Economia x ecologia: o desafio do desenvolvimento sustentável



  Economia x Ecologia

                                    O desafio do desenvolvimento sustentável

 

                                                     Lidiane Pinto Cassas de Araújo[1]

                                                             Lorenna de Maciel Dominici

 

Sumário: 1 - Introdução; 2 - A evolução da preocupação ambiental das empresas; 3- Prerrogativas das empresas sustentáveis; 4 – O desenvolvimento sustentável; 4.1 – Crítica ao desenvolvimento sustentável; Conclusão. Referências.

 

RESUMO

Busca-se, através deste paper, fazer um estudo aprofundado sobre a dicotomia: economia x ecologia, focando-se no desafio do desenvolvimento sustentável e nas críticas em torno deste. É fato que não mais podemos pensar em crescimento econômico, ignorando as preocupações com o meio ambiente e os recursos naturais finitos, deste modo, as empresas tem que buscar novas formas para compensar seus impactos e, por conta disso, ganham prerrogativas a serem estudadas a seguir. Mas há discordâncias a respeito da suposta eficácia destas preocupações. Tudo isto será visto em nosso artigo.

 

                                                   PALAVRAS-CHAVE

                                   Meio Ambiente, Desenvolvimento, Economia

 

1 – INTRODUÇÃO

 

Atualmente, ser ético não é mais uma opção para pessoas físicas e jurídicas, mas sim uma questão de sobrevivência. As transformações têm sido processadas cada vez mais rapidamente, fazendo surgir um alinhamento maior de valores nos momentos de decisões, que requerem certa dose de perspicácia. 

O discurso sobre ética no mundo empresarial e nas organizações civis tem enfatizado a ideia de responsabilidade diante das expectativas da sociedade e dos complexos dilemas morais que nos confrontam em vários níveis. O termo preferido nas nomenclaturas empresariais para caracterizar essa questão tem sido o de responsabilidade social corporativa. Eis o conceito do termo, segundo o Instituto Ethos:

 

“Responsabilidade Social é forma de gestão que se define pela relação ética e transparente da empresa com todos os públicos com os quais ela se relaciona e pelo estabelecimento de metas empresariais compatíveis com o desenvolvimento sustentável da sociedade, preservando recursos ambientais e culturais para gerações futuras, respeitando a diversidade e promovendo a redução das desigualdades sociais”.[2]

  

2 – A EVOLUÇÃO DA PREOCUPAÇÃO AMBIENTAL DAS EMPRESAS

 

A preocupação com o meio ambiente equilibrado é relativamente recente, haja vista que até meados das décadas de 70 e 80 era vista como uma questão custosa e trabalhosa, pelo argumento de ela tinha a tendência de diminuir a vantagem competitiva da empresa.

No ano de 1972, ocorreu a Conferência de Estocolmo sobre Meio Ambiente Humano, constituindo um marco no pensamento do século XX com relação à preocupação ambiental. Nesta ocasião, houve debates acerca de conferências e tratados internacionais que outrora haviam sido já analisados, porém, de forma escassa. Nesta outra oportunidade, os mesmos foram analisados detalhadamente, mirando o meio ambiente como um todo.

Ainda nos anos 70, houve certos colapsos, tais quais: a crise do petróleo (1973 a 1979 - EUA); os desastres ambientais de Seveso (1976 - Itália), do satélite aritificial Cosmos 924 (1978), de Bhopal (1984-Índia), Chernobyl (1986-Ucrânia), de Sandoz (1986-Suíça), de Exxon Valdez (1989- Alaska) etc. Este cenário acarretou no crescimento impelido e desordenado da conscientização ambiental no continente europeu e nos Estados Unidos.

Nos anos 80, com o desenvolvimento acelerado do fenômeno da globalização graças à queda dos preços do petróleo e das commodities, e a concomitante ascensão do capital como motor do crescimento econômico, passam a existir em 1987, mediante o Relatório Brundtland, as primeiras definições de desenvolvimento sustentável. Naquela conjuntura, ser dono de insumos de baixo custo deixava de ser o suficiente para ser competitivo, portanto o desejável era usá-los produtivamente. Consequentemente, as empresas passaram a ser obrigadas a reavaliar suas estratégias, introduzindo gradativamente na gestão dos negócios a dimensão ecológica.

