VIOLÊNCIA NA ESCOLA: AS RELAÇÕES QUE PERMEIAM O AMBIENTE ESCOLAR



VIOLÊNCIA NA ESCOLA: AS RELAÇÕES QUE PERMEIAM O AMBIENTE ESCOLAR 

 

                                                                                             

Ana Rúbia Cirino

Nívia Jesus do Carmo*

 

 

 

RESUMO: Este artigo trata-se de um estudo qualitativo cujo objetivo é abordar sobre a violência na escola, a forma como a violência se manifesta sua origem e quais as principais consequências que ela gera no ambiente escolar. Para o desenvolvimento deste trabalho, foram realizadas algumas leituras e algumas observações numa escola da rede estadual localizada no município de Vitória da Conquista - Ba. Por meio das entrevistas com alguns alunos e professores, foi possível perceber e compreender melhor o tema segundo o olhar de quem vive essa realidade.

 

Palavras-chave: Violência. Escola. Alunos. Professores

 

 

 

 

Introdução

 

Por se tratar de uma questão não apenas escolar, mas também social, a violência nas escolas nos chamou a atenção para a abordagem deste artigo.

Visto que a violência vem crescendo de forma acelerada nas escolas, sendo um assunto que nos preocupa e inquieta bastante, o presente estudo tenta compreender de que forma esta violência se manifesta, sua origem e quais consequências esta relação pode gerar no ambiente escolar, pois este mesmo lugar possui um espaço voltado para a informação, mas não é só isso, é um espaço também para uma abordagem sensível, que faz com que se “quebre o gelo”, para que alunos e professores e todo o corpo funcional da escola, tenham mais aproximação uns com os outros.

 

No entanto, a violência interfere na relação entre os membros da comunidade escolar e sempre de forma negativa. Apesar de confirmarmos que existe a agressão na escola, seja ela física ou verbal por parte dos mesmos, é importante salientar que esta situação não tem origem no seu interior, mas sim de fora, e nesta é reproduzida.          

Segundo os professores da escola observada, o motivo que leva os alunos a terem tanta revolta e a se comportarem com agressividade, muitas vezes, tem origem familiar e social, uma vez que estes alunos não contam com um constante acompanhamento dos pais, o que leva a várias consequências inclusive o desrespeito para com o professor e os próprios colegas.

Para a realização do trabalho contamos com algumas leituras bibliográficas sobre o tema abordado, visitamos uma escola da rede estadual de 5ª a 8ª séries, a qual está situada numa área urbanizada, em um bairro classe média, que atende alunos oriundos da periferia do município onde ela está localizada. Durante esse período de visitação, pudemos observar as relações que se faziam presentes em todo o ambiente escolar. Realizamos também uma entrevista com três professores e três alunos, para assim nos aproximarmos melhor do objeto a ser pesquisado e poder nos inteirar do assunto buscando compreender estas relações tão conturbadas no espaço escolar que vêm perturbando e desestruturando o espaço daqueles que todos os dias convivem e lidam com esses conflitos.     

 

 

 

A violência na sociedade

 

As manifestações de violência na sociedade brasileira tem se multiplicado muito nos últimos anos. Quando se fala em violência nos remetemos imediatamente à agressão física, ou a criminalidade. Diante disso Velho (1996) argumenta que:

 

A vida social, em todas as formas que conhecemos na espécie humana, não está imune ao que se denomina, no senso comum, de violência, isto é, o uso agressivo da força física de indivíduos ou grupos contra outros. Violência não se limita ao uso da força física, mas a possibilidade ou ameaça de usá-la constitui dimensão fundamental de sua natureza. Vê-se que, de início, associa-se a uma

 

ideia de poder, quando se enfatiza a possibilidade de imposição de vontade, desejo ou projeto de um ator sobre outro. (VELHO 1996, s/p).

