O Fermento da Manipulação
"Tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua,
por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens,"
Apóstolo Paulo - Col. 02.08
"Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós
disfarçados em ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores."
Jesus Cristo – Mat. 07.15
O termo
"manipular" sugere a ação de manusear alguma coisa ou algum objeto.
Manipular gente é tratar pessoas como "coisas" ou
"objetos", com o propósito de dominá-las e explorá-las.
Manipular pessoas é o ato de levar alguém a tomar decisões
sem deixar transparecer que essa decisão irá beneficiar a outrem.
Manipular é induzir, é iludir as pessoas para levar vantagem
e obter lucro. É enganar. É ludibriar para tirar proveito da
"boa-fé", da inocênciae da ingenuidade do outro.
Manipular é
dominar.
Desde que os homens descobriram que o domínio sobre o seu
semelhante é fonte de poder e de prestígio, muitos deles sempre buscaram, por
qualquer via, colocar-se sobre os seus semelhantes.
A força sempre foi o principal instrumento de domínio. No
entanto, o progresso da civilização contribuiu para que surgissem outros
instrumentos.
A política desenvolveu a popularidade como instrumento de
poder. Quem é popular ou carismático, quem possui títulos, quem é inteligente,
ou quem está em evidência, normalmente tem poder e domina. O capitalismo
contribuiu para que surgisse o domínio através do poder financeiro. Quem tem
dinheiro também tem poder, e domina.
O manipulador busca o domínio sobre outros homens,
basicamente, para possibilitar a realização desses dois intentos egocêntricos e
individualistas, o "ser" e o "ter". Manipula-se o outro,
basicamente, para "ser", ou para "ter".
A busca desenfreada por fama, honras, títulos,
reconhecimento público e notoriedade é produzida pelo encantamento do querer
"ser". Ser reconhecido, ser popular e famoso é sinal de domínio,
prestígio e sucesso. Reconhecimento popular é poder.
A escada hierárquica das instituições religiosas favorece a
esse encantamento.
No entanto, a Bíblia deixa bem claro que, nem sempre,
reconhecimento popular é sinônimo de aprovação divina. As páginas bíblicas
revelam que sucesso neste mundo não está associado à aprovação do Senhor. Ao
contrário, em muitas ocasiões da história, vimos ministérios aprovados por
Deus, mas sem qualquer reconhecimento público.
Se pensarmos em ministério de sucesso segundo a ótica do
mundo, popularidade e fama, seríamos obrigados a considerar o ministério de
Cristo um completo fracasso.
O Padre Antônio Vieira nos ensina com uma perspicácia
singular que "pregar o pregador para ser afamado, isto é mundo; mas
infamado, e pregar o que convém, ainda que seja com descrédito de sua fama,
isso é ser pregador de Jesus Cristo."[1]
O outro intento humano que tem provocado manipulações
vergonhosas nos púlpitos evangélicos é a busca insensata por riquezas.É o
encantamento pelo "ter".
É um sentimento acirrado pelo sistema capitalista e pelo
consumismo exagerado que tomou conta da nossa sociedade.
Nesse ambiente, a pessoa vale pelo que possui, pelo que tem,
pelo que ostenta e pelo que aparenta.Ser rico é sinônimo de sucesso. Igreja de
sucesso é igreja rica. Homem de Deus é aquele que desfila em carro de luxo e
com roupas de griffe. Daí o surgimento de barbarismos doutrinários e
teológicos como a teologia da prosperidade.
A ganância pelo "ter" posses e bens neste mundo,
cada vez mais leva líderes cristãos a formas grotescas de manipulação para
induzir os crentes a contribuir para a igreja-instituição. Isto produz o
descrédito do que se prega nessas igrejas.
Para manipular é preciso modificar a realidade, falsificar
conceitos, "maquiar" mentiras e esconder verdades.
O manipulador, normalmente, não mente, mas desvia a verdade
para o lado que lhe interessa.
Ele não fala à nossa inteligência, e nem nos deixa utilizar
a nossa capacidade de raciocínio. Pelo contrário, ele não respeita a nossa
liberdade de decidir e nos arrasta, sorrateiramente, para pontos estratégicos,
levando-nos a crer na sua "verdade", levando-nos a sentir emoções que
nos desnorteiam e a tomar decisões que favorecem aos seus propósitos.
O manipulador religioso utiliza a Bíblia. Mas, normalmente,
ele torce o sentido de trechos bíblicos para o sentido que lhe convém. Outras
vezes, supervaloriza os versículos que dão suporte aos seus intentos e
"fecha os olhos" para outros.
A maior arma do manipulador religioso é o discurso emotivo,
que produz desequilíbrio emocional nos ouvintes. Esse tipo discurso, incisivo,
apelativo, raivoso, mexe com as emoções das pessoas, aflora sentimentos de
culpa, de piedade, de medo, de vergonha. O terror psicológico faz exacerbar
emoções e sentimentos que impedem o raciocínio lógico e destroem as barreiras
que o intelecto, em condições normais, colocaria para se opor ao discurso.