Naquele mesmo ano, foi tratada a questão sobre a camada de ozônio pelo Protocolo de Montreal, discutindo a respeito das substâncias que acarretavam em sua destruição. Não obstante, a Convenção-Quadro sobre Mudança de Clima estabeleceu estratégias de combate ao efeito estufa, além de controlar também a questão sobre a destruição da camada de ozônio, já que esta não foi devidamente averiguada no Protocolo de Montreal.

A priori, as empresas, corriqueiramente, passaram a desenvolver programas de reciclagem, de economia de energia, de aproveitamento de resíduos. Tais práticas, anteriormente paulatinas, passaram a ser ligeiramente expandidas, atingindo organizações e empresas parceiras que começaram a procedimentar sistemas administrativos de acordo com a causa ambiental.

Igualmente na década de 80, surgiram os movimentos ativistas ambientais, que passaram a pressionar as empresas, com o objetivo de influenciar o comportamento e a adoção de uma política ambiental interna. Entra em vigor então, na Inglaterra, a norma BS7750 como a primeira regra proposta para elaboração de sistemas de gestão ambiental, porém ainda não inteiramente designada para o desenvolvimento sustentável.

Enfim, em junho de 1992, o Rio de Janeiro sedia o maior evento com o intuito de debater sobre o meio ambiente e desenvolvimento econômico já realizado pela humanidade, o chamado ECO-92. A conferência mundial convocada pela Organização das Nações Unidas foi preparada nos quatro anos anteriores - todas as suas convenções, cartas e a célebre Agenda 21 já estavam previamente alinhavadas por conferências preparatórias. O Brasil foi o anfitrião do encontro de 114 chefes de Estado, milhares de jornalistas e 500 mil visitantes. Pela primeira vez, estadistas e representantes de organizações não-governamentais, reuniam-se para discutir o futuro do planeta.

Na ECO-92 foram instituídas os primeiros embasamentos para a fundação de sistemas de gestão ambiental voltados para o desenvolvimento sustentável, levando a ISO (Organização Internacional de Normalização) a promulgar, em 1996, as normas da ISO série 14000, estruturadas a partir desses preceitos.

 

3 – PRERROGATIVAS DAS EMPRESAS SUSTENTÁVEIS

 

A sustentabilidade nas empresas se apresenta nos planos: econômico, social e ambiental. A definição de sustentabilidade no meio empresarial tem se ajustado mais como uma forma das empresas assumirem modelos de gestão mais eficientes. Destarte, realizam práticas interligadas com a ecoeficiência e a produção mais limpa. É o que conceitua o especialista em Ciências Ambientais, Reinaldo Dias:

 

 

“a aplicação contínua de uma estratégia ambiental preventiva e integral que envolve processos, produtos e serviços, de uma maneira que se previnam ou reduzam os riscos de curto ou longo prazo para o ser humano e o meio ambiente”[3]

 

 

Visando um melhor status perante a sociedade, assegurando a melhor qualidade de seus produtos e a reutilização destes, e consequentemente participando em uma maior fatia de lucros; as empresas, seja no parâmetro nacional, seja no parâmetro internacional, têm adotado uma postura mais responsável no que concernem os seus efeitos ambientais. Isto significa que as organizações sustentáveis têm maiores chances de se consolidar no mercado, uma vez que tendem a auferir a preferência dos consumidores, ajuizarem melhor os seus riscos, conservar sua boa reputação, resguardar melhor seus valores, evitar problemas na justiça e em órgãos de fiscalização, tendo em vista que prezam pelo bom relacionamento com suas partes interessadas.

A implantação de práticas sustentáveis em todos seus aspectos independe do porte da empresa. Isto se dá porque, atualmente, a sustentabilidade corporativa configura-se como modo de garantir o crescimento e desenvolvimento em longo prazo do negócio e paralelamente coopera com o desenvolvimento econômico, social e ambiental da organização e todas as partes envolvidas. Tal premissa tem servido de valor estratégico para as empresas, e este reflete na gestão corporativa e para os projetos, obras, fornecedores e demais partes envolvidas. Assim sendo, pode haver inovação e benfeitorias peculiares, as quais qualificam e diferenciam o padrão adotado pela respectiva empresa em relação às demais.