 

As diferenças que compõem a vida social são também a base que gera as tensões e os conflitos. Para Candau (1999, p.21) “uma das vertentes mais trabalhadas nos estudos sobre violência é, sem dúvida, a sua relação com a desigualdade social”, pois a cidadania não é exercida como igual para todos. Não se tem um sistema sócio-político que satisfaça ou atenda minimamente as necessidades da população do país. Há uma dificuldade muito grande do poder público em gerir e atender essas necessidades, principalmente as advindas da população pobre. No entanto, não podemos considerar ou afirmar que a pobreza ou as desigualdades sociais são os únicos motivos responsáveis por gerar a violência na sociedade brasileira. Velho assegura (1996) que:

 

Uma das variáveis fundamentais para se compreender a crescente violência da sociedade brasileira é não apenas a desigualdade social, mas o fato de esta ser acompanhada de um esvaziamento de conteúdos culturais, particularmente os éticos, no sistema de relações sociais. (VELHO 1996, s/p).   

 

Nota-se uma naturalização da violência e de comportamentos violentos, os quais têm contribuído ainda mais para a banalização da mesma. E isso vem sendo processado principalmente pela mídia. A todo o momento estamos expostos a situações de competição, onde o outro sempre representa uma ameaça. E de tanto convivermos com estas questões, principalmente por elas veicularem na mídia todos os dias, termina por não provocar comoção alguma, a violência se converteu em algo corriqueiro.

Há um sentimento de medo instaurado na sociedade, sentimento este que nos mantêm sempre alertas, como se a todo o momento precisássemos nos defender de algo.

 

 

 

Violência e papel da escola

 

A violência também está presente no cotidiano escolar em escala crescente, sendo nos dias atuais um assunto que inquieta bastante a comunidade escolar como um todo. Vimos que a violência já se encontra arraigada em nossa sociedade desde a família a que

pertencemos até a sociedade da qual fazemos parte, pois a violência na escola enquanto objeto social se inscreve em diversos locais. A instituição escolar tem apenas o “status” de lugar original, mas o “ problema social” é construído em outros cenários. Fica evidente que a violência que é manifestada na escola não se origina na mesma.

Mesmo que a violência nas escolas não se manifeste em grandes números e apesar de não ser no ambiente escolar que acontecem os eventos mais violentos da sociedade, ainda assim, este é um fenômeno preocupante tanto pelas sequelas que diretamente atingem os que praticam a ação, e os que a testemunham como pelo que contribui para rupturas com a ideia da escola como lugar de conhecimento, de formação, como veículo por excelência do exercício e aprendizagem, então opostos à ideia de violência.

É preciso que a escola tenha autonomia para transformar e formar uma sociedade que venha ao encontro dos indivíduos, pois o principal objetivo e a principal responsabilidade da escola estão em promover as condições necessárias para que cada jovem desenvolva, em alto nível a sua capacidade de pensar a sociedade, de interessar-se, de valorizá-la, habilitando-a a aplicar esta capacidade no sentido da melhoria da condição humana.   

A escola, muitas vezes, é acometida por violências que tem origem lá fora e a atingem. A violência vivenciada e testemunhada fora da escola tem impacto direto e indireto sobre a vida escolar, pois afeta o desempenho dos estudantes, as relações entre os alunos e professores entre os próprios alunos e contribui para ampliar ainda mais a violência social.

 

 A violência não acontece somente com os alunos daqui, outros grupos descem morro abaixo, pulam os muros da escola e vem brigar com os daqui, muitas vezes por algo que os daqui fez e eles não gostou. (Aluna/ 5ª Série A).

 

 

Tanto os alunos como os professores acreditam que a violência no interior da escola tem suas raízes nos fatores externos, mais do que nos internos. Ambos revelaram que quase todos os alunos convivem com a violência diariamente, nos seus bairros, na família, além da condição social em que se encontram.

 

É causada por fatores externos, família desestruturada, é pai que bate na mãe, conflito social e condições sócio-econômicas. (Professora B).

 

Acredita-se que eles ou reproduzem a violência que veem, ou por atitude de revolta, acabam se rebelando. 

 

É causada por fatores externos, pois não tem a educação que os pais deveriam dar, ficam à toa, então se revolta por não ter pai e nem mãe por perto para dar conselhos e tudo isso gera o desrespeito dentro da escola. (Aluna/6ª Série D).

 

Segundo os professores, alguns pais já são agressivos e chegam descarregando a raiva na escola e nos professores, quando não fazem isso com os próprios filhos. No momento em que estávamos realizando uma das entrevistas com uma das professoras, uma mãe chegou furiosa porque o porteiro não havia deixado sua filha entrar, que segundo ele, não permitiu a entrada da aluna por ela ter chegado após o fechamento dos portões.

