelecimento da Miss�o de Assist�ncia das Na寤es Unidas no Ruanda (MANUR).
Em 12 de mar�o de 1993, o Conselho de Seguran�a da ONU ciente das cartas dos representantes pol�ticos de Ruanda e Burundi datados de 22 de fevereiro desse mesmo ano, onde ambos os governantes desses pa�ses solicitavam a utiliza豫o das tropas de observa豫o das Na寤es Unidas ao longo de suas fronteiras, determinou em parceria com a Organiza豫o da Unidade Africana (OUA), que esta institui豫o assistiria o processo que levaria a uma resolu豫o pol�tica ao embate �tnico, com o intuito de prevenir a retomada do conflito e monitorar o cessar fogo entre o governo ruand�s e a Frente Patri�tica de Ruanda. (RESOLU플O 812, 1993, p.1 e 2)
Os esfor�os da ONU para manuten豫o da paz em Ruanda iniciaram em 22 de junho de 1993. Em sua Resolu豫o 846, estabeleceu a Miss�o de Observa豫o das Na寤es Unidas para Ruanda (MONUR), organizando essas tropas no territ�rio do Estado de Uganda durante 6 meses, com o objetivo de n�o permitir que armas letais ou muni豫o, atravessassem as fronteiras do pa�s chegando a Ruanda.( RESOLU플O 846, 1993, p.2)
Em 5 de outubro deste mesmo ano, em sua resolu豫o 872, decidiu-se estabelecer a opera豫o de manuten豫o da paz denominada: Miss�o de Assist�ncia das Na寤es Unidas no Ruanda (MANUR), prevendo o envio de um contingente de 2.548 soldados com o objetivo de contribuir para a seguran�a da cidade de Kigali; monitorar o cumprimento do acordo de paz de Arusha que estabeleceu o cessar-fogo e o processo de repatria豫o dos refugiados ruandeses, como tamb�m auxiliar na coordena豫o das atividades de assist�ncia humanit�ria. (RESOLU플O 872, 1993, p.2)
Ap�s o estabelecimento da MANUR no pa�s, o Conselho de Seguran�a da ONU, preocupado com os incidentes de viol�ncia em Ruanda, reiterou em 6 de janeiro de 1994, na sua resolu豫o 893, a participa豫o de um segundo batalh�o de infantaria para a zona delimitada no pa�s com contingente militar de 5.500 soldados, incitando as partes a cooperar com o processo de paz. J� em 17 de fevereiro deste mesmo ano, o Conselho de Seguran�a, estabeleceu as bases gerais do governo provis�rio no quais representantes das duas etnias participariam da administra豫o do pa�s, como foi informado na declara豫o do presidente do conselho de seguran�a da ONU. (RESOLU플O 893, 1994, p.1 e 2)
Nesse �nterim, a paz entre as duas etnias parecia estar pr�xima de ser alcan�ada, contrariando os longos anos de disputas acirradas que havia dividido aquele pa�s. A ONU havia arquitetado uma solu豫o pol�tica que colocava as duas vertentes �tnicas em n�vel de igualdade quanto a administra豫o de Ruanda, objetivando assim a pacifica豫o do conflito.
Mas, um fato inusitado invalidaria os esfor�os pela paz no Estado ruand�s. Em Relat�rio especial do secret�rio-geral da miss�o de assist�ncia das na寤es unidas em Ruanda datado de 20 de abril de 1994, ap�s o atentado que matou os dois representantes desses pa�ses, Ruanda e Burundi, envolvidos no acordo de Arusha e em seguida com o advento dos massacres �tnicos em Ruanda, inclusive com o assassinato de dez soldados da ONU, o Conselho de Seguran�a das Na寤es Unidas afirmou ser imposs�vel a MANUR continuar com suas responsabilidades no pa�s, pois havia muita inseguran�a e instabilidade no mesmo e o conflito entre a Frente Patri�tica Ruandesa e as for�as governamentais continuava. (RELAT�RIO ESPECIAL DO SECRET핾IO-GERAL DA MISS홒 DE ASSIST�NCIA DAS NA합ES UNIDAS EM RUANDA, 1994, p.1)
