Tutoria



TUTORIA

Jader da Silva Alves

 

O conceito de educação médica se desenvolveu nos últimos séculos em paralelo à evolução da medicina. A formação clínica baseia-se na cuidadosa observação dos doentes e na abordagem dos problemas clínicos presentes nestes mesmos pacientes. Nas palavras do grande médico e educador William Osler (1849-1919), primeiro professor de clínica médica da Universidade John Hopkins em Baltimore em USA: No método de ensino que pode ser chamado de natural, o estudante começa com o paciente, continua com o paciente e termina seus estudos com o paciente, usando livros e aulas como ferramentas, como meios para um fim. O estudante começa, de facto, como um médico, como um observador de máquinas quebradas cuja estrutura e funções usuais lhes são perfeitamente familiares. Toda a arte da medicina está na observação, mas para educar os olhos para ver, o ouvido para ouvir e o dedo para sentir demora. Dai a eles bons métodos e um ponto de vista adequado e todos os demais conhecimentos serão acrescidos conforme sua experiência se acumule (Aequanimitas; The Hospital as a College).

O ensino da prática médica dos alunos, nos ambulatórios, é um grande desafio e uma tarefa extremamente proveitosa, pois seguramente o consultório é o melhor local para que o aluno aprenda a relação médico-paciente sob a tutela do professor que assiste a seus próprios doentes.

A prática de uma medicina baseada em evidências é um paradigma a ser progressivamente incorporado, na prática pedagógica, pelos professores e alunos para lhes permitir trabalharem de forma ordenada, crítica e reflexiva diante do enorme manancial de novas informações médicas que se acumulam mês a mês.

Uma das tendências que surgiram nos últimos anos é o ensino da medicina baseado em problemas. Através deste paradigma educacional, alunos desde o início de seu curso médico são expostos a problemas clínicos, e estimulados, sob supervisão de tutores, a buscarem as informações pertinentes na literatura. Além disto, o médico se defronta ainda com um importante papel social educativo, para o qual deve se preparar para lidar com a diversidade cultural da população a que ele assiste. Este preparo foge das disciplinas básicas e clínicas e se lança pelas humanísticas, que foram esquecidas nos últimos anos. O médico deve, em verdade, também se tornar um humanista, porque como disse Pelegrino: A Medicina é a mais humana das ciências, a mais empírica das artes e a mais científica das humanidades.

A discussão a respeito da necessidade de intervenções institucionais de suporte ao aluno de medicina inclui três elementos importantes.

O primeiro a natureza da tarefa médica: vida e morte como ofício, dor e sofrimento como contexto, cuidar e, nem sempre, conseguir curar como tarefa. Há uma tendência a transcender as possibilidades pessoais de administrar o trágico....

O segundo aspecto, há o processo de formação de momentos críticos, geradores de estresse. O confronto entre a escola idealizada e a real encontrada, os primeiros anos básicos distanciados da aplicação clínica, o contacto com a morte, a entrada no hospital, o primeiro paciente, o contacto com as diferentes áreas durante o internato e, ao final do curso, a escolha da especialidade (Millan et al., 1991).

Essa nova escolha - a ocupacional (o tipo de médico a ser), complementa e especifica a primeira (ser médico) .Exige conhecer as possibilidades oferecidas, seus próprios interesses, habilidades, personalidade e faz, sem dúvida, lembrar do contacto com os modelos profissionais e pessoais presentes durante a faculdade (Bellodi, 1999)

O terceiro ponto fundamental dessa discussão: o contexto relacional da escola médica. Tanto no cotidiano, quanto nas investigações formais em educação médica, as relações dentro das faculdades de medicina têm se caracterizado pelo anonimato, pela impessoalidade, pelo distanciamento entre professor-aluno e pela competição entre os colegas. A solidão acaba por ser a verdadeira companheira no enfrentamento dos problemas que permeiam a formação, sejam eles de ordem académico-profissionais ou pessoal (Woessner et al., 1998; Freeman, 2000)

TUTORIA - TUTOR - MENTOR

A figura de suporte para o caminhar profissional do aluno surge como Faculty Mentoring Programmes; Tutoring Systems, Personal Tutoring Systems e Student Counseling Systems (Freeman, 2000).