A escola então se vê questionada como um lugar inseguro e não mais um espaço resguardado; ao contrário tornou-se um cenário no qual a violência vem tomando espaço, principalmente no período noturno, onde há vulnerabilidade dos membros da comunidade escolar por conta dos constantes “acertos de conta” entre alunos e grupos de fora da escola.

Outras formas de interferência de grupos externos são, ainda, apontadas por Fukui (1992 apud CANDAU, 1999, p.29): as invasões por parte de “alunos insistentes”, que vão à escola “ para desfrutar de um mínimo de convívio social” [...] e a invasão pela polícia ou representantes de outras instituições, quando, sem licença,  “invadem a esfera de autoridade do diretor e dos professores”, para revistarem alunos, por exemplo.

A aluna entrevistada se mostra incomodada com a presença constante da polícia na escola:

 

A gente vê policiais aqui todo dia, se fosse de vez em quando tudo bem né. Isso aqui é uma escola... É uma escola né. (Aluna/5ª série A).

 

 

Podemos perceber que essas interferências por parte de outras instituições têm afetado as relações no ambiente escolar. Problemas ou assuntos que antes poderiam ser solucionados em seu interior, acabam por atingir outra esfera, os diretores e professores não são mais a autoridade máxima, pois, os mesmos não são mais respeitados na escola entre os alunos, passando a questão então aos conselhos tutelares e à policia que,   passam por cima da autonomia que a escola deveria ter.

O professor (a) desmotivado e desvalorizado negligencia ou ignora a violência que ocorre no interior da escola, no momento em que poderia mostrar como seria melhor um relacionamento amistoso entre os alunos. Isso ocorre quando o professor passa para sua sala de aula, e ao se deparar com um aluno agredindo o outro, seja verbalmente ou fisicamente, ele acaba por dizer que aquele acontecimento não lhe diz respeito e que ele está ali somente para ministrar a aula. Ou devido à pressão e o estresse do dia a dia acabam por entrar em atrito com seus alunos, principalmente nas trocas de agressões verbais, discussões durante as aulas, ou ainda alguns alunos simplesmente ignoram sua presença transformando assim a sala de aula num campo de batalha o qual se converte num ambiente desagradável onde as relações de reciprocidade se tornam impossíveis de acontecer.

Quando perguntamos aos entrevistados se eles já foram agredidos fisicamente ou verbalmente alguma vez, todos garantem que fisicamente nunca foram agredidos, mas verbalmente são a todo o momento.

 

A agressão é sempre verbal, com ofensas de todo tipo, eles não respeitam, ignora a gente o tempo todo. (Professora A).

 

Acontece muito a agressão verbal na sala de aula entre professor e aluno, e tem professor que não aguenta muito a situação, então parte pra cima agredindo fisicamente, mas isso só aconteceu uma vez. (Aluna/5ª Série A).

 

 

Os professores e alunos entrevistados queixam-se do desrespeito como sendo um dos fatores geradores da violência em sala de aula. Segundo eles falta compreensão de ambas as partes. De um lado o professor tenta impor e do outro os alunos pouco ou nada cedem.

Alguns professores confessaram ter sofrido agressão verbal também por parte de colegas:

 

Já fui vítima de agressão verbal por parte de colega, não foi bem agressão, ela fez uma calunia sobre mim. (professora B).

 

Já fui vítima de agressão por parte de aluno e colega. Os colegas acham que são melhores do que os outros e não são. (Professora C).

 

Durante as nossas observações, percebemos que as brincadeiras dos alunos eram bastante agitadas. Eram sempre relacionadas em empurrar, bater, dar socos uns nos outros dentre outras. Chegamos a presenciar durante o intervalo o momento em que um dos meninos empurra uma colega da escada, ela ficou desmaiada por algumas horas e foi socorrida pela direção e professores. Felizmente ela não sofreu danos maiores.

A depredação das instalações físicas e materiais nesta escola é bastante visível. Paredes pichadas, riscadas contendo palavrões, ofensas, cadeiras quebradas, são alguns dos sinais das ações dos alunos. Tais atitudes podem ser entendidas como manifestações de indignação, uma forma talvez inconsciente de chamar a atenção para o descaso do governo com a educação e as instituições públicas. A escola se assemelha a um presídio e se encontra em condições precárias. O ambiente não é agradável e muito menos aparenta ser acolhedor. Sendo assim como os alunos irão se importar ou se preocupar com um ambiente que aparentemente não lhes pertence, como vão cuidar e preservar de algo que lhes é alheio o qual não sentem como parte de si. Já que ninguém se importa com eles porque justamente eles se importariam.