Em junho de 1994, foi aprovado, por meio da Resolu豫o 929 do Conselho de Seguran�a, o envio de uma segunda miss�o, a Opera豫o Turquesa, paralela � UNAMIR, mas com prerrogativa do uso da for�a. A atua豫o dessa opera豫o era extremamente d�bia por ser esta chefiada pela Fran�a, essa que era o maior fornecedor de armas a Ruanda, promovendo a sua militariza豫o e o treinamento do ex�rcito ruand�s, principalmente a partir da invas�o de Ruanda pela FPF, em 1990. Em fun豫o disso, houve d�vidas se essa opera豫o estaria protegendo de maneira igualit�ria tutsi e hutus. (RESOLU플O 929, 1994, p.2)
A continuidade do conflito em Ruanda preocupava o Conselho de Seguran�a da ONU, pois todas as tentativas de pacifica豫o j� se mostravam escassas e nenhuma das partes assinalava para um poss�vel cessar-fogo. Al�m do mais, havia tamb�m a apreens�o no que tange a instabilidade da regi�o e, sobretudo dos pa�ses vizinhos. Acerca dessa situa豫o novamente o presidente do Conselho de Seguran�a comenta que:
Alarmado com a continua豫o do conflito em Ruanda, pois o fato tem causado o �xodo massivo da popula豫o, podendo acarretar um intenso desastre humanit�rio, pondo em risco a estabilidade da regi�o, desde que esses refugiados afetam os pa�ses vizinhos. (DECLARA플O DO PRESIDENTE DO CONSELHO DA ONU, 1994, p.1)
O conflito s� teve seu fim quando os tutsis refugiados invadiram e tomaram a capital do pa�s. A ONU foi incapaz de deter o genoc�dio e em 1999 criou uma Comiss�o de Inqu�rito independente com objetivo de apurar o ocorrido e saber qual era a real condi豫o da MANUR no momento em que a guerra civil se alastrara pelo pa�s. No seu relat�rio, publicado em dezembro deste mesmo ano, descobriu-se que a miss�o de paz n�o estava equipada o suficiente para impedir o conflito (UNAMIR: DECLARA플O DO SECRET핾IO-GERAL DA ONU NO RECEBIMENTO DO INQU�RITO INDEPENDENTE DAS NA합ES UNIDAS SOBRE SUAS A합ES DURANTE O GENOC�DIO DE 1994 EM RUANDA, 1999, p.1). No que concerne a participa豫o da ONU no conflito Giannini (2006) explana que:
[...] levando-se em considera豫o as miss�es que se configuraram como interven寤es humanit�rias, como nos casos da Som�lia, de Ruanda e do Haiti a atua豫o da ONU � muito criticada. O respaldo da for�a e a obten豫o de um consentimento fraco ou mesmo a aus�ncia deste figuram como os elementos principais de cr�tica daqueles contr�rios � legitimidade desta a豫o. (GIANNINI, 2006, p.12)
Os Estados Membros, respeitando a soberania do pa�s e aplicando o princ�pio da n�o interven豫o que determina "a toda a na豫o, de n�o intervir na pol�tica interna de outra" (BEVIL핽UIA, 1910, p.55), n�o puderam agir de forma mais en�rgica no conflito. Contudo foram evidentes as dificuldades recorrentes para obter os soldados necess�rios para a miss�o de paz no pa�s, impossibilitando a pacifica豫o deste conflito.
Ao contr�rio do que se afirmam sobre a atua豫o da ONU no evento, a institui豫o n�o se omitiu, pois havia o interesse para se alcan�ar a paz em Ruanda, mas os recursos escassos e o inesperado evento de terrorismo, que p�s fim ao acordo de paz, impossibilitaram a寤es mais eficazes, ou seja, a Organiza豫o das Na寤es Unidas n�o puderam agir, pois como j� ressaltei, precisava do consentimento das partes integrantes do conflito, o que n�o veio ocorrer.
Ap�s externar a atua豫o da ONU no conflito em Ruanda, decaem os seguintes questionamentos: Qual a atual situa豫o em Ruanda atualmente? As etnias est�o reconciliadas? Os culpados pelo genoc�dio foram condenados? As respostas ser�o encontradas a seguir.
4. A situa豫o atual em Ruanda.
Ap�s dezesseis anos do conflito, atualmente se fala em reconcilia豫o no Estado de Ruanda, contudo tutsis e hutus vivem em desconfian�a m�tua e muitos assassinos foram libertados, acentuando ainda mais o medo entre as duas etnias. Com o intuito de reconciliar a na豫o a justi�a criou nas aldeias, os j�ris denominados gacacas que significa campo de relva.