Etimologicamente, o termo Mentor é aquela pessoa que guia, ensina ou aconselha outra. Já a palavra Tutor refere-se ao indivíduo legalmente encarregado de ser seu protector e defensor. Tutorar ou tutelar tem então o sentido de exercer tutela sobre; cuidar de, proteger, amparar, defender.

Tutores ou Mentores são descritos especialmente em termos da sua disponibilidade para a aproximação com o aluno, de suas habilidades no contacto interpessoal em geral, de seu entusiasmo com a educação e da credibilidade de suas acções e atitudes pessoais e profissionais (Charnock, 1993).

Um acompanhamento holístico, como diz Freeman (1997) parece resumir a filosofia, a arte e a eficácia dessas experiências quando a abordagem do tutor ou mentor é para a pessoa do aluno como um todo.

O TUTOR actua em âmbitos:

Âmbito psicossocial: refere a relação que o TUTOR tem com cada aluno no plano individual, isto é a história do aluno.

Âmbito sociodinâmico: refere a relação entre o TUTOR e o grupo. Supõe o conhecimento das dinâmicas internas do grupo de aprendizagem de acordo com as trocas ao longo do ano.

Âmbito curricular-institucional: refere a identificação de prioridades pedagógicas, a dinâmica e o seguimento de processos de aprendizagem coordenados especificamente.

OBJECTIVOS :

- Proporcionar uma orientação educativa adequada aos estudantes.

- Prestar suporte aos professores na dinâmica da acção tutorial.

- Proporcionar aos professores informação e formação.

- Regular a planificação e a organização dos planos de acção tutorial.

- Intercambiar experiências de diferentes centros com a finalidade de reforçar a figura e as actuações dos tutores.

Há ainda diferenças de objectivos de acordo com o ciclo.

Proporcionar encontros quinzenais, para a discussão e orientação de questões académico-profissionais e pessoais (estabelecer um vínculo mais próximo e intenso entre professores e alunos) e uma maior integração do curso a ele oferecido através da troca de experiências entre o tutor e seus tutorandos, assim como entre os alunos dos diferentes anos entre si.

Acompanhar o desenvolvimento global dos alunos, incluindo seus conhecimentos, habilidades e atitudes, permitindo uma melhor identificação de problemas na formação e um encaminhamento mais imediato para a sua solução adequada.

Principais funções do tutor:

1. Ser o elo entre os demais docentes que tem a cargo o mesmo grupo de alunos.

2. Realizar um seguimento personalizado dos alunos (detectar conflitos, processos de fracasso escolar, etc.)

3. Assistir a vinculação do conhecimento aprendido com as habilidades e experiências individuais e grupais.

4. Assistir aos alunos na elaboração de seus projectos de vida.

Para Garcia Aretio (2001) existem três tipos de funções para o tutor:

a- função orientadora, mais centrada na área afetiva,

b- função acadêmica, mais relacionada ao aspecto cognoscitivo

c- função institucional, que diz respeito à própria formação acadêmica do tutor, ao relacionamento entre aluno e instituição e ao caráter burocrático deste processo.

EXPERIÊNCIAS EM TUTORIAS:

São também diversas as estratégias utilizadas para implantação dessas propostas. Há programas, como o descrito por Cottrell na Inglaterra (1994) onde os alunos se dividem em pequenos grupos homogéneos e outras experiências, como na Alemanha (Woessner et al, 1998), onde os grupos de alunos são maiores e de diferentes anos.

No método de Oxford e Cambridge, cada tutorando apresenta, em cada sessão, um texto de cinco páginas sobre um tema definido na sessão anterior. Após leitura segue-se a discussão (evita-se o desperdício de tempo). A escolha dos temas está a cargo do tutor, em colaboração com os seus tutorandos (sobretudo na área de especialização do tutor). Ocasionalmente o tutor pode enviar um dos tutorandos a outros tutores (para temas específicos).