Sobre essas manifestações uma das professoras coloca que:

 

É falta de interesse dos alunos, não encontram um ambiente acolhedor vão ficando piores enquanto seres humanos e outros não se adaptam. (Professora A).

 

  

 

 Analisando a fala da professora é possível aproximá-la da fala dos outros professores. Devido as condições que enfrentam diariamente já estão desmotivados e não  conseguem acreditar em mudanças. Como forma de desabafo eles chegam a dizer que a perspectiva com o passar do tempo é de que a situação piore e as principais consequencias que isso pode provocar é:

 

 

Mais violência, insatisfação e desrespeito. (Professora A).

 

Desestimula o professor, causa estresse no mesmo e este desiste do magistério por puro medo de estar numa sala de aula lidando com alunos violentos e não ter a quem recorrer. (Professora B).

 

Vários desentendimentos, inclusive uma violência maior como a falta de interesse do professor em lecionar. (Professora C).

 

 

E a mídia também contribui ainda mais para o aumento da desvalorização da escola e do professor. Pois com frequência veiculam nos meios de comunicação cenas ou situações de violência que atingem de forma direta e indireta o âmbito escolar. E assim a escola só é vista pelo seu lado negativo, sua imagem quase sempre está associada ao fracasso.

Segundo Candau (1999, p.45) “A desmoralização do magistério e da escola é frequente nos meios de comunicação e [...] pode afetar significativamente os vínculos entre educação e sociedade”.

É evidente que a incidência de violência escolar tem crescido de forma progressiva, e isto não pode ser negado. Porém a mídia tem sido oportunista em suas colocações, no intuito de provocar sensacionalismo ela dá uma dimensão ainda maior ao problema. 

Neste sentido faz- se necessário a participação do Estado, da sociedade e dos educadores, destacando a importância do diálogo, na busca de encontrar medidas que tenham por finalidade a valorização da educação, do magistério e principalmente que reforce o papel da escola. 

 

 

Conclusão

 

 

Partindo do pressuposto de que a violência tem sua origem na sociedade e sofre influências das condições sócio-econômicas e no ambiente familiar, percebemos que ela tem tomado o espaço escolar com tal intensidade que chegou um momento que perdeu-se o controle. Os professores e toda a comunidade escolar já não sabem o que fazer e

como agir diante de tais situações das quais precisam enfrentar todos os dias. E por isso se veem obrigados a ceder sua autoridade para que outras instituições intervenham.

Os alunos parecem perdidos nesse espaço que aparentemente não lhes pertencem, do qual não se reconhecem como parte. A escola que antes era um lugar do saber, da cultura, onde se preparava para a vida, agora tornou-se um lugar de conflitos e de revolta não apresentando nenhum atrativo para os que nela se encontram. A consciência da gravidade dessa situação já é um começo para uma possível mobilização em busca de mudanças que venham a reverter tais aspectos descritos.

É de fundamental importância a participação da sociedade, sobretudo dos pais ou responsáveis, a escola necessita criar mecanismos que possibilitem o diálogo. Mas, além disso, queremos ressaltar que a participação do poder público se faz necessária, pois ele tem se esquivado das suas responsabilidades para com ensino público, o que tem contribuído para a desvalorização do mesmo, bem como dos profissionais da educação. Sem uma confiança básica no poder público e principalmente no ser humano corremos o risco ao acelerado agravamento do que hoje já estamos vivendo.   

 

 

     

 Referências

 

 

CANDAU, Vera, LUCINDA, Maria da Consolação, NASCIMENTO, Maria das Graças. Cotidiano escolar e violência. In:_________. Escola e violência. Rio de Janeiro: DP&A, 1999.

 

VELHO, Gilberto, ALVITO, Marcos (org.). Cidadania e violência. Rio de Janeiro: UFRJ, FGV, 1996.

 

 

 

 

 


* Alunas do 4º semestre do curso de Pedagogia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-UESB.

E-mails: [email protected]; ní[email protected]


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