Receita Analfamédica



Reza a lenda que um médico, pesquisador da Unicamp, decidiu fazer um experimento para testar o profissionalismo dos atendentes de farmácia: pegou seu receituário em papel timbrado e entregou ao filho de 03 anos para que o menino fizesse alguns rabiscos. Dirigiu-se à farmácia mais próxima e, sem dizer uma única palavra, entregou o receituário rabiscado ao balconista.

O balconista olhou certo, olhou torto, olhou contra a luz e pediu licença. Cinco minutos depois, voltou com uma caixa de antibiótico, 2 antiinflamatórios, e disse apontando na receita:

- O senhor vai nos desculpar, mas não trabalhamos com este analgésico aqui ó...

Piadas à parte, e deixando de lado a ganância do balconista em faturar seu bonificado, a conclusão da pesquisa poderia ser que a má caligrafia dos médicos é quase um fato inexorável da natureza. O céu é azul, a água é molhada e a letra do meu médico... visshhmaria!, nem te conto!.

Depois de tantos anos de estudos, alguns médicos ainda não conseguiram alfabetizar sua letra e continuam emitindo prescrições Analfamédicas aqueles papéis contendo algo que deveria ser uma receita ou um laudo, mas guardam uma semelhança muito grande com rabiscos de crianças pré-escolares ou registros gráficos de uma crise convulsiva. É sério. Conheço colegas cuja caligrafia seria um desafio respeitável até para arqueólogos experientes, acredite.

Mas aqui vai a boa notícia do dia: você não precisa enfrentar nada disso. Não precisa e não deve! Quer um exemplo? Pois voltemos ao ano de 1995, nos Estados Unidos, um ano de pouca sorte para o texano Ramon Vasquez e talvez pior ainda para o seu cardiologista, Dr. Ramachandra Kolluru.

Aos 42 anos de idade, Ramon faleceu vitimado por um infarto cardíaco e a família imediatamente processou Dr. Kolluru. O motivo: devido à receita analfamédica do Dr. Kolluru, Ramon havia passado suas duas últimas semanas utilizando doses elevadas de Plendil (um remédio contra hipertensão arterial) quando, na verdade, deveria estar tomando Isordil (um medicamento que promove dilatação das artérias coronárias, diminuindo o risco de infarto cardíaco).

Em 1999, o veredito: Dr. Kolluru foi condenado a pagar uma indenização de US 225.000 à família do falecido. O farmacêutico responsável pela entrega equivocada do remédio foi multado em outros US225.000. E esta ação entrou para a história como a primeira condenação de um médico nos EUA por negligência devido à má caligrafia.

De acordo com o Federal Drug Administration (FDA), órgão dos Estados Unidos responsável pela fiscalização dos remédios naquele país, 1,3 milhão de americanos são prejudicados a cada ano em decorrência de erros tais como tomar doses incorretas ou fazer uso do medicamento errado. Um estudo publicado no renomado jornal médico The Lancet estimou que, nos últimos 20 anos, o número de mortes causadas por confusões na caligrafia aumentou 250%, ultrapassando 7.000 casos por ano.

Apesar de toda sua gravidade, este é um problema de fácil solução. Médicos de caligrafia ruim podem datilografar suas prescrições, utilizar um computador com impressora, comprar um daqueles cadernos com linhas azuis e fazer aulas de reforço no pré-primário ou, simplesmente, caprichar um pouco mais na qualidade da letra.

Vale lembrar que em 1988 o Conselho Federal de Medicina do Brasil oficializou a má caligrafia como antiética e um exemplo de má-prática médica que deve ser coibida a todo custo (Código de Ética Médica, resolução n° 1246/88, artigo 39).

Todo paciente tem o direito de receber uma receita legível. Se o seu médico mostra preocupação em ser compreendido, parabéns para ele. Se este não for o caso, e se ele se recusar a escrever de modo compreensível, lembre-o de que pode ser denunciado e até mesmo penalizado pelo Conselho Regional de Medicina do seu estado.

A partir de hoje, diga sim à sua saúde e NÃO à receita analfamédica.


 
Dr. Alessandro Loiola é médico, escritor, palestrante, autor de Vida e Saúde da Criança e Crianças em forma: saúde na balança (www.editoranatureza.com.br). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.
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Autor: Alessandro Loiola


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