Portanto, os empresários que possuem essa visão privilegiada, por serem adeptos do caráter sustentável, tornam-se um verdadeiro atrativo. Futuramente, as empresas que não adotarem tal conduta, sofrem o risco de não sustentarem no mercado, já que, destarte, não estarão pensando diretamente em seus consumidores, muito menos nas gerações vindouras.

 

4 – O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL          

 

A ideia de desenvolvimento sustentável - como visto anteriormente - surgiu como mecanismo de defesa e sobrevivência, pois, antes quaisquer preocupações com o meio ambiente por parte das empresas, eram encaradas como perigo ao crescimento econômico destas. Logo, era impossível pensar nas palavras “desenvolvimento” e “meio ambiente” em uma mesma frase. Quanto ao início da visualização deste quadro, temos:

 

“... No ano de 1972, pesquisadores do “Clube de Roma” publicaram o estudo “Limites do Crescimento”, onde concluíam que, mantidos os níveis de industrialização, poluição, produção de alimentos e exploração dos recursos naturais, o limite de desenvolvimento do planeta seria atingido, no máximo, em cem anos, provocando uma repentina diminuição da população mundial e da capacidade industrial. ”[4]

 

 

Buscou-se então, formas viáveis de continuar progredindo sem que esta caminhada para o futuro ocasiona-se a própria perda de uma possibilidade de chegar até ele. Estudou-se o uso de energia renovável, os impactos causados pela produção de determinados produtos e as melhores formas de diminui-los.

A partir de estudos da ONU e segundo a importantíssima ONG World Wide Fund for Nature (WWF), a definição mais aceitável de desenvolvimento sustentável é o “desenvolvimento capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender as necessidades das futuras gerações. É o desenvolvimento que não esgota os recursos para o futuro.” [5] E, para tal fim, é necessário que as empresas reconheçam que os recursos naturais são finitos. Deste modo, deve haver um cuidado e planejamento para o uso destes.

Esta definição, reconhecida no Relatório de Brundtland, fez com que os governos se comprometessem com o meio ambiente, buscando um crescimento econômico sustentável. “Definiu também, três princípios essenciais a serem cumpridos: desenvolvimento econômico, proteção ambiental e eqüidade social, sendo que para cumprir estas condições, seriam indispensáveis mudanças tecnológicas e sociais”. [6]

A partir da crescente necessidade, amadureceu-se a idéia e não mais podemos pensar em crescimento industrial longe das preocupações com o meio ambiente. Contudo, nem todos consideram coerente este idéia.

 

4.1 – CRÍTICA AO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

 

Fora dito que a junção das palavras “desenvolvimento” e “meio ambiente” parecia impossível, pois, para alguns teóricos ainda o é. Para Peter Russel, por exemplo, o crescimento da população mundial implica com o crescimento desenfreado das indústrias para satisfazer as necessidades de consumo do nosso mundo capitalista. Desta forma, qualquer forma de crescimento seria, na verdade, uma caminhada à total degradação do planeta e, o “desenvolvimento sustentável”, mera ilusão, pois somente retardaria um pouco, o destino do nosso meio ambiente.

A própria palavra “desenvolvimento” nos leva a pensar em uma perpetuação do modelo de consumo ocidental, que, por sua vez, é incompatível com qualquer idéia de sustentabilidade. Embora nos utilizemos de recursos para uma diminuição do impacto que os resíduos produzidos pelas empresas causam, a tendência global é aumentar cada vez mais a produção, de forma que um dia estes mecanismos de suavização não mais surtirão efeitos. Entretanto, para os teóricos que defendem esta idéia, o desenvolvimento sustentável não é descartável por estes motivos; há sim nele uma grande importância, entretanto, ele não deve ser visto como a solução para nossos problemas ambientais.