A Universidade de São Paulo ( USP ) utiliza também Subprogramas Tutoriais:

a- Tutoria de Estudantes Ingressantes ( todos os alunos que ingressam no curso, através de Vestibular

b- Tutoria de Estudantes Ingressantes Transferidos (alunos que ingressam por transferência d outros cursos ou Universidades)

c- Tutoria Estudantes com Baixo Rendimento Académicos ( alunos que estejam cursando um número de disciplinas inferior a 50% das disciplinas da estrutura curricular ideal para a sua turma de ingresso)

d- Tutoria para Estudantes com Alto Rendimento Académico ( alunos escolhidos para o Programa Especial da Universidade )

CAPACIDADES FUNDAMENTAIS NA TUTORIA:

  • PENSAMENTO CRIATIVO
  • PENSAMENTO CRÍTICO
  • SOLUÇÃO DE PROBLEMAS
  • TOMADA DE DECISÕES

PERFIL DO TUTOR

O TUTOR, de forma consciente ou não, acaba por ocupar um lugar de referência para o aluno.

Sendo assim, algumas características tornam-se importantes:

  • ser médico - um médico com comportamento técnico, humano e ético adequados
  • Presente no processo educacional - alguém inserido na Licenciatura e conhecedor de suas características e impasses
  • Próximo e empático - alguém com bom relacionamento com os alunos, que goste desse contato e compreenda as dificuldades desse momento da formação.
  • Disponível - alguém com tempo não apenas para o encontro quinzenal com seus tutorados, mas também com possibilidade e facilidade para encontros individualizados quando necessário.
  • Disposto a participar de treinamento inicial e ser supervisionado em sua atuação - alguém que reconheces

 

Estas capacidades fundamentais na Tutoria apresentam-se diferentemente, segundo cada relação, conforme o quadro a seguir:

 

RELAÇÃO INTRAPESSOAL

 

RELAÇÃO INTERPESSOAL

 

RELAÇÃO SOCIAL

 

Identifica

 

Facilidades e debilidades, interesses e necessidades,

 

habilidades e potencialidades.

 

 

 

Reconhece

 

Emoções e sentimentos,

 

trocas biológicas, sociológicas e sociais.

 

Influência de estereótipos e prejuízos.

 

Limitações,

 

conquistas e méritos.

 

 

 

Interioriza

 

A necessidade de desenvolver sua auto-estima e a necessidade de ser autónomos

 

a necessidade de ser auto disciplinados

 

 

 

Identifica

 

interesses e necessidades entre os demais;

 

potencialidades e limitações dos demais.

 

sentimientos e emoções dos demais.

 

 

 

Expressa

 

pontos de vista,

 

desacordos e críticas;

 

aceitação e agrado.

 

 

 

Comprende

 

emoções dos demais

 

a perspectiva e os interesses que motivam ol comportamento dos demais

 

 

 

Propicia

 

negociação de interesses

 

a articulação dos distintos pontos de vista

 

uma tomada de decisões oportuna

 

a participação activa de seus companheiros

 

Analisa

 

situações pessoais e a sociedade

 

 

 

Reconhece

 

os estereotipos e prejuizos ligados a homens e mulheres

 

actitudes discriminatórias na aula, centro Educativo, e no contexto local e nacional.

 

causas e consequências da violência

 

 

 

Interioriza e assume

 

actitudes democráticas e a necessidade do exercício cidadania

 

necessidade de participação organizada na aula com projeção na sua comunidade

 

a necessidade de construir uma cultura de paz com equidade de gênero e bom trato e respeito aos Direitos Humanos

 

a necessidade de incorporar a prática de valores em sua vida cotidiana

 

a necessidade de cuidado e proteção do meio ambiente para um desenvolvimento sustentado.

 

MODALIDADES DE TUTORIAS:

TUTORIA PASSIVA atendimento às solicitações dos alunos. Orientação ao surgirem dúvidas. O aluno contacta o TUTOR.

TUTORIA ACTIVA - com o apoio da equipe técnica de gestão há a motivação.O aluno é estimulado e com isto acelera e simplifica o processo de aprendizagem.

A- TUTORIA PRESENCIAL

Efetivam no encontro direto do TUTOR com estudantes individuais ou com grupos, em atividade colaborativa.

- Tutoria individual: a acção se faz entre o tutor e o aluno.

- Tutoria de grupo: a acção se faz na relação entre o tutor o grupo de alunos.

- Tutoria da diversidade: supõe que o tutor leva em conta uma aprendizagem compreensiva.

- Tutoria de práticas em empresas: são tutorias para cada ramo de formação processional. Estas são responsáveis pelo controle e os seguimentos das práticas em regime de convénio.

- Co-tutoria: um segundo professor ajuda o tutor oficial, prática que pode ser necessária em determinadas circunstâncias.