Esses j�ris se re�nem ao ar livre, em �reas gramadas v�rias vezes por semana para resolverem pequenas causas, chegando a torno de 12 mil j�ris. Cabe salientar que o objetivo desses pequenos tribunais n�o s�o prender ou castigar os culpados pelo genoc�dio, mas obter uma confiss�o p�blica e um pedido de perd�o diante a vila reunida. Sobre a tentativa de reconcilia豫o no estado de Ruanda Blogdamythos (2009) afirma que:
A campanha de reconcilia豫o, nos posters, d� o recado: "Ruanda, somos voc� e eu". A justi�a ruandesa concentra seus esfor�os na reconcilia豫o. H� tantos assassinos (mais do que mortos, porque muitos massacraram em grupo), que seria imposs�vel prender todos na cadeia j� superlotada. (BLOGDAMYTHOS, 2009, p.2)
No �mbito internacional, os Estados com o objetivo de punir os respons�veis pelo genoc�dio, instauraram em 1994 o Tribunal Internacional para Ruanda (TPIR), pois o Conselho de Seguran�a decidiu que o caso de Ruanda merecia mais aten豫o para que n�o houvesse questionamento da ordem internacional baseada na supremacia dos direitos humanos. Sobre a decis�o do Conselho de Seguran�a em instaurar o TPIR Campos (2008) comenta que:
Mais uma vez, o que se observa � uma manobra institucional realizada pelos membros permanentes do Conselho de Seguran�a com vistas a responder � exist�ncia da conven豫o e a continuar sustentando o discurso da supremacia de direitos humanos, institu�do no p�s-II Guerra, para consolidar a supremacia moral dos pa�ses vitoriosos. (CAMPOS, 2008,p.20)
O TPI, agora denominado Tribunal Criminal Internacional para Ruanda (TCIR) continua julgando os principais respons�veis pelos massacres, como foi o caso de tr�s militares: o coronel Theoneste Bagosora, o major Aloys Ntabakuze e o corenel Anatole Nsengiyumya, que desde 2002 estavam sendo julgados, sendo assim condenados � pris�o perp�tua por participa豫o no genoc�dio. Acerca da decis�o do TCIR no que concerne a puni豫o dos militares Athiopia. Blogsport (2008) afirmou que:
O TCIR considerou os tr�s militares culpado das acusa寤es de genoc�dio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra ao t�rmino de um julgamento hist�rico para Ruanda que durou mais de seis anos. (ATHIOPIA BLOGSPORT, 2008)
Ainda no contexto internacional, as Na寤es Unidas em setembro de 2005 trouxe a baila o termo de Responsabilidade de Proteger (conhecida pelos acr�nimos R2P ou RtoP), no qual os chefes de Estado e de governo afirmaram que cada estado tem a responsabilidade de proteger as suas popula寤es do genoc�dio, dos crimes de guerra, da limpeza �tnica e dos crimes contra a humanidade. Quando o estado em quest�o n�o quer ou n�o pode evitar ou por fim a esse sofrimento, ent�o o princ�pio da n�o-interven豫o cede o seu lugar � responsabilidade internacional de proteger, conforme assevera Ferro (2009), ou seja, a comunidade internacional, usando a ONU como ve�culo de a豫o, deve empregar todos os meios diplom�ticos e humanit�rios para proteger essas popula寤es dos crimes j� mencionados.
As puni寤es aos executores do genoc�dio em Ruanda est�o sendo tomadas no �mbito interno do Estado, como a instala豫o das gacacas e internacionalmente, inclusive sob a �gide da ONU, como j� mencionado TPIR, TCIR e o RtoP para que o ocorrido n�o se repita e se repetido julgado com mais veem�ncia.
5. Considera寤es finais.
O genoc�dio que ocorreu no ano de 1994 em Ruanda foi um dos fatos hist�ricos mais tristes do s�culo XX, nos remetendo a id�ia de guerra de todos contra todos e do estado de natureza do homem t�o defendida por Thomas Hobbes, devido � brutalidade do ocorrido. A atua豫o da ONU nesse contexto nos permite olhar com certo descr�dito, no que concerne a efic�cia dessa Institui豫o e dos mecanismos propostos para a obten豫o da paz.
Cabe salientar que as etnias que habitavam o Ruanda antes da coloniza豫o europ�ia viviam em harmonia, mesmo possuindo diferentes modos de vida. Embora j� houvesse certo diferencial econ�mico entre tutsis e hutus, o acirramento entre elas intensificou-se principalmente sob presen�a da B�lgica, que imp�s a classifica豫o da popula豫o conforme as etnias. Nesse aspecto, pode-se analisar que a presen�a dessa pot�ncia colonialista e suas a寤es no pa�s, foram fatores iniciais no que veio mais tarde causar a guerra civil em Ruanda.
No que se refere � Organiza豫o das Na寤es Unidas, em rela豫o ao seu objetivo principal de promover a cultura de paz no Sistema Internacional, utilizando as t�cnicas de manuten豫o de paz, no caso de Ruanda esses objetivos n�o lograram. Os mecanismos diplom�ticos que tinham a finalidade de pacificar o conflito e encontrar solu寤es de modo a eliminar, as incompatibilidades entre as partes, sendo eles: o acordo de paz de Arusha e Miss�o de Assist�ncia das Na寤es Unidas em Ruanda (MANUR) se mostraram ineficazes. Mesmo assim, devemos considerar que o Conselho de Seguran�a das Na寤es Unidas, em meio as suas dificuldades e as suas limita寤es, procurou agir conforme a legalidade visando principalmente o bem-estar dos civis.
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Autor: Joabson Cruz Soares
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