O manipulador que utiliza o apelo emotivo primeiramente
"afaga" as tendências naturais das pessoas, apresenta-se com as
mesmas idéias, as mesmas tendências ideológicas, elogia os ouvintes, se
"sensibiliza", chora, esbraveja, ri. Desperta sentimentos e emoções
com o objetivo cativar. Sentindo que o manipulador pensa como a si, sente
emoções como a si, o ouvinte acredita ter encontrado um amigo digno de total
confiança, e se abre a tudo o que ele prega.
Outras formas para se bloquear o senso crítico é falar de
forma rápida e eloqüente, citar chavões e criar comparações. Falando
rapidamente, o manipulador não dá tempo suficiente para o ouvinte processar a
informação, ponderar, raciocinar e buscar as idéias controversas do discurso.
Assim, o ouvinte acaba aceitando meias verdades como verdade.
Os chavões dão a impressão de verdades inquestionáveis. São
frases soltas e infundadas, slogans, popularmente tidos como
"verdades". O bombardeio diário de sentenças pré-fabricadas produzem
um efeito psicológico que levam as pessoas a interromperem o raciocínio lógico
e a aceitarem como "verdades" incontestáveis, aquilo que se diz por
chavões.
Uma mentira, ou uma meia verdade, repetida por milhares de
pessoas, ou por um poderoso meio de comunicação, ou sobre tribunas
eclesiásticas, transformam-se, com o passar dos anos, em dogmas incontestáveis.
É o que se chama de "lavagem cerebral". As defesas psíquicas vão,
pouco a pouco, sendo minadas, e, muitas mentiras, sorrateiramente empanadas nos
chavões, são aceitas como verdades indiscutíveis.
As comparações levam as pessoas a acreditarem que se
determinado fato, ou situação é assim deste lado, seguramente será do mesmo
jeito do outro lado. Um dia ouvi um pastor comparar os crentes com cavalos.
Para ele, aqueles crentes que não aceitam os rudimentos da instituição são como
cavalos bravos e saltadores, que não aceitam ser montados. E basta
"apertar os arreios" que ele sai escoiceando e saltando. Depois de
várias analogias irônicas e sarcásticas, o pastor levou quase todos os ouvintes
a aceitarem a idéia de que eles deveriam se deixar colocar as rédeas, os
arreios, se deixar serem montados e serem conduzidos sem resistência pelos
líderes da igreja. Quase todos aceitam esse tipo de comparação passivamente.
Poucos raciocinam sobre as diferenças: homens são racionais, inteligentes,
pensam, são iguais, livres. Por outro lado, não se vê um cavalo cavalgar outro.
Poucos percebem a intenção manipuladora de se "encabrestar" e
"amansar o potro xucro".
As idéias manipulativas são construídas sobre argumentos
falsos, mentirosos, tendenciosos e interesseiros, e principalmente, apelam aos
sentimentos, medos, fobias e fraquezas dos ouvintes. O pior é que poucas
pessoas percebem que estão diante de idéias manipulativas, ou que estão sendo
induzidas a fazer aquilo que o manipulador quer.
Observe a tentativa de manipulação que o diabo tentou fazer
com Jesus. Ele utilizou trechos da Palavra de Deus. O uso da Bíblia dá uma
sensação de segurança ao ouvinte. No entanto, o diabo usou o texto bíblico
desfocado do seu sentido verdadeiro e usou-o num contexto em que se contrariava
o propósito divino. Os manipuladores religiosos também utilizam a Palavra de
Deus, mas lhe dão o sentido que lhes favorece. E poucos crentes percebem a
astúcia.
O cristianismo sempre foi, e ainda é, um terreno
fertilíssimo para o desenvolvimento de manipuladores.Sempre surgiu entre os
cristãos, homens e instituições que, ao invés de liderarem mostrando exemplos
de amor ao próximo, desprendimento material e abnegação; procuram demonstrar
autoridade fundamentando-se na coação, na astúcia, na ameaça, e mais
recentemente, na capacidade de induzir e seduzir as massas.
A manipulação é o primeiro passo para a dominação. Dominação
conduz ao autoritarismo e à exploração moral e financeira. Não é por acaso que
a liderança autoritária sempre foi a maneira de governar mais facilmente
encontrada pelos líderes cristãos.
A manipulação religiosa que mais comumente se observa entre
os crentes se dá de quatro formas: por intimidação, por sedução, por provocação
e por tentação.
1º Manipulação por intimidação: Intimidar é obrigar,
é ameaçar através de promessas de castigo ou retaliação. É um procedimento
antigo das religiões distorcidas da doutrina cristã.
Enquanto a mensagem de Cristo é "servir por servir, e
não para ser servido", os líderes autoritários querem ser servidos e
idolatrados. E, utilizando de uma pseudo-supremacia sobre os demais crentes,
intimidam para alcançar a aquiescência desses.
A intimidação pode ser direta ou indireta.
A intimidação direta é aquela ameaça explícita: "Se
você não fizer do jeito que eu estou mandando..."