B- TUTORIA Á DISTÂNCIA

Permite a abertura de novos canais de comunicação entre o aluno e os demais participantes (professores, tutores e outros alunos) do processo ensino/aprendizagem.

Podem ser utilizados: correio tradicional, correio electrónico, salas de conversação on-line da rede mundial de comunicação, teleconferências, videoconferências, e atendimento telefónico personalizado: telemóveis dos tutores ou efectivados em horários pré determinados nos centros de apoio. Marcação a distância gratuita, fax, comunicação por rádio, ou em fitas de vídeo ou cdrom e programas de multimédia.

A comunicação deve ser oportuna. Devem ter resposta o mais rápido possível. Deve adaptar-se às necessidades de cada aluno.

EFICÁCIA NA TUTORIA

Deve ser avaliada nas seguintes competências:

a- Condução do processos

b- Acompanhamento e desenvolvimento

c- Estabelecimento das relações baseadas na confiança

d- Prestação de ajuda prática

METODOLOGIA

Em Cambridge e Oxford cada tutor terá a seu cargo o máximo de 05 (cinco) tutorandos. Reuniões quinzenais, de preferência, com cada um deles ou com vários tutorandos simultaneamente.

O Programa de Capacitação de Tutores poderá ser feita em dois módulos:

a- O primeiro módulo consta de encontros com um total de 20 horas, realizados durante um fim de semana, utilizando-se uma metodologia de imersão. Durante os encontros são abordados os seguintes temas: Concepções do processo de Ensino/Aprendizagem; Teorias Curriculares; O processo tutorial e o papel do tutor; Módulos, temas, árvores temáticas e elaboração de problemas. Os temas deverão ser apresentados para estudo e discussão através das seguintes estratégias: vídeo, leitura compartilhada, apresentação de painel, apresentação oral, depoimentos.

b- O segundo módulo aconteceria com a organização de cursos extracurriculares, oferecidos aos alunos, e desenvolvidos utilizando-se a metodologia da aprendizagem baseada em problemas.

CONCLUSÃO:

A TUTORIA possibilita orientar, dirigir e supervisionar o processo ensino-aprendizagem. Ao estabelecer o contacto com o aluno, o tutor complementa sua tarefa docente, através de material didáctico, grupos de discussão, listas, correio electrónico, chats e outros mecanismos de comunicação.

Para o Tutor representa um enriquecimento pessoal inestimável, já que há o inerente exercício reflexivo que a tutoria obriga e também o contacto pessoal com os tutorandos.

Faz-se necessária uma mudança de pensamento na educação. Pois há uma conexão entre a metodologia do trabalho utilizada pelo professor e as necessidades dos alunos. Quando a actividade da aula é fechada e o professor é o único depositário do saber, será pouco provável a existência de umaTutoria. Ao contrário, quando a aprendizagem se organiza em torno do aluno e a sua capacidade de busca e investigação surge, então, a necessidade de um Tutor,que ajude a desenvolver todas as habilidades do processo ensino-aprendizagem.

Bibliografia 

KRICHESKY, MARCELO (1999), Orientación y tutoría en los sistemas educativos. Tradiciones y cambios en la gestión educativa, en: AA.VV. , Proyectos de orientación y tutoría. Enfoques y propuestas para el cambio en la escuela, Paidós, Buenos Aires, pp.49-63.

Ander-Egg, Ezequiel (1997 ), Diccionario de Pedagogia,Magisterio del Rio de La Prata, Buenos Aires

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1997.  (Coleção Leitura)

GARCIA ARETIO, L. La educación a distancia: de la teoría a la práctica. Barcelona, Ariel Educación, 2001

http://www.edscuola.it/archivio/riformeonline/unaltra_idea_di_tutor.htm

Jader da Silva Alves - Licenciado em Medicina pela Universidade do Rio de Janeiro ( UNI-RIO ) e com Reconhecimento pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Especialista em Oftalmologia pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia e Associação Médica Brasileira ( AMB ).Especialista em Medicina do Trabalho pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro ( UERJ ). Pos graduaçâo em Ensino Médico pela Universidade Católica Portuguesa. Doutorando em Educação pela Universidade Portucalense Infante Dom Henrique. jarsalves@gmail.com


Autor: Jader da Silva Alves


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