Há quem defenda que a resposta seria uma exploração zero de nossos recursos, como por exemplo, o economista Richar Douthwaite. Tal visão, entretanto, jamais seria aceita nos moldes de nossa sociedade e, parece inviável sua discussão. Assim, a dicotomia do desenvolvimento e da sustentabilidade não encontra resposta pronta. Mas qualquer debate é, de fato, importante, pois além de por em discussão as idéias e, assim, melhorá-las; é fundamental para uma maior conscientização a respeito do problema.

 

CONCLUSÃO

 

 

É incontestável o fato de que existe a necessidade de promoção de pesquisas acerca de novos materiais e da reutilização destes, pertinentes nas causas que abrangem a economia e o meio ambiente. Sendo assim, é inevitável a adaptação das empresas diante da “nova” realidade; ora organizando sistemas que empreguem menos energia, ora reutilizando a água, ora absorvendo novamente os resíduos de suas próprias produções etc. Muitas já são as empresas que chegaram à conclusão de que seus resíduos, em verdade, valem mais que seu produto e, por conseguinte, realçam o emprego destes resquícios.

 

Então, para se administrar com responsabilidade ambiental, faz-se mister o investimento em tecnologia e em formação, haja vista que o lucro final e os  melhores resultados superam incomensuravelmente o investimento despendido. Uma vez que o empresário se certifica que é mais lucrativo ser eficiente, o equilíbrio ecológico vindouro é bem mais verossímil.

 REFERÊNCIAS

 

BOGO, Janice Mileni. O sistema de gerenciamento ambiental segundo a ISSO 14001 como inovação tecnológica na organização. Disponível em: http://www.eps.ufsc.br/disserta98/bogo/cap2.html Acesso em: 29 de maio de 2010.

FERNÁNDEZ, Carolinne Vieira de Brito. Indústria e desenvolvimento sustentável sob a ótica do Direito Ambiental Brasileiro. Disponível em: http://direito.mauriciodenassau.edu.br/revista/file/artigocarolbrito.pdf Acesso em: 29 de maio de 2010.

 

COMUNE, A. E. Valorando a natureza: análise econômica para o desenvolvimento sustentável. Meio ambiente, economia e economistas: uma breve discussão. Rio de Janeiro: Ed. Campus, 1994.

 

GRANZIERA, Maria Luiza Machado. Direito Ambiental. São Paulo: Atlas, 2008.

 

DIAS, Reinaldo. Gestão ambiental: responsabilidade social e sustentabilidade. São Paulo: Atlas, 2006.

 

JÚNIOR, Olímpio Araújo. Economia x Ecologia: Meio Ambiente e Responsabilidade Social. Disponível em: http://www.revistaea.org/artigo.php?idartigo=454&class=03 Acesso em: 30 de maio de 2010

 

RUSSEL, Peter. Who’s kidding whom? Disponível em: http://www.peterrussell.com/Speaker/Talks/WBA.php Acesso em: 30 de maio de 2010.


[1]  Alunas do 4º período noturno do curso de Direito da Unidade de Ensino Superior Dom Bosco, turma 2008.2. E-mails: [email protected] e [email protected]

[2] GESC NET, Instituto Gesc. Disponível em: http://www.ambafia.org.br/gesc_resp/gesc.htm. Acesso em: 29 de maio de 2010

[3] DIAS, Reinaldo. Gestão ambiental: responsabilidade social e sustentabilidade. São Paulo: Atlas, 2006.

[4] FERNÁNDEZ, Carolinne Vieira de Brito. Indústria e desenvolvimento sustentável sob a ótica do Direito Ambiental brasileiro. Disponível em:  http://direito.mauriciodenassau.edu.br/revista/file/artigocarolbrito.pdf Acesso em: 20 de maio de 2010

[5]  O que é desenvolvimento sustentável http://www.wwf.org.br/informacoes/questoes_ambientais/desenvolvimento_sustentavel/

[6] Revista espaço acadêmico – Nº 51 – Agosto 2005 – Ano V. Desenvolvimento sustentável; o desafio da presente geração. http://www.espacoacademico.com.br/051/51goncalves.htm

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