A intimidação indireta é aquela que não é dita clara e
explicitamente, mas é percebida nas entrelinhas dos discursos. É uma ameaça
velada, mas que pode ser percebida nos castigos e nas retaliações que se dá a
alguns para servir de exemplo aos outros. É como se indiretamente avisassem:
"Se fizer como ele..."
As ameaças de exclusão também são intimidações.
Os discursos realçando os terrores do inferno, o poder
destruidor do diabo, as maldições, o peso da mão de Deus, também carregam
fortes doses de intimidação psicológica.
2º Manipulação por sedução: Ocorre com muita
freqüência nas igrejas quando querem tirar algum proveito financeiro, oferta,
apoio, ou coisa assim, dos crentes. Bajulam os ouvintes com frases do tipo:
"Este povo é especial...", "o povo de Deus é isto ou
aquilo...", "você é um crente assim ou assado...", "esta
igreja mora em meu coração...", para depois apresentar os requerimentos.
É a mesma estratégia do fofoqueiro que enche você de elogios
antes de começar a "puxar a sua língua".
Toda a bajulação é uma forma de sedução com a finalidade de
se obter alguma vantagem.
3º Manipulação por provocação: É o tipo de manipulação
que o diabo usou para tentar enganar Jesus: "Se você é Filho de Deus,
ordene que estas pedras se transformem em pão".
Muitos pregadores vivem fazendo os mesmos desafios aos
crentes, e nós caímos direitinho: "Se você é crente em Jesus dá Glória a
Deus...., se você é fiel levanta a mão, vem aqui na frente ... se você é crente
fiel traga uma nota de cinqüenta... etc."
Outra faceta deste tipo de manipulação é dizer às pessoas
que a igreja está promovendo uma grande campanha e precisa de homens valorosos,
pessoas de fé, crentes verdadeiros para fazerem votos especiais de doação, etc.
É o mesmo recurso que o diabo utilizou.
4º Manipulação por tentação: O diabo usou também
deste tipo de manipulação ao abordar Jesus: "Te darei os reinos deste
mundo e toda a sua glória, se ..."
Este é o tipo de manipulação mais utilizado por aqueles que
querem tirar dinheiro dos crentes. Normalmente se diz: "Se você der cem
reais para a obra, Deus vai abrir a porta de um emprego...,""Se você
contribuir com tanto, Deus vai fazer isto pra você...."
Leia a Bíblia e observe qual foi a reação de Jesus quando
foi tentado desta forma.
Aparentemente é uma verdade: você contribui e Deus te
retribui. Só que não podemos esperar galardão neste mundo. Jesus rejeitou a
glória deste mundo. E mais, para Deus te abençoar, a contrapartida é muito
pequena, basta você crer e dizer sim ao Senhor.Se você não receber desta forma,
não existe outra.
Este tipo de manipulação, aliada à sedução, também ocorre
com relação aos títulos eclesiásticos. Normalmente seduz-se os cristãos
supervalorizando os títulos eclesiásticos, proclamando que é preciso
"subir no ministério".
Para finalizar, convém-nos traçar algumas linhas que
diferenciam a pregação genuína da palavra de Deus de uma manipulação interesseira.
Simples: a manipulação é aquele tipo de discurso em que a
pessoa busca satisfazer seus próprios interesses. A verdadeira pregação, ao
contrário, não objetiva glórias ou recompensa para o pregador. É um discurso
que procura o bem-estar, a cura, o conforto, a bem-aventurança espiritual do
ouvinte. A pregação genuína busca a salvação do outro sem pedir nada em troca.
O único a sair ganhando será aquele que crer. A verdadeira pregação não exige
nada em troca, antes dá liberalmente, busca o bem do próximo, a salvação do
próximo, a libertação e a vida eterna para aqueles que estão perdidos.
Na manipulação, o maior ganho é sempre do manipulador, que
visa à fama, à popularidade, à glória humana e às riquezas deste mundo. No
discurso manipulativo há uma falsa troca, você dá, não a Deus, mas ao
manipulador, para Deus te dar. Ou seja, o manipulador recebe "à
vista", e você receberá, dependendo do "crédito" que tiver com
Deus.
Espelhemo-nos no comportamento do apóstolo Paulo:"Pois,
nunca usamos de palavras lisonjeiras, como sabeis, nem agimos com intuitos
gananciosos. Deus é testemunha, nem buscamos glória de homens, quer de vós,
quer de outros."I Tess. 02. 05 e 06
"O Fermento da Manipulação" é fragmento de um texto
maior denominado O FERMENTO DOS FARISEUS. Caso tenha interesse em conhecer esse
trabalho, basta enviar um pedido parajopejunior@yahoo.com.br e terei o maior
prazer de enviá-lo, gratuitamente.
[1] VIEIRA, Pe. Antônio, Sermão da Sexagésima, Moderna
Enciclopédia de Pesquisar, Consultar e Aprender, Vol. 10, Novo Brasil Editora,
1982
Autor: José Peres Júnior